quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O Médico Alemão (2013)

Patagônia, anos 60. Um médico alemão encontra uma família argentina no caminho que conduz a Bariloche. Eva, Enzo e seus 3 filhos estão indo abrir o hotel herdado dos pais dela ao lado do lago Nahuel Huapi. A família fica fascinada com as ideias de pureza e perfeição estética do Doutor, sobretudo a filha de 12 anos, que tem uma compleição física muito pequena para a idade. Sem conhecer a verdadeira identidade desse homem, eles o aceitam como primeiro hóspede, seduzidos que estão pela sua elegância, maneiras, dinheiro, saber, até que as desconfianças do pai se materializam.

Filme argentino que se introduz num tipo de temática que se tornou febre após o término da 2ª Guerra: O Nazismo. Ele se ancora sobre duas premissas básicas:
I - Com o colapso do III Reich, vários de suas peças básicas, teriam se evadido da Alemanha, buscando apoio em comunidade simpatizantes da ideia do regime em colapso.
II – Insinua-se que as pesquisas (médicas, químicas, etc) continuaram a receber apoio mesmo após o término e a condenação oficial.
É notório o discurso das indústrias farmacêuticas que creditam a 2ª Guerra Mundial, os avanços na área da medicina, já que unidades secretas fizeram experimentos em prisioneiros que se tornaram cobaias (Unidade 731, campos de concentrações nazistas, os Gulag, etc.). O uso desses sofismas, desse aceitar esse tipo de coisas, demonstra que o pensamento positivista ainda viceja forte no mundo.
O filme argentino tem lá seus méritos, mas são raros os filmes que fazem com que o espectro nazista ainda seja um tema de estudo raro e impetuoso. Salvo pouquíssimas exceções cai-se num déjà vu enfadonho (O menino do Pijama Listrado) ou num inusitado que mais elogia, do que critica o que se condenava outrora (Bastardos Inglórios). O filme argentino tem a seu favor um cenário novo, para se mostrar uma doença velha. Ao contrário dos dois filmes citados, aqui o inimigo se encontra longe de seu habitat e se mostra muito mais amável e cordial, o que não o torna menos perigoso. Wakolda cava um outro filão, aparentemente menos engajado, na aproximação da psicologia de um monstro. Deslocado de seu laboratório, percebemos que ele é o laboratório, e onde ele estiver as experiências continuarão. O filme mostra com precisão que o que fora condenado na Europa, encontra refúgio e aceitação na Argentina. Nazistas viviam tranquilamente em solo argentino, vangloriando-se de sua ideologia, sem a preocupação de se verem condenados. Outra trilha que o filme ousou adentrar, mas ficou só na insinuação. O que motivou a Mossad a não capturar Mengele? Eichmann fora capturado, teria o médico alemão dados de pesquisas que lhe serviram de documento de troca? Lembremo-nos do acordo feito pelo oficial nazista com o governo americano em troca da derrocada de Hitler em Bastardos Inglórios. Não seria o mesmo caso aqui? Afinal vislumbramos que ele está fomentando uma indústria farmacêutica. O filme não deixa de ser um mergulho na mente desse homem cientista que rompeu todos os possíveis escrúpulos que o permitiriam se situar dentro da raça humana. Monstro cercado de enormes cadernos de anotações, com desenhos de animais, de crianças deformadas, de grávidas, de cálculos, números e medições. Obcecado por questões de ordem raciais e genéticas, noções de higiene racial e de pureza de raça. Apresenta-se esse homem de uma maneira neutra e o desvenda através da análise da espiã da Mossad. Frases curtas, objetivas, que não permitem que nos deixemos levar pelo discurso prenhe de sofismas de um criminoso. Infelizmente os interesses financeiros podem ter transformado em intocável um demônio. Que a história não negue o julgamento correto de tal figura. Um homem que via os que o cercavam como se fossem simples ratos de laboratório.
O roteiro e sua diretora criam algumas cenas e soluções admiráveis. A fábrica de bonecas onde ao vermos o ajuntamento destas a nos lembrar os campos de concentração que o médico conhecia bem de perto. Todas as bonecas sendo produzidas em escala, da mesma forma que ele sonhava produzir seres perfeitos e idênticos. A agente da Mossad em o sintetizar como um homem frio e calculista, que gosta que tudo que o cerca seja ordenado e arrumado sem grandes surpresas. Apesar de vários momentos felizes, o filme é desigual. Faltou emoção e sentimento, usou-se de um distanciamento e vazios tão grandes na narrativa. Alguns aceitáveis, já que até hoje não se sabe a verdade sobre a vida em fuga do açougueiro alemão. Talvez um dia venha a se revelar toda a verdade. E aí se criará o filme definitivo sobre ele. Em resumo: um filme que oferece um caminho que merece ser melhor explorado. Mostrar o Nazismo como uma caixa de Pandora rompida na Europa, ainda a espalhar preocupações para a humanidade.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Um Homem de Família (2000)

Lembro-me de ter lido que o filme americano que mais influência exerce sobre quem faz cinema atualmente é “A felicidade não se compra” de Capra. 

