sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Era Uma Vez No Oeste (1968)


Lento como o deserto, Era Uma Vez no Oeste (C'era una Volta il West, 1968) é o espelho de seu cenário. Sendo uma história de ganância, amor, mentiras e muitos tiros, ingredientes recorrentes nos filmes de Sergio Leone, essa talvez conte com o maior primor técnico do diretor. O gênero, western spaghetti, mais do que conhecido pelo italiano já havia sido moldado por ele com a trilogia dos dólares, estrelada pelo então galã Clint Eastwood. Em Era Uma Vez No Oeste, porém, Leone consegue atingir um nível de precisão técnica e domínio de câmera ainda maior do que nos filmes anteriores.

Se Três Homens em Conflito (Il Buono, il brutto, il cativo, 1966) termina com um duelo triplo de inquietar o mais frio dos espectadores, Era Uma Vez no Oeste já começa com uma cena a altura. Aliás, essa cena já dá o tom do resto do filme. Vagarosa e sem pressa nenhuma, com closes de três personagens que esperam um trem numa estação. O calor exala pela tela com diferentes planos em detalhe de um suando ao sol, outro parado embaixo de uma goteira e o terceiro brigando com uma mosca que insiste em lhe perturbar a soneca. Ao longo de vários minutos os personagens esperam a chegada do trem, mas em nenhum momento o espectador se sente entediado com o que vê. É impossível que isso aconteça, pois Leone sempre mostra uma visão diferente da mesma cena.
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O trem chega, um indivíduo descarrega algumas malas e mais nada. Os três homens que esperavam já se preparam para ir embora quando o sinal do protagonista toca pela primeira vez. Aquela gaita tão famosa que irá soar por diversas vezes durante o filme, sempre anunciando a estrela principal, “o homem que não fala, mas toca”. Charles Bronson dá vida ao protagonista sem nome, e de bom humor estrela o primeiro diálogo propriamente dito do filme, passando dos 15 minutos já. Um diálogo afiado e bem humorado, como não poderia deixar de ser, é mais uma marca de Sergio Leone.

Charles Bronson tem aqui um papel difícil. Com pouquíssimas falas, o ator preenche a tela com seu rosto e sua expressão cansada do calor do deserto. Um rosto marcado pelo tempo e pela amargura, é fácil desconfiar dos motivos pelos quais ele está ali, mas saberemos sobre eles com certeza apenas nos minutos finais da obra. Não obstante, toda ação do filme é assim, envolta em mistérios e com meias explicações que surgem para serem totalmente descobertas lá para frente da estória. O espectador que vai até o filme sem ler a sinopse pode se sentir perdido em sua primeira hora de película, porém isso faz parte da situação. A desconfiança é mútua e não se sabe ao certo quem é mocinho e quem é vilão, quem é experto e quem é inocente.


Qual seria a sinopse básica de Era Uma Vez no Oeste então? Difícil falar sem dar spoilers. Basicamente Harmonica (apelido dado a Charles Bronson por outro personagem, porque ele vive tocando sua gaita de boca) está na cidade em busca de Frank (Henry Fonda). Este assassinou toda a família McBain e encobriu o crime com pistas falsas, a fim de incriminar de Cheyenne (Jason Robards). Já Jill (Claudia Cardinale) é a noiva do falecido Brett McBain (Frank Wolff) que chega a cidade e se depara com essa chacina no que seria seu futuro lar. A partir daí a trama se desenrola com inteligência e viradas que colocam os personagens em conflito constante entre si, o que abre um enorme leque de traições e desconfiança.


Direção e roteiro dividem o maior crédito de Era Uma Vez No Oeste. Se no primeiro quesito Leone conduz com perfeição, o segundo não fica para trás. Assinada ainda por Dario Argento e Bernardo Bertolucci, a história marca a reunião de três dos maiores diretores italianos em atividade à época.

Comparado por alguns a uma ópera, Era Uma Vez no Oeste tem a grandeza de uma tragédia grega e deve muito de seu ritmo cadenciado à trilha sonora de Ennio Morricone. Em mais uma parceria com Leone, o compositor italiano deixa sua expressiva marca no filme, principalmente com o tema principal, sempre introduzido por Harmonica em sua gaita de boca.


Mais de 40 anos depois, com a fase western tendo passado há tempos, contando apenas com alguns lapsos e homenagens, Leone continua sendo o principal expoente do estilo junto com John Ford. Seus protagonistas silenciosos e seus duelos antológicos, porém, sempre terão destaque no cinema mundial.




Giancarlo Couto

3 comentários:

Marcelo Castro Moraes disse...

Para mim um dos melhores filmes de faroeste de todos os tempos.

Gian Couto disse...

Com certeza, Marcelo.

CONDE disse...

"...pois Leone sempre mostra uma visão diferente da mesma cena." É isso que diferencia o talento do resto. O jeito de contar uma história. Parabéns pelo excelente texto Gian.