domingo, 28 de dezembro de 2014

Roxanne (1987)




Adaptação moderna de Cyrano de Bergerac de Edmond Rostand, o filme conta a história de C. D. Bates, um intrépido e espirituoso bombeiro, que chefia uma companhia em uma pequena cidade no estado de Washington. Ele toma como protegido Chris, um jovem homem atraente, que não consegue, no entanto alinhar em um diálogo duas frases com sentido. Ambos caem amorosos pela bela Roxane Kowalski, uma física apaixonada por astronomia, mas complexado devido a seu enorme nariz C. D. fica nas sombras e coloca na boca de Chris as palavras certas que irão balançar o coração da jovem mulher”



Sempre gostei de Steve Martin. No entanto ele não teve a sorte de possuir em sua carreira roteiros que lhe permitissem desenvolver plenamente todo o seu talento cômico. A sua parceria com Carl Reiner serviu em minha opinião, apenas para reforçar o potencial, que, no entanto continuava desperdiçado em filmes que prometiam mais do que ofereceram. Não há como negar o virtuosismo técnico de um “Cliente Morto Não Paga”, mas até nesse o resultado fica aquém do esperado. Felizmente Roxanne é um filme que difere dos demais, e se não atinge o sublime, ao menos é de uma sobriedade e inteligência que cativa. Filmado em três meses no ano de 1986 numa pequena cidade em Vancouver (Nelson) dedicada aos esportes de inverno estreou somente em 1987 e a meu ver foi o começo de uma guinada positiva no tocante as obras que Martin estrelaria depois dois bons filmes(“O Tiro Que Não Saiu Pela Culatra” e “Os Safados”).


O filme desagradará aqueles que apreciam apenas a ligeireza das comédias atuais. É uma comédia romântica, onde Martin comporá um personagem, que lhe permite de sutilezas no tocante a busca do humor. A cena onde em um bar ele desfila um repertório de piadas sobre narizes é no mínimo genial. Mas existe também aquele humor pastelão que fica em segundo plano e devido a esse distanciamente nos remete de maneira amena aos primórdios da comédia americana. Através da janela do escritório vemos a confusão se instalar entre os outros bombeiros, sem que seu comandante se dê conta do que ocorre.



O filme funciona também devido à proximidade com aquele sentimentalismo que Chaplin tão bem soube colocar em seus longas primeiros. Não existe aquela compaixão de quem escreve ou dirige em relação ao protagonista. Ela nasce no seio de quem assiste.



Roxanne é um daqueles filmes difíceis de descrever. Parece não passar mensagem nenhuma, mas só por trazer à ribalta a lembrança de uma obra que marcou época, transpondo a sua ação dentro de uma releitura moderna aos nossos tempos, dentro de uma naturalidade e bom humor inesperados certamente deixará uma marca positiva na lembrança de muitos. Foi o que se deu comigo. Quem sabe possa funcionar com mais alguém.


Escrito por Conde Fouá Anderaos

A Hora do Rango (2005)

