terça-feira, 30 de setembro de 2014

Ano Passado em Marienbad (1961)


“Há filmes que foram feitos para serem sentidos e não analisados”, disse alguém algum dia. Quando? Ninguém sabe. Em que contexto? Muito menos. Para quem ele disse isso? Para todos e para ninguém. Por outro lado, certamente essa frase já foi usada para definir Ano Passado em Marienbad (L’Année Dernière à Marienbad), de Alain Resnais. Há também quem conteste a citação, dizendo que análises profundas cabem a todos os filmes, até mesmo para os mais experimentais. Ano Passado em Marienbad sofreu muito com a crítica quando foi lançado em 1961, porém, hoje está consolidado e tem status de obra prima na filmografia de Resnais.

A premissa é mais simples que o filme em si. Estão todos os personagens numa festa que acontece em um grande casarão, em Marienbad (será lá mesmo?). Enquanto um homem joga um jogo de raciocínio que só ele vence, sua esposa (será mesmo?) conversa com outro homem, que tenta lhe convencer de que eles estiveram ali no ano passado (estiveram mesmo?). E é isso. Simples na sua essência, porém cheio de dúvidas. E não espere por respostas.

A incursão pode parecer estranha no começo, mas nos acostumamos rapidamente com o ritmo composto por Resnais. Sua câmera passeia através de planos simétricos e extremamente bem elaborados por todo o casarão, espiando o que as pessoas estão fazendo ali. Semelhante a seus “curtas documentário” do começo de carreira, Van Gogh (idem, 1948), Guernica (idem, 1950) e Toda A Memória do Mundo (Toute La Mémoire Du Monde, 1956), Resnais traça uma trajetória com a câmera, que vasculha o cenário em busca da história. Descobrimos o filme com ela, tateando em território desconhecido até então.


A linha do tempo tem um traçado semelhante, como se as coisas se desenvolvessem de acordo com o fluxo da narrativa, independentes da ordem dos fatos. O homem fala do que aconteceu no ano passado, e estamos no ano passado, a mulher responde algo sobre o presente e voltamos para o presente. Os personagens trocam de lugar e de roupa, fazem pausas estáticas e repetem o que já fizeram de outro jeito. Os fatos seguem a linha do diálogo, sem preocupação com continuidades.

Resnais vai além ao subverter os princípios dos colegas franceses, àquela época preocupados em desenvolver uma narrativa frenética, com planos imperfeitos. A ideia era ir contra o modo frio de se fazer cinema que se propagou na Europa durante a Segunda Guerra, dando mais liberdade às improvisações dos atores e tornando o cinema em algo real. O desenvolvimento de Ano Passado em Marienbad, por sua vez, é lento e cuidadoso. Resnais fez justamente o contrário do que propusera Jean-Luc Godard, um ano antes, em Acossado (À Bout de Souffle, 1960), um dos primeiros exemplares da Nouvelle Vague.

Jean-Luc Godard que viria a fazer depois algo muito semelhante em O Desprezo (Le Mépris, 1963), trabalhando em longos diálogos entre um casal, dessa vez marido e mulher, que não entende seus sentimentos complexos diante um do outro. Há também uma sequência em que a câmera rodeia uma estátua analisando-a e admirando-a, assim como Resnais fez em seu filme de 1961. A influência também se daria sobre outros cineastas, como Stanley Kubrick. Seu estilo de filmagem, que viria a se tornar sua grande marca, está todo ali em Mariembad. A comparação fica ainda mais evidente ao analisarmos O Iluminado (The Shining,1980), que conta até com um cenário muito parecido com o do filme de Resnais.


Pode-se dizer que Ano Passado em Marienbad, quando lançado, foi incompreendido. Resnais queria se libertar das amarras do cinema convencional e até do cinema experimental. O resultado não agradou, provavelmente era isso mesmo que o cineasta esperava, mas com o tempo o longa recebeu a devida atenção, principalmente de quem viria a ser muito importante para o mundo da sétima arte. A corajosa obra, à época, foi posta em listas de piores filmes de todos os tempos, já hoje figura em destaque nas listas de filmes que devem ser vistos.


Porém, mais de quarenta anos depois, as dúvidas continuam. O que é verdade e o que é mentira em Marienbad? O que realmente aconteceu? Eu diria que é impossível saber, justamente por ser essa a intenção de Resnais. Aqui o cineasta mostra que nossa busca pela verdade se confunde em meio a tantos fatos pelos quais passamos. A perspectiva tem um bocado de culpa nisso também. Ela nos confunde perante os reais acontecimentos. Vemos o que queremos e não o que realmente aconteceu. Assim age o protagonista, que tenta convencer a mulher de que eles tiveram um caso no ano passado, conduz a história mostrando apenas a sua versão. Quando confrontado pela “amante”, ele teima em repetir sua versão até convencê-la. O filme seria um retrato de nossas vidas e de nossos sonhos, permeado por dúvidas e pontos de vista de quem participa. Destratado por alguns e glorificado por outros, Ano Passado em Marienbad vale a pena ser visto, analisado e sentido.

Giancarlo Couto

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O Passado (2013)

                              


De Asghar Farhadi só vira o seu premiadíssimo “A Separação”. Filme que por si só basta para escantear para bem longe o estereotipo que nos é bombardeado pelo cinema comercial como um todo em relação ao oriente e ao povo que lá vive. Infelizmente são poucos que se aventuram a buscar entrar em contato com a cultura do outro, buscando-a compreender e não a submeter a sua visão do mundo. Desde que me apaixonei por cinema, sempre ir ver filmes dessa espécie era uma aventura que demandava tempo e paciência. Tinha de sair de meu bairro na periferia e “viajar” até o nicho onde eram exibidos. Todos distantes infelizmente. O crescimento da cidade e o inserir de minha localidade de moradia dentro de um novo contexto não serviu para melhorar muito a situação. O transporte hoje é mais farto, os cinemas se aproximaram (infelizmente aqueles que não abrem espaço para esse tipo de filme), e se a distância diminuiu, o número de cine clubes definhou em São Paulo. Ou seja, para se ver filmes como esse tem de se ir até os arredores da Avenida Paulista. Não tem jeito. O que me aborrece não é ir até lá, muito pelo contrário, é notar que o abismo cultural parece ter aumentado nesses anos. Não se quer instruir, pretende-se sim cada vez mais dotar todos de uma educação e cultura rasa. Querem amealhar-nos ao invés de nos darem condições para que nos libertemos e nos capacitemos com a descoberta de nossas potencialidades.

