terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Golpe Baixo


No ano seguinte a seu último grande sucesso, O Imperador do Norte, Robert Aldrich trás para as telas a história de Paul Crewe, um ex-jogador de futebol americano que acaba sendo preso por furtar um carro, dirigir embriagado e agredir um policial. Na cadeia, ele acaba sendo recrutado pelo diretor Harzen para comandar um time de condenados contra o semi-profissional time dos guardas. Roteiro fraco e previsível, alguns relances de alívio cômico, personagens mal-desenvolvidos, e dezenas de outros problemas pontuam o roteiro do (talvez felizmente) pouco conhecido Tracy Keenan Wynn. Mas mesmo com esse problema elementar e presente, Golpe Baixo ainda cosegue se destacar como um filme de certa qualidade.

Bom, talvez tal qualidade possa ser atribuída ao elenco, que mesmo tendo como base o nada de seus personagens, consegue tirar alguma coisa disso. Elenco esse que recebeu o devido reconhecimento no Globo de Ouro, com nada menos que três indicações em categorias referentes a atuação, além de vencer como Melhor Filme - Comédia ou Musical. O filme também marcou o primeiro grande sucesso de Burt Reynolds no cinema, 23 anos antes de receber o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pela performance em Boogie Nights, de Paul Thomas Anderson.

Ou então, essa misteriosa qualidade do filme venha da direção de Robert Aldrich. Diretor americano mas com um estilo que apresenta uma forte influência européia, Aldrich já mostrava sinais de estar entrando em uma decadência de qualidade em seus filmes, mas mesmo assim mantém os traços sutis que o consagraram como diretor de primeiro escalão. Tal como vinha fazendo desde Três Mulheres na Intimidade, seu marco de ousadia, Aldrich procura e encontra brechas para inserir um ligeiro toque de nudez, mesmo que sendo parcial, visando questionar o moralismo hollywoodiano que reinava absoluto até a metade dos ano 60 e que vinha começando a ruir. Paralelamente a isso, Aldrich faz outro questionamento moralista ao induzir uma imagem positiva dos assassinos, ladrões e estupradores e uma imagem negativa dos "guardões da lei", desconstruíndo o ideal intrínseco na natureza humana quando referente a obras fictícias, de "bem e mal". Algo que nós conhecemos como maniqueísmo e tentamos evitar de todas as maneiras por não condizer com a realidade presenciada no cotidiano. Mais do que isso, Aldrich nos leva a torcer pelos que deveriam ser os "bandidos" ou "vilões", tal qual nós torceríamos em um jogo de verdade.

Mas, se a qualidade do filme, aquela dita logo no primeiro parágrafo e que surgira sobre o roteiro fraco, se deve a alguém, esse alguém certamente é Michael Luciano. Parceiro de longa data de Robert Aldrich na sala de montagem, aqui ele consegue sua quarta indicação ao Oscar na categoria, todas elas com o mesmo diretor. Seu trabalho aqui realmente supera qualquer de seus trabalhos anteriores, sobretudo na majestosa cena de 47 minutos (mais de um terço do filme) que cobre o fatídico jogo de futebol, ao qual todo o filme serve como introdução. Aqui, Luciano se utiliza de todas as técnicas de montagem possíveis para acentuar o contato do espectador com o jogo, fazendo-o vibrar tal qual em uma partida real. Tela dividida em duas, ou até três ações distintas, montagem paralela, intercalado imagens do jogo com imagens da torcida, do banco de reserva e da prisão, camêra lenta, pausas e sons de ossos partindo, corpos se chocando e sangue esguichando, acabam tornando o filme praticamente um ode à motagem.

Além de contar com uma das mais empolgantes e emocionantes cenas esportivas jamais filmadas até o momento, o filme também pode ser tratado (e é, por alguns) como uma apologia à sitação política norte-americana pós-Watergate, com o diretor Harzen sendo uma metáfora para o próprio Richard Nixon, sobretudo onde esse diz "Antes que esse jogo acabe, quero que cada prisioneiro dessa instituição saiba o que é o poder e quem o controla.". Porém, tal mensagem sica subvertida por Aldrich perante a violenta diversão aparentemente descompromissada que domina o filme.

Tal filme acabou por ganhar duas refilmagens supostamente abaixo de seu nível. A primeira, de 2001, intitulada "Penalidade Máxima", dirigida pelo desconhecido Barry Skolnick e protagonizada pelo ex-ator Vinnie Jones, que fizera alguns bons filmes com Guy Ritchie no início de sua carreira e posteriormente se entregou a uma séries de bobagens (tal qual ocorreu com Jason Statham) divide opiniões quanto a sua qualidade, que varia nas opiniões entre "razoavelmente bom" e "desprezível". A outra refilmagem, essa agora de 2005, também se chama "Golpe Baixo", é dirigida por Peter Segal, o responsável por coisas como Mong & Lóide e O Professor Aloprado 2, e é estrelada por Adam Sandler, do pouco conhecido Embriagado de Amor e algumas outras bobagens que exitem por aí. Em relação a esse filme específico, a opinião referente ao desprezo é quase que unânime.

Um comentário:

Hugo disse...

Boa lembrança, este filme é um dos vários sucessos de Reynolds nos anos setenta e tem como ponto forte a direção do ótimo Aldrich.

Também não tive coragem ainda de assistir as duas novas versões.

Abraço