terça-feira, 18 de março de 2014

Elefante Branco (2012)




“Numa favela nos arredores de Buenos Aiers dois padres (Nicolas e Julian) trabalham ajudando a população. Julian se vale das relações políticas para supervisionar a construção de um hospital que serviria a população local. Detalhe, tal hospital tinha sido planejado nos tempos de Peron e até agora só se vê seu esqueleto, uma obra jamais concluída e que a época seria o maior hospital da América latina. Nicolas voltara a se aproximar de Julian após o fracasso de um trabalho que realizava na selva, até o momento que paramilitares dizimam todos os habitantes. Profundamente abalado e chocado ele busca se reencontrar, mas acaba também pondo em dúvida o caminho trilhado em sua existência e encontra reconforto junto a Luciana, uma jovem assistente social, sedutora e ateia. Na medida em que a fé de Nicolas se esvai, a tensão e a violência entre os grupos de traficantes aumentam. Quando o ministério informa que os trabalhos para a construção do hospital ficarão suspensos, tem inicio a revolta que jazia adormecida no local.”

Logicamente que serei ousado em dizer que o desejo de tocar num tema levado a maestria em “Cidade de Deus” motivou a feitura desse filme. Afinal as favelas tornam-se cada dia mais universal, prova talvez do fracasso do modelo econômico levado a efeito em todo o mundo. Trapero aqui se mostra um diretor em pleno domínio de seu métier. Sobre um tema difícil, Trapero brilha formalmente, mas naufraga ao não conseguir compartilhar satisfatoriamente as angustias e esperanças de seus personagens. E ao também não conseguir inserir nenhum personagem ou ideia que questione o caminho trilhado pelos que buscam as melhorias. Um dos erros é se perder nas várias subtramas, que visam dotar de respostas (vagas e não convincentes) a quem assiste. É o que ocorre naquela que mostra o passado recente de Nicolas e também no relacionamento que terá com a jovem assistente. Tudo parece distanciado, superficial. O tratamento estético parece nos afastar daquele mundo. Era necessário um aproximar mais universal, um mergulho corajoso naquela miséria, a identificação do que veremos a condição humana inerente a todos (algo que Cidade de Deus alcançou e cineastas como Satyajit Ray e Rosselini saberiam realizar com facilidade). O mergulho na existência dessas pessoas ocorre de uma maneira muito trabalhada, cerebral e pouco emotiva. Um documentário precisa se aproximar da realidade humana, no caso ele parece dar voltas e nunca mostrar o que ocorre. A mise em scène é inventiva, alicerçada em planos acadêmicos (múltiplas ações simultâneas com mudanças de cenários e eixos num só plano a maneira de De Palma). Fascina pela estética, mas paulatinamente nos afasta pelo distanciar ao tema proposto. O diretor mostra que sabe filmar, só que precisa se engajar no mundo  que pretende filmar.  

Do elenco apenas algumas constatações: Darin realmente é um ator fora de série, Martina Gusman encanta pela sobriedade com que encara o seu papel.  Jérémie Renier, um belga com domínio do espanhol (não vivência), parecia uma escolha certa. Afinal muitos padres vagam pelo mundo, sem dominar a fundo a linguagem com que estabelecerão contato com a população e que pregarão sua fé. O resultado porém ficou a desejar, mas pode ser uma impressão errônea minha, fruto talvez da direção distanciada de Pablo Trapero. 


Em suma: Não é um filme chato, mas faltou espontaneidade para lidar com o tema. Um formalismo de nos fazer cair de joelhos, mas um resultado artificial demais. Nem o papa (que é argentino) absolveria Trapero do erro em que incorreu.


Escrito por Conde Fouá Anderaos

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