Saber que Asghar Farhadi resolveu ir até a França produzir seu novo filme causou-me certa preocupação. Ainda que a França possua hoje uma população onde os muçulmanos e seus descendentes constituam um contingente que não pode ser desconsiderado (daí o recrudescimento das ideias nacionais socialistas em seu solo). Ainda assim isso por si só não bastava para diminuir minhas dúvidas quanto ao que ocorreria com ele. De que forma isso influenciaria a sua arte. Que concessões o diretor teria de fazer a nova pátria? O resultado por si só calou-me. O talento permaneceu ali e o lidar com uma nova língua, um novo habitat, não o diminuiu em nada. Aliás, “A Separação” era também um filme de caráter universal. A dor, os sentimentos, os seres humanos são sempre os mesmo em qualquer lugar.  E Farhadi é dotado dessa capacidade de desnudá-los de uma forma tão simples e profunda que só conhecendo essa suas duas obras o posso colocar no rol dos maiores cineastas em atividade no momento.
“Após quatro anos de separação, Ahmad(Ali Mosaffa) chega a Paris oriundo de Teerã, chamado por sua esposa francesa para assinar os papéis do divórcio.  Durante sua curta estada, Ahamd descobre a relação conflituosa que Marie (A ex esposa vivida por Bérénice Bejo) tem com a sua filha. Os esforços para ele compreender a nova situação e o que ocorre acabam levantando o véu que cobria vários segredos.
Não existe no cinema atual um cinema mais inteligente que o do diretor iraniano. A sua grande virtude, a sua ciência do desnudamento da alma humana nos subjuga facilmente, já que ela se junge a uma deslumbrante e perfeita direção de atores e uma multiciplidade de perspectiva sobre os temas a serem tratados. “O Passado” se arvora sobre o desenvolvimento de uma história que nos soa até simples, mas cujas ramificações são complexas e diria mesmo rebuscadas, cheia de nuances delicadas e imperceptíveis a primeira vista. O filme se concentra no estudo de um sentimento, no caso aqui, no da culpa. Todos os que surgem a tela, são culpados ou não? Marie é culpada de querer pela terceira vez se unir a um homem, ainda mais sabendo que a esposa dele se encontra em coma? Samir é culpado de ter cometido o adultério, mesmo ciente do estado de depressão da mãe de seu filho? Ahmad é culpado de ter desistido de se adaptar a vida francesa abandonando Marie? Lucie é culpada de ter se intrometido no relacionamento de sua mãe? Fouad, mesmo criança, é culpado de se assustar com o estado vegetativo de sua mãe?

Farhadi não nos responde. Ele coloca as questões e só. A inteligência de sua obra é que essas questões, esses segredos nos são desvendados ao poucos, as chaves que nos permitem entender a intriga nos vem de forma homeopática. E cabe a cada qual que vê a obra se inserir dentro da problemática e perceber como é complexo fazer um julgamento. O comportamento dos personagens frente às novas descobertas encontra eco na forma como vamos os ver. As descobertas ocorrem simultaneamente para nós e eles. E isso nos intriga do começo ao fim. Não sabemos onde o barco irá aportar.

O elenco como um todo é impecável. E note que se trata de um elenco internacional nas mãos de um diretor que até então só filmara no oriente. E a Paris retratada por ele não seria a Paris retratada por vários outros diretores não naturais a cidade e a França. Ele não cai no pecado de mostrar uma Paris conhecida. A França serve de cenário para se contar uma história universal. E o elenco como já disse está irreprensível.  A argentina Bérènice Bejo cria com desenvoltura e naturalidade uma mãe sem sorte nos relacionamentos amorosos, parecendo carregar nas costas bem mais do que pode. A belga Pauline Buel dá vida a filha que vive atormentada por uma atitude mal dimensionada e é o ser que causou a maior ruptura nessa família desestruturada. Papel complexo que a atriz leva como se fosse uma veterana. O iraniano Ali Mosaffa é também como o alter ego do cineasta. O personagem mais equilibrado e que tenta desvendar e reorganizar o seu antigo núcleo familiar. É através dele que iremos conhecer os demais personagens. Personagem paciente, sincero e atencioso que nos faz mergulhar no mar de segredos que serão desvendados. Tahar Rahim um francês de origem argelina dá vida ao amante e futuro marido de Marie. Um ator excelente que tem a meu ver de criar e dar vida ao personagem mais complexo de toda a trama: Calmo, mas atormentado pelo caminho tomado. E há o pequeno Elyes Aguis que faz o papel de Fouad. Nenhum personagem me tocou tanto quanto ele. Pequeno, trazendo em si as marcas deixadas pela separação dos pais e também aquelas da construção não certa de um novo lar. Acuado, revoltado, assustado, sem saber o que ocorre e como deve se comportar é o papel mais comovente dessa história.

