terça-feira, 26 de agosto de 2014

A Perseguição (The Grey)







Uma declaração de amor. Não qualquer declaração; mas uma declaração fausta e franca sob a contemplação de um homem de olhar vazio e fatalmente desesperançado. Entrecortes, nos quais se afiguram uma mulher ausente, “sem que se deixasse de relembrá-la um só instante”. Um dócil gesto: amavelmente tirar-lhe os cabelos lisos e soltos que recobriam a maçã de seu rosto e seus grandes e belos olhos de mistério. Apenas uma memória. E uma exclamação categórica: nunca mais poderei vê-la! 


Mais cortes que oscilam na continuidade do discurso desolado. Um gole de bebida. E mais um. E outro mais. O esboço de uma fotográfica lembrança e a certeza de um temível destino, sem mais. E outra virada de copo, e uma dose a mais.


A neve, o vento gélido, o refúgio na solidão. A mais plena confusão entre o ambiente geográfico e o coração humano. Cores pálidas e cinzas; nenhum sinal do Sol. E então um uivo ecoando distante, gritante, porém indefinível. É um lobo que uiva ou um homem que sofre?




Por entre neblinas e flocos, vemos o homem, que anuncia sua própria morte ao findar do dia. Ou talvez já estivesse morte antes mesmo de anunciá-la. Ao seu redor surgem outros homens, com os quais trabalha nesse ambiente inóspito, homens aparentemente perdidos em sua miséria, ou aventureiros exóticos, ou, quem sabe, apenas um bando de potenciais suicidas, de si mesmo dando risadas, com seu fim friamente planejado. Nenhum lugar seria melhor para o fim do que o próprio fim do mundo.


Em meio às hostis circunstâncias externas – e ao mesmo tempo tão internas! - veem-se acidentados no meio do nada. Alguns desistem, alguns insistem, alguns sangram até a morte. A esse ponto, a luta pela sobrevivência é tudo o que lhes resta. Propositalmente, acredito eu, a incansável chuva de gelo é sempre levada pelo vento em direção contrária ao caminho que os homens precisam seguir, como que se, nas filmagens, imanassem ventiladores das próprias câmeras, cobrindo de gelo quem quer que apareça. Em todas as direções que tomam, a nevasca demasiadamente agressiva metaforiza uma adversidade insuperável que precisam aprender a adaptar-se ou sucumbir-se; não só com respeito ao nada aprazível mundo externo, mas, e, sobretudo, com a avalanche de sofrimentos que sufocam seus próprios dolorosos sentimentos.




Esse esboço de minha perspectiva, do que seria uma breve narrativa inicial (não descrevi sequer mais do que as cenas iniciais, de alguns poucos minutos) apenas para dizer que ambos, crítica e público, enganam-se ao julgá-lo um mero filme de “lobos caçando homens no gelo”. E é com esse viés distorcido que nomearam o simples e bonito “The Grey” como “A Perseguição”.


Abro parênteses aqui para um desabafo pessoal. Em vista de mais uma das patéticas traduções brasileiras tão usuais, assim como a afetada correlata incompreensão na tradução de sua intenção e significados. Ora, a clarificação de certos símbolos não poderiam – e nem deveriam – se definirem a si mesmos, ao menos não de uma forma sistemática, como axiomas matemáticos ou princípios científicos. 


A arte, enquanto tal, deve afetar a sensibilidade e subjetivada humanas, não se explicitando abertamente (ato que muitas vezes parte do pressuposto de que o público não possui capacidade alguma de interpretação imagética), a arte deve seduzir sem se entregar, deve flertar com possibilidades e dimensões novas, a partir de elementos tais como a verdadeira expressão poética, o flerte com a consciência humana, em todos os sentidos, a arte deve ser de tal essência que se eleve a si mesma e possa se reinventar. É com tristeza que leio críticas que se tecem nessa orientação tão supérfluas. E é ainda com mais tristeza que vejo o público sendo “educado” a acatar essas fórmulas simplórias. 



Pois é. Afinal, quem precisa de Arte? 


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Os Noivos (1963)



Os Noivos (I Fidanzati, 1963) é um filme de tiro curto. Escrevo isso me referindo ao seu tempo e até ao seu enredo. São 77 minutos rápidos que contam uma breve parte da vida de Giovanni (Carlo Cabrini), um jovem que muda de cidade por uma oportunidade de emprego definida por ele como “única”. Para tal ele se vê obrigado a deixar seu pai num asilo e sua noiva Liliana (Anna Canzi) para trás, tentando manter o relacionamento à distância. Os Noivos é daqueles filmes que curtos que permanecem por dias nos nossos pensamentos.

Os créditos iniciais são apresentados enquanto presenciamos um baile dançante sendo organizado e depois acontecendo. Através de flashbacks, que continuam durante todo o longa, o diretor Ermano Olmi deixa o espectador a par da história. A jovem que está sentada num canto de cara amarrada e não quer dançar com ninguém é Liliana. O homem que tenta lhe agradar é Giovanni e estes são os últimos momentos dos dois juntos antes da partida dele.

