segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Garota Exemplar (2014)

Vi na tela grande duas vezes. Revi mais duas vezes em DVD. Tudo devido ao impacto causado. Cada vez que o revejo ele cresce em minha opinião. Creio que em breve o terei em conta de obra prima.

“Um casal completa cinco anos de casados. O que era para ser uma comemoração vira uma interrogação. O marido (Nick Dunne – Ben Affleck) chega em casa não a encontra. Ele informa a Polícia e aos poucos é pressionado por ela, pela imprensa, os parentes da esposa e toda a comunidade. Contra ele o surgimento das verdades que desmentem a ideia de casal modelo que todos criam ambos ser. Teria ele matado sua esposa (Amy Dunne - Rosamund Pike)? O que terá acontecido a babe Amy?”

O filme mais importante a tratar até hoje sobre um dos alicerces do filme de Fincher foi O Que Terá Acontecido a Baby Jane (1962) de Robert Aldrich. Lá se falavam sobre duas irmãs já idosas. Uma delas foi Jane Hudson que foi quando criança uma verdadeira vedete que cativou o coração de toda a América com uma canção que foi entoada por anos. Passada a adolescência ela foi completamente esquecida e viveu a sombra da irmã que despontou como uma grande atriz.
No filme de Fincher a desaparecida é uma bela herdeira de uma fortuna acumulada pelos seus pais, autores consagrados de livros para criança, na qual a heroína é uma surpreendente Amy, cópia imaginária da filha e que se tornou uma febre e a enésima Miss Simpatia e noiva de toda américa. O sucesso fácil e as comparações aos poucos destituíram a jovem do espírito (consciência) de sua própria existência. Um ser sem personalidade.
Se o filme de Fincher se debruçasse sobre tal tema já seria fascinante. O que o torna maior é justamente amalgamar outros questionamentos e ir além... Uma noite Nick querendo ser algo que não era, dá o melhor de si e ela acredita poder então materializar a história perfeita que queria para si. Os contos de fada e o cinema inspirado neles já criou vários momentos mágicos. Fincher faz o seu, com direito até a uma neve artificial. Só que o desloca de um ponto de vista onde já chama a atenção do espectador atento a sua artificialidade. É a primeira dica sobre que nem tudo que veremos corresponde à realidade.
A outra temática sobre o qual muitos críticos se debruçaram (com razão, diga-se de passagem) é mostrar o casamento enquanto inferno. Verdadeiro mas esquecem de ver que no caso de ambos houve uma exacerbação do desejo de se mostrarem perfeitos um ao outro. Logicamente que sempre que dois seres se buscam e desejam conquistar um ao outro tal acontece. O problema é que aqui o desprevenido Nick não se atentou que se aproximara de uma mulher já mentalmente perturbada que buscava perenizar a profecia de Andy Wahhol além do quarto de hora: “No futuro todos terão direito a 15 minutos de fama”. O casamento vira um pesadelo, mas aqui o se discute é a loucura, o delírio, a doença que que contamina o mundo levado ao extremo. Lembram-se dos selfies da população diante da casa do principal suspeito? Do papel da mídia e a sede de todos de poderem ser capturados pelas câmeras que irão perseguir Nick e acompanhar seus familiares? Não custa lembrar que no passado Wilder em seu “A Montanha dos Sete Abutres” mostrara isso de forma menos sutil e mais contundente. Tivesse filmado na realidade de hoje o público anestesiado já não se importaria de se mostrar como “abutres”. Vivemos um grande big brother e não nos importamos com o papel que desempenhamos. Estamos sedentos por apenas aparecer. Um mundo onde muitos se dedicam a gastar mais da metade do tempo de sua existência a fabricar uma imagem que nunca corresponderá a realidade do que são realmente.  A primeira metade do filme poderia ser resumida dessa forma: “Amy e Nick, feitos um para o outro”. A segunda parte: “Todos queremos participar dessa trama”.
Outra coisa que casou bem com o filme. Fincher escolheu bem seu elenco. A insipidez de Affleck casa bem com a figura que se quis construir de Nick: Um personagem quarentão, de queixo saliente, grosso, que pensa ser mais do que é, oco, limitado, sem perspectiva na vida e que se revigora no ofício de seduzir mulheres mais novas. Tão centrado em si que não percebeu que é o Ken da Barbie. Barbie essa que não deseja só seus bens (já que não os tem), mas sim a sua alma. Ele só tem validade e existência quando no papel do boneco Ken. Ser a escada para que ela brilhe. O filme no entanto é todo de Rosamund Pike.  Surpreendente em cada suspirar e olhar que lança em cena. Tão cativante que apesar de sabermos o que ela representa, somos desejosos de ser a próxima vítima dessa Hydra.
 