Curiosa produção que passou despercebida por aqui. Dirigida e escrita por Rob McKittrick que soube construir um mise em scène que surpreende e capta a atenção. Era inicialmente um projeto de parcos US$ 30.000,00 (o diretor/roteirista era um garçom que sonhava transpor o mundo que conhecia para as telas). Caiu nas graças de um produtor que resolveu encorpar o projeto com verbas e um elenco que se não causa suspiros de emoção, ao menos é conhecido: Justin Long (“Olhos famintos”, “Alvin e os esquilos”), Anna Farris (“Encontros e Desencontros”, “O Segredo de Brokeback Mountain”), Luz Gusmán (Escola de Idiotas), Ryan Reynolds (“X-Men Origens: Wolverine”), entre outros.
Não existe uma história propriamente dita, em suma: Dean após saber pela mãe que um antigo colega de escola se deu bem na vida, entra em crise e planeja deixar de ser garçom. Isso serve de pretexto para assistirmos a uma série de gags e situações que beiram o humor negro. È um filme para jovens, mas não deve agradar a todos, já que passeia sem pudor pelo licencioso e escatológico. Vemos no filme metralhadas de diálogos que beiram a pura besteira se retirados do contexto de um restaurante e um frescor e uma espontaneidade que “American Pie” jamais conseguiu resvalar ao menos. É um mergulho nas entranhas de um restaurante americano, onde os personagens se dedicam ao exibicionismo viril, o despertar de desejos inaceitáveis (sobre uma adolescente de 17 anos), e o descarregar suas raivas e frustrações sobre os pratos dos clientes difíceis de lidar.
As figuras que desfilam na tela espantam, mas são críveis – prova de que o diretor conhecia o que retratava: uma garçonete neurastênica sempre a beira de um colapso; um cozinheiro negro apelidado de "o reverendo" (Chi McBride em ótima performance) sempre pronto a compreender o caos em que vive, dando de conselhos descolados para todos (achei-o o destaque da história – já que ele serve de contraponto); uma barman lésbica que consola e canta as mulheres desiludidas; um gerente que joga sobre os empregados a sua frustração, julgando-se como tendo autoridade; um garçom inseguro que não consegue nem controlar sua urina; um outro que se julga o máximo em termos de sexo, mas que é criticado pelas que já usufruíram de seus braços, ... Isso é apenas uma pequena amostra. O quadro de personalidades é longo e sempre muito bem construído.

Concordo com a colocação do Pedro Soares em seu comentário: “Se no final, deixar os preconceitos de lado, vai acabar curtindo o filme.” O filme exige essa premissa devido ao tom chulo de algumas situações e diálogos (que fazem parte do ambiente).

Digo, porém, que você jamais adentrará a um restaurante como dantes. Se o fizer, redobrará a doçura na voz ao se dirigir ao garçom

Escrito em 23/05/2009

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Causa e Efeito (2014) - Crítica


"Um longo comercial sem qualquer atributo cinematográfico significativo. "

Dirigido por um dos diretores do sofrível “O Filme dos Espíritos” (2011) essa produção estreou sem um maior alarde.  Contudo merecia uma melhor sorte que o antecessor. Trata-se de um grande filme? Não, mas ao menos nos levanta um questionamento positivo: André Marouço aprendeu muito nesses 3 anos ou foi a direção dividida com Michel Dubret que criou aquela obra lamentável. A começar por (isso culpa de Marouço) nos informar que o roteiro antigo tinha algo de Kardec (creditado o Livro dos Espíritos como influenciador do que iríamos ver na tela). Um aviso importante para quem ainda não viu o filme. Não se trata de um filme espírita. Ainda que Marouço diga que se inspirou no Capítulo V do Evangelho Segundo o Espiritismo Talvez o mesmo acredite que se trata de Espiritismo o que ele apreendeu dessa leitura e estudo que fez. Esqueçam. Ou pelo menos aprendam que não é. É um filme Roustangüista em sua essência. De cabo a rabo. E assim a tela ganhará uma história eivada pelo ideia de pecado (ou carma – não no sentido oriental, mas no popularesco). É o velho testamento e suas ultrapassadas lições de julgamento parcial: Olho por olho (opto pela curial citação de Gandhi: Olho por olho e a humanidade acabará cega).
“O filme nos conta a história do ex-policial Paulo que após perder a família depois de um trágico acidente envolvendo um motorista alcoolizado (Gerson) se revolta e passa a viver como um justiceiro (ou assassino de aluguel). Cooptado por um Deputado Federal (Gustavo) que lhe promete vingança contra Gerson ele lhe faz vários serviços. Até que ele lhe pede que mate Madalena, uma prostituta que lhe causaria problemas. Ao perceber que o deputado estava lhe mentindo e sensibilizado pela história da moça ele se revolta e a leva para um lugar seguro. Nesse locus amenus eles recebem a ajuda de uns líderes religiosos e acabam descobrindo que se gostam. Mas logo algo quebrará essa aparente tranquilidade.” 
 
