segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Cine Holliúdy (2013)

                                                 cartaz de Cine Holliúdy

“O olho é um troglodita!”

Francisgleydisson(Edmilson Filho) é um grande sonhador acima de tudo. Suas histórias são nutridas da criatividade tal qual Hollywood(o objeto tão desejado do filme) inventa e cria, mas principalmente ele é um retrato pobre novelístico e dramático do nordeste brasileiro, portanto sempre foi e sempre será um grande contador de história e está fadado a isso pelo resto de sua vida, foi assim que lhe foi encaminhado e é assim que a missão do kung-fu o leva dentro de um mundo o qual só ele pode comandar, onde ele é o mestre seu filho é o ninja aprendiz e seu sagui é o seu filhote de King Kong. Por mais estranho que possa parecer seu sonho é realidade em outra dimensão. Criar um filme deve ser algo que todo cinéfilo já parou para pensar em um momento – ou até mesmo já arriscou alguns testes ou curtas com algumas histórias – e Francis é também um showman, que aprendendo com o cinema e o seu mundo passa para uma fase essencial que o cinema deve ensinar para cada cineasta que nasce vendo filmes – independentes de quais sejam -, o dom da mentira.

Ao mesmo tempo Cine Holliúdy(idem, 2013) assume sua posição quanto homenagem ao cinema, é também um filme essencialmente crítico e também dramático – retratar o sertão brasileiro sempre vai ser uma tarefa de tristeza e drama, por mais engraçada/irônica que seja – representa a pobreza, a mesquinharia, a ignorância e o difícil ou impossível acesso ao cinema com sua respectiva inimiga, a televisão o matando, no interior do Ceará(e o interior nordestino como um todo se encaixa perfeitamente). Políticos e agentes do governo salafrários e bandidos de primeira marca ultrapassam os limites que a democracia lhe impõe e avançam vorazmente nessa dificuldade que outrora representa tão somente o atraso de um avanço mais que essencial e básico que já se conquistou no mundo em décadas atrás, mas ainda mantém a mesma situação.




Cine Holliúdy(idem, 2013) protesta contra a falta de incentivo cultural e principalmente larga a culpa da falta de educação que principalmente forma um município pouco ou nada democrático alegando uma criatividade da autoridade maior para inventar mentiras tão grandes como a de nossa cineasta, Francisgleydisson. Por mais que se esconda ou pelo menos não explicita, é um desejo absoluto delicioso, uma indignação de Gomes com o que julgou tão forte para o seu desenvolvimento como cinéfilo – e consequentemente como criança, pedaço da infância – traga para esse espaço popular algo antigo, absurdo como a ausência do cinema, de uma falta de avanço que Sganzerla protestava e Glauber Rocha observava pelo caos nordestino, portanto mais do que tudo somos miseráveis como todos os que estão lá, que serve de parte principal e peça chave para usar no que Fellini tanto presou em seus filmes, aqui na saga de Francisgleydisson.


Para Francis e os moradores da pequena cidadezinha, tudo é muito novo, recente. Como cachorros loucos por um osso, as crianças imaginam as lutas e mesmo que dependam de um garoto com a preciosa e rara televisão 12 faixas coloridas para ver o seriado Kung-Fu, não deixam se abater, por mais que o esporte, o futebol faça parte de suas vidas, para Halder, estamos sempre redescobrindo o cinema, uma fonte inesgotável de conhecimento pronto para ser revivida a qualquer instante. Apesar de toda a ignorância dos moradores seja também muitas vezes enorme em relação ao cinema, são tão espectadores quanto qualquer um ou muito mais; são pequenos cidadãos que vão se apaixonando pela arte que a tela demonstra e principalmente pelo o que ela proporciona, no seu sentido mais simples, são olhares de recém nascidos do cinema.




Por mais que o bang-bang seja de um índio e um cowboy e sua continuação seja puramente a inversão do título ou uma papagaiada a mais na roupa de um dos dois(de subtítulos com; revanches, torneios, “ultima batalha”, “o verdadeiro conflito” e até mesmo “o retorno”), sempre estaremos vendo algo de novo na telona, por mais minucioso ou pouco criativo, a continuação da saga do galã do western(que vai desde John Wayne até Clint Eastwood) ou do cinema de ação de Hong Kong(Bruce Lee, acima de tudo) é algo que os olhos pedem mais, e a curiosidade incessante que uma boa história pode causar, fazendo mais e mais filmes, transforma uma história simpática(como a da própria trama do filme) com envolvimento do público, é normal que tudo se origine em centenas de continuações, origens e confrontos especiais – mesmo golpes, aqueles que quebram o “macho” ao meio em um toque, a “voadora na pleura central da peridural” e, em um exemplo que se aproxime do cinema recente de ação de Hong Kong, “the five point palm exploding heart technique”(Kill Bill – Volume 2[idem, 2004] manda um abraço) - e vamos nos apaixonando cada vez mais(ou as vezes nem tanto, afinal qual seria a graça se tudo fosse perfeito? Mas, uma coisa está certa, dentre outras coisas eternas na sétima arte, sempre estaremos com aquela busca, desejo de que tudo vai dar certo, no final das contas, todo mundo “torce” para o bonzinho ganhar, por mais óbvio que seja ou não, sempre iremos ter a emoção de torcer).




Para Halder Gomes, dentre tantas falácias do nosso herói cearense, uma é a mais verdadeira e mais sólida em todo o seu filme. O cinema de ação de Hong Kong, o maior homenageado aqui, é com certeza um filho do cinema mudo. Cine Holliúdy(idem, 2013) assume uma posição linda quanto em relação a ele, sétima arte(que ainda serve de critica para os intelectuais, que acham que para apreciar um filme é preciso conhecer o cinema todo), onde Francis diz: “[...]E nosso dever de exibidor é levar essas histórias dos cineastas que são contadores de histórias para pessoas que querem se emocionar com essas histórias”. É o ponto onde Halder afirma que o grande cineasta é um grande contador de histórias e dentre outros diálogos traz a linguagem universal que só o cinema é capaz de dizer, o olhar que corrompe barreiras. Daí está há explicação desse falso profeta, desse mentiroso, ator e enfim cineasta Francisgleydisson. De todo grande mentiroso há um dom para a atuação, improviso, aquele que faz seu mundo e começa a então a criar a sua vida, o seu cinema.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Os Imperdoáveis (1992)


                                                       

Os Imperdoáveis(Unforgiven, 1992) é o testemunho de Eastwood sobre tudo o que fez em sua carreira. Sobre apreciar o pôr-do-sol, sobre ser um pai, sobre ser um matador mas principalmente sobre ser um homem. Talvez este seja o western mais humano de todos os tempos (e isso não desmerece os outros), e com certeza a prova genuína que Clint Eastwood é com certeza o homem que mais sabe transpor em linguagem simples, as memórias e a morte.

Logo no começo, vemos uma maravilha de paisagem da mesma forma como vemos mais tarde. Mas é sobre o discurso de vida, vingança e memória que Eastwood trabalha, sobretudo, por que é um homem que não se satisfaz com o “happy ending” principalmente por que este não existe. Nem tão pouco um homem otimista ou pessimista, Clint é realista, põem as cartas sobre a mesa, porém não fica contente com créditos, se aprofunda em mostrar as raízes de suas cicatrizes.




Em Três Homens em Conflito(Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, 1966), tudo o que acontece é rápido, as mortes são rápidas, o gatilho é rápido e quase não à dor(esse portal entre a vida e a morte, que é o que Clint, essencialmente trabalha aqui), mas existe para ele algo que não pode se negar ou esconder, sempre enfrentaremos ele, e em um inferno onde a humanidade não era civilizadamente hipócrita como depois foi virando, a justiça essa sim, era feita a base de sangue, e não existia ninguém que não sentia algum pingo de revolta – e isso, até hoje -, por que este é um sentimento selvagem mas totalmente pertencente a raça humana. Engraçado que as duas maneiras que terminam O Estranho sem Nome(High Plains Drifter, 1973) e Os Imperdoáveis(Unforgiven, 1992) são completamente iguais, mas há uma diferença, essa foi tocando aos poucos mais o coração do velho Clint, mais do que à critica a sociedade, foi trabalhando muito mais em suas marcas, independente da forma que são feitas, as cicatrizes de uma herança infernal não são esquecidas, por isso que não é atoa que o discurso religioso nada adianta para ajudar na resolução final, pois a mágoa guardada é inesquecível e principalmente irreparável.