Assisti a obra “Um homem de família” foi eliminar definitivamente duas velhas cismas que eu ainda carregava comigo. A primeira: Nunca fui um grande admirador de Nicolas Cage. Após assistir esse filme, dei uma nova espiada em “Feitiço da lua” e outros filmes em que ele atuou e tenho de reconhecer que menosprezara demais sua capacidade e percebi que se trata realmente de um ator com potencial.

A segunda estava mais enraizada. Desde jovem sempre acreditei que originalidade era tudo. Então sempre desejei conhecer a obra cinematográfica que inspirara determinado filme mais recente. Assim cria que as obras de Brian de Palma eram meras cópias das obras de Alfred Hitchcock; bem como muito de Douglas Sirk nada mais era que cópias pioradas de obras de John M. Stahl. E sempre queria assistir as obras originais. Ao saber que “Sem saída” com kevin Costner fora inspirado em “O relógio verde” já cria que o original seria muito superior a nova obra (nesse caso específico o é, ainda que não seja um clássico). 

Aprendi com o tempo que em qualquer ramo de atividade criadora artística em que se crie, nada mais somos do que herdeiros de alguém. O tão louvado processo criativo é fruto da associação de idéias. Essas associações de idéias são captadas de acordo com a capacidade que desenvolvemos com a nossa criação e o nosso aprimoramento na existência. Filtramos através de nossa sensibilidade e de nossa capacidade de expressão. As idéias nascem da nossa capacidade de elaborar as nossas experiências, o nosso meio cultural ou de outrem. Tudo que lemos, ouvimos, escutamos, pensamos, sentimos e experimentamos nos influencia. A originalidade propriamente dita é um mito. A originalidade não está no que se conta, mas sim no como se conta.
Um homem de família carrega em seu bojo toda a influência que a obra de Capra exerceu em quem escreveu o roteiro. Só que aqui ganha cores novas. Não se trata de uma refilmagem, é antes de tudo uma releitura, adaptada à nossa sensibilidade e àquela do mundo em que hoje vivemos. Jack Campbell (Nicolas Cage) é um homem que está moldado na realidade de nosso século e que vive em um mundo onde a competitividade é lei. Para ser bem-sucedido é necessário não estar preso a nada. 
Tudo, qualquer coisa mesmo, pode impedir tua vitória. Se no filme de Capra, Bayle não era um homem que ia ao Credo (note que não existem padres, pastores ou Templos em Bedford Falls). No entanto ele respeitava cada cidadão presente na sua cidade e fazia de sua existência um sacerdócio, a fim de que a vida da comunidade fosse melhor. No filme de Brett Ratner, o início em que um casal jura eterno amor, enquanto o homem parte para Londres, já nos antecipa o que virá, através do receio da namorada que fica. Ela sabe que se trata de um adeus. Vemos esse homem 13 anos depois. 
Tornou-se o “cabeça” de uma empresa, um homem rico, socialmente vitorioso e vive solitário em Nova york. É tão dedicado ao trabalho que não respeita nem o natal: Não está preso a nada, nenhuma convenção. Ele não se prende a ninguém, tem uns casos fortuitos, com mulheres que pensam iguais a ele. Tudo, no entanto muda, quando ele tenta cooperar com alguém que praticava um ato violento. Informa que seu interesse no caso é puramente comercial. Lucrará o ajudando. Aí terá início, logo de cara, a guinada de cenário com a seguinte premissa sendo colocada: “O que ocorreria se eu tivesse feito uma outra escolha? ”; “Se eu tivesse deixado de voar, onde estaria agora? ” 

O personagem que ele ajudara representava o destino. Ao contrário do anjo de segunda classe Clarence, esse diz que mostrará o que Jack poderia ter ganho (não perdido). Assim Jack amanhece no dia seguinte em Nova Jersey, em um subúrbio, casado com a antiga namorada, numa casa semi-acabada, com dois filhos. Tem os fins de semana regados à cerveja e churrasco. Traja-se simplesmente. É estimado não pelo que possui, mas pelo que é.
O charme do filme é que nele, o personagem possui a consciência do que era. Assusta-se e se revolta com a nova situação, mas aos poucos vai percebendo as vantagens da vida simples e de um novo modo de agir (pai dedicado, marido fiel). 