Não posso me queixar do roteiro. Dentro da proposta roustangüista ele está perfeito. Bem amarrado. O elenco ajuda. Já a direção e a parte técnica ficam a dever. Se os atores estão convincentes, o que vemos na tela, ganha ares de amadorismo em várias cenas. Parece aquele teatro do ensino médio bem realizado, mais ainda amador. A impressão que se tem é que foram atrás de belos locais, mas não injetaram na feitura dos enquadramentos uma maior preocupação artística. Trata-se de ficção, não de documentário. Os atores se entregam bem aos papéis, mas não encontram na parte técnica o arcabouço necessário para que os seus esforços sejam recompensados. Se Marouço se mostra um competente diretor de atores, falta-lhe um maior amadurecimento nos outros quesitos: fotografia, edição, etc. Podemos creditar tal a falta de uma melhor estrutura financeira. Mas somos informados que as locações se deram em várias cidades. Não teria sido preferível ter economizado nesse quesito e investido em outros?
Apesar desses “entretantos” o filme agrada. Está melhor estruturado quea grande maioria dos ditos filmes da Globo Filmes e vários outros vindos de outras plagas e que fazem sucesso imerecido por aqui. Méritos a equipe que ao menos provou que acreditava no que estava realizando. Uma das virtudes é justamente uma maior velocidade imprimida ao mise em scène. Não se tem tantas reflexões desnecessárias e tantos momentos mortos (ou seria desencarnados?) como na obra anterior. E sinceramente, ainda que não crível, a união de um pastor, um padre e um dirigente espírita em prol de uma comunidade é algo desejável e uma lição a ser aprendida. Trata-se de uma quimera, daquelas que poderiam se tornar realidade. Algo que só a anulação do fanatismo pode realizar.

“Causa e Efeito” pode não causar grandes suspiros de satisfação em quem se dignar a assistir. Mas o esforço da produção é louvável. E a história ao menos é coerente. E a evolução apresentada entre esse filme de Marouço e o seu antecessor é gratificante. O que por si só vale uma espiada.  Espero que consiga  realizar outras obras. Fico no aguardo de sua próxima investida. É isso.


Escrito por Conde Fouá Anderaos 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Lucy (2014)


Luc Besson é um cineasta de origem francesa. Um europeu. Nada melhor do que remontar as origens em dizendo uma verdade para se construir uma mentira. Besson desde quando despontou nos idos da década de 90 fez com que a cada lançamento de uma obra sua, se criasse um clima de pequeno evento. O que iria aprontar esse diretor que buscava trilhar uma caminho inusitado: Criar blockbusters que caíssem no gosto dos que apreciam o que é produzido pela indústria americana, sem perder a sua identidade europeia (?). Logicamente que isso já torcia o nariz de grande parte da crítica especializada, mas trazia a seu favor a indulgência do público. E criou-se assim uma aura de artista incompreendido, entre os jovens cinéfilos.

Aqui temos um exemplo do que melhor pode-se esperar de Besson. Um roteiro (partindo da premissa proposta pelo mesmo) produzido por uma parte infinitesimal de seu cérebro. Ou seja, crasso de erros, dotados de uma velocidade alucinante que os encobre e um resultado por incrível que pareça surpreendente. Diverte e ao final da projeção saímos satisfeitos. O que por si só é um assombro. Em se tratando de Besson é claro.

A crítica que busca destruir o filme parte de uma premissa que nada mais é que um sofisma. O autor estruturou seu filme sobre uma lenda urbana. Aquela que diz que nós utilizamos 10% de nossa capacidade cerebral. Algo que o mundo científico jamais ratificou. Aqui isso pouco importa. Não se quis realizar um documentário, nem um falso documentário. A obra flerta com a ficção científica. E se nós levássemos essa crítica ao filme a sério seria preciso mencionar o maior absurdo sobre a qual se alicerça o filme. Somos o cérebro ou aquilo que manuseia o cérebro? No filme o que vemos é apenas a feitura de reações químicas fortuitas. Seria a matéria que comandaria tudo. Talvez em realidade não usamos a capacidade total possibilitada pelo cérebro, justamente por não o sabermos utilizá-lo.  Seriamos como um habitante do início do século passado, diante pela primeira vez de um computador portátil com o Windows 7 ou 8.  Ou seja, temos o equipamento, mas não fazemos uso por total impossibilidade nossa. Não do cérebro.  Einstein usava só 10% do cérebro ou fazia uso de mais?


