sábado, 4 de abril de 2015

A Viúva Alegre (1934)



 “William Wyler e eu andamos silenciosamente até o nosso carro. Finalmente, eu disse apenas para dizer apenas para dizer alguma coisa a fim de quebrar o silêncio:
- Não teremos mais Lubitsch.
Ao que Wyler replicou:
- Pior do que isto, não teremos mais filmes de Lubitsch.
Como estávamos certos. Durante vinte anos, desde então, tentamos descobrir o segredo do Lubitsch touch. Nada feito. Quando tínhamos sorte, conseguíamos rodar alguns metros de filme em nossa obra, que momentaneamente, cintilavam como Lubitsch. Como Lubitsch, não o verdadeiro Lubitsch. Sua arte se perdeu. O mais elegante dos mágicos das telas levou o seu segredo com ele.”
Billy Wilder em entrevista de 1967. Lubitsch morreu em 30/11/1947.


 “O Príncipe Danilo é pego no quarto da rainha pelo rei. É constrangido a aceitar uma missão difícil, seduzir e se casar com uma viúva do reino que emigrou a Paris. Toda a imensa fortuna dela é necessária para o restabelecimento das finanças do reino”

Em que consiste o tão venerado e celebrado Lubitsch touch. Tentar definir aquilo que muitos cineastas buscaram recuperar seria ousadia demais. Contudo podemos dizer sem medo de errar que ele era oriundo de uma mescla de sua origem européia- judaico-berlinense, aliada a uma observação minuciosa dos costumes norte-americanos que acabou por gerar um humor brejeiro e atrevido, que era destilado através de deliciosas ironias, subentendidos elegantes e insinuações rápidas. Foi o primeiro cineasta de comédias que compreendeu que a ironia, a sátira não precisa resvalar na crueldade, nem na vulgaridade, mas deve se utilizar as mesmas armas daquilo que se pretende ironizar: a moral, os bons costumes, o bom tom e a elegância. Fórmula essa que jaz quase completamente esquecida pelos diretores atuais.

Aqui em “A Viúva Alegre” nos depararemos com esse mundo maravilhoso que somente o diretor conseguia colocar nas telas. Baseado numa opereta de sucesso do início do século XX composta por Franz Lehar. O diretor encontrou em tal história o campo necessário para desfilar toda a sua capacidade cinematográfica. Uma história repleta de quiproquós explorados a exaustão pelo cineasta, que em segundo plano ousa mostrar a frivolidade da sociedade (é creditado a esse filme a justificativa para que o Departamento responsável pelo controle moral dos filmes caísse nas mãos de Joseph Breen – um ativista religioso) com jovens parisienses permitindo-se pertencerem a pessoas da nata sem envolvimento sentimental - Um rei que ao invés de lavar sua honra, deposita no homem que a maculou todo o destino de sua nação. Contudo a leveza e a inteligência da direção fazem com que nós nem nos apercebamos disso. E também nem nos damos conta da impossibilidade do sedutor e frívolo Príncipe Danilo vir a se emendar e conquistar o coração da viúva. Ficamos como que fascinados pelo que nos é mostrado e só depois percebemos muitas vezes o que existe por trás. E são tantas as cenas memoráveis, habilmente costuradas entre si. Veja toda a seqüência quando o rei deixa o palácio e volta para buscar o cinturão e os eventos que se sucedem a isto. O encontro do embaixador com Danilo, as imagens que enchem a tela quando da decisão da viúva tirar o luto. Quando Bing lê a missiva que Popoff recebe e se empolga com as palavras que espinafram seu superior hierárquico, tornando-se ele o próprio rei.

A história é simples. Talvez até tosca. Mas quem poderá dizer em sã consciência que Ernst Lubitsch não a consegue dotar de um interesse inaudito. O que importa não é a história, mas como a contam. Um clássico da genialidade de um mestre.

Escrito em 05/09/2011

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