sábado, 6 de janeiro de 2018

Bem-Vindo a Marly-Gomont (2016) - Crítica


Numa Europa inserida dentro de uma crise Global, que cria uma massa enorme de refugiados a produção de uma comédia leve e descompromissada como essa, torna-se oportuna e bem-vinda, por tocar no tema da inserção, ainda que o resultado advindo na tela, não entusiasme.

“Graduado na faculdade de Medicina de Lille em 1975, o doutor Zantoko (Marc Zinga) convence o prefeito de Marly-Gomont (Aisne) a deixar-se instalar em sua pequena aldeia. Uma aposta arriscada do prefeito, já que seus conterrâneos jamais conviveram com alguém da raça negra. O médico traz de Kinshasa (Zaire) sua esposa Anne (Aissa Maïga) e seus dois filhos e se instala na localidade. A esposa cria (por uma mal-entendido) estar indo para próximo dos Campos Elíseos em Paris e desperta furiosa na zona rural francesa. Marc Zinga dá vida a um Zantoko que quer a todo custo se inserir dentro da nova comunidade, esquecendo-se de suas raízes africanas. ”
O filme se arvora nos velhos ingredientes das comédias americanas que se espalham por aí. Algumas situações previsíveis, toscas e artificiais surgem na tela para tocar o filme para frente. Não se chega a cair no pior do besteirol norte-americano, mas sua influência é nítida, veja-se as cenas recorrentes que assistiremos:
1- Negros descobrem a neve;
2- Negro é mais talhado para o futebol que o branco;
3- Negros incrementam uma missa com cantos gospell,
4- Negro corre em disparada para não levar um tiro nos fundilhos;
5- Personagem cheira a esterco; etc

E o tema chave acaba ficando em segundo plano: Como se integrar num meio hostil, sem perder a sua identidade?
No entanto a plateia sabe que se trata de um filme baseado em fatos verídicos. A maldade e o cinismo com que provavelmente Zantoko se deparou, da lugar ao troco: os habitantes do lugar também são retratados de forma caricatural e os interesses locais, como coisas mesquinhas e frívolas. Num segundo plano, nem sempre mencionado, supõe-se a grandiosidade desse homem, que não deseja corromper-se dentro do esquemático de seu país natal. E também da lida diária para superar a desconfiança, ganhar a confiança e o respeito do povo local. A atividade do médico carece do respeito, da confiança, para acessar a intimidade, para a compreensão físicam, de seus pacientes. Quão verdadeira foi a cena em que uma mulher temerosa de perder seu bebê, não consegue mesmo assim controlar seu medo e desgosto com a ideia de dar a luz secundada por um negro e o insulta reiteradamente, enquanto este a ajuda.
Um dos roteiristas do filme é Kamini, filho de Zantoko. Nota-se que ele tem certa ressalva contra ao caminho trilhado pelo pai, que desejava uma integração a qualquer custo, obrigando os familiares a calarem-se, tornarem-se discretos, negarem sua identidade para ali permanecerem. Que sua mãe esquecesse o sonho de Paris e Bruxelas e se enterrasse naquela localidade.  Que os filhos não falassem a língua nativa, não jogassem futebol, etc.

Talvez isso explique o resultado obtido nas telas. O filme careceu de um rumo nítido. Ao menos o tema, e a verdade que dele emana, resultou numa obra que prende o interesse, apesar do escrito acima.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

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