Se em Gran Torino(idem, 2008), Eastwood volta para falar com o espectador sobre esse ressentimento(que para ele são transformados em extremos como em mal humor crônico ou em caretice calcada em alguma crença), em Os Imperdoáveis(Unforgiven, 1992) viajamos sobre o western para dissecar William Munny e um tempo que não é mais seu, aqui encaramos de frente a onda do tempo no peso de um homem do passado. Onde os tiros não são mais os mesmos, os cavalos não são mais os mesmo? Não. O Western não mudou, continua o mesmo, tem ainda aquele sol batendo sobre o chão desértico e seco para refletir nas grandes esculturas naturais, grandes pedras alaranjadas. É, tudo continua igual, mas o que não continua igual é o pensamento, que tanto Clint quer explorar, afundamos no tempo, mergulhamos no passado(sentimos o peso da bala como William e Ned) e vamos em frente para matar, ato bem compreensível para eles, mas que não é mais o que era antes, isso sim, mudou para eles.

Se Eastwood sempre pegava suas armas e apontava na cara de seus inimigos, vemos um dilema difícil, por que mais do que um Western, Os Imperdoáveis(Unforgiven, 1992) é um filme que filosofa sobre a vida, sobre a existência de uma humanidade complexa, que come, bebe, dorme e possui todo um outro pensamento, é uma parte da linha chamada de destino, que quando “interferida” é estranho por que em questão de segundos, em uma puxada de gatilho, a arma então faz a força dando impulso para uma simples bala perfurar o corpo deste humano e pronto. Tudo se acabou, uma fórmula simples e por vezes devastadora (fisicamente, pois “espiritualmente”, ela sempre é) que ocasiona na morte e o pior, esta pessoa nunca mais vai respirar, por mais que isso seja óbvio, é difícil por exemplo que o novato de Schofield(Jaimz Woolvett) aceite isso quando mata pela primeira vez um homem(Clint, gosta de analisar a juventude independente da época que for, pois o calejamento de um velho experiente é bem semelhante a experiência de um iniciante). É dessa violência que Eastwood questiona, não ela em si, mas suas consequências, para quem mata e para quem sofre.




Unforgiven vai além do que a bala atingiu – para o tio Clint, a bala perfura a alma -, não se satisfaz quando vê enfim um corpo de um homem(meu deus, nem sabemos o que é um direito), um ser inexplicável, em todos os lados como nós, que não sabe por que está ao mundo, mata, esfaqueia e principalmente se vinga, por que o último e final discurso de Eastwood não fica apenas para o sofrimento dessa toda tragédia que o sangue faz, mas sim do “troco”, a vingança que a mágoa fez perfurando o coração e aí sim, Clint volta para ser como era nos filmes de Sergio Leone, um homem maldito e sanguinário impiedoso. É um caminho sem volta, não é Clint que põe isso, ele apenas demonstra, isso é instinto selvagem, somos bichos, e como um dominó um cai atrás do outro, não existe moral nem regras, mas sim selvageria, por que somos uns com os outros assim, contudo, por que somos desse jeito? Clint Eastwood, embora um cineasta genial, não é um deus, não cabe a ele nem a nós respondermos, mas se dos últimos tiros, cavalgadas e até do som das esporas sabemos é que tudo termina em que Samuel Fuller diz sobre o significado de cinema; emoção.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Django Livre (2012)




Tinha começado a escrever esse texto em fevereiro. Tinha uma linha de pensamento bastante definida. E se eu dissesse que ela foi abalada não estaria mentindo. Afinal lera um comentário bastante elaborado (vide: http://ornitorrincocinefilo.wordpress.com/2013/03/06/o-leao-de-juda-nao-mente-jamais/). Como seu autor também não gosto do trabalho do Tarantino. Isso, no entanto não me impede de sempre ter de manter um distanciamento crítico e analisar cada obra separadamente (sem me esquecer do conjunto) do que já foi produzido por ele.  Algo é notório, a geração de hoje se afiniza com o tipo de Cinema que é produzido por ele. Eu também adorava o trabalho de Allen, mas isso não me impedia na época (final da década de 70 e começo dos anos 80) de enxergar ali algumas limitações e problemas. A função de quem se propõe a analisar qualquer obra é essa: Imparcialidade. Não me interessa aqui que Tarantino ao apresentar sua obra tenha se valido de sofismas e maculado o nome de John Ford insinuando que este seria fascista (ou racista) por ter participado como extra nas filmagens de “O Nascimento de uma Nação”. Que alguns de seus fãs não tenham raciocinado sobre o dito é algo normal. Mas daí o todo se calar e não verificar que tal é absurdo: como um figurante pode ter poder de decisão sobre uma obra do então maior cineasta a época dentro dos EUA: D. W. Griffith. E também como não creditar a essa obra (O Nascimento de uma nação) algo que minimize a negatividade do que vemos hoje: A mentalidade da época em que foi concebida. Ou seja, o racismo era algo moralmente aceito pela grande maioria no início do século passado. Isso exime seu autor de culpa? Não, mas a atenua e faz com que olhemos a obra como um documento de época. O que a valoriza enquanto Cinema.

Um dos maiores problemas de Tarantino quando se propõe a recriar a história é que os personagens que ele coloca no cenário parecem ter pacto com H.G. Wells: Saem de uma máquina do tempo e se postam em um cenário já passado. Tarantino não se importa em se valer de uma linguagem atual, de personagens coevos, para viver em uma época passada. Em Bastardos Inglórios tal já se sentia. Em Django Livre um boticão, alemão, solitário, educado, irônico, anti-escravocrata e caçador de recompensar surge (não sei, mas algo tal ter existido é mais improvável que acertar sozinho a Mega da Virada com um palpite simples). Mas façamos como em Bastardos e aceitemos essa probabilidade (por mais mínima que ela seja).  E esqueçamos-nos do legado Fordiano (talvez um dos motivos de seu ataque a Ford?). 

A linguagem é outro problema na obra. Mas exigir que se fale como se falava no século XIX também seria inviável. Trata-se de se recriar uma similaridade com a realidade, não a recriar como tal. É ficção, não realidade. Verossimilhança é importante, no entanto. Tarantino abusa de uma linguagem chula não existente na época.

Às vezes tenho a impressão que seu público está tão anestesiado, que se Tarantino subir num palco e ao invés de discursar, arrotar será ovacionado. Impressão só... Espero que ele não faça isso. Temo estar certo.
 
Não aprecio também a exagerada violência expressa na obra. Acaba por banalizar completamente e tornar aceitável algo que deve ser encarado como inaceitável. Não critico a violência em si, mas a visão dessa dada pelo seu diretor.

Por outro lado credito a ele, apesar dos exageros, bons diálogos e algumas passagens interessantes. Sobretudo aquela (Gérmen da KKK) do Grupo de escravocratas que saem no encalço dos protagonistas.

Django Livre apesar do desenrolar de meu escrito até aqui, me surpreendeu positivamente. E talvez no fundo tenha até desgostado (talvez explique o truncar da narrativa na segunda parte, certo incômodo da direção?) seu diretor. Ele não conseguiu manipular a história, nem a realidade. Acabou fisgado por ela. E se foi pensado ou não, temos de dar o mérito a obra (e a ele). E aqui meu escrito acaba por chegar a uma visão distinta daquilo que o Victor Bruno enxergou. O final está entre as melhores coisas já realizadas por Tarantino. O fato de Django se travestir, se tornar o próprio Calvin Candie é real. Era o sonho imposto aos escravos. Imposto e que por final acabava o escravo incorporando. Ser livre significaria ser idêntico ao Senhor. Era ser Senhor. Estar por cima da carne seca. Tarantino aqui não subverte a história. Ele a endossa. É a conclusão a que chegara Machado de Assis (mulato, o maior escritor em prosa da língua Portuguesa) em Memórias Póstumas de Brás Cubas – Nesse romance seu protagonista encontra Prudêncio seu antigo escravo de infância alforriado. Prudêncio possui um escravo e o chibata na presença pública. Compreendera que para ser livre era necessário ter escravos.