No final, quando retorna a antiga situação, percebe que existe ainda tempo de mudar as coisas. A vida é curta e é necessário dar um real sentido a ela.

Em suma, achei um filme precioso. Adorei a beleza de sua atriz principal (Téa Leoni). Os encantos dela transparecem naturalmente. Os atores em si estão muito bem. Não é um filme com aquele olhar de Capra. Mas não deixa de ser um filme sobre alguém que gostaria de olhar como ele. Ratner não fez feio. Mostrou o mundo em que vive, procurando mostrar que existe espaço para a família, os amigos, o desinteresse, etc.

Vale conhecer. 


Escrito em 13/10/2008

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A Pedra de Paciência (2012)

Uma jovem mãe afegã está a cabeceira de seu marido que se encontra em coma devido a uma altercação com um companheiro de milícias que o baleou. Ela lhe fala e ao mesmo tempo se fala. Meditação, psicanálise, confissão, descoberta de si própria, revelação...? A partir dessa premissa o ocidental mergulha no modo de ser de uma sociedade extremamente machista e retrograda, onde a mulher nada mais é que um objeto destinado a procriação e a satisfação do homem. Ao relatar uma história onde o opressor não pode reprimir a voz do oprimido, esse se volta sobre si mesmo e permite que o desejo de se liberar se manifeste e ainda que o ouvinte (opressor) não se manifeste, temos a certeza de que ele não aprecia o que está sendo dito.
O filme se ancora sobre o ideal de uma possível emancipação feminina, e mostra que se na superfície a opressão funciona numa sociedade que deseja permanecer estamental, na prática o oprimido pode encontrar artifícios para escapulir a sina a que está fadado o sexo frágil.
O relatado causa horror para nós ocidentais. A forma como o escritor afegão nos apresenta a história nos parece uma ausência total de amor e empatia, não pelos seres retratados aí, mas sim pela cultura do qual é oriundo. É difícil, devido a diferença cultural, desqualificar o julgamento moral (como desejaria um Montaigne), mas fica difícil salvar da condenação o macho afegão (que também é vítima de tal sistema, já que em vários momentos vemos que eles não tem domínio sobre a própria sexualidade, também são castrados pelo meio que os cercam).
O filme vai satisfazer o espectador ocidental, na medida em que condenará de maneira incisiva os opressores. O problema é colocado, o percurso da protagonista, ainda que não totalmente desejável não pode ser condenado. Para escapar de uma condição de vida mais desfavorável foi obrigada a engravidar, servindo de repasto a sentimentos menos nobres de seres rebaixados a pura animalidade. “Quem não sabe amar, guerreia”.
E o caminho a que é conduzida a narrativa não pode ser outro que não o da Liberação da repressão, libertação da fala, descoberta do prazer da sexualidade, redução da religião a mera superstição e finalmente a tomada de consciência. A personagem feminina não é algo real, mas sim algo que representa um conceito do que pode vir a ser tornar um ser humano que pratica a autonomia.
Ao se revelar que o domínio e a sujeição podem levar a atitudes mais hipócritas o diretor mostra uma coragem inaudita. Certamente está sujeito a danação eterna no país em que nasceu.
Ao inverter o conceito de coragem, depositando-os nos ombros femininos, o filme choca e transforma a mulher em personagem principal, relegando ao gênero masculino um simples papel de coadjuvante. É a mulher que apesar de tudo dizer o contrário, que se digna no meio do caos a resgatar o marido que sempre a desprezou do destino fatídico a que está relegado. É dela que nasce a coragem para o proteger, e ainda socorrer as filhas, enquanto os demais parentes, nada mais fizeram do que dar no pé. 
Uma mulher ferida, que deve também educar e proteger as filhas no meio de uma guerra. Alguém cheio de desejos inconfessáveis e de segredos. Antes de ser mulher, ela é mãe e esposa. E jamais pôde descobrir-se desejada e mulher. O filme mostra de forma ambígua o sentimento entre o dever e a necessidade de se descobrir e ao seu corpo.

