segunda-feira, 20 de junho de 2016

Bom Dia (1959) - Crítica




"A vida é simples, o ser humano que a complica, fazendo tormenta em um copo de água"

Yasujiro Ozu

"São algumas coisas inúteis que tornam a vida prazerosa."

Professor de Inglês.

 Existem alguns arrependimentos que nos acompanham durante muito tempo. Lembro-me claramente que esse filme estava em cartaz no Cine Joia na Praça Carlos Gomes na Liberdade. Jovem, dinheiro escasso, locomoção difícil, acabei por indolência não vendo. Acabei cometendo o sacrilégio de o conhecer somente ontem, através do recurso do DVD. A obra merecia a tela grande. Ozu é um gigante da cinematografia mundial. E esse filme flerta a perfeição. 

Periferia de Tóquio. Isamu e Minoru vivem com seus pais. Ao saírem da escola, eles deixam-se ficar na casa de um vizinho, cuja família possui um televisor. Ali eles assistem as lutas de sumô. Os pais descontentes, não afeiçoados a modernidade, e temerosos que a televisão os imbecilizem, os proíbem de retornar a casa do vizinho para assistir a tv. Os meninos pedem então que uma tv seja comprada. Devido a recusa, eles encetam uma greve de silêncio, que provoca indiretamente uma série de interpretações errôneas e incompreensões sobre o que ocorre entre a vizinhança.” 
Trata-se realmente do ápice, tanto em termo de depuração, quanto de estilo, num tema aparentemente singelo, confinado dentro de um ascetismo particularmente alicerçado e centrado na espécie humana mergulhada num cotidiano que diz pouco e muito ao mesmo tempo. Em termos de ocidente o filme que mais lhe assemelha é "Meu Tio”. Tati no entanto mantém a câmera mais afastada. Ele não se aproxima tanto, acredita que a distância criará uma visão mais crítica e apurada. E o seu objetivo é outro... delatar a maquinização do homem. Tati é mais rebuscado em seus cenários e gags. Ozu tem um estilo mais distinto, sua mise em scène recusa qualquer ornato estético e mergulha numa descrição quase sensitiva dos pequenos nadas que compõem a vida nossa.
Ozu opta por não se fixar em contar a história de uma só família. Em realidade ele descreve o cotidiano de um pequeno quarteirão onde existem pequenas casas, idênticas umas as outras, abrigando famílias modestas, confrontadas pelas novas mudanças de um país em desenvolvimento. O lugar de destaque dessa obra é reservado as mulheres, as verdadeiras dominadoras desse espaço. As ligações entre a vizinhança, onde o rancor, a inveja, a maledicência, pincelam de forma graciosa e inofensiva a vida de todos, quebrando dessa forma a monotonia triste de todos. Esse movimento que se desloca de lar em lar, para nos contar a história nos permite ver o que se esconde atrás de expressões como “bom dia!” que os adultos trocam entre si quando se encontram.
A chegada de novos objetos de consumo, que alteram o cotidiano, mergulham os dois moleques de um casal, em uma greve de silêncio. Essa atitude de protesto, dá ao filme um ritmo dispare, daquele existente até então. O filme ganha um ar de humor burlesco e bebe na fonte dos filmes silenciosos. Os dois jovens ficam frente a câmera fixa e nos fazem lembrar um quê de Keaton, Lloyd e Chaplin. O que os difere dos filmes silenciosos é a presença do som, que permanece. O que some é a fala de dois personagens. Uma música serena (já presente anteriormente) se faz sentir com mais pujança. Ela impregna a atmosfera do filme. Ele torna-se feérico. Os flatos e as diarreias nas calças poderiam transformar a obra em algo de mau gosto. Mas Ozu é um maestro que não cai na grosseria. Tudo permanece discreto.
Uma comédia ligeira sobre a mudança de hábitos e a introdução de novos objetos no cotidiano de todos. A família americanizada serve de mote a pilhérias, mas sabemos hoje que toda a sociedade foi contaminada por essas mudanças. O fecho do filme com o pai arrumando um pretexto para ceder (ajudar o vizinho) é saída simplória e mostra a acuidade do roteiro,  talvez a TV fosse apenas um pretexto para materializar o que realmente estava em jogo: Os bons dias, as opiniões sobre o tempo, não seriam mais que azeite a lubrificar as relações daquilo que chamamos sociedade. E algumas vezes seria bom deixar de lado nossas posições determinadas, para que as coisas andem. O pai toma uma atitude autoritária ao ceder, mas é desmascarado pelo caçula que diz que ele sorri. O cenho rígido, não é mais que uma máscara social. Máscara que precisa deixar de lado o professor de inglês e a irmã dos meninos, para que as coisas aconteçam. Antes que o tempo se esgote e a vida não tenha tido sentido. O olhar de Ozu dota de significado o vazio. Poucos foram os cineastas que conseguiram isso. Nós os chamamos de gênios. Eles não morrem e suas obras restam atuais.

Escrito por Conde Fouá Anderaos


Um comentário:

Guilherme Z. disse...

Olá Conde, sou leitor e seguidor do seu blog e é estimulador ver que continua escrevendo quando possível e selecionando bons filmes. Infelizmente tenho percebido que nos últimos anos as atividades dos blogueiros têm diminuído (eu também me incluo nessa) e provavelmente você deve ter sentido alguma mudança em relação a frequência de leitores por conta d eoutras redes sociais. Para tentar melhorar o interesse e acessos vou reativar em meu blog a parte de blogs parceiros. Tinha tirado porque vi que muitos que tinha adicionado pararam de alimentar suas páginas. Podemos fazer uma troca de links?

Sucesso para nós!

Att Guilherme

http://acervodocinema.blogspot.com.br