sábado, 25 de outubro de 2014

Casamento ou Luxo (1923)

Quando tinha meus 14 anos Chaplin morrera. Os seus filmes ganharam a tela na cidade de São Paulo. Na época eu era imaturo. Jamais pagaria para assistir um filme em preto e branco e também mudo. Ao amadurecer nos tornamos mais sensatos. O primeiro golpe contra esse pensar ridículo deu-se quando vi “A última loucura de Mell Brooks”. Na época assisti a um filme do Louis de Funès (não me perguntem qual. Sinceramente nem me recordo). Em realidade alguns colegas me arrastaram para assistir o filme do Brooks. Pois é, era mudo e até hoje o acho bom. Chaplin nocauteou-me bem depois. Já possuía meus 17 anos e fiquei pasmo. Daí me envolvi com vários outros filmes dele e também do Harold Lloyd. Dos longas, no entanto, faltava esse. O motivo? Não o sei. Um deles foi o fato de poucas vezes ter ganhado a tela dos cinemas. Após o advento do vídeo-cassete e do DVD oportunidades não faltaram. Pena que foi na tela pequena e somente essa semana.
O que dizer dessa obra? Corajosa. É o primeiro adjetivo que encontro para defini-la. Aquela altura de sua existência Chaplin já estrelara mais de 50 filmes. Dois anos antes brindara o mundo com seu primeiro longa -metragem que alcançara o status de obra de arte dentro de uma arte que ainda estava insipiente. Contudo talvez incomodasse o autor o fato de estar tão atrelado a figura de Carlitos. Chaplin sabia que era capaz de dar outros passos. Precisa se desvencilhar da imagem. Queria mostrar aos críticos e ao público que era um verdadeiro cineasta e podia se desvencilhar do genial personagem. 

Lançou-se em um projeto arrojado. Um drama onde não apareceria na tela (em realidade existe uma pequena aparição como um modesto carregador dentro de uma estação de trem – míseros segundos).

“Em uma pequena cidade no interior da França, Marie e Jean decidem rumar para Paris para fugirem da pressão insuportável que fazem seus parentes, que são contra o relacionamento dos dois. Devido a um acontecimento inesperado e um mal entendido, ela parte sozinha. Um ano mais tarde o destino a faz reencontrá-lo e ela compreende o entendido. Contudo a jovem de antes não mais vivia. Ela se tornara uma mundana, sustentada por um rico casquilho. Ele um desconhecido pintor que está ainda loucamente apaixonado por ela. O reencontro reacende a mulher que fora sepultada, mas será preciso enfrentar novas pressões para concretizarem a união. Conseguirão?”

Logo em seu início, para advertir os desavisados que àquela época adentraram no cinema pensando ver Carlitos, Chaplin avisa: Para evitar qualquer mal entendido, eu tenho de anunciar que eu não aparecerei nesse filme. É o “primeiro drama sério que eu escrevo e realizo”
                                                     

A primeira vista a história não promete muito. A trama parece já ter sido contada várias vezes pelo cinema. Mas olhemos mais de perto. A coloquemos dentro da época em que foi as telas. Chaplin revirou os estereótipos. A heroína é uma cortesã. O herói é um fraco, dominado pela mãe. O vilão, ao contrário, é charmoso, alegre e atencioso. Além do mais o cinema exaltava os pais, mais aqui os parentes não passam de hipócritas egoístas. Foram eles que desencadearam toda a tragédia. 

Outro exemplo da ousadia dele foi o fato de não fazer com que o público encontrasse alguém com que se identificar: um herói ou heroína. “O mundo não é composto de heróis ou heroínas, mais de homens e de mulheres sujeitos as todas as paixões que o mundo possibilita”. 

Vemos que o cineasta possuía um olhar arguto sobre a sociedade. Ele procura durante toda a trama, meios de mostrar o interior dos personagens através de seus exteriores: revelar o coração e a alma de cada um através de suas ações e expressões. Aqui encontraremos uma das fraquezas do filme. A maioria dos atores que ganhava as telas tinha vindo do palco. Eram poucos habituados a linguagem do cinema, uma arte ainda em construção, diante de um teatro já milenar. Se Chaplin encontrou em Adolphe Menjou (Adeus as armas) e Edna Purviance (parceira em vários filmes) intérpretes magníficos, que se valeram da sutileza e discrição para expressarem os sentimentos dos personagens, Carl Miller cai no comum de sua época, está teatral demais em alguns momentos.

Trata-se de um filme que fala do impacto do dinheiro sobre as ligações humanas, sobre a fratura social. Temas até hoje atuais. O fato de Chaplin em várias seqüências quase não se valer de cenários elaborados, dando ênfase ao escrito e não a forma, impressiona.

O filme que mais se aproxima da ousadia que Chaplin implementou surgiria 11 anos depois pelas mãos de Ernst Lubitsch. Trata-se de “A viúva Alegre”. Lá também se valendo de uma história tradicional, ele disseca uma Paris onde as mulheres se fazem de cortesãs para viver. Mas o mestre alemão se valeu da comédia para tratar o tema, e ele não tinha a preocupação de ver aquilo como algo a ser mudado. Chaplin era moralista: achava que se podia mudar o mundo através da arte. Lubitsch um amoral epicurista que via tudo através de uma ótica de compreensão: Os meios refinam, não mudam as pessoas. Ainda que eu prefira a visão de Chaplin, a obra do alemão é mais bem construída. Mas citei isso para se perceber quão avançado foi o inglês, algo semelhante surgiria somente na década seguinte e de uma forma bem menos explícita.

O filme traz uma trilha sonora que se não encanta, não atrapalha. Foi composta na década de 70. Seria importante assistir sem som para fazermos um mergulho ao que era o cinema naqueles tempos. A imagem que nos chega surpreende: limpa, clara, apesar de alguns brancos que parecem queimados em alguns momentos. Mas seria de bom grado se todos os filmes dessa época nos chegassem em tão boa qualidade.

Uma obra a ser conhecida. Chaplin sempre merece atenção.


Escrito em 31/12/2009 

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