Mas não nos prendamos nesse detalhe e pensemos isso como uma metáfora. Afinal essa porcentagem nada mais seria que isso. O mito serve apenas para se desenvolver uma idéia: De se criar um divertimento, um filme de entretenimento, com algumas passagens interessantes.

O cérebro é visto no filme como um músculo que deveria ser melhor estimulado (nisso eu concordo). No entanto isso se dá de forma a crermos que isso pode ocorrer de forma fortuita e o indivíduo não teria parte ativa nisso (reações químicas – nisso discordo). O filme se arvora num pressuposto filosófico errôneo defendido por muitos e tomado como verdade. Temos de ver a obra como nos oferecendo uma realidade alternativa (ficção, não verdade). No filme Lucy nos informa que as células formam uma rede de comunicação que a seu turno forma a matéria. E que deveríamos tomar como a única unidade real o tempo, já que ele prova a existência do que vemos (Se algo ocorrer numa velocidade tamanha, não perceberíamos nada, portanto isso não poderia existir, pois não se materializaria diante de nossos aparelhos preceptores – os sentidos).


No filme, Lucy explica que as células formam uma rede de comunicação que - por sua vez - como matéria. Ele também quebrou nossa codificação de afirmar real de que os seres humanos têm projetado tudo na unidade, a 1, então a única unidade real deve ser de tempo, o que prova a existência da matéria (mais carro passa rápido, vê-se menos). No entanto devido a inusitada experiência esse limite para ela não existiria. Ela à medida que se transforma não está mais presa no espaço-tempo. Então ela própria se apercebe de que o tempo em si é uma ilusão. Ela passa a ter consciência da existência de que estamos mergulhados em várias ondas. Seus sentidos são ampliados (ou destruídos?).

O que vemos na tela no entanto é uma mistura de Thriller, Ficção científica e filme de ação. De uma forma tão vertiginosa e fazendo uso de efeitos especiais não exagerados. E Besson coloca em seu time um elenco internacional de muito agrado a aqueles que prezam a sétima arte, todos em papéis principais: Min-sik Choi o ator predileto de Chan-Wook Park, Morgan Freeman e Scarlett Johansson. Todos funcionais e convincentes dentro dessa viagem alucinante. Apesar de alguns problemas sérios de roteiro, temos grandes achados: um exemplo é o encontro da heroína com Lucy, a primata, relembrando a todos nós a longa caminhada da raça humana até os tempos de hoje. Momento terno e feliz de uma obra que diverte e nos remete a questionar nosso lugar dentro do Universo. Somos o cérebro ou fazemos uso dele?. Um acidente químico, ou algo que a ciência oficial teima em não admitir?


Seja qual for a tua resposta, tenho certeza de que apreciará esse filme vertiginoso que não ofende a nossa capacidade de pensar. Quer apenas nos divertir.

Escrito por Conde Fouá Anderaos


Turistas (2006)




“Após um acidente de ônibus em pleno coração do Brasil, Alex, sua irmã e uma amiga dela, além de vários outros estrangeiros aguardam a chegada de um ônibus substituto. Para minimizar o enfado do aguardo, eles seguem a dica de um transeunte que lhes informa da existência de um local onde podem beber e comer. Seguindo a indicação eles acabam em uma praia paradisíaca , onde encontram um outro casal de estrangeiros em um agradável quiosque. Lá eles se entregam ao prazeres de Baco e da dança. No dia seguinte o casal de estrangeiros some. Dão-se conta que também seus pertences. Ao buscarem ajuda, encontram alguém que os conduz para um centro de um furacão ...”