Asghar Fahardi ao que parece veio para permanecer no panteão da sétima arte. E possui o potencial para nos presentear nos próximos decênios com obras muito maiores. Mas se elas forem do quilate das duas últimas já estaremos presenteados por uma das mais ricas filmograrias da história do cinema. Em cada tomada ele parece conhecer o tempo e o timing perfeito de cada um do elenco para que ele permaneça na tela o tempo necessário para se imortalizar. Farhadi é o Midas moderno da sétima arte. Longa vida a ele, mas, sobretudo as suas obras. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

Vicky Cristina Barcelona (2008)

Sou um admirador do cinema de Woody Allen. É um dos maiores cineastas em atividade e já deixou seu nome marcado da história da sétima arte. Construiu uma obra consistente e soube além da comédia passear por outros gêneros com desenvoltura. Muitos disseram que nos últimos anos ele estava em decadência (algo com que eu não concordava). Agora chegou até nós um filme onde uma das atrizes angariou mais uma premiação do oscar e a crítica em geral foi benfazeja para com o filme. Custa-me acreditar, mais em minha opinião ele errou a mão. Não consegui ver em nenhum momento aqueles momentos de genialidade e inteligência que marcam sua filmografia. 


Existe no filme uma morena chamada Vick (Rebecca Hall - uma grata surpresa), uma loira e uma outra morena de nome Maria Elena. A junção das três dará o título ao filme: Vick Cristina Barcelona. Aqui um primeiro problema. Existe uma visão estereotipada da raça espanhola. Maria Elena não pode carregar em si o nome da cidade de Barcelona. Ela lá vive, mas longe está de representar uma fatia considerável das mulheres daquela localidade. Sabemos do puritanismo do americano. Da visão que eles possuem de que nos países latino tudo é permitido. Em si a história parece se resumir a essa visão estadunidense da vida. Que longe dos Estados Unidos qualquer um pode mergulhar num mundo hedonista. Que o americano está preso a uma visão moralista que o impede de desfrutar a vida. Allen deveria pelo menos conhecer a visão dos americanos sobre eles próprios nas séries de TV que nos chegam pelos canais abertos e fechados. Lá vemos a idéia de que a sociedade americana já deixou de ser puritana faz tempo (existe o ranço, mas cada qual vive para buscar o prazer a qualquer custo: Las Vegas e CSI - todos, para não deixar de citar nenhum). Sei que Allen detesta a TV. Basta então abrir as páginas policiais, constatar o aumento da violência e das drogas. 

As boas interpretações, o domínio da câmera está a meu ver a serviço de um roteiro que não é digno de seu talento.

Alguns dirão que o amadurecimento fez com que Allen explorasse o sex-appeal de seu elenco. Não um sex-appeal vazio, mas dotado de eloqüência, de espírito e de cultura próprio de suas criações. Ok, mas dotar o espanhol de uma testosterona, de um epicurismo e altivez não parece uma química plausível. Um Don Juan moderno e caricato acaba se tornando o personagem de Javier Bardem. E a forma com que as americanas lhe caem nos braços, sem em nenhum instante temer o outro (por mais culta e liberal que sejam) é irreal demais. Exagerada também Maria Elena. Um artista genial e ao mesmo tempo suicida. Alguém que para se equilibrar precisa ser limitada por outra na vida íntima. 

Ao final do filme notamos que a presença de um narrador mais presente que em suas outras obras onde foi utilizado tal recurso não foi gratuita. Foi uma tentativa de tentar amarrar com uma lógica, uma história fraca. Já nos indicava que faltou liga em seu roteiro. Liga e conteúdo.

De positivo no filme o final. Tudo acaba de forma natural como nas outras suas últimas obras. A diferença é que em “Ponto final” e em “O sonho de Cassandra” havia um conteúdo extremamente bem amarrado antes que os créditos finais surgissem.
Em suma um filme onde o bom elenco foi desperdiçado em uma história banal e medíocre. Bem longe do que o diretor pode nos oferecer. Que Allen se afaste com urgência do sol que lhe parece mais amarelado na Catalunha. Ou que ao menos perceba que o cenário pode ser outro, mas que ali cabe também aqueles personagens de cunho universal que ele já criou. Torço por isso.

Escrito em 12/03/2009

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Gritos e Sussurros (1972)



Gritos e Sussurros (Viskningar och rop) foi o primeiro Bergman que vi. Acabada a sessão, fiquei com ares contemplativos. Analisei a obra e posso dizer que não gostei. Claro que não achei ruim, mas o incômodo desperto em mim foi grande e mais com um pé no negativo do que no positivo. Logo em seguida – seguida mesmo, alguns minutos depois – assisti a Persona (idem, 1966). Excelente. Fiquei boquiaberto com o universo criado pelo sueco e o encanto transmitido pela química de Liv Ullmann e Bibi Andersson. Depois vi outros Bergman’s e cada vez ficava mais apaixonado pela filmografia do diretor. Simplesmente nenhum filme ruim, a imensa maioria deles nem menos que sensacional. Todos despertavam algo, assim como Gritos e Sussurros, porém não eram sentimentos confusos, muito pelo contrário, eram aprazíveis e, até quando incomodavam, eram no bom sentido. E Gritos e Sussurros continuava lá, no meu âmago, porém sem ter o meu carinho. Logo decidi que era necessário revisitar o clássico. Bem que eu fiz.

Agnes (Harriet Andersson) está à beira da morte. Ela sofre de uma doença dolorosa não especificada. Suas irmãs, Maria (Liv Ullmann) e Karin (Ingrid Thulin), se revezam com a empregada Anna (Kari Sylwan) nos cuidados da enferma. Todas no casarão de paredes vermelhas da família aguardam a iminente morte de Agnes. Ela não tem salvação, nem sua dor parece ter fim. O relógio badala, os gritos ecoam, os sussurros reverberam e o passado se revela.