E também é em Django Livre que novamente nos deparamos com um dos maiores personagens criado pelo cinema no tocante a escravidão: Stephen. É de Samuel L. Jackson a maior e melhor interpretação do filme: Stephen. Stephen não seria só um escravo. Tornara-se como que um agregado escravizado. A imagem negra de seus donos brancos. Quando Django o mata, ele não está se matando apenas mais um. Não podem existir dois Stephen. Django tornara-se o próprio Stephen em o superando.

Django Livre permanecerá como um dos melhores filmes de seu diretor. Ainda que eu ache que ele em breve não o considerará como tal. Ele não gosta de ser manipulado pela verdade.


Escrito por Conde Fouá Anderaos

sábado, 14 de dezembro de 2013

Senhora Sangue de Neve(1973)

                            

Nos primeiros minutos de Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973), somos intruso da câmera exploradora de Fujita em uma prisão japonesa na Era Meiji, onde um parto ocorre e através da quadrada janela uma neve avermelhada cai. Não sabemos de nada, somos entregue como Yuki, o bebe recém-nascido, sem nenhuma informação, apenas o desejo de vingança .Em Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973) a uma narrativa que persegue não só a personagem em seu contexto, mas também todo o cenário japonês histórico, que além de tornar a trama mais rica e interessante, também nos conta do passado de Sayo Kashima(Myioko Akaza), mãe da “criança do submundo”, que deu a missão cruel a pobre criança de se vingar.

Tudo em Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973) é potencialmente original, desde a música “Flowers of Carnage” introduzida no fim e no começo da trama da própria atriz que interpreta a nossa protagonista até jogos de câmeras. Afinal, Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973) não se trata apenas de uma vingança melodramática, mas também de uma poesia escrita de sangue, que ambienta todo o cenário do terror sem fim de uma guerra e principalmente, suas consequências. Bem utilizado, as cores, se alternam entre vermelhos e brancos principalmente, não apenas pelo sangue pouco modesto usado na película, mas também em dentre diversas mensagens filosóficas a tal sol nascente japonês.


                             

Bem contornado, o desenho de Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973) viaja sobre o tempo sem misturar ou confundi-los, mas sim para em retoques de memorias não só Yuki se lembre de sua cruel missão dada na terra, mas também o espectador a qual tudo isso é novo. Inovador, Fujita responde a essa trama e o desejo de Yuki na tragédia, o clássico espetáculo a qual o público esta acostumado, para enfim traçar desde o começo do treinamento juvenil da protagonista até o seu acerto de contas. Como um dominó, as peças que se caiem levam diretamente a surpreendentes reviravoltas e descobertas fascinantes, ao olhar pálido e cruel da criança do submundo.

Em lutas desafiadoras, Fujita utiliza diferente posições que podem chegar até ao close-up que rapidamente dentro da memória despertem cenas ou em flash rápidos e velozes da imaginação e do sofrimento de Yuki, que nunca foi realmente um ser humano qualquer, mas sim um monstro fruto da guerra e de uma desesperada busca por aquilo que tanto cega e interessa o cinema oriental em mostrar, a vingança. Em 4 capítulos, a saga japonesa chega a esbarrar no amor, e é pelo cinema moderno de Fujita traduz uma obra muito conservadora e desde expressões ou propriamente gestos adentra em um mar sangrento sem fim.

É claro que é impossível ver Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973)mesmo com suas contradições na trama em si e diferenças, se assemelhe tanto a Kill Bill - Volume 1(idem, 2003), de Quentin Tarantino que voltou-se em 3 décadas passadas para reanimar essa essência tão rara que o cinema original precisa, por que sobretudo, não apenas homenageá-lo, a missão de Tarantino foi reservar em seu filme as aulas aprendidas através dessa e tantas outras pérolas do cinema oriental que conheceu pela “tela grande”.


                          


A uma melancolia única em Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973)para ambientar todo o cenário da Era Meiji, que impressiona em cores e na utilidade nostálgica e corajosa de seguir uma narrativa por vezes muito esquecida que fundou uma época de um Japão solitário, cruel que a neve tanto mostrava, que a guerra tanto pintava. Desde o nascimento da ira, fica provado então para o espectador esse símbolo da ira progenitora e irônica que faz nascer um fruto apodrecido e cego capaz de ignorar ou pensar em algo. Mesmo que Yuki, não tenha sofrido a guerra, em planos e mais planos, a cada corte na garganta, em cada momento que degola cada um de seus considerados inimigos, prova essa saga infernal segundo Fujita que o destino da a um ser e assim por diante para terminar no alvoroço sangrento que todos desejam um para o outro, não haverá branco que proteja a marca vermelha, provando o sangue como a barreira para o paraíso e da vingança oca, uma morte dentro do próprio mar sangrento afogado. A tragédia grega passa para o Japão, vira cinema oriental, cria o moderno sob o melodrama conservador e é relembrando e reanimado muito tempo depois. Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973) é mais uma prova e vestígio de um cinema muitas vezes esquecido, mas sempre vivo, uma pérola oriental em forma de memória na prateleira de uma antiga locadora pronto para ser reanimado.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Blue Jasmine (2013)

                                                         


Woody Allen é um dos diretores mais conservadores e sinceros do cinema, principalmente quando iremos falar sobre relacionamento(porque, Woody não trata apenas de um tema). Já faz tempo que o discurso de Allen vem subindo escalas que discutam a psicologia humana, pois é evidente que todos os personagens de Allen(pelo menos todos que pude observar até agora) são extremamente problemáticos, demonstrando ou não claramente ao público, é um fato que dentre as belas paisagens de Paris, Nova York, Roma e agora São Francisco não pode esconder, pois mais do que um apaixonado por cinema, Woody Allen é um romântico incorrigível.

Blue Jasmine(idem, 2013) é um filme que termina da mesma maneira que começa, e puxa muito mais daquilo que a de denso, profundo e sólido em seu cinema do que a beleza interminável de romances. Mesmo em Manhattan(idem, 1979) existe um certo drama que não resulta em um Allen tão pessimista quanto em seu mais novo filme, pois este resulta em um caminho que dentre tantos filmes apesar daquele amor shakespeariano, ou classicista como em Casablanca(idem, 1942) não dá algum resultado satisfatório para que o espectador bem confortável em sua poltrona assista, compreenda e saia como aquele sentimento que já estamos acostumados a ver, pois se a algo que Blue Jasmine(idem, 2013) tem é angústia e loucura(uma verdadeira homenagem ao caos que o fim de um relacionamento pode propor).


A partir do momento em que Jasmine(Cate Blanchett, excepcional) vai a São Francisco, seu mundo desaba, e é engraçado ver que talvez, este seja o personagem a qual, dentre alguns outros, exponha tanto do que a em cada um de nós. Jasmine não passa de uma dondoca que saiu da vida de luxo e agora vive em um mundo subalterno desconhecido e totalmente diferente para ela. Woody Allen provavelmente nunca judiou tanto de uma personagem(isso no bom sentido, óbvio), quanto o fez aqui, a nossa protagonista tem choques emocionais, toma calmantes regularmente, chora e é realmente estressada, é o perfeito contexto que o nosso romântico nova-iorquino se dispõe para explorar seus temas. Woody Allen não perdeu o fator lúdico, nem mesmo o tom da comédia romântica(esse daqui pode ser até mesmo considerado mais engraçado que seus dois últimos filmes), mas o que encontramos aqui é uma peça mais rara que extrai dentre algumas obras de seu autor, como Memórias(Stardust Memories, 1980) - o provável filme mais “Woody Allenístico”  que existe nessa terra -  complexidades da vida amorosa, nem sempre marcantes em seu filmes, ou mais diretamente em suas tramas, talvez por que de uma forma ou de outra Jasmine é Woody Allen.

