quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Bom Dia, Noite


Uma porta se abre e o apartamento é iluminado. Nele entram um casal acompanhado de um corretor que empolgado lista todas as qualidades do imóvel. Aparentemente um casal que iniciará uma vida a dois. Reveillon, a mulher está na casa e comemora a passagem de ano ao lado de um homem. Um outro homem. Um período indeterminado de tempo se passa e agora vemos essa mesma mulher assistindo televisão. Na tv, o sequestro de Aldo Moro acompanhado do assassinato de cinco de seus batedores. A mulher sorri e esboça uma comemoração. Pouco tempo depois ela abre a porta de seu apartamento para três homens que carregam um grande caixote de madeira. Em seu interior, o primeiro-ministro italiano Aldo Moro, recém-sequestrado.

Aldo Moro foi sequestrado em 16 de março de 1978 por integrantes da chamada Segunda Brigada Vermelha, visto que a Brigada Vermelha original fora destruída quando todos os seus integrantes foram capturados e presos. O plano, bem pouco explícito no filme, era trocar Aldo Moro por alguns prisioneiros políticos, tal qual viria a ser feito no Brasil alguns anos depois envolvendo o embaixador norte-americano e seria narrado em O Que É Isso Companheiro. Porém, ao contrário do que ocorreu no Brasil, o governo italiano não acatou as condições, mesmo mediante o apelo do papa Paulo VI, o que culminou no assassinato de Moro em 29 de maio do mesmo ano. Certamente a própria cúpula governamental via algum interesse na morte do democrata cristão que previa a comunhão entre seu partido e o Partido Comunista.

Se os motivos pelo qual Aldo Moro foi sequestrado não foram deixados claros no filme, o assassinato em si foi nem sequer apresentado, dando a entender aos menos desavisados que esse conseguiu fugir do cativeiro, com a única contraposição a isso sendo as imagens do funeral do primeiro-ministro, muito embora tais imagens tampouco deixem claro que se trata de um funeral, muito menos de quem se trata. Bom Dia, Noite é um péssimo documentário, isso é indiscutível. Porém, ele não é um documentário, e sim um drama, feito por italianos para italianos.

O filme se centra na personagem de Chiara, a única mulher presente no cativeiro, e alter-ego de Laura Braghetti, a única mulher presente no verdadeiro cativeiro de Aldo Moro e autora do livro que retrata os 55 dias que conviveu com o primeiro-ministro, livro esse no qual se inspira o filme. Mas isso é o de menos. Com o drama da personagem como plano de fundo para esse filme feito sob encomenda do canal de televisão RAI em celebração dos 25 anos da morte de Moro, o diretor Marco Bellocchio traça, na realidade, um panorama da visão que esse teve quando do sequestro em si, perpetuado quando Bellocchio já era cineasta e já tinha nas costas uma ligeira incursão em movimentos de ordem marxista-maoístas.

O que Bellocchio faz é traçar uma visão independentede ideologias do evento ocorrido. Na realidade, ele tem sua própria ideologia. Para ele, os BVs são seres irracionais, obcecados com uma visão imposta a eles por autores radicais e que agem sem saber porque em razão de algo que desconhecem. São pessoas perdidas, que lutam por mera inércia, sem nem saber o que objetivam. Em contrapartida, ele acusa os Democratas Cristãos de serem verdadeiros porcos que se utilizaram do sequestro e possível assassinato do primeiro-ministro para tirar vantagens próprias. Para eles, era extremamente vantajoso ver tal figura morta, de modo que não lhes faria sentido tentar salvá-lo. Mais fácil e prático deixá-lo morrer e depois torná-lo um mártir. O que Bellocchio diz é que não apenas os BVs são os assassinos, mas os próprios partidários de Moro também são responsáveis pela morte daquele, talvez até mais que os revolucionários em si.

Por ser um filme de italianos para italianos, Bom Dia, Noite não é um excelente retrato dos eventos narrados, visto que ele exige um conhecimento prévio sobre o ocorrido, coisa que para os italianos é natural, mas que para o resto do mundo não é. Ao final da projeção o espectador pode ficar um pouco perdido, mas nada que um pouco de pesquisa referente ao tema não resolva.

Um comentário:

Nair Alexandra disse...

Gostei muito desta crítica, que li em visita ao tema do filme, anos depois da sua apresentação. Foi exactamente isso que senti: redutor, politicamente sectário, a dar das BV um papel de atrasados mentais, e, se o espectador não tivesse conhecimento prévio dos factos e do seu contexto histórico pouco mais ficaria a saber da Itália dos anos 70 a não ser que havia extrema-esquerda ou que a Rafaella Carrá era popular na RAI, a televisão italiana. OK...

Nair Alexandra (Lisboa, Portugal)