O filme começa e termina mostrando o pátio da mansão onde vivia a família. A abertura é na manhã, com uma névoa densa entre as árvores. O término é numa tarde ensolarada de outono. Todo o resto da história, porém se passa dentro da casa. O cenário é vermelho. O figurino branco. Apesar de Bergman nunca ter revelado os verdadeiros motivos dessas cores predominantes, ele mesmo afirmou não saber o porquê das escolhas, é senso comum de que o vermelho é a cor representante da paixão e da raiva. Cor do sangue que corre nas veias e que, se fervente, leva a atos impensados referidos a esses sentimentos tão ambíguos, mas ao mesmo tempo tão ligados. O sexo, da mesma forma, está profundamente enraizado na obra.




Enquanto Agnes definha, o passado de cada personagem vem à tona. É difícil dizer qual das atrizes se sai melhor. Bergman, é claro, tem grandes méritos nisso também. Criado no teatro, o sueco nunca escondeu sua preferência pelos palcos e sempre privilegiou a direção de atores. Tendo como base um roteiro praticamente perfeito, os diálogos são o ponto chave da trama. A luz ilumina os rostos e ressalta as expressões das atrizes, revelando as aflições escondidas atrás de suas faces. A cena em que o médico (Erland Josephson) coloca Maria diante do espelho e analisa cada traço de seu semblante vem para confirmar isso. O diálogo usado de forma brilhante para elucidar as dúvidas do espectador acerca do tormento no rosto da mulher.

A religião sempre foi um tema muito presente na filmografia de Bergman. Filho de um pastor luterano, a fé já havia sido o centro das atenções do diretor principalmente em O Sétimo Selo (Det Sjunde inseglet, 1957) e em Luz de Inverno (Nattvardsgästerna, 1963). Em Gritos e Sussurros o tema é um pouco mais sutil, mas ainda assim muito presente. Agnes se torna um martírio dentre suas irmãs que a renegam, têm medo que sua doença seja contagiosa e não querem se envolver na sua morte. Em dado momento temos o discurso de um padre (Gunnar Björnstrand), que exalta o sofrimento pelo qual Agnes passou e, de forma totalmente egoísta, clama perdão para todos que vivem nesse mundo sujo. Segundo ele, Agnes, que tinha uma fé maior que a dele, seria a única pessoa que poderia interceder pelas pobres almas ali presentes. É a dúvida do homem diante de Deus mais uma vez dando as caras. O silêncio do criador diante do sofrimento de suas crias. Agnes, por sua vez, seria a ligação com Deus, praticamente uma nova salvadora.



Bergman usa a própria Agnes para falar também da mãe. Logo no começo do filme, a personagem conta que se lembra da genitora, já morta, como uma criatura fria. Conhecemos então a infância da protagonista e presenciamos sua visão diante da mãe, que lhe trata com diferença e até desafeto em alguns momentos. Tratamento esse muito semelhante ao que Bergman conta ter recebido quando criança. Numa das passagens mais marcantes de sua autobiografia, o sueco fala que, ao tentar abraçar a mãe, foi reprimido com um tapa. O diretor viria ainda a abordar toda sua infância de forma mais direta em Fanny e Alexander (Fanny och Alexander, 1982).

Os sentimentos são a base das relações de Gritos e Sussurros. O vermelho serve de termômetro para as agonias internas das personagens, reveladas aos poucos. Em cada lembrança, ou até visão dos fatos, o ódio desencadeia os verdadeiros acontecimentos do longa. Bergman filma a face de cada uma das mulheres, para que ela se desvaneça em vermelho e sua história seja contada. Karin e Maria se mostram mal relacionadas com os maridos, mesquinhos e distantes. O drástico e o trágico se tornam a solução para ambas, Maria trai o esposo e Karin mutila seu próprio sexo com um caco de vidro. As duas também estão em constante atrito, vivendo de brigas e acusações, motivadas por um passado assustadoramente misterioso.


A mansão vermelha é como um retrato conflituoso. Denso, simbólico e cruel. São esses os gritos e sussurros que não cansam de cutucar o espectador a cada tique-taque do relógio. Como uma obra de arte, é preciso observá-la com atenção, estudar seus detalhes e revê-la de tempos em tempos, a fim de reaprendê-la. Foi o que eu fiz. Bem que eu fiz, bem que eu fiz.

Giancarlo Couto

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Segredo De Estado (2008)



“... não se entreguem aos brutos, homens que vos desprezam e vos escravizam que arregimentam as vossas vidas, vos dizem o que fazer, o que pensar e o que sentir, que vos corroem, digerem, tratam como gado, como carne para canhão.”
Chaplin – Discurso final de “O Grande Ditador”

Estamos encarcerados dentro de um sistema onde a cada dia, em vários cantos de nosso planeta (que deveria ser o nosso lar) movimentos terroristas e serviços secretos travam uma guerra particular em nome de ideologias que supostamente se opõem. Onde a oposição? Terroristas e agentes secretos vivem quase que uma mesma vida. Estão condenados a clandestinidade, a não poderem ser eles mesmo; as estratégias de manipulação são inerentes a ambos os lados. Aqui os dois oponentes se assemelham. Um é Alex, Chefe do Serviço Secreto Francês, outro Barad, líder de uma rede terrorista. Ambos frios, inumanos mesmo, robotizados por um sistema que lhes tirou a alma faz tempo e que se valem de estratagemas terríveis para amealhar adeptos para suas crenças da maneira mais cruel possível. Aqui a história será contada através de dois personagens que serão regimentados de formas distintas. Uma jovem estudante de árabe que vendia seu corpo com uma identidade falsa para atender suas necessidades materiais. O outro, um jovem desorientado que não consegue se entender com a sua mãe. De forma distinta serão vítimas de sistemas que o recrutam como carne fresca para seus objetivos. Ainda que aparentemente as trajetórias soem diferentes, o final do trajeto é o mesmo: a maquinização do homem.