Para servir de maior intensidade dessa complexa mente de Allen, temos o claro exemplo em Blue Jasmine(idem, 2013) o fator tempo. Viajamos com ele, para aprofundar nas ressacas que Jasmine tem atualmente, graças ao passado, algo que Allen gosta tanto de tratar como uma máquina devastadora e marcante não apenas prejudicial à vida amorosa atual, mas também em crises, por assim dizer, existenciais. Hal(Alec Baldwin), o canastrão, rico e traidor, é uma das peças-chaves(por mais irritantes que sejam) que funcionam para Allen tomar a iniciativa de despedaçar em uma trágica e sempre humorística aventura. Por que tanto o destino final deles no passado quanto dos filhos que teve com Jasmine(embora tudo isso pareça muito rapidamente e cause uma coerente confusão) servem para explicar em um tom mais novelístico(que de qualquer maneira é maravilhoso) toda essa história, que tanto necessita dessa diferença, fator especial, pelo menos na carreira/filmografia de Allen. Até onde a inveja e busca por aquisição se resulta? Allen responde com clichê e personagens nem sempre criativos e com uma trama por vezes novelisticamente caricata, mas ele acredita no poder da realidade conservadora, por que o amor é no fim, nada mais do que um sentimento tolo e que de intensidade para intensidade, continua no final, o mesmo, por isso esses fatores não são prejudiciais à trama, mas sim essenciais, pois este é um filme potencialmente mais pessimista e “sem futuro” mas com direito de deixar o espectador se sentar junto ao banco e chorar as pitangas, mas principalmente refletir em uma praça, a praça dos que foram agredidos pelo amor e tudo que reserva.


Jasmine não é louca, Ginger(Sally Hawkins) – sua irmã - não é burra e toda essa trama montada de Woody Allen, pode ser uma história moralista e até mesmo de arrependimentos, mas estes os mais sinceros. Se Allen, com toda a sua técnica, excelência e qualidade, continua por vezes com seu romantismo conservado, é dele que vem o classicismo de uma época e a sinceridade de outra, Allen é dos diretores mais geniais em atividade e que só aprende e faz aprender mais com o passar dos anos, como o vinho, Allen vai se tornando mais delicioso de se desfrutar e aventurar-se. Se a comédia romântica e as histórias românticas, já não possuem coragem para despertar a realidade de uma vida sem perder o fio da meada e/ou ainda acham antiquado a certa moral, clichê ou até mesmo o “melodrama” classicista, Woody Allen vai continuar renovando e provando que estilos não envelhecem e nem saem do circuito jamais, mas sim proliferam e criam raízes maduras observando e estudando os outros(pois é isto que Allen, trabalhou desde sempre). É maravilhoso ver como conseguiu construir uma história romântica, basicamente sobre uma música de Jazz(Blue Moon, uma obra-prima musical), relembrando o melodrama e a melancolia em um amor verdadeiro, ou inveja, ou sofrimento, seja lá todos esses sentimentos que forem, em um clássico do passado(que poderia ser perfeitamente um marcante filme da década de 50 ou 60) e do presente(e é extremamente atual, ou atemporal), enfim, um clássico perdido no tempo. Em Manhattan, em Paris, em Roma ou em qualquer cidade do mundo, estaremos sofrendo por amor.

Jogos Vorazes: Em Chamas (2013)


                                                            cartaz de Jogos Vorazes: Em Chamas

Desde o lançamento que tanto provocou a febre do público, que me lembro bem, citavam nomes como Harry Potter e Crepúsculo em algumas propagandas, Jogos Vorazes(Hunger Games, 2012) parecia suprir apenas a necessidade de tapar o buraco que as duas sagas estavam deixando(Harry Potter já tinha acabado e Crepúsculo estava para acabar no mesmo ano), tinha me incomodado muito principalmente por que parecia trazer algo apenas para cobrir ou consolar o mesmo público alvo dessas outras sagas, unicamente por que estavam acabando e a demanda por algo novo era, teoricamente, grande. Nunca tive algum tipo de preconceito com esses tipos de filmes, até por que sua finalidade pouco importava para mim, preservo mesmo é a qualidade mas algo novo sempre me chamou na saga de Suzanne Collins, algo que aproxima tanto o público com questões que de uma maneira ou outra são essenciais e principalmente inéditas.

foto de Jogos Vorazes: Em Chamas


O motivo pelo qual defendo a saga Jogos Vorazes tão arduamente, é com certeza devido a essa característica única que aproxima de modo envolvente a um mundo que não está apenas ligado a um romance bobo, magias para lá e para cá, deuses e monstros mas sim a um futuro inimaginável, repressor, violento, usurpador. Se jovens já se identificavam com tantas histórias que aproximam uma aventura, em Jogos Vorazes há algo mais próximo com o seu cotidiano e sonhos. Talvez o maior erro de Jogos Vorazes(Hunger Games, 2012) tenha sido não aprofundar tanto nessa questão, e apenas se aventurar por se aventurar sem algum destino ou propósito justificáveis aparentes.

Mas em Jogos Vorazes: Em Chamas((The Hunger Games: Catching Fire, 2013)), vemos um espírito de revolta que e indignação que vai mais além daqueles que seu antecessor mostrava previamente , aqui, a principalmente um prólogo em que embala adequadamente todas as reações dessa exploração que o governo de Snow(Donald Sutherland) pois no filme anterior, principalmente a de Katniss(Jennifer Lawrence) e a falsa imprensa, sorrisos e astros corrompidos pela mídia em uma direção adequada de Francis Lawrence que sobretudo explora muito mais os sabores e dessabores passados tanto de um lado da mídia, governo e do povo cada vez mais reprimido.

Talvez o que mais chame atenção na continuação da saga de Katniss, seja esse espírito mais revolucionário e unido, pois apesar de voltarmos a certas repetições desnecessárias e cansativas durante as longas horas de duração do filme(como o bobo romance mal resolvido), Lawrence implica questões mais questionadoras e repugnantes sobre o sistema com mais facilidade, seja pelo roteiro que amadureceu toda a história mais ou por a atuação cada vez mais convincente de Jennifer Lawrence, Jogos Vorazes: Em Chamas((The Hunger Games: Catching Fire, 2013)) merece muito destaque principalmente no cinema atual feito para esse público alvo.

                                                    foto de Jogos Vorazes: Em Chamas

Planos mais sólidos e uma atmosfera mais fria fazem não que Jogos Vorazes: Em Chamas(The Hunger Games: Catching Fire, 2013) fique sem sentido, mas sim uma exploração daquilo que deveria ter sido feito no seu antecessor, por toda a parte que interroga a verdade e traz a tona uma camada superficial e crítica sobre tudo isso de forma surpreendente(um final muito bem eficaz), nos colocando no próprio lugar da nossa protagonista e nos fazendo crer em justiça e principalmente tendo em mente toda aquela vontade que deverá ser incorporada na próxima sequência, A Esperança. Pois A Katniss que só chorava o leite derramado, lutava pela sobrevivência mas não sabia bem o que desejava. Em Jogos Vorazes: Em Chamas((The Hunger Games: Catching Fire, 2013)) passa dessa versão inocente para uma a que todos nos chegamos na vida, a da luta pela justiça, verdade, sonhos bem formados e idealizados por um espírito indignado, jovem e voraz.