Antes de se comentar o filme levado às telas algumas considerações. Em primeiro lugar falemos um pouco de seu diretor. Ele trabalhou como ator em Christine – O carro assassino (Dennis Guilder), Nixon(Staffer 1) e Top Gun – Ases indomáveis(Cougar). Como diretor fez “A onda dos sonhos”, “Mergulho radical” e “Gostosa Loucura”. Note-se que dos filmes que dirigiu existe uma certa ligação com os cenários a beira mar.

Em segundo lugar o filme nasceu entre uma parceria de dois pequenos estúdios: o “2929” e o “Stone Village”. Serão socorridos depois com a ajuda financeira e de distribuição da “Fox Atomic”(uma filial da Twentieth Century Fox criada com o intuito de produzir filmes destinados aqueles que são amantes de sensações fortes, nem sempre rebuscadas).

O que assistiremos na tela, como já se pode prever, não primará por ser uma produção bem costurada. O filme sofreu certas dificuldades para ser concluído. O diretor e a sua equipe não tinham certeza se iriam concluir a obra iniciada.

Um dos primeiros personagens que nos é apresentado é o vilão. Sabemos que se trata de um louco. Contudo como em toda as últimas produções do gênero, o louco é nativo do lugar. É um ser que traz em seu bojo, no entanto, o discurso e a prática oriundo de outras plagas (assemelha-se a um cientista tardio de um campo de concentração alemão). Ele arranca os órgãos de suas vítimas para doá-los a um hospital popular do Rio de Janeiro. Ele se vinga dos estrangeiros que vem saquear o Brasil desde o seu descobrimento (ele cita mais precisamente o tráfico de crianças, de mulheres e de órgãos). O médico além de louco é sádico, já que tal pilhagem é realizada com o paciente despertado.


As suas vítimas são preconceituosas. O discurso dos que desfilam na tela é de que aqui é o lugar do pode tudo: “Não existe pecado no lado de baixo do Equador”. Os jovens turistas estão a procura de sexo, drogas e bebidas. Nenhum compromisso que não seja o do hedonismo os anima.

Apesar do tema indigesto o filme não soa arrastado. Isso se deve ao acerto da mistura entre atores estrangeiros e nativos (não que existam grandes performances) que cria a sensação de veracidade necessária. A vulnerabilidade desses turistas se acentua diante da incompreensão da língua, da grandiosidade da Natureza que parece tudo esconder em suas entranhas e uma doentia sensação de que os habitantes se sentem poderosos com a demonstração de fragilidade e da não adaptação dos turistas ao nosso meio. Tal ambientação, consciente ou não acaba por fazer com que o filme marche, sem se tornar cansativo, apesar do sentimento de “déjà vu” que impera em toda tomada. 



A primeira parte serve para que o público alvo (os jovens) se identifique com a aventura e com o que desfila na terra (corpos jovens em minúsculos biquínis e, paisagens belíssimas) pronto para ser vivido e sentido. A partir de sua segunda metade o horror se instala. Aqui um dos erros maiores: o vilão é desnudado sem o requinte necessário, sem suspense e surpresas. Apesar disso ele ainda choca. Afinal, o discurso para os estrangeiros soa lógico demais: São eles que se beneficiam com o silêncio do tráfico humano para esses fins. Creio que o filme deve ter recebido criticas benfazejas na Europa devido ao tema que perturba e choca. Sobretudo por sabermos que tal existe e as autoridades fingem não ver.

Um filme como “Turistas” acabara marcando uma época não pelas qualidades, mas por abordar um tema indigesto, ainda que de uma maneira superficial. Deve ter funcionado melhor para o público americano e europeu, pois apesar do discurso político de seu vilão, o que faz com que de fato o filme seja agradável para eles é o fato deles serem as vítimas aqui, ao contrário da realidade. E também por difundir que o bom selvagem (na visão deles) pode ser um lobo disfarçado em cordeiro (Kiko) pronto para se aproveitar do turista incauto.

Em suma um filme cheio de furos, com interpretações sofríveis e que promete mais do que cumpre. Em mãos mais competentes poderia até ter ido mais longe. Mas devido ao tema que perturba e aos cenários magníficos deixa-se ver.