Os primeiros 10 minutos do filme nos situam dentro dessa podridão. Rápido, direto, de forma encadeada, colocando-nos dentro de uma atmosfera asfixiante ao nos postar imagens tão próximas de nosso cotidiano. E o que soava como suspeita nos é revelado como certeza ao término da projeção. Tratava-se de caça de carne fresca. Bucha para canhão. Podem chamar de mártir ou agente secreto. Trata-se apenas de carne para aqueles que o manipulam.

Diane (a linda e convincente Vahina Giocante) adentra num turbilhão onde se acreditando amada e amando, é recrutada pelo serviço secreto, sem poder até atinar por qual motivo. E tem-se inicio um treinamento que mais aturde que explica o motivo.  E nós que assistimos também somos tragados pelas engrenagens e não possuímos tempo para questionamentos. Do outro lado Pierre (Nicolas Duvauchelle) é um desorientado jovem que é vítima de uma armação e crê-se salvo por pessoas que acredita estarem preocupados com ele. Em realidade foi colocado em situação extrema para sentir gratidão pelos que supostamente o defenderam. Tornar-se fiel a crença de quem o salvou. Ou infiel as suas origens, depende do ponto de vista de quem já foi arregimentado pelas ideologias que se dizem distintas. Métodos de recrutamento tenazes, atordoantes e convincentes, que negam qualquer possibilidade de reflexão. Uma verdadeira descida ao inferno.

A maior força da narrativa, a grande virtude é essa não tomada de posição. Não se pretende aqui tomar partido. Mostram-se os fatos, os encadeiam de forma lógica e vertiginosa e deixa a conclusão para um espectador aturdido. A narrativa é ágil sem, no entanto soar um filme de ação americano (para o bem ou o mal). Existe uma característica tênue, um estilo reflexivo que o separa do que é feito nos EUA. Alex (Gerard Lanvin) urde uma estratégia para prevenir um ataque terrorista. Para ele o agente é uma arma, não um ser humano. Isso será repetido a exaustão durante a trama. Barad (Simon Abkarian) o seu suposto oposto também manipula, joga com a vida de seres humanos, desafiando tudo e a todos que cruzam seu caminho. Como um General de uma causa maior, ele se permite de excessos, como se a armadura com que se acha investido o protegesse das impurezas com que lida. Outro acerto raro em filmes dessa monta, é que nós não nos perdemos dentro desse enredo em constante mudança. Nada nos soa inverossímil e tal é realizado sem nos parecer didático (no sentido de enfadonho).

O filme dura pouco mais de 100 minutos, Um tempo que nem parece longo, tampouco curto. Os diálogos estão bem escritos e o elenco funciona perfeitamente: Duvauchelle encarna um personagem caricatural (afinal todos os manipulados soam iguais) que paulatinamente se vê em queda livre buscando um sentido para uma existência vazia. A depauperação psicológica e física é crível e o ator demonstra possuir a sensibilidade necessária para nos transmitir essa gama de emoções e aflições pela qual passa seu personagem.

Vahina Giocante é uma grata surpresa (não a conhecia). Acreditava que estava ali devido sua compleição física bela. Mas dentro da bela embalagem existe uma joia rara. É comovente e convincente as nuances de sua interpretação. A mescla de tomada de confiança e fragilização (ou impotência) no seu embate na demanda de servir sem se tornar uma máquina. É de longe a grande surpresa do elenco.

Gerard Lanvin é um bloco de gelo perene perdido no oceano do mundo, que não se comove em momento nenhum. Seu discurso repetido a exaustão apesar de terrível, acaba por cair na monotonia. E quando nos damos conta da existência da enfadonha monotonia percebemos a fragilidade dos sentimentos guardados a sete chaves.  Um ser prestes a implodir a qualquer momento. É tênue a linha que o separa da loucura.

Simon Abkarian compõe um terrorista religioso despojado de roupas que o liguem a tal. É na alma que ele está vestido como lobo. Todo grande filme de ação necessita de um vilão instigante. Esse é o caso aqui.


Para aqueles que se deliciam com os filmes de ação e espionagem realizados pelos americanos seria interessante ver o que os franceses fizeram aqui. Não fica nada a dever ao que é realizado de bom dentro do solo americano. Ainda que o tempero soe distinto, o produto é o mesmo.

Escrito por Conde Fouá Anderaos 

Senhores do Crime (2007)



“Anna é uma parteira em um hospital londrino. Na noite de Natal, ela recebe em seus braços a criança de uma adolescente que entra em trabalho de parto. No mesmo instante em que a criança nasce, a mãe falece, devido um ferimento adquirido em circunstância misteriosas. Decidida a colocar a criança em segurança, Anna procura pistas sobre a mãe, em um diário que a mesma portava. Uma barreira insuperável a espera: a adolescente era russa, e Anna apesar de sua descendência não domina o idioma. Crendo que seu tio não dispõe a tradução, ela procura o apoio de Semion (Armin Mueller-Stahl). Ao buscar a ajuda ela entra em um pesadelo do qual só sairá com a ajuda de quem menos se espera ...” 

O cinema de Cronenberg jamais me decepcionou. Longe estava, porém de me empolgar, mais ao menos possuía algumas qualidades que o tiravam do lugar destinado a filmes comerciais. Agora parece que ele abandonou aquele medical-horror sem, contudo deixar o argumento que parece mover seu cinema. Aqui em “Senhores do Crime” temos novamente o velho tema de parasitas que passam a atacar um corpo até conseguir dominá-los. O Corpo no caso é Londres, e os parasitas são os mafiosos russos. Uma Londres, diga-se de passagem, moderna. E também uma cidade mais tenebrosa e cinzenta que dantes.