Saindo de Milão, a metrópole, Giovanni se transfere para a Sicília, que mistura interior com cidade. O jovem sente essa mudança logo ao chegar ao seu destino. Na cena em que os gerentes da indústria o buscam no aeroporto e, em seguida, quase atropelam um velho de carroça na rodovia, mostra o conflito entre o urbano e o rural. Isolado e vivendo num pequeno quarto, Giovanni percebe que o emprego não é tão bom quanto ele esperava. Aliás, sua atividade no emprego praticamente não tem espaço no filme, Olmi se dedica a mostrar o jovem em seu tempo livre, caminhando pela cidade e se envolvendo com outra mulher, que claramente não tem nenhuma importância para ele. Giovanni não consegue estabelecer nenhuma ligação com as pessoas dali, sendo distante em qualquer conversa, que sempre parte dos outros, nunca dele.




A solidão leva o homem ao questionamento. Giovanni pensa, lembra-se de sua cidade, de sua noiva e de seu pai, mas nunca conseguimos nos adentrar em sua mente. Giovanni nos repele, assim como o faz com as pessoas a sua volta. Só temos lugar para observar seu descontentamento e sua busca por algo, que ele esconde num lugar onde ninguém pode chegar. Enquanto isso o protagonista passeia sozinho pela cidadezinha.

Trazendo o passado através de flashbacks, Olmi mostra as conversas que o casal teve quando o noivo noticiou sua partida. O relacionamento, que passava por uma crise, está a ponto de acabar com a partida do homem. Através de cartas, porém, a relação dos jovens perdura e até se fortifica, como a própria Liliana fala em certo momento. A rotina da companhia um do outro fora quebrada e isto reascendeu sua cumplicidade.

Não é só a narrativa arrojada de Os Noivos que chama a atenção. Sua bela fotografia em preto e branco se destaca facilmente. A beleza de cada quadro, focando muitas vezes os rostos e traços dos atores, é impressionante. A arquitetura industriaria da Sicília, bem como suas casinhas e ruas estreitas de pedra, compõem um cenário confortante de interior.




O sonho de um futuro melhor é o que move os trabalhadores para a Sicília. Passado logo após a Segunda Guerra Mundial, durante a época em que a Europa estava em crise, Os Noivos resgata aquele futuro incerto de indivíduos que se preocupavam apenas em garantir um teto e o que comer. O destaque é a cena no ônibus em que os empregados conversam sobre o movimento de trabalhadores que se iludem com as oportunidades criadas ali.

Obra não muito falada, Os Noivos carece de reconhecimento, seja do público ou até da crítica especializada. Fato esse que não deixa de ser estranho, devido às tantas qualidades apresentadas no longa. Perdido no tempo, o filme não deixa a desejar perante outros grandes expoentes do cinema europeu da época. O certo é que quem o assiste ganha algumas horas de boas dores de cabeça. Ou pelo menos deveria.

Giancarlo Couto

domingo, 24 de agosto de 2014

Nada É Sagrado (1937) - Crítica



“Punido por seu patrão, jornalista para retornar as graças com ele, aceita escrever uma série de artigos sobre jovem infeliz contaminada por rádio que possui pouco tempo de vida. Quando chega a pequena cidade onde ela mora, é ludibriado por ela, já que o médico já havia lhe dito que o diagnóstico era errôneo: em realidade tratava-se de anemia – trata-se de um médico incapaz e dado as bebidas – único disponível no pequeno lugar. Ela se cala e aceita se dirigir a New York e viver alguns dias de Cinderela como se estivesse a viver os últimos.”



Alguns mais atentos verão nessa sinopse semelhança com outro filme: Adorável Vagabundo (1941) de Frank Capra. Contudo Wellman e o roteiro não possuem por trás a preocupação social que o siciliano possuía o que enfraquece seu resultado. Entretanto, esse não é desprezível. O roteiro (escrito por vários autores) possui algo daquela magia que (salvo raras exceções) jaz perdida pelas gerações atuais. Wellman, conhecido por seus westerns e filmes de Guerra se não decepciona, também não empolga. Falta-lhe uma maior desenvoltura para explorar as várias situações propiciadas pela história. Fica centrado apenas no romance entre o jornalista e a “vigarista” esquecendo-se assim de outros achados: o jornalismo sensacionalista e a fome pela tragédia da população (que a imprensa marrom como Datena e Marcelo Resende explora até hoje – Wilder exploraria tal a perfeição no genial “A Montanha dos Sete Abutres”). Alguns personagens ainda que caricatos, nos divertem muito: Connolly cria um dono de jornal hilário, o engraxate e sultão (feito por Troy Brown Junior) é um achado, o médico alcoólico divertido. Se Carole Lombard se sente a vontade no papel, falta a March o cacoete necessário para compor o personagem. Parte da falta de química da dupla central nasce dessa falta de traquejo de Fredric para a comédia.



Alguns críticos acostumados a ter contato com a safra perfeita daquela época: Capra, Lubitsch, Hawks, Sturges, alguns La Cava e Leisen, certamente criticarão a obra e verão nela diálogos pouco explorados e algumas situações que mais constrangem que divertem (O esquilo sobre as costas da protagonista e seu grito para ficarmos em um). Mas credito muitas das falhas mais a direção de Wellman. Ele parece se perder com o roteiro e não possui a versatilidade necessária para trabalhar com o tema. A mise em scène soa insensata e monótona em vários momentos; e o gênero ao contrário disso pede e requer uma disciplina e um manuseio das situações bem mais elaborada por parte dos atores em cena. Apesar de contidos em suas virtudes pela direção, notamos o conhecimento que possuíam do que deveriam realizar em cena (exceto March). Apesar disso, o filme ainda surpreende e o tema que trata é pertinente até hoje. Prova suprema que o que falta para os roteiristas de hoje é passearem seus olhos pelo que era produzido na velha Hollywood. Como o filme caiu em domínio público as cópias em DVD nem sempre trazem aquela preocupação em se manter a obra a mais perfeita possível. Mas isso não é culpa da obra e nem desculpa para que não a conhecermos. Boa diversão para aquele que se aventurar a vê-lo.


