segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Grande Chantagem




Pouco depois de ter feito sua primeira obra-prima, A Morte num Beijo, Robert Aldrich lança um novo filme intitulado A Grande Chantagem. De seu antecessor, ele se utiliza de um estilo quase que noir, fugindo do faroeste dos seus primeiros filmes. Porém, esse estio noir fica escondido sob uma estética totalmente teatral, que acaba dominando toda a obra. Suas duas horas de projeção passam-se quase que inteiramente dentro da sala de estar da mansão de seu protagonista, com todos os personagens desfilando por aquele ambiente. Uma gama complexa de figuras, trabalhadas uma a uma e dessa mesma forma apresentadas, coisa que já começava a se mostrar recorrente dentre as obras do diretor.

Charles Castle é um ator de hollywood de extremo sucesso, mas que dá mais valor aos sus filmes como negócio do que como arte. Porém, está imerso em uma crise conjugal por conta de sua esposa, idealista, discordar de seu posicionamento em relação ao estúdio. Ele também, por sua vez, deseja poder recomeçar sua carreira com filmes menos comerciais e mais artísticos. Para tanto, contra a vontade de seu agente, ele decide não renovar o contrato. Porém, o produtor do estúdio não fica lá muito feliz com tal atitude e jura fazer de tudo para que o contrato seja assinado, mesmo que para tanto seja necessário chantagear seu astro por conta de um acidente de carro que o mesmo provocara. Junte à isso diversos outros personagens como o melhor amigo de Charles, que pede a esposa desse em casamento; o segurança/agente/capanga do produtor, o empregado, e a amante de Charles que estava com ele no dia do acidente que está armado o palco para que Aldrich conduza seu show de horrores.

Como todo filme sobre o cinema, há aqui a clássica metalinguagem, quase que obrigatória nesse contexto, criticando e satirizando a hipocrisia da indústria cinematográfica. Mas o brilho mesmo fica por conta de seu elenco invejável, que conta com nomes tais quais Jack Palance, Ida Lupino, Jean Hagen, Rod Steiger e Shelley Winters, com atuações ressaltadas por conta do estilo teatral do filme. Porém, essa teatralidade toda acaba tendo um ponto negativo, ao fazer o filme tomar um ar de novela. Um problema, mas que não atrapalha muito a qualidade do filme.

Mas o mais interessante mesmo fica por conta da figura de Charles Castle, interpretado por Jack Palance. Ídolo de multidões, astro multimilionário, alguém que, visto de fora, parece intocável do alto de seu castelo (por isso seu sobrenome, Castle). Porém, à medida que o filme avança e vamos nos embrenhando por esse castelo, começamos a perceber que embora mantenha uma fachada majestosa, por dentro ele está em ruínas e ameaça desabar a qualquer momento. A vida de Charles que aparenta ser perfeita, é na realidade um completo caos, aonde ele tenta reaver o amor de sua esposa ao mesmo tempo que tenta esconder sua amante, se vê traído por seu melhor amigo que pede sua esposa em casamento, mergulha em uma crise existencial ao ver seu talento subjugado em papéis ao ver dele indignos além de ser sua liberdade ser tragada aos poucos por seu trabalho. Sobre isso, A Grande Chantagem acaba sendo, acima de tudo, um trabalho de desconstrução de personagem, demonstrando que por trás da aparencia inabalável de nossos ídolos, há um ser humano repleto de problemas.

Tal como em A Morte num Beijo, em A Grande Chantagem Aldrich guarda o melhor para o final, criando uma reviravolta completa nos últimos 15 minutos que acabam por guiar seu filme até a conclusão. Tal utilização do final surpresa viria a se tornar algo recorrente em sua carreira. Em A Grande Chantagem, Robert Aldrich está apenas no seu terceiro ano como diretor, mas já faz seu quinto filme, marcando uma carreira sólida e prolífica. Um diretor a essa altura já firme em seu posto.

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