Não é um filme fácil e agradável. Não existe um caminho seguro na proposta apresentada. O autor/diretor tateia nas trevas, buscando respostas e um caminho a seguir. É difícil escapar do labirinto em que o fanatismo aprisiona o ser humano. Destaque para a genial atriz iraniana que encara de maneira magistral o difícil papel da mulher. Um filme indigesto e tortuoso que não fornece soluções fáceis. Um questionamento profundo de um afegão sobre o estado das coisas de seu povo e de sua terra. Merece ser descoberto e avaliado.

Escrito por Conde Fouá Anderaos.

A Lança Partida (1954)

Faroeste clássico, ganhador do oscar de melhor roteiro para Philip Yordan que em realidade foi simplesmente o testa de ferro de Richard Murphy (Pânico nas Ruas) que a época constava da lista negra do Macarthismo. Talvez a academia tenha se empolgado com a releitura dada ao romance de Joseph Weidman que se passava em outra época e lugar e que aqui ganhou uma profundidade inusitada ao trazer para a tela questionamentos como Civilização e Barbárie, racismo, proteção do meio ambiente, o progresso inevitável; enriquecidos de um estudo psicanalítico de vários personagens, ainda que consigamos nos fixar em apenas dois, devido aos competentes interpretes que lhe dão vida: Spencer Tracy (Matt Devereaux)  e Richard Widmark (Ben).

A figura ambígua do patriarca, que nos é mostrado de forma nua e crua, como um homem que não escuta ninguém e é movido apenas pelos seus interesses, convence. O conflito familiar entre ele, que busca a justiça feita pelas próprias mãos e os filhos que acreditam no estado de direito, permeia todo o filme.
O declínio econômico se aglutina ao físico do próprio personagem. Um homem que não percebe que é necessário acompanhar as mudanças e por isso se prende ao mundo já conhecido que não pretende que mude jamais. Os filhos, ao contrário, percebem (talvez por interesse de se libertarem do jugo patriarcal) que as mudanças são o futuro: Cobre, Petróleo, Ferrovias, etc.
As maiores virtudes e os defeitos da obra nascem justamente da direção de Edward Dmytryc, um cineasta capaz de obter interpretações brilhantes de vários artistas, mas que se perde em sua própria ambição, devido a não possuir fôlego para tal. Aqui nota-se claramente que o filme é curto, existia material para pelo menos mais uma hora de filme em alta qualidade. Falta ao cineasta o senso do ritmo, de amplitude dos temas a desenvolver e sobretudo paixão e vida. O início prometia muito, o roteiro poderia ter explorado bem mais o drama familiar e o pano de fundo de um mundo tocado pela revolução industrial em crescimento constante, com profundas reflexões sobre o meio ambiente (a poluição, destruição da fauna – o lobo, do espaço dos povos indígenas, etc) e o racismo. Mas o diretor permite que o roteiro aponte, mas o filme não se aprofunda em várias questões. A decadência de um mundo que não tem mais motivo de existir (O dos barões do Gado) mesclado a vários outros questionamentos. Devido a essa falta de coragem (ou vontade) é nos passado uma sensação de frouxidão.
O elenco parece (apesar das ótimas interpretações de Widmark e Tracy) ter sido mal aproveitado. Katy Jurado a cada cena nos soa tocante como a esposa, mas não se abre espaço para o seu brilhar. Os personagens de Earl Holliman e Hugh O’Brian são colocados de lado e isso soa terrivelmente incompreensível. Robert Wagner dando vida a Joe Devereaux, apesar de não extenso na tela, fatiga-nos. Parece não ter nada a dizer. Já de Jean Peters queremos mais, mas sua aparição é diminuta A sensação ao término da projeção é de um grande filme não finalizado. Sobretudo devido a alguns grandes momentos do mais caprichado cinema que podemos esperar: o do diálogo entre o Governador e Matt Devereaux sobre o futuro da filha com um mestiço; aquela do confronto entre Ben e Matt, em que o primeiro finalmente joga na face todo o rancor adormecido durante anos, justamente no momento que ele sabe que o pai não terá como revidar.

Filme de um grande virtuosismo técnico, elenco grandioso, boas interpretações, que permanece acima da média, mas que decepciona pelo potencial que possuía. Uma pena.