Escrito por Conde Fouá Anderaos 

Zelig (1985) Crítica




“Ele aparece pela primeira vez em 1928. Dotado de uma característica única, a de tomar a aparência das pessoas com que ele se encontrava frente a frente (não só física, mas psicologicamente também). Assim frente a um obeso ele se tornava obeso; frente a um boxeador, boxeador também; diante de Eugene O’Neill, um talentoso escritor. Recebe o apelido de homem camaleão. A Doutora Eudora Fletcher vê em Zelig mais do que uma novidade, ou uma cobaia científica. Enxerga nesse ser humano, alguém com uma necessidade imensa de ser amado e compreendido. Daí ele desenvolveue essa característica de se metamorfosear para ser aceito. Eudora pretende trata-lo, mas é impedida pelos interesses familiares, que desejam exibi-lo como atração circense. Uma reviravolta o coloca novamente em contato com Eudora Fletcher e após cura-lo eles acabam se casando. No entanto, começam a pulular vários processos para que ele reconheça a paternidade de várias crianças; as mulheres que ele iludiu quando assumia outras personalidades...”

É altamente gratificante acompanharmos o trabalho de um artista e verificarmos sua evolução e seu amadurecimento. No caso de “Zelig” tal evolução pode ser notada mais claramente, já que o que Allen fez foi retomar uma antiga idéia, aprofundando-a, tornando-a mais rica, mais densa e aparentemente menos engraçada. Em minha opinião seu filme “Um assaltante bem trapalhão” do final da década de sessenta, já trazia muitos dos elementos constantes nessa obra-prima que é Zelig. Se o filme anterior fazia-nos cair na gargalhada e era muito bom, esse aqui atinge a perfeição.




Assisti pela primeira vez, quando de sua estréia no país. Foi calorosamente recebido pela crítica de então. Na época, diziam que o filme era uma sutil repreensão aos regimes totalitários. (leitura perfeitamente plausível, como poderemos ver a seguir).

Leonard Zélig é um falso autêntico. Ele jamais existiu, mas o cineasta nos brinda com uma construção tão perfeita de um documentário que os mais incautos (quem adentrou no cinema sem um prévio conhecimento de quem era Woody Allen, ou do que o filme tratava) demora para perceber que tudo que nos é apresentado é falso. Já quem conhece ou conhecia Allen, já esboçava um sorriso com o embuste que via. O filme nos fascina na medida em que a presença de Zelig perverte os conhecimentos prévios que possuímos do passado. A sua passagem pelos Estados Unidos da década de vinte e trinta, sua ida a Europa durante a ascensão de Hitler, a confusão que causa no vaticano, os resquícios deixados na dança e música daquela época, bem como no cinema. Jamais um cineasta se utilizou o saber para criar elementos de ilusão e mistificação, construindo assim de provas irrefutáveis da existência de alguém que nunca existiu. Alguns se recordarão de Welles e sua transmissão radiofônica da “Guerra dos mundos”. Outros da obra de Orwell (1984) que se referia aos governos de Stalin e Hitler.

“Zelig” é um grande filme. Um dos maiores documentários ( se aceitarmos a falsa premissa de sua existência) realizado pelo cinema. 

Apesar de sua originalidade, o filme contém alguns dos elementos do cinema de Allen, uma crítica sutil a sociedade: A questão judaica, o fato de não conseguirem um espaço dentro da Sociedade; o racismo dentro dos EUA, “um judeu que pode se transformar em índio ou negro é uma tripla ameaça”; a necessidade de produzirem ídolos, ele é perdoado após suplantar o feito de Charles Lindbergh. 




Woody Allen demonstra toda a sua cultura, pois faz exatamente aquilo que os regimes totalitários faziam para criticá-los: Falsifica a realidade (1984). Se pensarmos que um dos atrativos dos regimes totalitários é a perda da identidade para se fazer parte da massa, Zelig é exatamente isso. Ele não possui identidade, consegue assim fugir de seus problemas e de sua existência complicada, se amalgamando ao ambiente que o circunda. Allen não se contentou em amealhar documentos que comprovassem a falsa biografia. Se em “Um assaltante bem trapalhão” atores interpretavam especialistas que opinavam sobre o larápio, aqui ele traz a tela pessoas reais para creditar sua criação: Bruno Bettelheim, Susan Sontag e Saul Bellow tem suas opiniões misturadas aquelas dos contemporâneos de Zelig criados pela mente fértil do diretor. Bettelheim fala que Zelig simboliza o desejo que os judeus têm de se enquadrar dentro da sociedade americana.

Esse desejo de ser outro, de desaparecer no todo, não pode ser visto como um ápice do conformismo? No caso dessa criação, graças a Deus, o diretor demonstra que apesar de falar de judaísmo, ligações com as mulheres, grandes temas, psicanálise e outras obsessões suas, o diretor coloca-as sempre sobre um novo prisma, mais ou menos aprofundado. Zelig ainda perdura em minha opinião como sua obra-prima, um dos melhores filmes da década de 80 e da história da sétima arte. Contudo o diretor demonstra que ainda pode nos brindar com obras de impacto (Match Point, 2005). 

