segunda-feira, 28 de julho de 2014

Como Era Verde O Meu Vale (1941) - Crítica





Eis aí uma obra que é mal vista, não pelo que traz em seu bojo, mas simplesmente pelo fato de ter abocanhado os principais Oscars da Academia ao invés de “Cidadão Kane” que a época de seu lançamento, não teve o reconhecimento merecido, sobretudo pelas novidades que trazia na sua feitura. Mas se pensarmos somente na obra, “Como era verde o meu vale”,  não podemos deixar de enxergar nela vários elementos que merecem ser apreciados. É uma obra digna e que não envergonha a filmografia do grande Ford. John Ford exalta nela os valores da família e da solidariedade em uma comunidade de mineradores no Pais de Gales. Tudo é visto pelos olhos de Huw Morgan, que está para abandonar a casa agora vazia da família e nos passa a contar sua existência. Ele cresceu ali, descobrindo de maneira paulatina os prós e contras, as alegrias e tristezas advindas com o correr do tempo de morar em tal comunidade. É um filme que fala de partidas e chegadas, da vida e da morte com rara sensibilidade e um texto maravilhoso (“Homens como meu pai não morrem” – narra o protagonista quando o pai morre).

Em certo momento o idílico desaparece, os tempos difíceis chegam: Salários são achatados, trabalhadores despedidos. É a greve. O pai considera a greve um meio condenável, mas seus filhos maiores não acatam seu pensamento e deixam a casa familiar. O pai recebe ameaças, seu filho Huw e a esposa sofrem um acidente. O filho Huw permanece doente por vários meses. Um novo pastor se aproxima da família e assim como veio a crise se vai: a mina retoma seu funcionamento. Os filhos, contudo deixam a vila, pois foram despedidos. A filha da familia Angharad Morgan cai de amores pelo pastor, mas se casa com outro que tem melhores condições financeiras. Ela vive sozinha e infeliz em uma bonita residência, mas a intriga obriga o pastor Mr. Gruffydd a partir. 


Podemos achar estranho que Huw permaneça sempre jovem em sua aparência (nem tanto nas atitudes). Mas aí é um recurso plenamente aceitável, visto que quem conta pode se imaginar do jeito que quiser. Ingmar Bergman fez muito uso do recurso de mostrar alguém envelhecido, participar de fatos passados quando na juventude (No magnífico “Morangos Silvestres”). Aqui Ford optou por não mudar o ator, fazendo uso desse recurso tão comum. Mas que causa estranheza causa. 




Ford também construiu a pequena vila de uma maneira um pouco irreal (notamos que tudo foi feito em estúdio). Mas não deixa de impressionar a vila, acima do vale. A rua também enche os olhos: em queda longa, povoada de habitações, artéria principal da comunidade e da própria ação da trama. É dali que os trabalhadores partem rumo à mina, é ali também que os habitantes se encontram e conversam, fazendo assim juízo de valor sobre si mesmo e sobre os demais.

Em suma, trata-se de uma obra onde Ford deu-nos personagens bem construídos, frequentemente ambivalentes em suas escolhas e percursos. É isso que eu aprecio em Ford, em maior ou menor intensidade: Seus personagens, nós os conhecemos todos, bem como seus atores. E podemos reencontrá-los sempre. Basta querer ver de novo sua obra, não importa de quanto seja esse espaço de tempo. Mas quem resiste a ficar distante de filmes tão calorosos? 


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