terça-feira, 4 de novembro de 2014

Luz Silenciosa (2007) - Crítica

“Johan, Esther e seus seis filhos são menonitas que vivem no norte do México em uma comunidade e falam um dialeto próximo do alemão. Eles aceitam algumas das benesses trazidas pelo progresso científico e renegam outras. Assim o trabalho no campo é mecanizado, o avanço trazido pela medicina é aceito, no entanto os meios de comunicação (telefone, televisão, rádio, internet, etc) são banidos. Sob essa paz aparente de uma vida atrelada a natureza, Johan sofre. Ele caiu amoroso por outra mulher e não consegue se desembaraçar dos braços dessa paixão. Entra assim em contradição com a lei de Deus e aquela da comunidade aonde vive. O que será dele? E de sua família? Estará sua alma condenada?”

Difícil definir o que nos surge a tela. Habituado que estamos com a velocidade frenética dos tempos atuais, do avanço dos meios de transportes e de comunicações o filme de Reygadas nos estarrece: é sóbrio, austero, feito de sussurros, brilho e de uma melancolia, da qual o diretor se vale para inserir uma serenidade paradoxal que causa em muitos um mal estar, por nos levar a refletir sobre as reais necessidades do ser humano em face daquelas criadas pela Sociedade Capitalista em que nos encravamos. Os menonitas aqui não são retratados como radicais inflexíveis. Os atrativos do mundo moderno não são tentações  tratadas a fogo e ferro. Eles apenas não querem inserir dentro do seu cotidiano certos portais, que podem desestabilizar um mundo que lhes basta.
A abertura do filme é de uma suntuosidade raras vezes vista. São cerca de sete minutos de maestria estética que nos coloca o dilema que permeará a obra até o seu fecho. O embate entre o impermanente e o passageiro, entre o finito e o infinito, entre o profano e o sagrado. Casa-se perfeitamente com a tomada final e parece extraída deum sonho de um pintor surrealista. O problema é que causa choque. Habituados a sociedade moderna, quantos de nós olhamos para o céu e nos fixamos lá, ao menos alguns minutos durante ao menos um dia da semana? Madrugada, do céu escuro a câmera espera a luminosidade vencer as trevas para então mergulhar numa residência secundada por árvores onde uma família faz o desjejum tranquilamente. Antes de se ficar no ser humano, pararemos diante de um relógio. Ele serve para delimitar o mortal daquilo que permanecerá. O tic tac quebrará o silêncio até que a atividade humana se manifeste. E essa atividade ainda que serena não protege seus protagonistas do embate intimo que os conduz em busca de um significado para o existir. 
O tempo corre monotonamente e Reygadas se vale desse morosidade para mostrar seu virtuosismo técnico. O cinema que surte é grandioso, as tomadas dos lugares, dos corpos, dos rostos, das vozes que rompem o silêncio: o diretor sempre opta por uma mise en scène que engrandece o sentimento, uma inteligência que olha do alto os personagense coloca na tela a vida, em lugar de tentar moldar uma dentro de um roteiro fechado em si (todos os que surgem na tela pertencem de fato aquela comunidade). Já vimos outras obras que se valem de não atores para dar seu recado. O que surpreende em Reygadas é a forma como ele se vale desse recurso. O seu cinema (a julgar por essa obra) afasta-se daquele do neorrealismo italiano, já que é mais reflexivo. As imagens parecem flertar mais com Tarkovkski, ainda que tematicamente lembre mais Kielowski e seu Decálogo (sem o peso religioso desse último). É um filme que exige do espectador paciência. É ela que provoca a ação e nos conduz a recompensas. Saborear calmamente um mundo perdido e esquecido. Um lugar onde o pôr do sol, o amanhecer, o contato constante com a natureza, a respiração da vida em volta, de se ver voltado para seu interior e sua incompletude ao mesmo tempo que assusta, nos engrandece. 

Outro ponto positivo é que não se trata de retratar seres visto como fanáticos religiosos. A cena em que as crianças assistem televisão num furgão é dotada de tamanha magia, que amplia esse objeto hoje tão comum, em algo mágico. Para os curiosos o cantor apresentado é Jacques Brel (um belga cantando Les Bonbons). A imagem extraída parece ter saído de um túnel do tempo, e colocada como foi, hipnotiza não só aquelas crianças, como também a nós. O pai não se sente ferido ou em pecado por se deleitar com a tv (são contra os meios de comunicação). Apenas, dá a entender, não valer a pena fazer de imagens captadas parte de um ritual cotidiano, já que a vida diuturnamente nos oferece possibilidades de captação de imagens maiores e mais próximas. O mundo que os cerca basta para provar sua teoria. 
O embate íntimo que vergasta o protagonista também não conduz o filme a um melodrama barato. Apenas nos convida a reflexões. É legítimo preferir ir viver com outra mulher e abandonar uma que a razão nos diz que amamos e ainda nos ama? O dilema desse ser e a força do desejo carnal não são ampliados, tampouco desprezado pela narrativa. E para que não nos deixemos levar pelas aparências as mulheres que as interpretam são parecidas: possuem uma aparência comum e uma beleza interior grandiosa. 

O final longe de diritmir os questionamentos, apenas parece encerrar em si (ao casar com a cena de abertura) o desvendar de um dos dramas que a humanidade produz diariamente no orbe em que está enclausurada. Um filme que certamente não agradará a maioria, já que nos remete ao nosso interior. E são poucos os que gostam de ser deparar diante de seu eu. A humanidade se embriaga com a fuga e a irrealidade.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

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