Zelig é curto, direto e densamente rico. Um maravilhoso trabalho de trucagem, fotografia, roteiro, interpretação, cenografia, etc. Tudo aquilo que podemos esperar de um gênio. Surpreende por ultrapassar em muito, as melhores expectativas que pudéssemos possuir ao ir ao cinema. 

Inqualificável, no melhor sentido do vocábulo.


Escrito em 29/03/2008

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Ran (1985)



Das maiores injustiças do mundo foi Akira Kurosawa ter vivido “apenas” 98 anos. E pior, eu diria até que ele nasceu na época errada. É tão injusto um ser humano que sabia trabalhar tão bem as cores ter realizado a maioria de seus filmes em preto e branco. Mesmo com belas fotografias, seus filmes dos anos 1950 e 1960 não têm o charme de Ran (idem, 1985). Com estética primorosa e uma direção de fotografia impecável– meu Deus, o que é aquela cena em que o sangue jorra na parede? –, Ran é um dos filmes mais bonitos já feitos.

Adaptação da obra Rei Lear, de William Shakespeare, Ran conta a história de uma tragédia provocada por ciúmes, traição e cobiça, tudo dentro de um só clã. Já em sua bela cena de introdução, uma caçada a javalis, Kurosawa apresenta a família Ichimonji. Outrora grande líder e agora um velho se aproximando da senilidade, Hidetora (Tatsuya Nakadai), resolve se retirar de suas atividades e passar a liderança do clã para o filho primogênito, Taro Takatora (Akira Terão), causando desconforto entre os irmãos Jiro Masatora (Jinpachi Nezu) e o rebelde Saburo Naotora (Daisuke Ryu), que não se conforma com a decisão do pai. Após uma árdua discussão, Saburo é deserdado e foge.


Logo as divergências minam a liderança de Taro. O próprio Hidetora não respeita o comando do filho, que se deixa levar pelos conselhos vis de Lady Kaede (Mieko Harada), sua esposa. Insatisfeito por ter que se reportar ao irmão, Jiro planeja lhe roubar o trono e tomar Kaede para si. Após intrigas causadas por seus soldados e pela esposa de Taro, Hidetora é expulso pelo filho mais velho e procura asilo no castelo de Jiro, que também lhe nega abrigo. Mesmo tendo sido deserdado, Saburo parece ser o único a ainda se importar com o pai.




O jogo de traições apimenta a disputa pelo poder entre irmãos. Nenhum personagem cede espaço a outro, mas o verdadeiro destaque fica por conta de Lady Kaede. Com falas sutis que envenenam a mente dos homens a sua volta, a jovem que busca por vingança se insere nos bastidores das batalhas e causa a discórdia no clã de diversas maneiras.

O roteiro se mantém em alto nível durante as mais de duas horas e meia de filme, revelando aos poucos as verdadeiras intenções dos antigos personagens e apresentando novos, que também serão importantes para o desfecho final. As reviravoltas constantes dão o tom dramático necessário à história, criando o cenário ideal para a tragédia cada vez maior que se aproxima. Explorando o ambiente familiar e a pressão que há sobre grandes líderes, Kurosawa mostra as dificuldades que o poder traz, principalmente quando o grande líder não pode contar com o apoio nem de sua própria família.

Shakespeare sabia escrever como ninguém tragédias. Com requintes de crueldade então, ninguém alcançou o seu nível de sadismo com os personagens. É interessante perceber que os próprios personagens de Ran clamam contra os céus, falando das desgraças que vivem e blasfemando contra aqueles que tomam as decisões divinas, sejam eles deuses, Shakespeare ou Kurosawa.


De longe a obra de Kurosawa mais ambiciosa – demorou mais dez anos para ser concluída –, Ran conta com cenários imponentes e grandes batalhas envolvendo diversos atores e figurantes. Temos longos planos gerais destacando a figura diminuta do homem diante de imensas paisagens, além de cenas de batalhas com planos aproximados, trazendo a confusão da luta para o espectador. O ambiente parece também ser um personagem da trama. O vento e a chuva acariciam os vastos campos, os céus coloridos ajudam a trazer impacto às cenas panorâmicas, ou até mesmo àquelas em que os personagens dialogam em topos de montanhas, com planos baixos, valorizando o céu ao fundo.




Em aspectos visuais, tudo é grandioso em Ran. Não é a toa que o filme recebeu o famigerado Oscar de Melhor Figurino, sendo ainda indicado aos prêmios de Melhor Direção de Arte e Melhor Fotografia. Nessas categorias perdeu para o multivencedor Entre Dois Amores (Out Of África, 1985), daquelas obras soníferas e burocráticas que a academia ama tanto.

Ran mostra que a construção de um reino em cima de guerras sangrentas é um caminho perigoso. Feridas não cicatrizadas de outrora servem de base para que antigos inimigos, que já estavam prontos para selar a paz, agora se rebelem internamente. O jogo político transcende para o campo de batalha através de estratégias inteligentes que decepam os menos astutos.