Adoro a forma como o suspense foi desenvolvido. Parece um thriller comum, e nos leva a crer que algo de ruim aconteceu. Jamais imaginamos quem arquitetou aquilo. O filme vai num crescendo. Não atinge o sublime dos 30 ou quarenta minutos do filme de Aldrich já citado. Mas tem a virtude de jamais ter uma queda em seu crescer. É mais equilibrado nesses termos. O que não diminui em nada o clássico de 1962. A aparente falta de sutileza em alguns momentos é fruto de nossa época. Não se tem a preocupação de se rebuscar a linguagem, afinal capta-se a essência do hoje, os códigos de censura não mais existem (Ainda bem).
A eliminação física de um outro para consecução da permanência da aparência da doce Amy perante os olhos do mundo é de uma crueldade cínica que poucos notam A vítima é apresentada como o Sr. Enfado. Um leitor e entendido de Proust. Ao se eliminá-lo, não se elimina também a ideia de que o se aprimorar não vale a pena? Que estamos vivendo em uma sociedade totalmente descartável? O máximo que se ouve em prol do executado vem da boca de seu marido insosso. “Como pode chegar a matar outra criatura?” O silêncio dela a indagação responde tudo. O Baby Amy precisa brilhar. Não importa o preço a ser pago. Nick só foi salvo quando ela percebeu que ele serviria a um bom enredo.

Creio que a maior injustiça do ano é esse filme ter sido esnobado pela academia. Como tal aconteceu? São impressões, mas creio que o Juiz Tempo irá me dar razão. Será um clássico. É isso. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Em Um Mundo Melhor (2010)

Ganhador do oscar de 2010 de melhor filme estrangeiro, abocanhando também o Globo de Ouro a obra da dinamarquesa Susanne Bier (de quem eu já vira o interessantíssimo “Depois do Casamento) tem lá seus fãs ardorosos e alguns críticos que veem na sua confecção a preocupação de uma moldura que agradasse a indústria cinematográfica americana.  Sem querer discordar desses últimos, acho primeiramente que o fato de se fazer um produto que agrade um determinado segmento, não invalidada totalmente um projeto, desde que ali se mantenha uma certa coerência autoral. É o que ousarei tentar explicar nesse escrito.

“Anton é médico. Ele divide sua existência se dedicando a seu lar instalado em uma cidade aprazível e calma na Dinamarca e seu trabalho no meio de um campo de refugiados na África. Ele se encontra separado de sua esposa e ambos ainda não se divorciaram. Eles tem dois filhos. O mais velho tem cerca de doze anos e é vítima de bulling na escola por conta de seus dentes saltados sendo alcunhado de coelho. O acesso dos seus colegas de escola tem um fim com a chegada de um outro garoto, Christian, que lhe toma a defesa e age de uma forma decidida e brutal. Christian deixou Londres com seu pai, logo após a morte de sua mãe, vitimada por câncer. Ensaia-se uma amizade entre ambos e a possibilidade de serem camaradas. A revolta existente em Christian quanto ao destino da mãe no entanto faz com que ele ao planejar uma vingança coloque em risco essa amizade e também a vida de ambos.” 

Um filme ambicioso que busca amalgamar vários temas complexos que instigam a sociedade atual: Violência, Educação, Doenças, Perdas Familiares, Assistencialismo, Humilhação Familiar, Colonização, etc.