Parece que Cronenberg renunciou ao imaginário tecnológico monstruoso que compunha seu estilo. Ele abraça a idéia de que a maior violência é aquela que impomos a integridade física de um corpo. Na atmosfera chuvosa de Londres se instala uma história de família violenta e visceral. Violações e assassinatos com as mãos nuas se multiplicam na história. Anna sem o saber mergulha nas raízes da máfia russa. Os personagens que ali desfilam despertam grandes interesses. Kirill (Vincent Cassel) é um jovem herdeiro de um mafioso. Notamos que em comparação com o pai ele é risível. A violência que dele emana nada mais é que uma poderosa atitude de defesa diante do império que ele terá de comandar e para o qual ele não possui capacidade para tal. Nikolai, o motorista de Kirill é um homem que prova possuir uma inteligência e capacidade visionária bem superior a de seu “mestre”. O interesse da história é de se identificar o mistério de quem realmente é Nikolai. Descobrir o que está escrito em seu corpo, que desde o início soa ilegível para nós. Jamais sabemos o que o motiva, parece que sempre ele está acima dos sentimentos e das sensações. A maneira como ele se entrega no ato sexual é mecânica e vazia. Não existe prazer naquele ato, somente o dever de cumprir uma obrigação. Deparamo-nos com um personagem que não pode ser visto como um herói, já que ele não pode ser movido por nada exterior. Sabemos que ele é uma máquina de morte, mas não sabemos o que pode causar a detonação de tal. Não existem espaços no filme para uma história de amor, já que o caminho trilhado por Nikolai lhe fechou as portas para uma vida familiar. Anna é apenas uma porta fora de seu alcance, uma promessa furtiva de família, de ligações calmas e felizes. Para se impedir que os ventos insalubres que sopram do leste desde a queda do muro invadam o solo europeu, é necessário que um homem renuncie a idéia de viver. Ele terá de ser uma máquina a serviço do bem. É necessário se sujar para poder realizar uma esterilização dentro da máfia. Criar um personagem tão complexo não é tarefa das mais fáceis. Viggo Mortensen se firma como um dos grandes atores em atividade. Sua criação é perfeita. E ele se destaca em um elenco onde ninguém falha.

Cronenberg parece se encaminhar rumo a realização de obras maiores. Esse filme e o anterior (Marcas da violência) nos fazem crer que obras melhores virão. Espero que tal se confirme, mas o que nos foi apresentado já é de bom tamanho.
Escrito em 18/12/2010 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Crown, O Magnifico (1968)


Revendo filmes que foram refilmados caminhava numa estrada que visava desmentir o que está sedimentado como verdadeiro no mundo vivido pelos cinéfilos: Que o remake é geralmente inferior ao original. Contudo nos últimos meses vira os filmes: O Homem que sabia demais (ambos feitos por  Hitchcock onde a refilmagem só não suplanta totalmente a original pela falta de Lorre); A Vitória será tua (1934, de Capra) refilmado por ele na década de 50 e que ganhou por aqui o título de Nada Além do Desejo, um filme no máximo bom, mas que supera em muito o anterior; Duas Vidas (1939) de Leo McCarey refilmado também na década de 50 e que ganhou as telas brasileiras com o nome de Tarde demais para esquecer (levemente superior ao original).



Agora a obra de Jewinson possui a virtude maior que faltou a sua refilmagem (além de mais charme): Não procura dotar de lógica em imagens aquilo que é engendrado pela mente de um homem. Estamos no campo da infinitude de possibilidades e isso é justamente o que nos fascina em tal obra.



Thomas Crown rico e sedutor homem de negócios organiza um assalto a um banco para enganar o fastio de sua existência e também como forma de satisfazer seu gosto pela adrenalina. Sem necessariamente se envolver fisicamente no feito, ele contrata alguns homens que servirão como marionete de sua mente privilegiada. Seguindo milimetricamente seu plano, no final o saque é depositado numa lixeira em um cemitério onde ele o recupera. Uma detetive de uma companhia de seguro fica fascinada pela forma como tudo foi engendrado e se aproxima do fascinante milionário com o intuito de provar a sua culpa. Tem inicio um jogo de rato e gato mesclado a um ambiente de sedução e intimidação que mais fascina os protagonistas e o público que os acompanha, do que aterroriza.


O diretor  Jewison possui em seu currículo obras de vulto como “Um Violinista no Telhado” e “Justiça Para Todos” que serviram para calar aqueles que teimavam em ver nele simplesmente um diretor comum. Um ano antes de Crown  já abocanhara o prêmio principal da Academia com “No Calor Da Noite”.



Podemos dizer sem errar que Crown o magnífico é um filme que serviu para reforçar a aura que se formava em torno de seu nome, ainda que estejamos distante de uma obra prima. A maior virtude de “Crown” é justamente de não buscar explicar de forma lógica, mas sim através de reflexos a mente de um homem. Thomas Crown seria  um cidadão acima de qualquer suspeita, mas um outro ser dotado de uma mente tão engenhosa quanto a sua, o coloca como o principal alvo de sua investigação. A canção assinada entre outros por Legrand e que ganhou merecidamente a estatueta da academia (The Windmills of Your Mind) e que abre a película casa perfeitamente com o que nos será apresentado. O que se passa na mente de um homem? Do que é dotado o espírito humano? No caso de Crown, notamos que o que ele realiza é algo que nos fascina. Seu intuito não é o de angariar mais dinheiro, já que o que ele possui lhe é suficiente. O que ele deseja é romper os limites que cerceiam a sua vida. Foi casado, teve filhos, tem uma posição de respeito dentro da sociedade, dedica-se a diversões onde busca obter adrenalina para se sentir útil e vivo. Apesar de possui uma vida aparentemente privilegiada, sentimos que lhe falta algo. O mundo capitalista onde vive, e no qual ocupa uma posição de destaque não o preenche como devia. Obtivera tudo o que muitos perseguem em uma vida inteira e falta-lhe um sentido maior. A detetive que pode parecer uma ameaça séria soa-lhe mais como um alívio em sua fastidiosa existência do que uma ameaça. Um ser que também busca novos desafios, alguém para se lhe ombrear na vida. Ainda que fiquemos fascinados com o mundo que nos é apresentado, não nos deixemos enganar. Atrás de todo requinte e elegância existem amarras que limitam a real capacidade do ser humano. Uma crítica velada ao sensualismo que limita o homem. Crown é também um animal acuado em uma jaula que cerceia sua liberdade e a qual deseja  romper.



