quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Quando Eu Era Vivo (2014)

                                              

A chegada de Júnior (Marat Descartes) a sua velha casa, que agora somente seu pai e uma estudante de música moram, é fatal. Ao redor dos prédios, um grito, silêncio e escuro, ruas pouco iluminadas, bairro pouco simpático. Acompanhado por seu pai, segue por um velho elevador, até o velho apartamento. Pronto, já está instalado o cenário a qual iremos acompanhar até o fim, mas há algo de errado. Junto com Júnior, mesmo antes de conhecermos o apartamento, rodamos lentamente o olhar á procura da resposta do enigma, que se apresenta na forma como adentramos a esse mundo. Aparentemente, avistamos uma residência comum, normal, mas os olhos de Júnior (câmera de Dutra), procura, investiga as paredes, o chão, a iluminação.


Esse primeiro encontro nosso, de espectador com o filme de Dutra, é simples e direto, mas calmo, paciente, sugestivo e contemplativo. Assim como em seu trabalho anterior, Trabalhar Cansa (Idem, 2011), junto com O Som ao Redor (Idem, 2012), parecem formar uma espécie de trilogia, conjunto de filmes, peças que se ligam e enlaçam entre si. O terror de Dutra é, mais uma vez, calcado na sugestão/provocação que o seu tema propicia. Já firmado como cineasta da tragédia, apocalipse e caos da classe média baixa (classe c), como no filme de Kleber Mendonça Filho, nos ligamos a fragmentos, sons, soltos no ar, de todos os tempos, imagens e movimentos não contínuos, mas conectados entre si. Por isso, Quando Eu Era Vivo (Idem, 2014) é antes de mais nada um testemunho da linguagem cinematográfica adaptada para a realidade, do cotidiano, da vida de centenas de brasileiros. O que demonstra tanto Kleber quanto Dutra em seus dois filmes parece ser, se não a mesma ideia, semelhantes: O brasileiro e o terror do seu cotidiano tedioso.


Parece difícil, em um primeiro momento, perceber o terror dentro desse contexto. Do que afinal, é feito esse terror? A adaptação do horror no filme de Dutra, diferentemente do que fez em Trabalhar Cansa, é muito mais intensa, mesmo se mantendo no suspense entre imagem e som. Se utilizando do cinema de terror como foi criado, de essência sugestiva, enigmática, misteriosa, sua linguagem se mistura com a clássica e a moderna, afinal, Quando Eu Era Vivo, não deixa também de pertencer ao cinema de terror de James Wan e Oren Peli ( respectivamente Sobrenatural [Insidious, 2010] e Atividade Paranormal [Paranormal Activity, 2007]). O uso dessas duas linguagens em seu filme proporciona uma nova visão do medo; ao mesmo tempo que temos medo do que ouvimos, mas não vemos e vice-versa, estamos em contato com uma linguagem estética em particular, a do flashback, do vídeo e mesmo das velhas metáforas visuais que rondam o folclore e contos de terror, como o movimento de objetos tal qual uma cortina se mexendo violentamente com o vento.


A linguagem de Dutra afinal é a peça-chave. Quando Eu Era Vivo não é um filme de sustos, nem sequer possui uma cena de berros ou gritos ensurdecedores. O cinema de Dutra é o que afinal? Mais do que um primogênito de Hitchcock ou Tourneur, Dutra parece seguir uma linha parecida com a de Shyamalan, explorando o caos e o suspense através do imaginário religioso, do âmbito da fé. Seguindo, claro, a linguagem construída por quem originou o cinema do país, não só brasileiro, mas do Brasil, para o Brasil e sobre o Brasil – Glauber, Sganszerla, Bianchi, Tonacci e muitos outros -, assim como Kleber Mendonça, se utilizando para criticar a sociedade brasileira, impondo a ela símbolos (santos, crucifixos,  ou alguma crença a quem se possa refugiar do terror da rotina, nem mesmo que seja o trabalho, qualquer ação que saia do ócio). Simbologia essa que é quase tão vital quanto o ar que seus personagens respiram, mas também tóxica, asfixiante e mortal. Por isso, não atoa, o conto alucinado e alienante conto de Cronenberg, Videodrome – A Síndrome do Vídeo (Videodrome, 1983), se encaixa bem para explicar o filme de Dutra, que tanto se utiliza do poder da imagem, quase de forma literal.



O isolamento de Júnior é compreensível. Na sociedade brasileira, parecida com a de Beleza Americana (American Beauty, 1999), o homem escapa através da masturbação, do desejo e enlouquece através do mesmo, do trabalho entediante, da garota que nunca ira gostar de você, da falta de emprego e metas, da idade, do peso e às vezes até dos pais que ainda de forma ou de outra, te sustentam, por que você ainda não consegue sobreviver na selva urbana. A classe média baixa é esse animal indefeso. Porém, no terror de Dutra, talvez o surto, a psicose, a loucura leve a algum lugar, quem sabe o da salvação, quem sabe o da perdição e por que não arriscar?

Um comentário:

Marcelo Castro Moraes disse...

Esta entre os meus filmes brasileiros preferidos deste ano