Se o filme dá mais destaque a história dos dois garotos e suas implicações, o alicerce explicativo da visão da cineasta (ainda que inconsciente) é Anton, o pai. Através dele teremos um questionamento do rumo tomado pela Europa como um todo no tocante ao que alicerça a sociedade. O filme suscita uma reflexão dolorosa sobre o fundamento da civilização dita civilizada que serviria de modelo para se chegar a um mundo melhor. Como se chegar a uma sociedade que fique imune aos excessos que transformam tudo num caos. A África que surge de maneira pouco incisiva é fruto dos excessos cometidos pelos europeus em seu solo durante a longa colonização e serve para questionar e mostrar que o que ocorre no velho continente é apenas discurso, sofisma(em Depois do Casamento o protagonista também fazia assistência social em outro país vítima da colonização: A Índia; o que demonstra que a preocupação com esse tema pode ser uma constante em sua obra). O começo do filme mostra-nos a amizade surgida entre dois seres após uma atitude bárbara. E essa amizade é mórbida pois não inclui, é exclusivista, egoísta, etc. Uma ligação baseada na exclusão de um e no ódio cego de outro.  O que nos prende é justamente verificar como eles conseguirão se moldarem a lei e deixarem de a transgredir. E isso vai mais além, já que na realidade as respostas que procuramos servem para o todo. Bier nos mostra pais impotentes ou ausentes, mães que se tornam déspotas (e os filhos submissos ou revoltados), e isso é algo que presenciamos no mundo todo.
Bier no entanto faz apenas questionamentos. Ela não nos dá resposta, pois não as tem. Apenas intuição de por onde seguir. Se vai dar certo não o sabemos, mas não seria importante dar chance a um outro caminho ainda não tentado? Por outro lado como colocar na tela algo tão politicamente incorreto (pela sua originalidade apesar de ser algo bem antigo) e complexo se o filme visa o público americano? Apesar de possuir talento e saber fazer, o que ocorre é que nem Bier sabe a resposta para esse paradoxo entre violência e suas origens. Anton é a válvula de escape e o homem que pode possuir a resposta. Mas também por ser humano não é infalível, pois também está sujeito a irascibilidade. Ele tem seus limites, e isso explica o agir como Pilatos em relação ao Big Man.
O grande problema do mundo atual é não aceitar a dualidade humana. A educação nossa é baseada sobre Comte e seus seguidores: Durkeim, Skinner, os behavioristas em geral, os educadores etólogos, etc. Educação baseada em condicionamento, que descarta a possibilidade do ser humano ser material e espiritual. Apesar de em certos momentos defenderem o uso da razão o negam com suas atitudes e métodos. Para Kant um ser razoável jamais faria mal a um outro ser razoável. Mas isso é um processo de construção, de autoconhecimento, de um instinto que deve ser aflorado e descoberto lentamente. A construção de um ser autônomo.  Bier tem a intuição de que o problema está na base educacional.

Anton é o personagem que busca um novo rumo, que tateia buscando sair da escuridão que encobre a verdade. As respostas são múltiplas, mas ele parece entender que é no pacifismo que se encontra o caminho mais curto. Um pacifismo que não se cala e dá voz a consciência despertada de muitos. A questão é que tal tema levado a fundo desagradaria o mercado norte americano e os próprios europeus. Afinal o que sedimenta o sistema em que vivem é antagônico a tal pensar.
O elenco todo convence e também pudera. Na tela desfilam o que existe de melhor em termos de atores do norte da Europa. E a dupla de jovens (Markus Rygaard – Elias e William John Nielsen – Christian) parecem veteranos no meio desse cast fabuloso.


Apesar do conflito entre sua proposta e o mercado onde se quis colocar o produto o resultado final convence. Contudo se não houvesse essa preocupação o resultado final poderia ter sido mais denso e instigante. A ver obrigatoriamente.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O Juiz (2014)



“Hank Palmer (Robert Downey Jr) é um brilhante advogado que aparentemente tem uma tendência de defender somente as pessoas culpadas e que segue um lema que repete a si mesmo sempre: Innoncent people can’t afford me - Os inocentes não tem condições de me pagar.
Deixando de lado seu trabalho (onde ganha fortunas) a sua vida não anda muito certa. O horizonte é incerto. Um divórcio a vista e para piorar recebe a notícia do falecimento de sua mãe e se vê obrigado a retornar a sua antiga casa no interior de Indiana e novamente se encontrar com seus parentes. As ligações com eles (sobretudo seu pai) nunca foram as melhores. A sua estada no local acaba sendo estendida quando seu pai (o Juiz do título) é acusado da morte de um homem que condenara anos antes.”