Praticamente 30 anos depois, contando uma história imensamente mais antiga, o filme de Kurosawa se mostra atemporal. A política que corrompe, a família desestabilizada por ciúmes entre irmãos e decisões irremediáveis tomadas sem certo cuidado. Questões assim permeiam o nosso cotidiano. Sorte que nossas batalhas são bem menores, mais internas do que externas e, na maioria das vezes, as coisas não acabam com sangue espirrado na parede.


Giancarlo Couto

domingo, 17 de agosto de 2014

Uma Ladra Sem Limites (2013)



Curioso filme em que uma velha fórmula não decola por estar coberta por uma grossa camada de botox que a acaba asfixiando. Assim se pode resumir essa obra de Seth Gordon: Rejeição ao enxerto novo que buscou renová-la.


“Sandy Patterson, um contador que leva com sua família uma vida sem maiores solavancos no Colorado, descobre surpreso que não possui mais nenhum dinheiro em sua conta. A causa: uma mulher se faz passar por ele (Sandy é um nome que serve a ambos os gêneros, tal como Darci aqui no Brasil) e se vale de suas informações pessoais para adquirir crédito e fazer compras em avalanche na Flórida. Quando a Polícia se vê diante das evidências que os gastos foram realizados por uma mulher o problema parece resolvido. Contudo por se tratar de um delito leve, cabe as autoridades da Flórida resolverem o problema se esse se tornar mais grave. Diante da omissão das autoridades ele resolve ir a demanda da cidadã com o intuito de persuadi-la a seguir com ele para o Colorado, a fim que explique a seu patrão o que ocorre (em realidade ele arma uma cilada para ela). Só que a jornada da Flórida ao Colorado não será das mais fáceis.”




Trata-se de um road-movie “cômico” que não arranca risadas, permanece sempre na UTI e não vem a óbito na infinita distância entre a Flórida e o Colorado, devido a química (improvável) do par central que agem mais como médicos de pronto socorro o ressuscitando. A tarefa dos dois não é fácil (é só acompanhar o roteiro raso escrito por Craig Mazin) já que não existe nada de digno no que lhe chegam às mãos.  No entanto a dupla feita por Melissa McCarthy e Jason Bateman convence. Ele pacato, discreto. Ela despachada, elétrica. A diferença entre ambos surge no próprio vestiário. Ela parece fazer de suas vestimentas uma paleta onde se depositará uma enorme gama de cores cujo resultado nem sempre agradará as vistas de quem a vê. E ela, Melissa McCarthy não mede esforços para nos fazer rir. Pena que tudo se restrinja ao tour de force dos dois atores.  O roteiro não permite que o filme decole em nenhum momento. Mesmo a mudança de direção tomada nos minutos derradeiros, onde o tom de pastelão se arrefece para dar lugar a alguns momentos de simpatia e ternura em prol da emoção não convence totalmente. Seth Gordon e seu roteirista parecem sentir um mórbido prazer em complicar a vida de seus dirigidos. Facilmente esqueceremos seus nomes e nos lembraremos com respeito do par central, que mostrou estar acima da obra empreitada. E sinceramente, sobreviver a isso, só comprova que o talento paira acima de qualquer bomba. O que eles seriam capazes de realizar com um roteiro e uma direção mais promissora? Espero que eles possuam oportunidade de nos fornecer a resposta.

 Escrito por Conde Fouá Anderaos

Um Olhar do Paraíso (2009)




"Por muito menos que isso pessoas já foram presas, torturadas, etc." - Daniel Dalpizollo.


“Violentada e assassinada uma jovem de 14 anos descobre que a vida não cessa com a morte. De um lugar ignoto ela observa o mundo. Vê seus pais inconsoláveis começarem a se distanciar um do outro, deixando seus outros dois irmãos sob os cuidados de sua avó. Vê também o vizinho que a matou continuar a tramar outros crimes se valendo da impunidade.”

Curiosamente quando li o dito de  nosso colega e Cinéfilo Daniel Dalpizollo  e quis tomá-la para mim. Ainda que nossas opiniões sejam díspares sobre tal obra (ele a detestou). Em que consiste então essa dualidade ao ver a obra. Difícil será eu responder tomando o argumento dele, pois não o conheço. Terão de se contentar com o que vi e me agradou. Não querendo isso dizer que o que ele viu tenha sido outra coisa, talvez o que me agrada, não o apetece.





Até hoje o homem esbarra ante os pórticos do sepulcro com aflição milenar. A morte segue até hoje torturando os seres e os ferindo em seus sentimentos. E ao ler as críticas e comentários referentes ao filme, vemos que elas fazem uso de termos teológicos jungido a doutrinas que se fazem donas da verdade. Assim vale-se de vocábulos como paraíso, céu, inferno, Éden, etc., para descrever aquilo que o diretor plasmou na tela. E fossem as imagens de Jackson feitas em uma época muito antiga, ousando contrariar os dogmas pré-estabelecidos como verdades indiscutíveis e lá estaria toda a equipe que colaborou na concepção da obra presa ou torturada por cruéis inquisidores.

Ainda que o filme não seja uma obra prima carecemos de critérios para avaliá-lo de forma completa. Até por que o diretor foge dos estereótipos estabelecidos ao captar as imagens do que seria o local (ou locais) por onde Susan vaga. Ainda que muitos digam que o local (Paraíso, ou o que seja) onde Susan se encontra seja idealizado, melhor cometer desatinos e alcançar o seu lugar oposto(Se o Paraíso for assim, melhor optar pelo seu oposto - digo isso para aqueles que acreditam em tal destino). Ora, isso ainda que não agrade de todo, ofende aqueles que vendem faz milhares de anos uma visão maniqueísta do“além vida”. A idéia que surge é que cada qual cria a própria realidade que o circunda. Nada de conflito a desnudar e conseqüentemente uma ausência quase total de resoluções, uma estrutura narrativa desmantelada alternada por quebras de tom intrépido, e de opções gráficas, ao retratar as visões pós-morte, que achincalha as regras do esteticamente correto.

