quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Era Uma Vez na Anatólia (2011)



Em Asas do Desejo, Wim Wenders nos apresenta sua visão dos anjos como criaturas de natureza humana mas de uma serenidade sobre-humana. Invisíveis aos olhos de nós mortais, seu fado é vagar pela Terra presenciando os eventos mais singelos vivenciados pelo ser homem. Colocam-se ao lado das pessoas, ouvindo seus pensamentos e, simbolicamente, tocando seus ombros em sinal de compaixão. Talvez o momento mais poético de tal filme se dê quando a personagem de Bruno Ganz perde sua natureza divina e, pela primeira vez na condição de mortal se maravilha com as cores da cidade. Mesmo diante de toda a decadência da Berlim dos anos 80, tudo o que seus olhos podem ver é a beleza de um novo mundo. Em Era Uma Vez na Anatólia, Nuri Bilge Ceylan coloca sua câmera, e por consequência nós espectadores, como os anjos de Wim Wenders.

No coração da Ásia Menor, estendendo-se desde a Trácia até o Planalto Armênio, a Anatólia possui um papel crucial na história da humanidade, desde a Guerra de Troia até a queda do Império Otomano ao final da Primeira Guerra Mundial, passando pelas mãos dos impérios Hitita, Acádio, Babilônico, Macedônico de Alexandre, o Grande e Bizantino, influenciando inclusive a história do Brasil, haja visto que quando sob controle Otomano (era o centro de tal império) realizou o Bloqueio do Mediterrâneo forçando portugueses e espanhóis a procurar um novo caminho para o Oceano Índico. Sofrendo influência das mais diversas religiões no decorrer dos séculos, Ceylan toma tal cenário, sua terra natal, como palco para um retrato da decadência ali vivida mas ainda sob um olhar místico, quase que de adoração.

Seus planos multidimensionalmente longos (em profundidade e duração), por muitas vezes estáticos e de tons sóbrios evocam uma paz profundamente religiosa. Os diálogos, perfeitamente claros mesmo à distância, nos colocam em uma posição de onipresença. Seu enredo é dispensável e devidamente dispensado. Não estamos interessados em saber o que acontece, a ação nos é totalmente irrelevante. Um desinteresse quase que natural. Na posição em que sua câmera nos coloca, a serenidade é tão extrema que não nos importa o que acontece, nossa única função é estar do lado das personagens, ouvindo seus relatos, conhecendo suas intimidades, desbravando suas personalidades tal qual um anjo Wenderiano.

Próximos ao final do filme, uma das personagens caracteriza outros como sendo "sem noção". Definição melhor não há para todos que vemos. Nenhuma das pessoas que vemos segue uma lógica de raciocínio bem estabelecida. Suas atitudes não convém com a dureza da situação. Nós, já de ideia invariavelmente pré-formada de personagens tipificadas, mesmo que subjetivamente, acabamos por ver com estranheza pessoas tão exageradamente reais. Vemos todos despidos de qualquer máscara social. Onde ninguém está preocupado em manter as aparências, os diálogos soam tal qual pensamentos. Atípico ver tais ideias sendo exteriorizadas.

Onde todos agem com calma impassível (exceto talvez o chefe de polícia que por vezes sucumbe aos seus sentimentos), acabamos tendo um cenário extremamente humano. Guiados por uma lógica quase que autista, temos todos em um estágio intermediário de depressão. No luto, caracterizaríamos tal momento como o estado de aceitação. O sofrimento incutido em cada personagem as faz ver o mundo por uma perspectiva que costumamos negar. E nós, guiados pela câmera, aprendemos a amar tal óptica, quer seja sentados em um morro observando as pessoas, acompanhando uma maçã que cai da árvore ou deleitando do vento que farfalha os campos.

Era Uma Vez na Anatólia é um grande poema de 150 minutos, cunhado com o único propósito de louvar a beleza da natureza, do ser humano e da vida. Apenas depois de conhecer o eigengrau da vida é que podemos nos elevar. A dor caleja o homem e o deixa impassível. Calos sentidos com o filho doente e o remorso de não conseguir amá-lo como sabe que ele merece, ser apedrejado pelo próprio filho que não sabe ser você seu pai e ver o ódio em seu olhar ou com o perceber a culpa na morte da pessoa que você mais amou. Contudo, mesmo com toda a inocuidade adquirida durante os anos, ainda é crucial o ser tocado pela face de deus estampada na figura de um anjo, mesmo que tal seja meramente uma bela e singela camponesa iluminada por um lampião.

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