quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Crítica: O Grande Hotel Budapeste (2014)

“ Relato da história de Gustave, Gerente de um Hotel situado no país imaginário de Zubrowka, no continente europeu, entre o período das duas Guerras Mundiais. Enquanto a ameaça nazista se espalha sobre a Europa, Gustave é testemunha de um mundo que está prestes a desaparecer e busca transmitir parte de seu “saber” a seu novo assistente, o jovem Zero Mustapha. Tal aprendizado é abalado pela busca de um inestimável quadro roubado, obra que data da Renascença e de um conflito que tem como escopo uma importante herança familiar, além claro, de uma terrível acusação de assassinato. ”
Wes Anderson sempre foi tido por minha pessoa (perdoem-me seus admiradores) como uma eterna promessa que nunca vingava. Não que não o achasse talentoso, mas ele sofria em minha opinião de uma inconstância em suas películas que demonstravam uma irregularidade, ou seja, filmes pontuados de grandes momentos e outros infelizmente vazios. Um filme não pode ser uma montanha russa. Contudo estou acuado contra a parede. Desarmado e embasbacado. O Grande Hotel Budapeste não é apenas seu melhor filme, tampouco um bom filme, trata-se sim do melhor filme americano dos últimos anos. A partir de agora, Anderson inscreve-se no panteão dos grandes diretores da Sétima Arte e suas obras anteriores também se valorizam: São como pequenos pedaços de um lindo vitral que finalmente o artista conseguiu montar: O Grande Hotel Budapeste.
Uma dessas iguarias (Como a citada no filme, um doce da Mendl’s) tão perfeita em sua confecção, que nos sentimos culpados em degustar, já que para isso temos de macular a belíssima embalagem que o orna.

Um humor recheado de camadas, umas mais geniais que a outra. Rico de citações (Thomas Mann, Stefan Zweig, Hergé, Ernst Lubitsch, Joseph Roth e Jacques Tati) visuais, estruturais e literárias o filme arrasa. Vestígios de uma época em plena transformação, onde o refinamento de uma então “arte” de viver (ou modo de estender sua influência – classe nobre/burguesa) é confrontada pela barbárie nazista que em pouco abraçaria como um polvo a sua presa, a velha Europa.
A intriga se estabelece em Zubrowka (país imaginário) na parte oriental da Europa. Numa imensa sala de jantar, de um hotel decadente, o proprietário se encontra e após um tempo relata sua história e a do hotel a um escritor. Outrora esse local era a jóia da coroa, um local tão isolado e inacessível, que somente se podia chegar lá através de um teleférico. Cravado numa montanha, imponente, inatingível até então, pelos diferentes regimes políticos. Notemos que o “Comunismo” soviético ainda não se expandira para a região. O que asfixiará o hotel, e, por conseguinte a classe que o frequentava, será justamente a expansão dos regimes totalitários. Gustave (Ralph Fiennes – impagável ) um homem que conhecia todas as engrenagens de seu ofício, se verá então acuado, por essa ameaça inaudita, que varrerá para bem longe qualquer possibilidade de manter intacto o mundo onde se destacava. A tentativa de resistir, fazendo uso dos códigos que conhecia, é inútil.

Estiloso e Substancial
Alguns desatenciosos enxergarão apenas uma obra esteticamente perfeita, onde o que existe é somente a preocupação para fazer evoluir e surgir um sem números de personagens caricatos, como se tivessem sido descolados dos quadrinhos e ganhado vida. Impressionante como ele conseguiu amalgamar em torno da obra um elenco irrepreensível: Bill Murray, Jude Law, Adrien Brody, Edward Norton, Jeff Goldblum, Tilda Swinton (irreconhecível), etc. Todos rezando por uma só cartilha, submetendo-se a visão de um artista que irrompe sua imaginação nos oferecendo aqui um dos filmes mais charmosos do milênio, valendo-se de um humor saboroso e ao mesmo tempo negro (soa-me aquela pessoa sonsa e maldosa, que ofende  - toca na ferida - sem parecer que o faz de propósito).
Êxtase visual, estética elaborada tendo como alicerce e inspiração os grandes clássicos dos quadrinhos, recontando e criando sobre uma ótica saudosista o que teria sido os anos de ouro europeu. Andersen mostra-se uma virtuose no domínio da câmera que parecia esquecido: travellings virtuosos que jamais resvalam numa gratuidade sem propósito. E vários planos que nos fazem escancarar os olhos, em razão de sua beleza e audácia. Realização e direção artística tocando o sublime. As imagens são carregadas de textura e cores beirando o kitsch, os uniformes púrpuros de Gustave e Zero, por exemplo, ferem (chamam a atenção) a retina. A trilha sonora a cargo de Alexandre Desplat cose-se com perfeição ao conjunto, enriquecendo-o. A direção dos atores é perfeita, a câmera não faz audácias desnecessárias, o quadro pertence ao ator e não o diminui. Fiennes se entrega de coração e alegria no papel, despeja tiradas poéticas com um aprumo notável, uma grande performance ignorada pela Academia. E Tony Revelori presente ao seu lado não é engolido. Trata-se da grande revelação dessa década.
Todas essas proezas técnicas nada seriam se não fosse a riqueza textual e a ousadia do roteiro. Contrariamente a meu temor quando surgiu a imagem do hotel, inspirada numa casa de bonecas criada por um ourives competente, o diretor não ficou preso nas cercanias desse ambiente acolhedor e velho. Abriu-se a alteridade, deixando-se levar pelos mistérios de uma história grandiosa.
Apesar disso lembremo-nos que se trata de uma comédia. Não destas rasteiras e vulgares que visam o gargalhar irracional. O que ocorre é que somos convidados a visitar a Europa antiga (reconstruída através da imaginação de Wes) com pinceladas de humor que tocam de leve naquele que era produzido por cineastas com o Lubitsch ou Sturges. Logicamente que trata-se de uma aproximação, não uma simples cópia. É outra obra, outra visão, outra aproximação do real, não aquela dos dois citados. Agora compreendo a importância que teve o Fantástico Sr Raposo nessa confecção. Anderson parece ter adquirido desde então um patamar de virtuosidade técnica que o permite trabalhar com um número considerável de rapidez e técnicas dentro de um mesmo plano (imagens reais, stop-motion, maquetes e miniaturas). Obra prima de ação burlesca, que se aproxima visualmente do que faziam os irmãos Marx. Marx Brothers mais reflexivos, ainda que com a mesma agilidade de metralhadoras automáticas. A mescla entre Tati e eles. Trágico, cômico, áspero e reflexivo. Repousando sobre uma simpática mistura entre vivacidade, melancolia e uma espontânea morbidez. Morbidez que desemboca sobre uma implícita necrofilia conduzida com uma agridoce ironia negra nos limites do estilo eminentemente obsessivo do cineasta. Um mundo filmado como uma enorme casa de bonecas se transforma em um descarado museu de ceras visitado por um legista (A velha amante interpretada por uma Tilda Swinton em estado de decomposição). O peso da velhice, o medo do aniquilamento, cerca sutilmente o conjunto construído. Um conto de velhice sobre as neves eternas, num período onde os personagens desejam apenas não mergulhar num período de noite eterna em que a Europa teria de passar.
Wes Anderson relembra a violência e a selvageria que existiram de forma doce e melancólica. Aceitamos de maneira mais natural quando vemos tudo sob uma ótica mais otimista. E por incrível que pareça, isso exalta a nossa reflexão para evitarmos a repetição do erro. Só os gênios são capazes disso.

Escrito por Conde Fouá Anderaos