Gosto de filmes de julgamentos. E sei que os americanos (os novos romanos) amam esse tipo de temática. Um processo que gere paixão, opiniões inflamadas. Nada melhor que um local como um tribunal para canalizá-las e buscar ampliar o sentido de tudo isso. No entanto algo deve ser dito. Como seu diretor irá nos apresentar um algo já conhecido. Afinal como muitos já apontaram, desde o início sabemos que haverá o embate entre pai e filho e o retorno do filho a sua origem tem um lá não sei o que de volta do filho pródigo. Conhecer uma história não descarta a obrigatoriedade de se ver uma encenação. Afinal o que importa é a forma que tudo será abordado, de como um velho tema nos será apresentado.
Logo no início do filme quando somos apresentados a figura de Hank, tal é feito de maneira competente e que nos prende o interesse. O roteiro consegue sintetizar um homem em frases que marcam. A já citada na sinopse acima e essa que me marcou mais: Moro numa casa à beira da floresta e durmo com uma mulher que tem a bunda de uma adolescente. Frases essas que servem para resumir muito bem o mundo em que vivemos e a mentalidade americana. O homem é visto pelo que tem, pelo que pensa possuir. Alguns seres são simples objetos de outros e Hank não deixa também de possuir um dono: O dinheiro. Quando entramos na residência de Hank tudo é plasticamente perfeito: alto luxo, uma bela filha, uma bela mulher. Mas a embalagem esconde problemas: a mulher está para se separar. Forma essa encontrada pelo roteiro para reforçar a ideia de se voltar as raízes para um recomeço. E é o que vai ocorrer. O problema é que a partir daí o roteiro descamba. Fora os dois atores principais o resto do elenco nos fascina. Mas os personagens que se apresentarão são deslocados, fracos mesmo. Mesmo a pequena cidade onde ele se enfurnará desmente o que de início serviu de base para a história. Não existe ali nada de puro. A ideia que move os grandes centros já contaminou a cidade, ainda que seu ritmo ali seja menos frenético. O embate entre pai e filho também demora a acontecer. Faltam bons diálogos, boas cenas e sobra boa intenção. Um dos problemas é que o filme é longo e recheado de cenas vazias (para justificar a presença de parte do Cast?). 

Em realidade o desejo de se realizar uma espécie longa metragem para matinês dentro da linha chamada por lá de “procedural movies” derrapa sobretudo nessa longevidade de metragem. Acaba por reforçar as fraquezas da obra, a sensação de um déjà vu enfadonho.

O embate entre um jovem acostumado as facilidades da lei e um velho que vive do rigor dela e é tido como incorruptível não é bem explorado. O Juiz também não é uma figura tão impoluta assim e peca pelo orgulho e vaidade (não se afastou do cargo apesar das limitações imposta pela doença e seu tratamento comprometendo o sistema que diz honrar). Mas o roteiro apenas pincela isso e não o explora, não o discute. Tudo fica na superfície. Aliás as temáticas são várias, todas sombrias e complexas, oriundas de uma reflexão sobre a idéia de justiça indo até a doença, passando por rancores familiares, alcoolismo, paternidade, amores passados. Estão lá, mas nada é aprofundado, tudo serve apenas de recheio, mas falta sabor a tal tempero. Apesar disso o espectador novato pouco afeito a tal tipo de filme e aquele que já conhece de antemão o que virá (o conhecedor de tal legado) não se desagradará durante sua projeção. O primeiro por estar entrando em contato com a temática agora, o outro por ter a esperança que em algum momento algo genial irá coroar de sentido maior o que já conhece. Esse último aguardará até o último instante e sairá do cinema com a sensação de que o filme ainda não terminou.
No aspecto técnico destaque para a trilha sonora. Ela acompanha o espectador e o que vai na tela (ou pelo menos a tentativa em alguns momentos) de maneira perfeita. No começo do filme por estarmos dentro de uma metrópole seu ritmo é mais acelerado e vai se amoldando ao novo cenário onde se desenrolará a trama. Já a fotografia...Essa é mais desequilibrada. Por exemplo: Joga-se muita luz no tribunal que me soa gélido o que contrasta com o calor da imagem. E isso se repete em vários momentos da película.

Não decepciona totalmente mas soa-me como um desperdício de um elenco com potencial em um filme no máximo regular. Uma pena.