Extremamente colorido, kitsch mesmo, o diretor projeta a câmera nos fantasmas de sua heroína mesclando um quê da subcultura gráfica os anos 60 
e 70 ao criar tais imagens.



Alguns dirão que falta ação e fôlego ao filme. Que existe certo estancar na narrativa. Estão certos. Após o assassinato da garota o diretor ousa trabalhar sobre a frustração do não poder se direcionar sobre um caminho que nos agrade. O que me encanta não é o sofrimento físico dos personagens, que quase não é tratado em imagens, mas que é reforçado verbalmente em muitas tomadas. Tampouco o sentimento de impunidade que revolta, nem a temática da inocência perdida. O que me encanta é o pavor causado por uma situação que conduz os personagens a uma impotência, uma incapacidade de não saber o caminho a seguir, o sentir-se estancado diante de uma vida que prossegue. O vilão comete algo com o qual não sabemos lidar. Mata suas vítimas, mas não permite que a considerem mortas, pois não existe corpo pra comprovar seus atos(O mesmo se deu com as Torres Gêmeas). Espectador e os personagens são levados a um estado de encarceramento – e tudo se estanca nessa temática: aprender a viver com algo que é intolerável; cutucar o horror sem se permitir sufocar; aceitar o destino (ou sua sorte) sem poder obter a satisfação da vingança (já que nada tem um fim).

Talvez o aparente naufrágio da obra de Jackson deva-se a sua coragem. É uma história sobre aceitação: Uma garota deve aceitar sua morte e seus familiares devem aceitar a continuação da vida, apesar da dor da perda. E nós o público devemos aceitar a lidar com a aparente “morte” e a falta de compreensão do sentido do todo.





Ora se tudo continua (Talvez não exista o sono até o dia do juízo dos cristãos tradicionais; nem o nada dos ateus, tampouco o panteísmo de doutrinas orientais e nem o Paraíso dos Muçulmanos) as respostas ainda estão por serem dadas. E Jackson só coloca essa incerteza na tela. Se a garota ainda vive, todos viverão. Inclusive o vizinho assassino. E a sensação de incômodo (causada também propositalmente por estender propositalmente a duração da película em pelo menos uns 30 minutos) não se finda com o fim da projeção. Jackson retoma a trilha aberta por seus “Espíritos” e “Almas Gêmeas” com um amadurecimento muito maior. Instigante ainda que desagrade em alguns momentos.

Escrito em 11/07/2011

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Irene, A Teimosa (1936) - Crítica


A Comédia ligeira brilhou soberana na década de 30 e 40 nos EUA. Desse delicioso legado guardamos na memória mais facilmente os nomes de George Cukor, Ernst Lubitsch, Hawks, Capra (que se valeu do gênero mais o aprofundou ao seu mundo), McCarey e Sturges. Wilder exploraria como diretor tal veio bem mais tarde na década de 50, mas o seu estilo é mais corrosivo (genial porém), tendo contribuído nessa época como roteirista de algumas pérolas (A Oitava Esposa do Barba Azul, Bola de Fogo, Ninotchka – o que por si só bastaria para eternizá-lo na História da Sétima Arte). Outros diretores simplesmente jazem esquecidos, apesar de possuírem obras que merecem atenção do cinéfilo atento. Casos de Leisen (que se valia de roteiros de Sturges) e La Cava (que tinha experiência anterior com animações). Iremos colocar nossa atenção sobre uma de suas obras aqui.


O que mais me encanta nesse gênero é a originalidade de suas premissas: “Aqui duas irmãs desocupadas e mimadas participam de uma gincana onde devem levar um mendigo até um clube onde membros da sociedade privilegiada participam de jogos absurdos com o objetivo de preencherem  o vazio existencial de suas vidas. Num lixão improvisado sobre uma ponte elas se deparam com Godfrey (William Powell) e tentam o convencer a ir com elas. A menos arrogante das irmãs consegue convencê-lo e ela fatura a gincana. Como forma de agradecimento (ela sempre perdia para a irmã) ela resolve contratá-lo como mordomo. O homem aceita e descobre que terá de conviver com uma família de excêntricos malucos que a custa do dinheiro que possuem, cometem enormes extravagâncias, ignorando assim a realidade social que vigora no país naquela época. Godfrey terá a missão de retirá-los do estado de inconsciência e mergulhá-los na realidade, tendo ainda de garantir seu emprego para não retornar as ruas, de onde escapara.”