Escrito por Conde Fouá Anderaos



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Marcelino, Pão e Vinho (1955)

“Na Espanha após a queda de Napoleão com a permissão do prefeito e a ajuda da população um mosteiro é erguido sob antigas ruínas. Diante dele algum tempo depois os monges descobrem um bebê abandonado e após tentar conseguir uma família para ele sem sucesso, optam por criá-lo. A criança cresce naquele ambiente religioso e com o intuito de superar a solidão em que vive, inventa um amigo imaginário de nome Manuel. Nesse mundo cheio de “nãos” ele vai crescendo. Apesar de isolado no mosteiro, tem no novo prefeito um inimigo declarado. Um dia ele quebra as regras e sobe até o sótão onde se depara com a velha imagem de madeira de um cristo crucificado que o faz fugir em disparada. Ele, no entanto, retorna ao local e cria um laço de amizade com a imagem, levando para ela parte das mirradas provisões do mosteiro (pão e vinho). Quando os monges descobrem que Marcelino subtrai alimentos, passam a vigiá-lo e se deparam com o Cristo tendo nos braços o menino que dorme para sempre. Assustados com o inusitado da cena e com a intensa luz que se desprende entendem que um milagre ocorreu.”

Esse foi um filme que não assisti na tela grande. Tampouco o vi durante minha infância ou juventude. Lembro-me, no entanto, vagamente de ter assistido seu thriller no cinema e por achar que esse contava tudo, não me despertou o interesse de vê-lo. Assisti-o agora, faz poucos meses em DVD. O que me motiva a comentar foi a crítica de Juliano Mion (http://www.cineplayers.com/critica/marcelino-pao-e-vinho/1578). Tentarei dentro do possível, não ser repetitivo. Ele levantou certos aspectos que merecem ser melhor analisados.
Em primeiro lugar, o mundo dantes era dominado pela Igreja e não era raro que nos feriados católicos filmes como esse fossem exibidos e a população acorresse aos cinemas com suas famílias para assisti-lo. Em que se pese essa característica, ao qual eu pude testemunhar a sua pujança ainda na década de setenta, tal obra apresenta qualidades que extrapolam o orbe católico.

Nós do Ocidente somos herdeiros da influência cristã. Eu próprio apesar de não professar nem a fé católica ou a protestante sou cristão. Acho que a obra de Ladislao Vadja ultrapassa as amarras carolas da visão que o governo Franquista e a Igreja queria impor ao povo.

Afinal ainda que a história passe em tempos antigos os frades existentes ali presentes não são reais. O recurso de se situar a história no passado, foi a forma encontrada para poder se filmar a crítica contra um governo local tirânico e intolerante (o novo prefeito do vilarejo) que se opõe contra os frades aceitos na comunidade pelo seu antecessor.
                                                  
Mesmo o cotidiano de um Mosteiro com as suas regras que acabam por asfixiar a humanidade de seus moradores, são quebradas pela presença do menino, que serve para tornar os religiosos seres inseridos no mundo e não distante dele. Marcelino serve assim como um ser que requisita atenção real e viva. É um ser que não permite que oblações e meditações sejam levadas ao extremo, impossibilitando que aquela comunidade religiosa seja algo inútil. O filme não deixa de ser uma ode ao primitivismo do Cristianismo antes que fosse contaminado pelo cerimonial pagão do Estado Romano.

O esquemático apontado com acerto por Mion é um dos acertos do filme. Esse esquemático cria a empatia necessária com o público alvo de então. Todos conhecemos história de crianças abandonadas (Moisés por exemplo) e a mitologia cristã nela se arvora (os 12 frades remetem aos 12 apóstolos). 

Não sou dos que acham que o filme tem uma duração que soa extensa. A idéia de se guardar o ápice para seu fim é feliz. Afinal serve como catarse. O filme todo foi criado em torno dessa idéia de que é possível essa ligação com o espiritual. E que esse espiritual possa vir a vencer a visão imediata e materialista da vida (Não digo que não me surgiu a idéia de uma outra leitura: não houve milagre ali, Marcelino foi imolado pelos frades com o intuito de se arrumar um pretexto para a permanência do Mosteiro).


Outra crítica muito comum a esse filme é sobre o som que quase não abre espaço para ruídos e efeitos sonoros, privilegiando as vozes e uma trilha sonora genérica onipresente. Creio que tal escolha foi acertada, já que o que se visava era a introspecção.

Se as plateias de hoje não encontram encanto em obras como essa, talvez estejamos na hora de repensar o caminho trilhado. São inegáveis as qualidades dessa obra e o fato de não as compreendermos e não as inserirmos dentro do contexto em que foram realizadas, demonstra o empobrecimento cultural a que estamos sujeitos. 

É isso.


Escrito em 06/04/2009