quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A Harpa da Birmânia (1956) - Crítica

“A Vida seria um erro sem música. ”
Friedrich Wilhelm Nietzche


Desde sempre colocado no rol dos melhores filmes de Guerra de visão pacifista, A Harpa da Birmânia, segue com o mesmo frescor e força na sua mensagem e feitura, despertando nas gerações de hoje o mesmo sentimento de inquietude frente o horror da Guerra que faz o ser humano retornar ao estado de barbárie. Contribui para isso o a inteligência e o lirismo da narrativa, que é um verdadeiro convite a tolerância e ao otimismo. Irá sempre encantar a todos que procuram um canto, uma brecha no discurso dos povos, para depositar ali a esperança de que um dia o coração de todos que fazem parte da humanidade, possam bater num ritmo pausado e idêntico. Um espaço privilegiado que só a arte pode conceber.
O filme se arvora sobre dois sustentáculos principais: a música e um quê de comunhão espiritual. Ichikawa contudo não tem um domínio de direção de um Renoir (A Grande Ilusão), mas demonstra grande sensibilidade e se prende para passar a sua mensagem no indivíduo. É tênue a linha que separa o sentimentalismo do piegas, mas o diretor japonês se equilibra nela de forma exemplar. Numa Birmânia em vias de ser liberada da ocupação nipônica, um regimento da armada imperial japonesa é encurralado pelas tropas inglesa. Surpreendido pelos inimigos, o confronto é evitado graças aos dons musicais de um soldado (Mizushima),  que de forma inusitada, dá a entender aos inimigos que eles festejam a rendição já declarada (o fim do conflito). Detidos como prisioneiros, esse soldado é escolhido entre todos, para ir informar a uma tropa cercada numa montanha de que o conflito já teve fim e os persuadir a se entregarem aos britânicos. Ele se encontra numa encruzilhada, já que para aqueles soldados, tal seria desonroso e eles optam por combater uma batalha perdida (uma espécie haraquiri coletivo). A partir desse evento o filme trilha por um caminho inaudito e imprevisível.Somos surpreendidos pelas escolhas da direção do roteiro. A beleza das imagens em preto e branco, contrasta muitas vezes com o seu conteúdo. E isso encontra eco no espírito do artista soldado, fazendo-o refletir sobre o estado das coisas. Reflexão essa que atinge os espectadores. Um homem fiel ao seu dever com a pátria, mas deixando-se influenciar por uma outra visão, a visão do outro que servia somente de adorno dentro do cenário onde combatia. Mizushima se vê ampliado, agigantado enquanto ser humano. Seu posicionamento frente ao horror que o cerca, o faz querer dotar tudo isso de um outro sentido, que não aquele da destruição. Enquanto seus companheiros almejam reconstruir a pátria fragmentada, arrasada, ele deseja se postar frente aquele horror o dotando de um sentido maior ainda. Costurar as feridas, significa compreender a visão do outro e espiritualizar o horror a sua volta. Vida e morte nos acompanhará durante a projeção. A Natureza conspurcada pelo bicho homem, assiste o decompor de corpos insepultos. O soldado nada mais seria de que uma máquina sem identidade. O soldado músico deseja inserir cada cadáver dentro do rol da humanidade, lugar de onde a Guerra os retirara. Mizushima renega seu status de militar, para reforçar sua condição de ser humano. Dessa forma ele consegue comover o povo invadido (que no filme se comporta como alheio ao conflito ao redor) expandindo a sua tomada de consciência, não só a seus amigos de arma (que em breve partirão rumo ao Japão), mas também ao povo birmanês, revelando a todos, a necessidade de se ampliar a ideia de Pátria.

Ainda que soe ingênuo as vezes, a sua mensagem simboliza a esperança e a vontade de se projetar no futuro, ainda que estejamos em tempos de guerra. Continuar a viver permanecendo íntegro, quaisquer que sejam as circunstâncias, ampliando seus horizontes, para que os ideias e o desejo de ver renascer o mundo permaneça com eles e neles. A mensagem é clara: É preciso permanecer unidos. A reconstrução é uma etapa difícil, após um conflito. É preciso também pensar nos outros, estejam eles vivos ou mortos, sejam eles próximos ou desconhecidos. Todos estamos num mesmo barco e o sofrimento a todos atinge, ele não poupa ninguém.
Outro achado do filme é dar voz a uma tropa suis generis, apta a se deixar influenciar por uma cultura budista que permeia todo o filme. Apesar de cercado por dificuldades e sofrimento eles sempre são tocados por um otimismo e uma sensibilidade que transborda. As ligações superam a franca camaradagem, para se tornar uma verdadeira união sagrada. Apesar das personalidades serem bem distintas, eles buscam as semelhanças que unem, ao invés das diferenças que os separariam. Além do que a veneração pela música os sustentam nos momentos mais difíceis. Se Mizushima é o exemplo maior, de certa forma, ele foi feito do barro formado por todos eles. Ao transformar essa tropa num farol que visa iluminar a todos, Ichikawa não deixa de mostrar  a cegueira que tomara conta do país: O mal cultural que levava indivíduos ao suicídio coletivo, não conduziria o país ao seu reerguimento. Mizushima (símbolo da tropa) existe para que todos identificassem nele, a possibilidade de um outro caminho. O caminho para um futuro melhor.

Um dos melhores filmes sobre a paz em tempo de Guerra. A se conhecer obrigatoriamente.


Escrito por Conde Fouá Anderaos

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