Precisamos, para aprecia-lo melhor, lembrarmo-nos do contexto em que foi produzido. Os EUA passavam pela maior crise de sua História. O desemprego e a fome campeavam pelo país. Capra se encaixara nessa realidade com suas obras da qual se exalava um otimismo político, social e econômico e ousava em obras onde se depreendiam acentos socialistas como Adorável Vagabundo e O Galante Mr Deeds.  Da parte de La Cava poderíamos ter (pela sua formação anterior) uma obra mais subversiva e anárquica, já que trabalha aqui com um roteiro que se ancora no choque das classes sociais. No entanto ele encaminha a historia para um terreno mais cômodo, deixando de lado temas políticos oportunos, mas que poderiam soar muito subversivos, Assim o filme apenas insinuará alguns temas e o roteiro tratará de colocar o mendigo/mordomo como alguém riquíssimo que optou por descer de sua torre de marfim para melhorar a realidade que o cercava. Essa revelação quando o filme já se adiantava, frustra um pouco o expectador moderno. Mas, no entanto torna crível o perfeito domínio do ambiente em que se ele enfiou, com uma diferença primordial: Ele mostra qual deve ser o comportamento dessa classe social. E por ser mais rico, acaba por ser o porta voz dessa classe: salva a família da bancarrota, as filhas se dão conta de como foram ridículas, sendo egoístas, imaturas e superficiais. E o próprio Godfrey expande esse ensinamento além. Sua própria família se dá conta de que é se investindo no trabalho que se reerguerá a nação, uma lição aos especuladores e políticos de todos os tempos.

Ainda que o discurso soe ultrapassado e datado, o filme é considerado como um dos ápices da comédia ligeira, graças as interpretações, aos diálogos saborosos e a precisão rítmica  da mise em scène. La Cava com esses 3 elementos conseguia reger um concerto em elevada interpretação desde o inicio até o fim.  As excentricidades da família e do protegido possuem uma ternura adocicada e desembocam em verdadeiros absurdos (pertinentes, mas absurdos). O diretor com uma elegância hoje esquecida coloca os personagens em situações pouco comuns: a biblioteca vira uma estrebaria, os jantares são regados a declamações de um protegido de madame sem talento algum, um verdadeiro chupim (Carlo - Misha Auer,  O professor Boris Kolenkhov de “Do Mundo Nada Se Leva – indicado ao Oscar). Os interpretes dão um show: Gail Patrick  cria uma Cornelia pretensiosa que não recua diante de nada. Carole Lombard, que tão bem sabia criar jovens caprichosas totalmente desconectadas da realidade, marca outro ponto e se mostra uma comediante nata. Ela nos rouba deliciosos sorrir ao simular pesadamente um delíquio para punir o homem que nega seus avanços. Aliás foi o primeiro filme indicado em todas as categorias de atuação. Se eu fosse definir o estilo de La Cava diria que seria no tocante a temática social um Capra e pelos diálogos um  Cukor (devido a acidez desses). Já a mise em scène e o timming dos diálogos  é uma mistura de Lubitsch e McCarey. Precisava conhecer mais obras suas. Somente vi essa. Agora se o restante for tão promissor quanto isso será muito bom. Lamentavelmente as cópias (DVD) que nos chegam são descuidadas. Uma pena já que a obra merecia um maior carinho. Talvez também melhor seria se tivéssemos adotados o título dado em Portugal: Doidos Milionários. Tem muito mais a ver que o título brasileiro.



Feitiço Do Tempo (1993) - Crítica



A primeira vez que ouvi falar desse filme foi quando estreou no Brasil. Passou despercebido e só o vi depois que um colega chamou-me a atenção para ele. Ele viu qualidades que eu mesmo após assistir naquela época não vi. Vai o escrito a seguir em homenagem a ele, esteja onde estiver, já que não o vejo faz anos. Grato João Luiz Máximo da Silva pela indicação.

“Phil Connors, um apresentador de meteorología rabugento e arrogante, é escalado para fazer uma reportagem sobre a festa tradicional de uma pequena cidade chamada Punxsutawney que celebra todo dia 02 de fevereiro o despertar primaveril de uma marmota que se chama também Phil. Connors após cobrir o evento e descobrir que devido as condições meteorológicas se encontra preso na cidade, opta por passar o dia consigo no quarto do hotel onde se hospedou. Quando desperta no dia seguinte percebe estupefato que a data não mudou. Ele se encontra condenado a reviver indefinidamente o dia 02 de fevereiro, o dia da marmota.”


                             
  
Confesso que ao assistir pela primeira vez não morri de amores pela obra. Também não a achei mal feita. Achava-a, no entanto, esquecível. Ledo engano. Foi um dos filmes que mais cresceu em minha avaliação com o passar dos anos. Cumpre então dizer em que consiste tal afirmação.


Phil Connors (Bill Murray) é um dos personagens mais desprezíveis e egocêntricos que a sétima arte já concebeu. Encarregado de cobrir novamente o tradicional ground¬hog Day – dia da marmota, mais uma vez ele se dirige para a pequena cidade de Punxsutawney . Ele segue acompanhado de Larry (Chris El¬liott), seu cameraman e de Rita (Andie Mac¬Do¬well))sua nova produtora. Ele, desde que a história começa, pretende ficar o menor tempo possível em tal lugar. O destino, contudo o enclausurará em tal lugar e em uma mesma situação.