Embora essa repulsa controlada, o que é bem justificável se pensarmos no público que está direcionado, acho justificável assim como o primeiro filme toda essa adaptação, pois é preciso todos esses caminhos para que se atinja um nível de suspense considerável e uma passagem de uma adolescência injustiçada para não só aquele fase onde a luta pelo que é desejado mas também a os sonhos, utópicos ou não, se realizem. Embora talvez essa moral já seja ferida e batida, é interessante ver puramente isso em tela em um filme bem aproveitado que mostra para o que veio e deixa ainda que com todos os defeitos aquele ar novo e um espírito muito mais próximo de qualquer jovem que vá ao cinema assistir.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Se... (1968)

                                                     

Liberdade é uma das palavras sínteses de vários idealistas, revolucionários e movimentos. Ao mesmo tempo que ela é tão dita por várias pessoas, e tão desejada por outras ou as mesmas ela nunca é alcançada. Parece simples ter ela, mas não em tempos como estes que Se...(1968) representa. A guerra já acabou, mas a violência é incentivada por muitos e autoridades. Quem disse que até mesmo um padre não pode ser um tenente? Quem disse que temos liberdades? É um conceito utópico por muitos, a anarquia, mas independente da política e o idealismo que cada um tem, no fim o que todos querem é liberdade.

Lindsay Anderson, diretor de outros sucessos, como Baleias de Agosto(1987), que estrela a famosa Bette Davis, traz esse conceito de maneira com que o conceito não caia em estereótipos ou clichês, inspirado no hino à anarquia escolar de Jean Vigo, Anderson nos mostra a mente de um jovem rebelde louco por guerra, ensinado por ela, em época de puberdade é com certeza um dos seus pontos fortes, mesmo ainda com a alteração de cor de preto-e-branco e colorido, por questões orçamentárias, o filme traz não só apenas uma revolução espetacular em uma escola como retrato de liberdade jovens que se sentiam acabados, mas também um retrato da sociedade hipócrita, cheia de autoridade e ditadura, em que vivemos, onde a palavra liberdade deveria ser arrancada do dicionário.




Mick Travis(famoso, Malcom McDowell de Laranja Mecânica), é um garoto como os outros que é reprimido e vive uma vida monótona junto com outros 3 amigos. A diferença é que os 3 são os mais antissociais e vivem em quarto cheio de representações e fotos de mulheres, cenas de autoridades e líderes revolucionários como Che Guevara, claro. Nisso, os castigos que vão tendo tornam-se mais constantes cada vez mais que tentam sair daquela academia, repreendidos até mesmo por vários outros alunos que receberam cargos de “autoridade”. Ao conhecerem uma jovem ela se junta à rebelião e a causa deles, ajudando como uma presença feminina e não menos liberal em busca da liberdade.

Apesar da questão orçamentária atingir o filme, cada cena que entre no preto-e-branco é alguma cena interessante, especial ou bonita fotograficamente, como a cena em que Mick entra na cafeteria e em uma fala faz, por exemplo, uma gozação, assim pode ser considerada, com o pedido do café preto ou branco. As cenas do sexo explícito por exemplo, são outros fatos interessantes que não mostra o estrupo, mas sim duas pessoas querendo aproveitar e apreciando o amor físico, mesmo que talvez este fato seja imaginário, assim como o amor que Mick vai criando sobre a menina.




O destaque claro, além de McDowell é a atmosfera escolar quer por vezes até mesmo no próprio filme é lembrada e com certeza justamente comparada com época da ditadura, ou no caso mesmo, de guerra. O ensinamento da violência vai se tornando cada vez mais constante e a atmosfera que lembra a Nouvelle Vague como o clássico de Godard, O Demônio das Onze Horas(1965), com algumas cenas de estrada e talvez um, no caso quadrado amoroso, que lembra também o triângulo amoroso de Godard em Bande à Part(1964). Mesmo a película sendo de outro movimento, estas influências são claramente percebidas, assim como também Os Incompreendidos(1959), que também retrata a “bruta” vida escolar da época, é um outro filme que foi atingido/influenciado por Se...(1968).

E querendo ou não estas influências deixaram este filme, não só deixando a atmosfera maravilhosa e deixando o filme mais complexo e lindo, já que suas influências são ótimas e retratos da mesma temática da liberdade como também deixando o filme mesmo não fazendo parte do movimento da Nouvelle Vague, e com vários outros diretores como Godard e Truffaut, fique à beira da perfeição em retratar sua liberdade, até mesmo superando até algumas qualidades em algumas partes em relação à esses diretores.

A liberdade no fim não interessa se ela é conquistada com ideias utópicas ou não, ela só quer ser conquistada. Ainda, a mensagem que fica, não é somente à vida escolar, mas sim à vida em geral. Se... ensinam com violência, ensinam a violência, se ela é ensinada e aprendida, só pode ser devolvida com a mesma. Mas, quem tem liberdade? E se...tivéssemos?

Adeus, Lênin! (2003)





Entre a captação da mensagem política e a personagem Alex(Daniel Brühl), dentre todos os aparatos e artifícios clichês e moralistas de que Adeus Lênin(Good Bye, Lenin!, 2003) se mostra capaz de mostrar, apenas um tem a relação fantasiosa mais sólida de todas, a paixão pelo capitalismo. As imagens que se espalham vorazmente por toda a frágil Alemanha pós-guerra, servem para o único e talvez o mais importante discurso capaz de realmente engrenar na relação já revista, agora no plano contemporâneo, entre a política e o amor. Pois Alex é o fruto de uma relação da rebeldia e da ambição, e como tal, é uma figura do retrato mentiroso, mesmo que ainda de fato verdadeiramente manipulado. Alex não é mentiroso, é também ambicioso, humano, civil e criança.

É do trabalho de levantar a cabeça fixar os olhos, erguer os braços, abrir a mão, balança, manejar de um lado ou do outro e finalmente concluir o ato de acenar a uma figura que irá se extinguir previsivelmente de uma maneira ou de outra, que Adeus Lênin(Good Bye, Lenin!, 2003) projeta. Pois não se bate apenas na cabeça da parcialidade de um assunto tão cru a qual acabe se esgueirando na perda de um propósito, nem na rebeldia, mas na cabeça, no ideal cujo mesmo que não interaja de maneira tão manipulada e parcial no discurso político. E daí Adeus Lênin(Good Bye, Lenin!, 2003) provém dos olhos da juventude revirada e solta, mesmo que meramente, das asas da inutilidade moralista da mensagem político-social e prefere seguir o caminho da leitura cinematográfica dos pensamentos, ideias e ações.




Quando as cenas se decompõem com as marcas da nascença política social tanto dos dois meios, é também, que Becker institui a psicologia da análise amorosa, a qual tanto se prende em Adeus Lênin. Por que, aqui, a família da mãe conservadora de Alex, fiel, é devota da oposição do amor, dos meios que colidem em Adeus Lênin(Good Bye, Lenin!, 2003), o socialismo. Dentre o amor, Becker, revira e retoma a amargura de Nicholas Ray, em novo plano, mais fraco e menos objetivo, mas ainda assim do toque da mente juvenil, bem, bem no fundo, mas com um brilho fraco, porém visível.

Do quebra-cabeça político amoroso(um dos mais, bons ou ruins, intensivos ou não, humanos já retratados nos últimos anos) que beira a podridão e dark angustiante da juventude estético-narrativa oitentista e setentista da cultura pop cinematográfica à lá Walter Hill e companhia. A qual de modo ou outro seguiram direta e indiretamente toda a evolução da alma pura de um filme de Nicholas Ray, Becker usa para quebrar e habituar uma nova geração cinematográfica pela quebra do drama e entrada do humor,(ainda que pouco usual, se considerado às fortes doses da influência do pastelão). Assim em diante, Becker não consegue situar de boa forma o espaço e tempo e cai não somente nesse elemento, como também tropeça do monte que todos os diretores se penduram ao se reduzir ao tratamento de um assunto como este a qual tropeça e não consegue tão rápido se curar.