Escrito por conde Fouá Anderaos

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Janela Indiscreta (1954)



“A televisão matou a janela”
- Nelson Rodrigues

A frase acima nunca combinou tão bem com um filme. Contudo o que Hitch faz aqui é ressuscitar esse “meio de entretenimento”. Por muitas razões que a janela ainda se sobressai da televisão, por exemplo: nós sentimos o calor das pessoas durante suas tarefas cotidianas (mesmo íntimas), o que um reality show na tv jamais seria capaz de mostrar com tanta intensidade, vemos tudo com uma qualidade inacreditavelmente superior daquele pequeno tubo transmissor de imagem. Porém certamente a maior e melhor qualidade de todas, essa sim totalmente avançada, de "tecnologia futurista" é a capacidade de se comunicar. Em outras palavras, a grande diferença da janela para a televisão, é que nela não somos invisíveis e assim como os outros que exploramos, também podemos ser explorados.

Hitchcock brinca conosco estudando a mesma tarefa do espectador ao ir ao cinema, sobretudo, o que mantém ele preso a um filme: a curiosidade. Analisando então essa curiosidade que é comum do espectador, mas com um único detalhe, em Janela Indiscreta (Rear Window, 1954) estamos nus. A câmera sufocante tira dessa vez, não a privacidade de personagens fictícios (?), mas a nossa. Acompanhar a narrativa do filme com Jeff (James Stewart) é arriscado, não é mais como ver televisão, nos arriscamos, podemos ser vistos. O personagem de Stewart é o mesmo personagem que desempenhamos sempre ao ver um filme, quase como “jornalistas” que procuram um furo, tentamos achar o que aconteceu, onde e a toda hora, incansavelmente, mas com a mais cruel incapacidade, não podemos sair de nossa cadeira, estamos presos no apartamento.

Janela Indiscreta é então o filme sobre a observação, entre outras palavras um filme sobre o ato de assistir a um filme sem saber. Hitch tira e nos dá duas coisas: primeiro temos a oportunidade de observar, quase de discutir com Lisa (Grace Kelly) e Stella (Thelma Ritter) já que somos como Jeff e, portanto partilhamos das mesmas dúvidas e curiosidades, a segunda é, além da incapacidade de interagir com o mundo que observamos, o fato de estarmos vulneráveis. Sobretudo, o que a linguagem de Hitch faz aqui é inverter lugares, quem assiste é quem esta dentro da tela e não quem esta fora, nós somos o personagem principal, interpretamos uma figura de protagonista-espectador e cada particularidade das janelas que vemos, revela por meio das silhuetas da cortina ou expostos, uma personagem de características únicas e perfeitas, daquela que em toda bela vizinhança possui: a gostosona, o cara sinistro, o casal etc, mas o que nos da medo é que conhecemos esse mundo, ele é real.

A sensação que da ao ver tanta meticulosidade no trabalho de Hitch é que vemos algo além de um filme, que permite criar um estudo sobre o ser humano. É difícil até dizer o que seria de tantos outros diretores “filhos” de Hitchcock sem Rear Window: tudo, absolutamente tudo o que foi criado acerca do ato de observar e explorar não ganharia sentido. Com apenas a câmera em sua mão e sem o 3D, 4D e todas as tecnologias mirabolantes dos dias de hoje e ainda assim sendo uma das experiências mais sensoriais do cinema, o que Hitchcock faz aqui é nos enforcar, dar um tapa na cara do espectador, abusar de sua liberdade como criador e não deixar o público apenas ali, observar calmamente, seguro em sua poltrona.


A narrativa não só sufoca por transformar todos na vizinhança em suspeitos, mas também por não dar trégua alguma, não a nenhum momento de paz que Hitchcock nos dê, mesmo quando a majestosa Grace Kelly aparece em cena não demora muito para voltarmos à ação e com isso, apenas atrair mais uma pessoa a essa alienação que vira em certo ponto uma paranoia, transforma-se em espetáculo de circo: que no final é e sempre será a origem do cinema. Janela Indiscreta homenageia a nós espectadores puxando-nos para dentro da tela, não há experiência no cinema mais forte em captar o ato de ver, os motivos que movem as pessoas a olharem, explorarem, por isso logicamente Janela Indiscreta prova ser, não apenas com o tanto de inspiração e cópias exaustivas que outros filmes fariam, mas com a capacidade de se tornar imortal, pois o instinto, a natureza do ser humano não muda, Hitch analisa e faz aqui o testemunho e a bíblia da natureza do suspense.

