terça-feira, 24 de junho de 2014

Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (1975)

                                              


Olhar para o humor e dizer “isto se parece com Monty Python”, está cada vez mais distante da realidade. Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (Monty Python and The Holy Grail, 1975) é daqueles filmes que gostando ou não, lembraremos para sempre, não existe nada dentro do cinema que se equipare ao que Terry Gilliam e Terry Jones fizeram em 1975. Não é bajulação, na verdade, Monty Python nem é mesmo a “melhor comédia de todos os tempos”, como muitos afirmam, mas é próximo de “o humor mais original de todos os tempos”.

Monty Python é do humor negro, pastelão, escrachado, do choque entre o besteirol e a tragédia. Como em um filme independente, o humor encontrado por Gilliam e Jones é narrativa, visual e estético do começo ao fim, de quebra da quarta parede, de “falta” de roteiro, sem começo e sem fim. Não estamos vendo uma pura sátira na idade média, creio que ela seja um solo difícil para se criar o cômico, mas sim uma anarquia na forma de ver um filme, quem afinal, senão nós que inventamos essa maneira certinha e comportada de ver um filme? Os padrões bonitinhos para se ver um filme de humor, que direta ou indiretamente ainda seguem sendo respeitados, são totalmente quebrados em Monty Python. A porra louquice de Jones e Gilliam vai do trágico até o infantil, do negro até o bobo, de piadinhas sem graças até mais infames. A saga que o cinema já tanto explorou, do velho Rei Arthur, encontra na mão de Gilliam e Jones, um tom de improviso, deboche total, loucura, onde a interação conosco é fundamental, interativa como um desenho animado.

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Se hoje, o “cidadão da tv” olha para as telonas e sabe, não exatamente o nome, mas que já viu aquilo, o grupo britânico é o grande responsável. Parece inacreditável, mas assim como os personagens da idade Média filmados aqui, Gilliam e Jones espalmaram o próprio cinema com sua anarquia estética. Rei Arthur, o grande maluco e sua távola redonda, passeiam pelos cantos daquela era, explorando as criaturas mais desconhecidas, vão além do que, como dizem a zoeira permite. Se Monty Python pudesse ser caracterizado em uma palavra, não haveria melhor do que essa, aliás, a zoeira, brincadeira crua e “wtf” com os contos.

Embora exista essa mistureba de humor, o que reina em Python é a acidez, da brincadeira com a peste bubônica, do sexo do “pobre” cavalheiro que encontra um hárem, da cachoeira de sangue das batalhas, das criaturas sanguinárias. Monty Python é um sacode no humor, ainda que mantenha seu glamour, o espírito livre de criar e tapear a cara da sociedade – coisa que, hoje em dia, talvez só South Park faça – de incomodar, de mexer na ferida, no tabu, na regra, de alterar padrões, de extinguir o fim e o começo, de mandar sobretudo, um foda-se.

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