As dores da juventude. Suas ideias e ações sempre tão prolixas e diferenciadas, tratam-se de uma obra em fase de transposição, de uma estrutura dividida, e ainda mais disso que Becker se traduz aqui, mostrando a sua verdadeira identidade, mas como sempre cai na verdadeira mesmice e apaga o brilho num piscar de olhos a qualquer hora e momento. Pois mais do que qualquer outra temática, que parece tanto atrair Becker, todas as retratadas partem da política e conceito subjetivo, e requerem apenas a exposição sem analogia a algum idealismo e parte disso, o discurso de Becker cai bastante na variação e mesmice que parece transpor unicamente ao cinema.


É muito do que se permiti nesse variável que é o cinema afetado de Becker, é somente mesmo a criação artística sobreposta em camadas diferentes. Retraz o conceito nu, ainda que escasso, mas talvez o mais lúdico e próximo há uma breve explicação do cinema, que nada mais é do que a ilusão e mentira(inclusive camada essa, que cobre o roteiro de Becker parcialmente, mas significativamente para construir o elementar assunto da política, amor e juventude em Adeus Lênin(Good Bye, Lenin!, 2003)). Becker reconstrói então, finalmente alguma aproxima maior com os verdadeiros entendidos no assunto a qual trabalharam e expuseram tanto em tela. E é dessa lúdica criação, ainda que quase oculta, que precisava tanto se formar de forma não tanto variável quanto não só anda a linguagem cinematográfica de Becker, mas de muitos diretores com potenciais já provados ou não em tela. É desse impulso que Adeus Lênin(Good Bye, Lenin!, 2003) precisava mais do que nunca, e mesmo nos seus defeitos em ritmos e objetividades, se vestem e começam a servir como uma identidade, reformação de ideias e conceito, mesmo que ainda em última instância, da verdadeira capacidade da arte. Transferidos em tantas partes minuciosamente na tela, não só na mentira, mas no ato de fazer, na transformação de telejornais capitalistas, e até mesmo na empresa símbolo do capitalismo em socialista.

domingo, 24 de novembro de 2013

O Menino do Pijama Listrado (2008)




Vi esse tal de “O Menino de Pijama Listrado”. Já vi vários outros filmes sobre o holocausto ou o nazismo em minha existência. Uns a favor e muito bem realizados (Como Bastardos Inglórios), outros apenas bem intencionados e que não dizem a que veio como esse... Mas dizer que não disseram a que veio é algo por demais cruel em se tratando de intenções boas. A ideia da obra em si é excelente. Sua execução, no entanto nos dá a certeza de que se perdeu uma grande oportunidade de contribuir para o sepultamento definitivo das ideias Nazistas.

Dizer que foram os judeus a maior vítima do que se deu na Europa naquela época é um pecado que não cometerei. A maior vítima foi à humanidade que aceitou regredir aos tempos de barbárie. E os judeus, homossexuais, ciganos, os limitados física e mentalmente, etc  serviram de repasto a insanidade humana. A lição, no entanto é clara, antes ser vítima que algoz em um crime desses. Infelizmente não se enxerga essa verdade. E é necessário sempre referendar que tal realmente é verdadeiro, não algo distante no tempo, mas presente e que se não for vigiado pode retornar a superfície.



O filme em si tem vários acertos e alguns erros que o diminuem. Interessante à ideia de se mostrar o garoto como alheio ao que se passava ao redor. Lembro que vi algumas fotos sobre a Guerra Civil Espanhola onde se retratava crianças brincando nos escombros de outrora casas, alheias a realidade que as cercavam. Triste saber que a infância está ficando cada vez mais encurtada. E notemos que isso já era uma das propostas educacionais do III Reich e que foi perpetuada por vários governos. E é esse mote que permite o desfecho plausível da obra. Outro acerto que muitos viram como falha foi o fato de Shmuel ter aquela liberdade de poder ficar tão próximo a uma cerca sem vigilância nenhuma. Improvável é verdade. Mas sabemos que a violência psicológica em vários momentos foi maior que a física. Os vigias eram ínfimos, já que uma fuga não levava a lugar nenhum. Toda a Sociedade comprara a ideia Nazista.

O erro está principalmente na falta de elaboração de alguns personagens. O pai do garoto não consegue (roteiro e intérprete) nos passar aquela sensação de dubiedade tão necessária ao filme. O empregado judeu (Pavel) soa-nos caricato demais e seria improvável que estivesse trajado daquela forma diante deles na vida comum que levavam. Era necessário que tudo soasse dentro da mais perfeita normalidade para a Sociedade. A polidez hipócrita é que marcava o Regime dominante naquela época. O pai amoroso escondia dentro de si o algoz frio e irascível.

A mãe e a sua ingenuidade também está mal resolvida. Mas ao menos a atriz (Vera Farmiga) acreditou no papel e o torna crível. O mesmo se dá com Amber Beattie no papel de Gretel e seu relacionamento com o Tenente Kotler. Rupert Friend faz um papel já conhecido de todos, o do jovem cooptado que se fanatiza com o que lhe é pedido, a ponto de querer provar a todo o instante que é mais nazista que todos.Infelizmente explora-se pouco personagens como Pavel, que serviriam para dimensionar bem o horror que se escondia atrás da cerca. Ao final da projeção temos a sensação que tudo se deu de maneira mecânica e abrupta. O que não se perdoa é a forma mecânica demais. Um final abrupto e inusitado até vai. Fiquei com a impressão de que não souberam construir o desfecho. Caberia ali uns 10 minutos a mais, estivesse a frente da produção um diretor mais feliz e um roteiro mais elaborado. O material era bom (por qual Diabos não rasparam a cabeça de Gretel e Bruno devido a piolhos como no Livro? ) O material era bom. A execução do que vimos nem tanto. De toda a forma um filme a se ver. Qualquer obra que venha a manter tocando um alerta sobre o que se deu é bem vinda. Mesmo essa que tinha potencial para se tornar algo bem maior do que o que foi projetado. 


Escrito por Conde Fouá Anderaos

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Caça (2012)



“Lucas tem mais de 40 anos. Ele é um professor deslocado de sua função, recém saído de um divórcio, vive sozinho e busca reconstruir sua vida. Trabalha como assistente em uma escola infantil. Começa um novo relacionamento e tenta trazer seu filho adolescente para perto de si. Tudo parece se encaminhar bem, até que uma pequena mentira surge. E ela se espalha com tamanha virulência que outras são criadas para fortalecê-la. O estupor e a desconfiança se propagam na pequena comunidade desencadeando na histeria, obrigando  Lucas a se bater para sauvar não somente sua dignidade, mas também a sua própria vida.”
Um filme que certamente deve ter causado muito barulho. A causa? O fato de seu diretor ter optado por uma narrativa onde não vigora a incerteza sobre o fato que desencadeia a trama. E assim uma leva razoável de pseudo puritanos devem ter se incomodado com o fato de suas certezas terem sido abaladas. É possível que uma criança minta? É possível que induzamos uma criança a mentir? Sem nos preocuparmos com as respostas (que devem ser respondidas diferentemente e não de forma categórica por cada um de nós) o filme ousa ao pretensamente nos manipular. Ao sabermos da inocência de seu protagonista desde o início, passamos a sentir na pele as possíveis incertezas sobre o futuro. Lucas é inocente, mas uma vez lançada à bola de gude sobre a montanha encapada de neve, a bola formada foge do controle. É o que o filme nos mostra. E o pior, a tomada final nos dá a clara dimensão que não existe remédio para corrigir o mal feito.