Nascido para Matar (1987)

                                           



Já é de conhecimento geral que o western é tido como o gênero tipicamente americano, bem como tornou a figura do cowboy em um mito. Não são simplesmente soldados que são criados sob a ótica de Nascido para Matar (Full Metal Jacket, 1987), para eles, é a criação de uma nova lenda assassina e que tem como deus máximo John Wayne. E é de conceitos absurdamente engraçados e ignorantes que se forma o pelotão do Kubrick. Mas o que eles são realmente? Nada mais nada menos do que jovens fabricados e produzidos a favor de um falso patriotismo que se mascara em uma arrogância suicida sem tamanho, o efeito inverso do que eles queriam (os grandiosos mitos, os super heróis da nação), ou seja, mais um Alex De Large na América.

E esse pelotão surtado de Kubrick nem parece ser muito “violento”, como era o seu “filme-irmão” Laranja Mecânica (Clockwork Orange, 1971). O que choca em Full Metal Jacket é essa maneira normal, cômica de mover à narrativa, como se tudo aquilo não passasse de uma rotina comum. Na verdade a primeira parte focada aos treinamentos, a criação dos novos “mitos”, lendas assassinas se assume com total comicidade e consegue ter tanta insanidade quanto os confrontos no Vietnã. Kubrick mistura então o humor negro e a descontração, até por que fica difícil para imaginar o amor que os soldados devem ter por uma arma, a forma como o sargento Hartman (R. Lee Ermey) se comporta como um alucinado regrado, um criador de monstros. Não é atoa que cabe a ele, que já viveu na pele o ambiente do exército, um dos melhores momentos do filme, em uma atuação bem filha da puta mesmo – que marcaria o filme, agindo como uma espécie de Tony Montana, com um punhado de palavrões, conceitos absurdamente wtf, músicas estupidamente engraçadas e preconceituosas e punições severas.

Embora muito provavelmente nosso protagonista pareça ser o gordinho deslocado que aparece no início do filme, na parte do pelotão, a primeira parte de Nascido para Matar serve muito mais para acompanhar essa tal “transformação” de jovens em máquinas assassinas e por isso nada melhor do que mostrar um defeito de fábrica, um “pequeno erro”, equívoco: afinal nem todos poderiam se tornar uma lenda para “derrotar” os vietnamitas, mas todos eram obrigados. Kubrick não se foca em grandes tiroteios e conflitos diversos e aleatórios depois da preparação dos soldados como seria de se esperar, na verdade existe apenas um grande conflito que acompanhamos de cabo a rabo e é nele que termina nossa saga, mas não de forma simples, mas um doido, suicida, torturante e repugnante confronto entre uma vietnamita e todos os figuraças do exército americano que “conhecemos” aos poucos.

Aliás, trata-se essencialmente de “figuras”, cada um tem sua característica escrota e imbecil própria, dai que Nascido para Matar nem se foca muito no Soldado Joker (Matthew Modine) e sua narrativa, já que existe um apanhado cada vez maior de imbecis e ignorantes aparecendo em tela, mas mesmo assim ele se destaca por ter não a maior habilidade em matar ou aquele espírito de liderança e coisas do tipo, mas sim por sua ideologia (questionada mesmo pelos outros soldados e sargentos) no mínimo duvidosa, o símbolo da paz em seu chapéu e ao lado a famosa frase “born to kill”. E é desse pensamento que discutimos com Kubrick, acompanhando as ações opostas e totalmente questionáveis de um soldado perdido no western vietnamita que aparenta ter a mesma confusão que adquire desde o início do filme: a confusão entre a paz e a violência.


O que Kubrick principalmente questiona é além da ideologia, da criação que a sociedade da para seus jovens, que o próprio país oferece: na tentativa de (re)criar mitos, de criar heróis, acaba se dando um tiro no pé, mais sociopatas, mais psicopatas e mais chacinas. O questionamento de Kubrick é sobre qual seria o verdadeiro limite desse folclore prepotente de mitos, lendas e super heróis que permanece na ilusão dos EUA. E esse cenário da guerra fria é perfeito para adaptar de certa forma o que havia feito em Laranja Mecânica. Só que o que o grande e maravilhoso exército dos Estados Unidos da América se esqueceu é que não mais se trata da figura que vaga o deserto de seu país, explorando as fronteiras e limites internos de sua nação, trata-se do Vietnã e no Vietnã “the wind doesn’t  blow, it sucks”.