O início do filme com o letreiro e a tela dividida, não com o intuito de nos divertir, mas sim de tentar romper os limites do possível ao nos procurar postar dentro de um processo criativo de uma mente que busca materializar algo que rompe o cotidiano repetitivo de uma vida sem sabor. A ação que parece correr em vários lugares em geral só se dá em um: Na mente de Crown. Os vários personagens que acompanhamos são em realidade extensões de sua mente, como nossos membros de nossos desejos: Quero agarrar uma maçã, meu braço obedece e a mão a toma. A tela dividida não possui o intuito de divertir, está ali para servir a história. Não é um adorno sem outra função que seja a de iludir nossa atenção. Isso me encanta. Dá-me bem estar também a trilha sonora bem resolvida, os atores sóbrios  a serviço da história, ao invés de procurarem se destacar nela. Jewison se vale da influência da época da feitura do filme e não a nega. Alem da utilização da tela dividida, temos enquadramentos bem resolvidos, iluminação psicodélica, cenários de alta tecnologia, que fizeram a fama de séries como James Bond. Alie-se a tudo isso o mito Steve McQueen com o phiquique du role necessário para o papel e o charme destruidor de Faye Dunaway (e imaginar que Anouk Aimée recusou o papel – que tolice; mas sinceramente não sei se casaria tão bem quanto Faye).




"Crown, O Magnifico" segue ainda como um exemplo de um filme de classe e refinamento, que a sua refilmagem não conseguiu atingir. Apesar disso fica em nós a sensação que não se conseguiu mergulhar de maneira decisiva nos moinhos da mente do ser humano. Mas ao menos se atentou para isso.

Escrito por Conde Fouá Anderaos


Você É Tão Bonito (2005)


A primeira vista podemos pensar que se trata de uma dessas comédias românticas que a indústria cinematográfica produz as dezenas. Ledo engano. Não que o filme não passeie pela comédia e não resvale no romantismo. Muito pelo contrário, encontramos em seu bojo elementos que reforçam a tese de que é apenas mais uma comédia romântica. Só que sua diretora, conseguiu escapar das armadilhas que tornariam a obra um verdadeiro “déjà vu”. 
A história parte de uma premissa até certo ponto simples. Um camponês cuida de sua fazenda com a ajuda de sua esposa. Ela morre de maneira repentina e trágica. Ele, mais que a falta da fêmea e companheira, sente em realidade a ausência de alguém com quem compartilhar as tarefas existentes na fazenda. Aymé Pingrenet (Michel Blanc – numa interpretação fantástica) resolve apelar então para uma agência matrimonial (visto que não dispõe de tempo para flertar), que ao ouvir suas necessidades, orienta-o a buscar uma romena. De início ele reluta, mas sua incapacidade de lidar com a ausência de uma ajudante acaba por conduzi-lo a Romênia. Lá ele escolhe Elena, pelo seu ar robusto (não por suas curvas) que o faz concluir que será uma boa ajudante. Ela também está interessada em cativar esse homem, a fim de poder enviar dinheiro a família que permanecerá na Romênia (sobretudo a filha de seis anos). Como vemos uma idéia simples e a primeira vista pouco original. Um homem mais velho que irá conquistar e ser conquistado por uma mulher mais jovem. A diretora entretanto coloca tal argumento de uma forma muito particular. Mais que uma comédia romântica trata-se de uma crônica social e de costumes. O mundo que cerca Aimé (rural) é nos mostrado sem aquela maneira que estamos acostumados a ver (ou imaginar). Não se trata de um mundo caricato, ele remete a realidade européia. Existe naquele país uma falta de mão de obra que se dedique ao campo. Existe também um certo preconceito quanto aos africanos, as pessoas do Leste europeu e também aos latinos – quer europeus ou não, que poderiam suprir essa falta. Isso fica evidente, quando em um diálogo que nada tem de romântico ele a chama de puta (já que é romena). Notamos que quase todo o trabalho na fazenda é secundado pela tecnologia, que serve para suprir a ausência do homem. Em uma tomada a meu ver simples, mas que comparo seu alcance as melhores da história do cinema* , toda essa idéia é sintetizada: Aimé almoça acomodado na roda traseira de seu trator. Só vemos ele e a roda. E ela o suplanta em tamanho. Um simples apêndice de uma máquina é maior que o ser humano. O campo cada vez mais pertence também as máquinas.

O filme em um momento também critica a visão romantizada do mundo, vendida pelos americanos com as suas Óperas Sabões (as nossas novelas). E foi um aviso dado logo no início da película, quando Aimé chama a atenção da esposa. Lógico que não veríamos uma comédia romântica.

Os momentos de humor são vários e dos melhores: Destaque para a hilariante seqüência das s entrevistas com as postulantes a esposa na Romênia (que dá o título ao filme). No final vêm-nos a certeza de que o que motivou a feitura do filme foi a critica a questão da pobreza que faz com que mulheres do leste europeu queiram sair desse estado, permitindo-se virarem mercadoria.

Para aqueles que buscam enquadramentos rebuscados ou efeitos especiais um aviso: Embarcaram no trem errado. A diretora optou por manter distância da indústria americana. O ritmo do filme é aquele do campo( Que já está bem acelerado, diga-se de passagem).