Escrito em 10/05/2006

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A Onda (2008)


De certa forma já vivi alguns momentos em que a premissa desse filme se tornou clara diante de meus olhos. Fiz duas faculdades. Ambas na FFLCH da USP: Letras e História. Entre a conclusão delas um hiato de 12 anos. Quando cursava a segunda vi um certo Partido Nanico de esquerda contagiar toda uma leva de alunos. E vi alguns desses alunos (inclusive amigos) se tornarem fanáticos e incapazes de terem um viés críticos. Não diferi o resultado daqueles de quem adentrou nas hostes da TFP ou de alguma Igreja Pentecostal qualquer. O pior é que quando seus representantes pediram espaço para falar em sala de aula, achei tudo aquilo muito cômico e acreditei estar diante de um espetáculo de humor involuntário. Até falei para um outro colega que o cara parecia o Duce. Ri muito.  Quando as urnas da votação dos representantes dos alunos foram auferidas tive um choque. Aqueles seres de olhos vítreos, robotizados, angariaram a simpatia de cerca de 40% dos votantes. Quis entender como um discurso tão oco e rasteiro fazia a cabeça de meus colegas de curso. A resposta é simples. O discurso e a proposta são simples, dizem o óbvio, criticam tudo sem nada apresentar de realmente viável para alterar a realidade. Não basta ter uma proposta inteligente, tudo tem de parecer fácil. E nesse sentido eles faziam a cabeça de todos. Tive de conviver com eles durante mais de três anos. Por ser mais maduro que os demais, não miravam a atenção em minha pessoa. Devem ter sido doutrinados para investir em carne nova. E é o que faziam as vezes de forma intimidatória. O ápice foi quando numa greve esse líder partiu fisicamente para agredir um professor de quase 70 anos que queria ingressar na faculdade para pegar livros em sua sala particular. O pior só não se deu por que alguns o contiveram. Agora outros foram agredidos, pegos em tocaias covardes. E essa turma  sempre desmentia perante a multidão o que fazia as escusas...


Baseado em um romance escrito por Todd Strasser o filme conta a história de um professor de Educação Física encarregado durante uma semana de ministrar um curso sobre autocracia na semana cívica. Um outro professor mais idoso e menos carismático ministra um curso sobre anarquia. Lógico que o tema é mais aceito, mas a figura imponente de quem ministra atrai mais adeptos.




Quando um aluno lhe diz, logo na primeira aula, que na Alemanha de hoje, vacinada com o peso da história e da culpa, uma ditatura jamais poderia ganhar espaço. Isso chama sua atenção e ele passa então a elencar os elementos necessários para que uma ditadura possa existir: Desemprego, Inflação, injustiça social, necessidade de união, de identificação e de proteção. A medida em que a receita é criada, Rainer Wenger (o professor) a manipula: É preciso um líder? Ele o será. Uma doutrina? A obediência cega e a disciplina. Um uniforme? Uma camisa branca. Um nome? A onda. Um símbolo? Uma onda espalhada por toda a cidade. Uma saudação? Uma onda feita com a mão direita. 

Em alguns dias, sem que os alunos percebam, quase todos são arrebatados por tais idéias e começam a materializar tudo aquilo que o passado mostrou ser absurdo. Formam uma gang e passam a perseguir as outras. Quem não quer participar do movimento é escluído e estigmatizado. Quando a Onda se transforma em um tsumani o professor tenta despertar a consciência e interromper o movimento. Não será tarde? Ainda que possível, haverá seqüelas?


Um tema atualizadíssimo em um filme honesto e bem resolvido. Vale a pena conhecer. O inimigo espera um cochilo para se tornar presente.


Escrito por Conde Fouá Anderaos

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Era Uma Vez No Oeste (1968)


Lento como o deserto, Era Uma Vez no Oeste (C'era una Volta il West, 1968) é o espelho de seu cenário. Sendo uma história de ganância, amor, mentiras e muitos tiros, ingredientes recorrentes nos filmes de Sergio Leone, essa talvez conte com o maior primor técnico do diretor. O gênero, western spaghetti, mais do que conhecido pelo italiano já havia sido moldado por ele com a trilogia dos dólares, estrelada pelo então galã Clint Eastwood. Em Era Uma Vez No Oeste, porém, Leone consegue atingir um nível de precisão técnica e domínio de câmera ainda maior do que nos filmes anteriores.

