segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Meus quinze anos


Echo Park, L.A. (o título em inglês) refere-se a um bairro onde a comunidade latina se implantou e ainda permanece como maioria. No filme vemos que este território começa a ser invadido pelos “americanos puros” devido a especulação imobiliária.

O título em português não se trata de uma aberração. Magdalena é uma garota que está prestes a completar 15 anos. O filme se abre sobre a cerimônia da “Quinceañera” de uma de suas primas. Festa que celebra a entrada da moça na vida social. É nessa feliz abertura que se delineia os temas principais que serão abordados: O conflito entre a tradição e a modernidade. Eileen festeja seus quinze anos com todo o folclore e as tradições pertinentes ao momento, mas faz uso de uma limusine, com seus amigos e escuta música moderna que permanece no ambiente a noite toda. A ruptura já se apresenta e ela se solidifica quando o irmão de Eileen surge trazendo as mãos um pequeno agrado e é rejeitado pelo pai e expulso do ambiente. Aqui a tradição se impõe e o filme nos anuncia que as pessoas ali presente, fazem parte de uma comunidade, da qual a negação de seus valores, coloca o indivíduo como um excomungado perante a vida. Será a situação em que se adentrará Magdalena em breve. Ela que sonhava com a “Quinceañera” (no caso dos mexicanos, a tradição remonta a época asteca, a apresentação da jovem a sociedade, festeja também a pureza, celebra a virgindade, dentro de um rigor mesclado a tradição cristã) devido a uma gravidez inesperada e inusitada, cai em desgraça. Apesar de ainda permanecer virgem, está grávida. A gravidez indica, demonstra, agride os olhos. Antes não fosse virgem, mas parecesse.

Magdalena rejeitada pelo pai, que é um pastor, encontra refúgio junto ao tio Tomás, que já acolhera o enjeitado Carlos (um homossexual). Tomás de idade avançada, vive o dia a dia, sem se preocupar com o futuro. Essa filosofia de dar tempo ao tempo mostra-se acertada. De condenados, tornar-se-ão com o tempo vítimas (o que sempre foram) aos olhos dos que o condenaram.

Um dos acertos do filme é essa união improvável entre dois seres tão diferentes. Ambos sofrem uma discriminação que as impedem de viver sua sexualidade livremente. Os diretores optaram por construir uma situação que está muito próximo de nosso cotidiano: Eles escancaram com virulência a possessividade e a frieza de um pai que opta por renunciar o auxilio e a compreender sua filha em nome de uma concepção de honra deslocada e ultrapassada, atrás do qual se esconde em nome de uma fictícia segurança. A tese da imaculada concepção pouco a pouco denuncia a tradição inumana que permanece nos espíritos das pessoas. O único meio pelo qual consegue a aceitação do pai é a incompreensão deste (consciente ou não) sobre a concepção que lhe permite ver nela um milagre de Deus.

Um dos obstáculos para que apreciemos mais o filme é justamente a retratação de algo que vemos ainda enraizados em nosso cotidiano. A estética escolhida pelos realizadores é muito próxima daquelas das telenovelas mexicanas: Tudo é muito colorido, não negando as origens latinas. Os personagens que aspiram a ser americanos, mas se arraigam no mais retrógado de suas origens também está lá. Talvez esse olhar-se no espelho não nos agrade. Latinos que somos não apreciamos essa dissecação de nosso modo de ser. Aqui mais um dos acertos do filme. Destacar a figura universal do Tio Tomáss (sensível e comedida interpretação de Chalo Gonzalez) que através de sua experiência de vida impõe-se diante de todas as situações e pessoas. É uma figura inatacável e nem por isso se tornou alguém que ataca. Aprendeu a compreender a vida que pulsa ao seu redor. Daí vem à extrema simpatia que nos causa. Tal acerto na construção do personagem visa apenas tornar palatáveis temas ainda não resolvidos.

Em suma: Um filme com mais acertos que erros, mas que não nos dá a certeza de que seu início promissor foi levado às últimas conseqüências.


Escrito por Conde Fouá Anderaos

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