Outros filmes já se debateram sobre os rumores que desencadeiam em histeria coletiva. A Caça, no entanto, ousa ao se alicerçar sobre um tema tabu: Pedofilia. Tabu absoluto do mundo contemporâneo ele acaba por sacralizar o discurso infantil. E ao optar por nos desvendar o protagonista quando do início, dá-nos a falsa impressão de sermos reféns de sua narrativa. Ou seja, ao menos na Sessão onde vi o filme, a manifestação da platéia quando da reação do protagonista a agressão sofrida no Supermercado foi de apoio. Ou seja, de tão bem realizada, o espectador sem se dar conta incorporou-se a uma matilha, tal qual aquela que persegue o protagonista. Passada a projeção, quantos se deram conta de tal verdade? Poucos. O final sem solução é que deve nortear nossa mente sobre o que vimos na tela. A Caça não visa dar argumentos de defesa a pedófilos e nem desmuniciar os que os perseguem. Ao contrário, faz-nos refletir sobre as ameaças que pairam sobre a Civilização. Todas nascidas dos desequilíbrios humanos. E a necessidade que todos têm de verem materializados seus maiores pesadelos nos outros. E como reflexão: Não foi a criança violada quando seu irmão mais velho (e idiota) a perturbou com algo que foge de sua compreensão? E os meios de comunicação não realizam isso todos os dias, diante das barbas das famílias incapacitadas de maior compreensão. Temos capacidade de lidar com isso?

O filme além de uma primorosa fotografia de Charlote Bruus Christensen, um roteiro bem costurado de seu diretor e Tobias Lindholm, traz-nos interpretações precisas de todo o elenco com destaque a um Mads Mikkelsen em estado de graça (a melhor interpretação do ano) que sepultou de vez o velho ditado de W. C. Fields de que crianças sempre roubam a cena (Annika Wedderkopp funciona a mil maravilhas, mas não o ofusca). Para mim a grande surpresa de 2012.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O Samurai (1967)





“Não há maior solidão do que a do samurai, exceto talvez a solidão do tigre na selva”
Bushido, O Livro do Samurai


O samurai é uma criatura que habita um mundo diferente. O samurai é um ser que busca erudição, perfeição, honra e moral. É uma criatura leal, disciplinada e muito rigorosa, ao mesmo tempo também é habilidosa. É, apesar de um “soldado”, um guerreiro, também é mais do que uma criatura violenta, é uma criatura diferente, que precisa ser observada. É uma pessoa que convive com o certo e o errado desde o princípio, desde que o mesmo nasceu. Da infância até a fase adulta. São seres solitários, que apesar de “extintos” do mundo, ainda vivem por aí rondando grandes capitais, ali e aqui.

É disso que Jean-Pierre Melville se apropria para criar O Samurai(Le Samouraï,1967). Melville busca através do estilo noir que muitos filmes se apropriaram na década de 40 como Relíquia Macabra(The Maltese Falcon,1941), para dar identidade à um personagem rodado na sua história, com uma verdadeira carapuça samurai em todos os sentidos, mas vestido e escondido. Através disso, cria uma película tão perfeita e única que marcaria para sempre a história do cinema, burlando as regras do noir, criando um dos personagens mais famosos(e bem atuados) e principalmente marcantes, com um jogo de cenas e cenas, filosofando ao mesmo tempo que conta a história, para nós, o espectador.






A história, nos trás Jef Costello(Alain Delon), um assassino perfeccionista e totalmente rigoroso. Não é apenas um assassino perfeccionista, ele é um gênio e sempre consegue escapar com facilidade de suspeitas e principalmente manipular com toda a sua inteligência. Mas quando o mesmo, é subestimado a matar um homem, em um bar acaba errando o plano e deixando pistas para pessoas que estavam presente no bar e desconfiaram, como Valérie(Cathy Rosier). E a cada vez que a investigação policial vai aumentando de proporção, Costello vai cada vez mais se complicando, não só com a polícia, mas também com os criminosos que encomendaram o homicídio.

Desde já, Melville encabeça ao espectador, proporções muito diferentes. Jef Costello está desta vez em perigo muito grave, mas é com as jogadas de câmera, rápidas cenas e a expressão que Melville dá a entender ao espectador quem é a personalidade do filme. Todos os ângulos são filmados com uma perfeição muito peculiar, onde se focam as faces. Usa da ausência do diálogo para usar a linguagem corporal como objeto mais utilizado no filme. Nada escapa da câmera de Melville, tudo é tão bem retratado que fica difícil enxergar algum erro. Os encantos da personagem, são transmitidos também através da linguagem de Melville sempre trabalhada durante todo o filme para que o seu estilo criativo seja criado a partir de um outro já muito consagrado, o noir.


A cidade é um retrato triste e feio. As câmeras de Melville captam isso a todo momento, é impossível não reparar, como também é impossível não reparar como a personalidade de Jef Costello é bem trabalhada e usada. É uma figura simples, típica de filmes noir, usando um belo sobretudo e um chapéu muito bonito, mas através disso tudo é um gênio do crime e mais do que isso é uma inspiração e uma criatura que vive filosofando, e uma criatura que procura um lugar para habitar e se sente distante da realidade, toda hora e todo momento os elementos de Melville são totalmente simbólicos, como a moradia de Costello, aquela figura tão pop e “perfeita” aos moldes de um assassino, como também seu pássaro, que é o seu único companheiro que apesar de estar sempre com Costello, assim como ele, está preso em uma gaiola e incapacitado de voar e se sentir livre. Costello, não é bem uma personalidade que busca uma liberdade em si, mas sim, viver em uma realidade melhor para ele mesmo e sem tanta podridão. Claro que o mesmo faz trabalhos sujos, mas perto dele, Costello os torna como obra de arte e não apenas o trabalho maçante de toda hora matar pessoas.

Apesar do silêncio de Costello, toda hora ele nos diz algo muito relevante e totalmente dentro de sua moral. Costello é uma personalidade tão forte e especial que precisaria ser analisada a parte se quisesse ser compreendida. Já Melville, deixando todo esse trabalho para Alain Delon retorna também na cidade, pois aqui, sua homenagem ao noir não se trata bem de um roteiro ou super produção que tende a mudar definitivamente o gênero com sensacionalismo ou algo, mas sim que através da mesma torna possível ao espectador enxergar a visão de um assassino típico de filmes noir na sua arte de matar e filosofar. É com esses e outros ângulos de visão que Melville nos encaixa que também podemos ter a visão de uma sociedade frágil e pobre apesar de pop e descolada, bem como os moldes do bar onde Jef Costello assassina a vítima que o daria mais prejuízo na sua carreira até então, lembra o bar de Casablanca(idem,1942) tanto pela presença de algumas personagens como Robert Favart com um traje bem típico, a super lotação e principalmente a peça que envolve Jef Costello, Valérie.




Claro que com tudo isso, Melville não poderia deixar de usar a ironia para criar o seu estilo dentro do noir. Sendo assim, Melville, usa praticamente todas as contradições ou pelo menos as “regras” que fariam um filme noir e só deixam ela mesmo no roteiro, e usa praticamente tudo de forma diferenciada, bem como, o uso do branco-e-preto nos filmes noir eram um dos elementos típicos e exatos para criar um filme do gênero, já aqui o mesmo não utiliza, muito pelo contrário, apesar de usar o cinza e o tom mais escuro como representação da fragmentação e decadência da sociedade atual na cidade e nas próprias roupas de Costello, Melville se utiliza das cores para mostrar de forma contemporânea e pop brincando com esse tom cinza tão forte. Obviamente, Melville não poderia deixar de usar algo, além das paisagens que brincam com o existencialismo e a arte atual com tantas tonalidades e cores como a decadência moral da sociedade, sem algo de fundo para ajudar a dar o toque. Melville, apesar de usar muito do silêncio e dos diálogos rápidos e geniais, também se utiliza dos sons da cidade, da inquietação de Costello e sua manipulação falhada com a pianista Valérie, na qual o mesmo acaba se sentindo atraído(ou não), do seu prazer e seriedade, rigor em matar por dinheiro. Tudo isso são elementos muito importantes, claramente, mas o uso da trilha-sonora clássica com alguns toques estranhos de suspense ou de ação, pouca vezes usados, mas quando usados, são perfeitos, assim como acontece muito semelhantemente à uma obra posterior, Laranja Mecânica(A Clockwork Orange,1971)

Os traços da perfeição de Melville, não param por aqui. O uso desta filosofia de um jeito tão especial e natural, nos faz lembrar do clássico Bande à Part(Bande à Part/Band of Outsiders,1964) na qual também se trata de uma homenagem aos clássicos americanos, só que nesse outro caso, dos filmes de crime estadunidenses, que mesmo assim, também ainda pega algumas pontas e ritmos dos filmes noir, mesmo que não especificamente. Os dois, tanto a homenagem de Godard e Melville conseguem captar com precisão o intenso amor juvenil, um cenário metropolitano decaído seja por crítica seja por estilo. Mesmo a obra de Melville, ser totalmente rica na sua personalidade, na sua ampla criatividade e impulso de tudo o que é bom do noir em uma única película e entre outras coisas, e quase impossível não notar semelhanças entre obras-primas tão ricas e cheias de inspiração.