O destaque do filme, no entanto, é seu elenco. Michel Blanc e Medeea Marinescu estão sublimes. Ele consegue dar toda uma gama de emoções e sentimentos ao seu personagem. Ela se mostra uma atriz de rara sensibilidade e potencial dramático: Não permite que ele lhe faça sombra. Cumpre aqui dizer que o elenco secundário também dá conta do recado. Palmas para a diretora que não permitiu o adentrar de caricaturas. Em suma um filme que a princípio pouco prometia, mas que se tornou a meu ver uma das gratas surpresas dos últimos anos. Belíssimo trabalho de Isabelle Mergault. Um nome que desde já merece nossa atenção redobrada.


*Veio-me a lembrança a cena em que o personagem vivido por Keaton em “A General” , após perder a amada, é conduzido nas (pelas) engrenagens de sua locomotiva sem se dar conta.



Escrito em 03/10/2007 por Conde Fouá Anderaos


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Quando Eu Era Vivo (2014)

                                              

A chegada de Júnior (Marat Descartes) a sua velha casa, que agora somente seu pai e uma estudante de música moram, é fatal. Ao redor dos prédios, um grito, silêncio e escuro, ruas pouco iluminadas, bairro pouco simpático. Acompanhado por seu pai, segue por um velho elevador, até o velho apartamento. Pronto, já está instalado o cenário a qual iremos acompanhar até o fim, mas há algo de errado. Junto com Júnior, mesmo antes de conhecermos o apartamento, rodamos lentamente o olhar á procura da resposta do enigma, que se apresenta na forma como adentramos a esse mundo. Aparentemente, avistamos uma residência comum, normal, mas os olhos de Júnior (câmera de Dutra), procura, investiga as paredes, o chão, a iluminação.


Esse primeiro encontro nosso, de espectador com o filme de Dutra, é simples e direto, mas calmo, paciente, sugestivo e contemplativo. Assim como em seu trabalho anterior, Trabalhar Cansa (Idem, 2011), junto com O Som ao Redor (Idem, 2012), parecem formar uma espécie de trilogia, conjunto de filmes, peças que se ligam e enlaçam entre si. O terror de Dutra é, mais uma vez, calcado na sugestão/provocação que o seu tema propicia. Já firmado como cineasta da tragédia, apocalipse e caos da classe média baixa (classe c), como no filme de Kleber Mendonça Filho, nos ligamos a fragmentos, sons, soltos no ar, de todos os tempos, imagens e movimentos não contínuos, mas conectados entre si. Por isso, Quando Eu Era Vivo (Idem, 2014) é antes de mais nada um testemunho da linguagem cinematográfica adaptada para a realidade, do cotidiano, da vida de centenas de brasileiros. O que demonstra tanto Kleber quanto Dutra em seus dois filmes parece ser, se não a mesma ideia, semelhantes: O brasileiro e o terror do seu cotidiano tedioso.


Parece difícil, em um primeiro momento, perceber o terror dentro desse contexto. Do que afinal, é feito esse terror? A adaptação do horror no filme de Dutra, diferentemente do que fez em Trabalhar Cansa, é muito mais intensa, mesmo se mantendo no suspense entre imagem e som. Se utilizando do cinema de terror como foi criado, de essência sugestiva, enigmática, misteriosa, sua linguagem se mistura com a clássica e a moderna, afinal, Quando Eu Era Vivo, não deixa também de pertencer ao cinema de terror de James Wan e Oren Peli ( respectivamente Sobrenatural [Insidious, 2010] e Atividade Paranormal [Paranormal Activity, 2007]). O uso dessas duas linguagens em seu filme proporciona uma nova visão do medo; ao mesmo tempo que temos medo do que ouvimos, mas não vemos e vice-versa, estamos em contato com uma linguagem estética em particular, a do flashback, do vídeo e mesmo das velhas metáforas visuais que rondam o folclore e contos de terror, como o movimento de objetos tal qual uma cortina se mexendo violentamente com o vento.


A linguagem de Dutra afinal é a peça-chave. Quando Eu Era Vivo não é um filme de sustos, nem sequer possui uma cena de berros ou gritos ensurdecedores. O cinema de Dutra é o que afinal? Mais do que um primogênito de Hitchcock ou Tourneur, Dutra parece seguir uma linha parecida com a de Shyamalan, explorando o caos e o suspense através do imaginário religioso, do âmbito da fé. Seguindo, claro, a linguagem construída por quem originou o cinema do país, não só brasileiro, mas do Brasil, para o Brasil e sobre o Brasil – Glauber, Sganszerla, Bianchi, Tonacci e muitos outros -, assim como Kleber Mendonça, se utilizando para criticar a sociedade brasileira, impondo a ela símbolos (santos, crucifixos,  ou alguma crença a quem se possa refugiar do terror da rotina, nem mesmo que seja o trabalho, qualquer ação que saia do ócio). Simbologia essa que é quase tão vital quanto o ar que seus personagens respiram, mas também tóxica, asfixiante e mortal. Por isso, não atoa, o conto alucinado e alienante conto de Cronenberg, Videodrome – A Síndrome do Vídeo (Videodrome, 1983), se encaixa bem para explicar o filme de Dutra, que tanto se utiliza do poder da imagem, quase de forma literal.



O isolamento de Júnior é compreensível. Na sociedade brasileira, parecida com a de Beleza Americana (American Beauty, 1999), o homem escapa através da masturbação, do desejo e enlouquece através do mesmo, do trabalho entediante, da garota que nunca ira gostar de você, da falta de emprego e metas, da idade, do peso e às vezes até dos pais que ainda de forma ou de outra, te sustentam, por que você ainda não consegue sobreviver na selva urbana. A classe média baixa é esse animal indefeso. Porém, no terror de Dutra, talvez o surto, a psicose, a loucura leve a algum lugar, quem sabe o da salvação, quem sabe o da perdição e por que não arriscar?