quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O Homem Que Sabia Demais (1934)

Vi por esses dias a versão de 1934 novamente. Somente para confirmar algumas impressões. E aproveito agora para em falando dele, também comentar um pouco a versão da década de 50.
Grande sucesso da década de 30 o filme nos permite conhecer o diretor em formação, Já colocando em cena certos aspectos que serão mais bem resolvidos em filmes posteriores. Aqui o diretor já começa a criar um estilo que se ancora sobre um movimento constante, associando uns travelings  modernos a algumas panorâmicas ousadas. O diretor já concebe cada tomada visando a construção de um quadro com um grande senso de espaço e denota uma preocupação com o sentido do fora de campo, jungido a uma profundeza de campo com o intuito de dinamizar a ação dentro de um mesmo plano já demonstrando uma noção de distância focal a qual ele ainda não sabe lidar de uma forma convincente. O diretor encontra assim seu estilo apesar do que o que nos é apresentado ser desigual.  O inglês já buscava uma forma eficaz de apresentar um estilo próprio na narrativa do suspense.
O grande problema do filme é justamente vermos a explosão de idéias sem aquela sabedoria amadurecida com que ele reconduzira a refilmagem nos anos cinquenta. O filme de 34 encanta e prende a atenção mais pela constatação do talento explodindo do que pelo seu resultado final. As cenas apresentadas não possuem uma coerência entre si, falta uma melhor costura daquilo que nos é apresentado. As cenas de bravura quebram o equilíbrio do todo. Os toques de humor presentes em sua obras, aqui não funcionam da mesma forma que nas obras posteriores. No entanto é o que mais me agrada. Eu poderia dizer que até mais do que algumas proezas técnicas e alguns momentos inusitados (a mãe que faz uso de uma arma de fogo para salvar a filha com um tiro certeiro, demonstrando uma frieza e coragem impossíveis de se atrelarem aquele do personagem criado por Doris Day). E também o seu desfecho nos soa abrupto e muito mal resolvido na versão de 34(não que o de 1956 satisfaça integralmente). Um tiroteio que serve mais para concluir algo que não estava bem elaborado.
Não é somente na metragem e em um desfecho mais plausível que a refilmagem suplantará e se diferenciará da versão de 1934. Além da extensão de 45 minutos a mais que visará cobrir as ausências de intriga, ela será colorida (Technicolor - o preto e branco da primeira versão é bom, mas desigual o trabalho de fotografia, se comparado a refilmagem) e se passará em Marrakech ao invés de Saint –Moritz. A adoslecente da primeira versão será substituida por um garoto.  Marrocos ao invés da Suiça. Naturalmente que não se trata somente disso as diferenças existentes entre ambas as versões. A refilmagem flue de uma maneira mais rápida e apesar de mais longo nos soa mais curto. Leslie Banks ainda que funcional, não está a altura da criação de Stewart. Já Edna Best, apesar da voluntariedade e coragem da tomada do tiro, ainda se encontra presa dentro de uma visão machista da época. Doris Day compõe uma mãe mais frágil e insegura, mas notamos o avanço da importância do papel feminino dentro da sociedade na década de 50. E também a feitura da tentativa de assassinato durante um concerto é feita na refilmagem com uma maestria que está até hoje citada como uma das sequências mais bem construídas pelo mestre em sua longa carreira.
Se algo pesa a favor do filme de 34 de forma inquestionável é a presença de Lorre. Esse europeu já era célebre a época pela sua criação do assassino pedófilo em M de Lang. Ele constrói um personagem intrigante, dotado de uma cicatriz próxima da sombracelha e seus trejeitos psicóticos. Natural ao extremo, moderno em sua aproximação do real, Lorre rompe na tela a cada aparição e chama toda a atenção sobre si de forma natural e hipnótica. E apesar de pouco aparecer, parece estar presente no filme todo. Ele dá ao filme uma marca carismática e um sentido de loucura que impressiona quem assiste.É certamente o único elemento que falta a obra da década de 50. Se Hitchcock construiu uma obra melhor na sua segunda tentativa, muitos ainda se sentirão aprisionados a primeira versão. O diretor ainda fizera uma obra desigual, mas Lorre construirá uma performance  que ainda não foi igualada, nem superada. O próprio diretor ao comentar ambas as versões diz que a primeira era obra de um amador, a segunda de um artista ciente do que podia. Concordo, mas faltou Lorre, Não acham?  

Escrito por Conde Fouá Anderaos

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