Melville é completo em sua obra, consegue captar tudo e usar da filosofia que parece tão distinta da realidade que vivemos hoje em dia(sim, é um filme que consegue ainda ser atemporal), com o ritmo delicioso e divertido do noir americano. O samurai, não é apenas um filme noir, ou um filme homenagem aos filmes noir, é mais do que isso é um entorno sobre essas identidades é uma história que se apropria da crítica e da arte cinematográfica para se criar e convocar o que a de melhor no gênero e em uma junção explicar essa arte, tanto da de Jef Costello, como a de quem ama o cinema, ama o noir em um enredo simples e genial, cheio de símbolos, criações e um novo modo de cinema criado a partir de um cinema, a poesia se encontrando perfeitamente, palavras são quase impossíveis de descrever a grandiosidade(que se compara à da cultura japonesa, que inclusive tem total influencia na conjugação de Melville sobre obra-prima, tão magnífico quanto é o Bushido para os samurais), mas apesar de tudo a tela é capaz de descrever impecavelmente e mais um pouco e fez isto em um dos melhores filmes que o cinema já pode ver.


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Gran Torino(2008)



Gran Torino(idem, 2008) é com certeza um dos filmes que mais chamaram atenção na útilma década. Que Clint Eastwood retrate uma história que de maneira ou de outra simbolize um panorama de sua própria carreira é apenas o primeiro passo. Quando o famoso carro da Ford, tão conservado e defendido pelo seu dono(um americano que diga-se de passagem, bem sofrido) é quase roubado por um menino Thao Vang Lor(Bee Vang) é ponto inicial da partida, que Eastwood vire as câmeras para diversos assuntos e temas desenrolando principalmente na relação entre o velho Kowalski e o jovem oriental.


O cinema que Clint Eastwood vem fazendo, não de seus clássicos como Os Imperdoáveis(Unforgiven, 1992), mas sim dos últimos 10 anos, Sobre Meninos e Lobos(Mystic River, 2003) da um gás possível para entender melhor sua situação, um cinema humanamente simplório porém fundado em feridas que voltam a sangrar e perturbar, um cinema que trata de memórias que mais parecem cicatrizes. Não menos, o velho americano interpretado por Clint, sentado em sua casa(bandeira americana içada, cores brancas...), patriota da nação é cutucado por especificamente um inimigo a que já estava próxima durante a segunda guerra mundial, o povo oriental.

A arrogância da personagem de Clint é algo único, principalmente por que nem mesmo o passado explica tal revolta, e começa assim o primeiro diálogo dele com o espectador, o sofrimento da guerra. O monstro, que talvez não tenha tantos ataques emocionais expostos(isso por que o conservadorismo bata tanto ou mais alto em sua cabeça). É dessa ignorância aguda que o personagem “pré-histórico” vive com seus medos e se aproxima deles, um povo que entende mais dele que a própria família, que tenta devorar sobre tudo pegar sua herança, e não aquela que os três rapazes(algo que Eastwood gosta de explorar) veem, documentos de guerra e registros sobre, mas sim dentre outros bens, o velho Gran Torino, título do filme e outro assunto.



Gran Torino, que carrega todo esse peso e cobiça, é principalmente um dos objetos-chave ou o principal retorno ao passado, tanto na época em que trabalhava na Ford quanto a guerra, um símbolo do conservadorismo dos bons costumes. Mas com certeza, não podemos negar que é a riqueza que mais presa porque os registros e a arma guardada em sua velha e armazenada, pulam ao salto de oposição e desarmonia, do soldado ensinando um jovem oriental ao mundo.

Que Thao seja “educado” pelas regras de uma nova sociedade a qual ainda não aprendeu a viver, é no mínimo incomum vindo principalmente de parte de um homem ressentido, mas talvez as sequências mais deliciosas, poéticas e filosóficas do filme, viajando para um eu interior e uma lição pura e bem filmada, peça-chave da carreira do diretor.

Do bang bang até as aventuras, encostando diversas vezes na religião, Kowalski é Eastwood e Eastwood é Kowalski principalmente em um dos maiores fatores discutidos e abordados delicadamente em Gran Torino, a maior lição que o tio Clint tem para ensinar nesse testemunho maravilhoso, é além dessa questão de vida ou morte sempre tratadas como extremos, e verdadeiramente algo que o cinema precisava, algo rico e limpo. É padre de 20 e tantos anos querendo discutir vida, menino de 18 ou 19 anos roubando, gangues se aproveitando e mesmo assim ainda não aprenderam algo valioso sobre a vida, que se baseava principalmente no meio dessa equação a qual Clint vem mostrando, do horror a comédia e da aventura ao drama, algo que por muitos, se passa pouco nítido, assim cabe a experiência falar mais alto para que esse patamar seja descoberto, passando mais dessa espontaneidade tão presente e ignorante, assim demonstrado do velho ao jovem, da velhice a juventude o fruto da vida, que dentre várias experiências, pode ser dirigir um Gran Torino na rua sob o sol.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Artesãos da Fotografia X

Jack Cardiff (1914 - 2009)



Jack Cardiff conviveu com a Indústria Cinematográfica desde a sua infância, pois nela entrou como estrela infantil. Ficasse só nisso sua contribuição para a Sétima Arte teria sido quase que nula. Em realidade trabalhando junto aos Korda, acabou se aproximando de Harold Rosson que fora lá trabalhar e foi escolhido como Operador. Posteriormente em 1937 acabou tornando-se um Consultor da Technicolor e Fotografo. A verdade é que em se tratando de Fotografia Colorida ela talvez tenha sido o melhor. O grande problema foi que tentou a Direção por muito tempo, deixando então a composição fotográfica nas mãos de outros menos talentosos. "Sapatinhos Vermelhos" e "Narciso Negro" são tão bem compostos fotograficamente falando, que causaria inveja a pintores como Degas e Delacroix. Foi indicado 3 vezes ao Oscar: Guerra e Paz (1956), Fanny (1961) e Narciso Negro (1947). Somente com o último levantou a cobiçada estatueta. Merecidamente. Injusto foi nem ter sido indicado por Sapatinhos Vermelhos. Um pecado.


Principais Trabalhos:


                                                            Neste mundo e no outro (Michael Powell & Emeric Pressburger - 1946) 



                                                        Narciso Negro (Michael Powell & Emeric Pressburger - 1947)



                                                       Sapatinhos Vermelhos (Michael Powell & Emeric Pressburger - 1948)



                                             Sob o signo de Capricórnio (Alfred Hitchcock - 1949)



                                            Uma Aventura na África (John Huston - 1951)



                                            A Condessa Descalça (Joseph L. Mankiewicz - 1954)



                                                  O Príncipe Encantado (Laurence Olivier - 1957)



                                            Guerra e Paz  (King Vidor - 1956)



                                            A Lenda dos Desaparecidos (Henry Hathaway -1957)



                                            Vikings - Os Conquistadores (Richard Fleischer - 1958)



                                            Fanny (Joshua Logan - 1961)



                                            O Príncipe e o Mendigo (Richard Fleischer - 1977)



                                            Conan - O Destruidor (Richard Fleischer - 1984)




                                            Rambo II - A Missão (George Pan Cosmatos - 1985)



                                            O Mistério de 4 Milhões de Dólares (Richard Fleischer - 1987)


Escrito por Conde Fouá Anderaos