A história em si tem toda a estrutura de um conto feérico. Connors é um homem solitário que não ama ninguém, e tem a presunção de que ninguém que conhece merece sua atenção, seu respeito ou seu afeto. Esse caráter anti-social permite que o roteiro explore várias situações cômicas de uma forma elástica e ao extremo. Primeiramente após passar o susto o nosso “herói” explora a situação em tirando proveito para si. Resolve agir como um Dom Juan, torna-se um egocêntrico ao extremo. Nisso o personagem se assemelha a um personagem de Lubitsch, já que um de Capra seguramente não agiria dessa forma. Contudo é dele, da herança Capresca que o roteiro se aproxima, com sua base fantástica e seu cenário com a cidade encoberta por uma neve quase que natalina(“Adorável vagabundo”, “A Felicidade não se compra”). O cinismo que paulatinamente dá lugar a uma moral de cunho cristão, não é imposição dos estúdios, e não ocorre de forma a dotar o roteiro de algo sem sentido. Após a fase de depressão o “herói” percebe que sua felicidade depende da dos que o cercam, e que se a vida é infinita cabe a ele tornar sua jornada puída em jornada dos sonhos. Aprende também que conquistar uma mulher não é uma ciência exata.


                 

O roteiro elíptico e o uso das repetições não são privilégio dessa obra. Talvez ela tenha se valido de uma maneira mais enfática. Para recordarmos de algo anterior me vêm à lembrança “O ano passado em Marienbad”. Só que lá o uso de tal recurso tinha (tem) uma função hipnótica. Aqui se serve notadamente para criar de cenas análogas (os tapas, os suicídios, os despertares, os encontros e esbarrões). O humor nasce dessa repetição de eventos acidentais que recaem sobre o herói. A originalidade nasce da forma como a direção se valeu do mise em scène para nos manter interessados nesse quadro estático graças ao uso de uma retórica sutil e ao talento de um ator que beira o sublime em uma atuação comedida e discreta. 

A repetição mostra que existe uma desconexão entre a causa e conseqüência:
- Encarcerado bêbado ou se matando, seu destino é sempre despertar da mesma forma e no mesmo horário. 

- Sua gama de conhecimento sobre o mundo cresce na medida em que ele passa a conhecer intimamente os cidadãos e a rotina da cidade, que passa a ser vista como um ser humano vivo com suas peculiaridades e encantos. 




Esse aspecto repetitivo faz com que se consiga obter algo grandioso: o diretor consegue contrapor os intervalos entre o que conta (o filme em si) e a vida de Phil durante esses 10 anos (o tempo e o espaço diegético diferem ou podemos dizer que coabitam dois tempos e dois espaços diegéticos dentro de uma mesma trama).

Quem assiste ao filme participa de um jogo, já que passa a entender a regra e pode de maneira antecipada às vezes antever o que ocorrerá. E tal convite a reiniciar a brincadeira é renovado a cada manhã.

Não posso afirmar que o roteiro tenha bebido de alguma fonte reencarnacionista, já que não possuo elementos para tal. Mas tal narrativa se encaixa perfeitamente como uma fábula sobre a possibilidade do ser se harmonizar com o todo que nos envolve. Phil no início do filme se julga a última passa do panetone e se serve dos outros para seu gozo pessoal. No final o vemos modificado. Vive para servir e descobre em si potencialidades adormecidas: a literatura – poesia, escultura, música. Várias doutrinas pregam que o ser humano possui a eternidade para se educar e que só se libertará da dor e do sofrimento quando se harmonizar com a criação servindo-a, e não somente se servindo dela. De certa forma o pesadelo de Phil nada mais seria que aquele destinado a alma em aprendizado: Repetir o ano até aprender a lição. Findo isso

, novos horizontes se descortinam para o alçar de novos vôos. 

Notemos que o roteiro (um primor) se vale do início para apresentar os personagens. Quando o tal feitiço do tempo dá as suas caras vemos que nos é apresentado da seguinte maneira:

1ª repetição: Phil aparvalhado com o que ocorre 

2ª repetição: Phil procura especialistas, fica nervoso com não encontrar resposta, acaba preso.

3ª repetição – Com o conhecimento que possui evita o desagradável Ned, a poça, etc

4ª e 5ª repetição – Resolve seduzir Nancy.

Depois é dedicada várias repetições a seduzir Rita. Com o fracasso e não vendo novos horizontes vai-se deprimindo. Acaba tentando se matar e descobre que tal não é possível. A questão é que aos poucos nós não sabemos quantos dias se passaram. Percebemos que ele se dá conta que é eterno e tem, querendo ou não, de conviver com essa verdade. Ele mergulha na vida da comunidade e com acertos e erros descobre uma forma de se tornar importante e útil para todos e para si próprio (aproveita o tempo para se aperfeiçoar, estudando arte e literatura, dedica-se a ser uma espécie de anjo protetor). Comovente e profundo quando ele se dá conta de que não pode evitar a morte do velho andarilho( o que desmente a idéia de que seria um Deus). Que Deus é esse que não pode criar ou prolongar vidas? 




Sabemos que tal busca, ainda que numa cidade pequena, demanda esforço e tempo. Isso torna crível a proposta de seu autor que visava mostrar 10 anos de prisão temporal. E o Phil que finda o filme nada mais tem a ver com aquele homem que o iniciou. Ele é outro, e agora tem condições de fazer a corte a Rita. Não estaríamos aqui falando do que dizem os reencarnacionistas? Temos de nascer até aprender a viver.


Se Harold Ramis não atinou essa última hipótese quando da feitura de seu filme (Reencarnação), foi mais um que atirou no que viu e acertou em algo mais. Que todos os diretores tenham a felicidade de criarem obras tão ricas quanto esta que cresce aos olhos a cada visita que lhe fazemos. E que permite de várias leituras. Que tal fazer a tua?

Escrito em 24/01/2010