Se Três Homens em Conflito (Il Buono, il brutto, il cativo, 1966) termina com um duelo triplo de inquietar o mais frio dos espectadores, Era Uma Vez no Oeste já começa com uma cena a altura. Aliás, essa cena já dá o tom do resto do filme. Vagarosa e sem pressa nenhuma, com closes de três personagens que esperam um trem numa estação. O calor exala pela tela com diferentes planos em detalhe de um suando ao sol, outro parado embaixo de uma goteira e o terceiro brigando com uma mosca que insiste em lhe perturbar a soneca. Ao longo de vários minutos os personagens esperam a chegada do trem, mas em nenhum momento o espectador se sente entediado com o que vê. É impossível que isso aconteça, pois Leone sempre mostra uma visão diferente da mesma cena.
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O trem chega, um indivíduo descarrega algumas malas e mais nada. Os três homens que esperavam já se preparam para ir embora quando o sinal do protagonista toca pela primeira vez. Aquela gaita tão famosa que irá soar por diversas vezes durante o filme, sempre anunciando a estrela principal, “o homem que não fala, mas toca”. Charles Bronson dá vida ao protagonista sem nome, e de bom humor estrela o primeiro diálogo propriamente dito do filme, passando dos 15 minutos já. Um diálogo afiado e bem humorado, como não poderia deixar de ser, é mais uma marca de Sergio Leone.

Charles Bronson tem aqui um papel difícil. Com pouquíssimas falas, o ator preenche a tela com seu rosto e sua expressão cansada do calor do deserto. Um rosto marcado pelo tempo e pela amargura, é fácil desconfiar dos motivos pelos quais ele está ali, mas saberemos sobre eles com certeza apenas nos minutos finais da obra. Não obstante, toda ação do filme é assim, envolta em mistérios e com meias explicações que surgem para serem totalmente descobertas lá para frente da estória. O espectador que vai até o filme sem ler a sinopse pode se sentir perdido em sua primeira hora de película, porém isso faz parte da situação. A desconfiança é mútua e não se sabe ao certo quem é mocinho e quem é vilão, quem é experto e quem é inocente.


Qual seria a sinopse básica de Era Uma Vez no Oeste então? Difícil falar sem dar spoilers. Basicamente Harmonica (apelido dado a Charles Bronson por outro personagem, porque ele vive tocando sua gaita de boca) está na cidade em busca de Frank (Henry Fonda). Este assassinou toda a família McBain e encobriu o crime com pistas falsas, a fim de incriminar de Cheyenne (Jason Robards). Já Jill (Claudia Cardinale) é a noiva do falecido Brett McBain (Frank Wolff) que chega a cidade e se depara com essa chacina no que seria seu futuro lar. A partir daí a trama se desenrola com inteligência e viradas que colocam os personagens em conflito constante entre si, o que abre um enorme leque de traições e desconfiança.


Direção e roteiro dividem o maior crédito de Era Uma Vez No Oeste. Se no primeiro quesito Leone conduz com perfeição, o segundo não fica para trás. Assinada ainda por Dario Argento e Bernardo Bertolucci, a história marca a reunião de três dos maiores diretores italianos em atividade à época.

Comparado por alguns a uma ópera, Era Uma Vez no Oeste tem a grandeza de uma tragédia grega e deve muito de seu ritmo cadenciado à trilha sonora de Ennio Morricone. Em mais uma parceria com Leone, o compositor italiano deixa sua expressiva marca no filme, principalmente com o tema principal, sempre introduzido por Harmonica em sua gaita de boca.


Mais de 40 anos depois, com a fase western tendo passado há tempos, contando apenas com alguns lapsos e homenagens, Leone continua sendo o principal expoente do estilo junto com John Ford. Seus protagonistas silenciosos e seus duelos antológicos, porém, sempre terão destaque no cinema mundial.




Giancarlo Couto