sábado, 12 de julho de 2014

Até Os Deuses Erram (1972) - Crítica




“Johnson um inspetor de polícia investiga faz várias semanas o caso de jovens adolescentes que são vítimas de um pedófilo. Naquela tarde uma outra adolescente desaparece e após uma batida em uma floresta próxima ela é encontrada caída, coberta de contusões e traumatizada pelo inspetor. Apesar do estado da menina, Jonhson procura interrogá-la a todo custo. Entra na ambulância que a socorre e continua um interrogatório desumano o que a faz entrar em um estado de histeria e é sedada contra a vontade do inspetor. Naquele mesmo dia um suspeito é levado a polícia e Jonhson seguro de sua culpa o interroga...”

 Em Emilio, Rousseau indaga de Montaigne se seria possível creditar ao homem como normal, aquilo que universalmente não poderia ser aceito como algo tolerável, a custa de se considerar aquilo como algo inerente a diversidade das civilizações. Ou seja, seria possível aceitar a pedofilia (para citar uma das taras da humanidade) como algo aceitável dentro de uma sociedade qualquer? Para Rousseau a resposta é óbvia: Não. A razão e a consciência seriam juízes severos e certos valores seriam universais.

Esse filme de Lumet, quase desconhecido, é visto por muitos como uma obra que destoa do restante de sua filmografia. Ledo engano. Os temas recorrentes de seu cinema ali se encontram:Ele sempre é citado como um cineasta que possui uma mise em scéne inventiva e cerebral. Falam que ele é por demais teatral. Seus filmes sempre se desenrolam em lugares fechados e se valem sempre dos diálogos. “Até os Deuses erram” (péssimo título em português) se ancora em uma peça de teatro e o diretor em nenhum momento tenta mascarar isso. Ao contrário ele crê que tal não é problema e as próprias cenas em ambientes externos são filmadas como se os personagens estivessem enclausurados dentro de uma redoma gigante sob o olhar atento do espectador. Desde o início tudo está impregnado por uma sensação de uma tragédia anunciada, em um lugar asfixiante e sem saída, um mundo sem horizontes, onde o homem jaz encarcerado. O subúrbio é filmado como um lugar sufocante. Desnudado sem piedade pela câmera. Vemos os blocos de construções como gaiolas cinzas onde o ser humano se enclausura. A Auto estrada não nos soa como uma rota de saída, mas surge como uma cerca que delimita as gaiolas. Edifícios com poucos andares, que não ousam procurar atingir o céu. Todos lúgubres com cores decadentes. A própria chefatura de polícia mais parece um nosocômio e a sala de interrogatório  uma sala de cirurgia que desvendara as doentes entranhas de seus personagens.

O cinema de Lumet repousa sobre o embate entre os personagens. Ele é apaixonado pelo ser humano, em esmiuçar esse ser e o tentar inutilmente compreender: A iluminação, os movimentos da câmera, o cenário, tudo é definido de forma a procurar demonstrar em imagens o que vai na mente de cada personagem. Daí sua predileção pelos filmes de processo, onde tudo que está em jogo é o desvendar do ser humano. É um diretor de atores e geralmente ele conseguia tirar o melhor deles (depois de ver esse filme, duvido que alguém não credite a Connery a melhor atuação de sua existência). Então não acreditem que essa obra seja uma exceção em sua filmografia. Não o é. É apenas o seu filme mais indigesto, onde ele ousou tocar em temas nada agradáveis: loucura, pedofilia, violência, sadismo, etc.



Connery prova que era um ator de respeito. Foi ele que bancou a produção do filme. Era um ator que não queria ficar preso a imagem do super agente Bond. E essa produção não é tão conhecida hoje, talvez pelo fato de seus produtores temerem com isso interromper a frutífera franquia com seu público. Então eles dificultaram a distribuição do filme, temerosos que esse público se assusta-se com essa sua outra faceta. Uma pena. Vale a pena conhecermos esse filme truncado e ousado. Até para se homenagear esse ator e o desvincularmos da imagem de Bond. Sem necessariamente ser contra o personagem, mas é bom saber que ele não era um artista de um só papel.


Quanto aos demais aspectos técnicos do filme, vale destacar que a trilha sonora esteve a cargo de Harrison Britwistle e a meu ver colabora com sua violência ao clima sufocante da obra ajudando a transformar tudo em um pesadelo. A mixagem destila a composição criando um clima de tensão crescente na obra. Os momentos de silêncio, rompidos por ruídos inesperados, não criam espaços para que o espectador respire. O filme nos impele em todos os aspectos técnicos a um mergulho em desfiladeiro de horror. Lumet levou seu talento às últimas consequências. Certamente você ira preferir outros filmes de sua lavra, mas não terá como negar que essa obra é a sua mais perfeita contribuição a sétima arte. É indispensável conhecê-la. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

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