segunda-feira, 22 de outubro de 2012

AS MULHERES (1939)






É tese defendida por muitos que teriam sido as mulheres um dos grandes móveis de mudança dentro da Europa no tocante ao cotidiano medieval. Sendo verdade que a sociedade era estamental, pouca circulação havia das ideias, tampouco das particularidades de certas comunidades em relação a outras. Quando a filha de um nobre era desposada, junto com o dote mudava-se para a nova residência também o testemunho vivo da realidade em que vivia e a possibilidade dela implantar em outras plagas algumas pequenas mudanças que interfeririam naquele cotidiano. Logicamente que durante tal período ainda a mulher era visto como um objeto de escambo e foi provavelmente o Marquês de Condorcet o primeiro filósofo que alçou a mulher ao mesmo patamar do homem (defendia a igualdade no direito ao voto, educação, campo profissional, etc). Ainda que não nítida tal atuação foi decisiva para que o mundo ocidental mudasse.

 

Esse filme de Cukor do qual já ouvira falar tem, sobretudo um título que abarca nossas companheiras como um todo, mas sobretudo um subtítulo exclamativo que as colocam na testa de nossos destinos: it's all about men! O filme decepcionará certamente aqueles que foram conhecê-lo, já pleno da emancipação feminina dos anos 60 e 70. Não se trata de um filme feminista, mas sim de um filme feminino. Aquilo que primeiramente chama a atenção é a inexistência em toda a sua projeção de alguém do sexo masculino (até os animais que surgem são todos fêmeas). E para coroar a ousadia foi dirigido por alguém que tinha a alcunha de ser o cineasta da mulher (uma das causas de sua demissão da direção de “... E o vento levou” foi que Gable receou que sobre sua direção, os papéis masculinos ficassem em segundo plano – algo que a luz da razão soa ilógico já que James Stewart dirigido por ele faturou o Oscar  e  também Ronald Colman... Mas se a lenda for maior que a realidade, publique-se ela – já nos diz famoso filme de Ford).

De certa forma foi bom para o filme que Cukor assumisse a direção. Tal projeto fora planejado primeiramente para ser dirigido por Gregory LaCava(em 1937), para alçar ainda mais a carreira de Claudete Colbert. Mas o projeto desandou e em 1938 foi cogitado para os papéis principais Carole Lombard e a própria Norma Shearer. Somente no ano seguinte com a disponibilidade de Cukor (defenestrado de “... E o vento levou”) o projeto ganhou formas. Certamente foi ousadia dele ter em suas mãos um elenco totalmente feminino.  Provavelmente seu assentimento contribuiu para que essa idéia motriz ganhasse as telas. Um filme sobre mulheres? Certamente. Mas também um filme sobre relacionamentos, sobretudo aqueles que valorizam os de mãe para filha.

O filme se abre de maneira audaciosa com a câmera invadindo um território totalmente delas. Um salão de beleza onde a câmera passeia pelo banho de lama, bronzeamento artificial, manicure, cabeleireiras, salas de massagens, maquiagens, etc. Uma selva onde a maledicência, mexericos e maldades preponderam como a música ambiente. E tais diálogos ofídicos se estenderão por toda a película. 


De lá partirá a notícia de que o marido de uma delas se atirou nos braços de uma vendedora de perfumes devoradora de homens. E tal ganhará tal repercussão que temos a certeza que todas estão envolvidas no desejo de que o circo pegue fogo: “Duas mulheres estão sorrindo. O que terá acontecido de ruim com a melhor de suas amigas” – Machado de Assis. Essa dissimulação é alvo do olhar atento do diretor. Elas não lamentam o ocorrido. Elas o divulgam de maneira que se fosse só um rumor ele ganharia ares de verdade. Cabe a personagem de Rosalind Russel ser a mais cruel e hipócrita. A sua caracterização ora toma ares repulsivos, ora nos faz rir da sua frivolidade. Perfeita atuação que não resvala na superficialidade, tal personagem é verossímil até os ossos. Se Rosalind Russel acerta no tom, o mesmo não se dá com Joan Crawford. Ainda que ela possua o phisique du role. Ela constrói tal personagem de forma que não exista nenhuma nuance agradável. É a encarnação pura de uma vampira sedenta de jóias e dinheiro. Talvez a época tenha causado certo impacto, mas tal imagem não nos convence mais nos dias de hoje. Falta densidade a tal figura. Melhor se sai Virgínia Weidller como Marie Haines que não compromete e convence no papel da filha que pressente que o mundo em que pisa ameaça desmoronar. Ainda que não fuja do estereótipo da época, consegue emocionar e não soa artificial sua presença bem como da veterana Lucile Watson como a avó que procura blindar com a sua experiência o lar da filha (alguns entenderão, não sem razão, que tal figura é mantenedora da submissão da esposa a um casamento indigno, por outro lado o que Cukor discute não é a relação em si, mas os sentimentos que envolvem tais situações). Hoje pode soar estranho o caminho trilhado pela personagem. De simplesmente retomar o barco naufragado por culpa do cônjuge. Mas o que se discutia era o sentimento dela por tal homem. E se o barco foi a soçobro definitivo, tal se deu pela aparente passividade dela. E no brilhante diálogo entre Miriam Aarons e Marie tudo se esclarece. Tem lá sua lógica, mas o final talvez seja a parte mais decepcionante dessa obra ousada para época.

Para complementar o filme outras tramas se desenrolam. Servem de exemplos do caminho que poderia seguir Marie. Sylvia Fowler acaba experimentando em si tudo aquilo que a regozijava ver acontecer com a outra. E para fazer par a caricatura de Crawford nada como a condessa de lave, vivida por uma Mary Boland que não deixará saudades.

O resultado é um filme inovador para a época (há uma seqüência de desfile toda colorida), mas que perdeu muito do viço, sobretudo pelo seu final previsível. De qualquer forma tem seus momentos de brilho e vale até hoje a entrada.
Avaliação: 7/10

Escrito por Conde Fouá Anderaos