quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Amanhã Nós Mudamos



Uma nova Chantal Akerman é o que se vê nesse Amanhã Nós Mudamos. Uma Chantal mais discreta, na qual seus estilos e suas peculiaridades estão mais disfarçados. Embora o feminismo, marca registrada da obra de Chantal esteja sim presente, ele é bem mais singelo do que em outras obras. Ao invés de abordar mulheres especificamente, aqui temos uma abordagem do ser humano de um modo geral, suas angústias, suas preocupações, suas ilusões, quase todas no campo amoroso.

A trama gira em torno de Charlotte, interpretada pela sensacional Sylvie Testud. Charlotte é uma escritora cuja mãe vem morar com ela após a morte de seu marido. Ao mesmo tempo que convive com a chegada da mãe, ela tenta lidar com a encomenda de um livro erótico. Porém, Chalotte não é muito experiente nessa área, de modo que ela não consegue de maneira alguma se inspirar. Esse argumento serve apenas como impulso para a trama principal relatada no filme. A história realmente começa a avançar no momento em que Charlotte decide se mudar. Para tanto, ela anuncia o seu apartamento, ao mesmo tempo em que procura um outro para viver junto de sua mãe. Esse pretexto servirá de base para a introdução de uma série de personagens, e é exatamente nesses personagens que Chantal irá concentrar sua atenção.

Charlotte e sua mãe, muito embora sejam as protagonistas do filme, são certamente as personagens menos interessantes (não que elas não sejam interessantes, muito pelo contrário), isso devido ao fato de serem os personagens secundários quem realmente brilha nesse filme. São eles que, com seus problemas, acrescentam profundidade à trama. Por exemplo, em certo momento, Charlotte e sua mãe vão à um apartamento à venda que pertencera a uma mulher que fugira de casa, deixando marido e filho. Mas o curioso está no fato de essa mulher ser uma antiga paixão platônica de escola do corretor. Assim, nos cinco minutos que dura a cena, vemos o corretor, um personagem totalmente secundário, de uma forma totalmente comovente. Ele vaga pela casa se inserindo na vida daquela mulher que por tantos anos amara secretamente ao mesmo tempo que tenta fazer o seu trabalho. Um sentimento discreto, mas que sob a ótica de Chantal assume uma característica toda à parte.

Mas o ponto alto do filme está em uma cena de 20 minutos na qual Charlotte mostra sua casa a uma série de personagens. Cerca de 8 personagens entram na casa durante esse período. Todos vêm acompanhados de uma vida extremamente complexa, sem exceções. Alguns ficarão pela casa até o final do filme. Outros, estão apenas de passagem. Mas todos têm uma vasta bagagem consigo, uma amostra da genialidade de Akerman ao construí-los.

Amanhã Nós Mudamos, tal como A Prisioneira, tem a cara do cinema contemporâneo europeu, algo difícil de descrever, mas extremamente fácil de perceber. Porém, ao contrário de A Prisioneira e de outros filmes de Chantal, esse filme aqui adota um tom mais cômico, muito embora seja desprovido das clássicas gags visuais. A comédia aqui vem em um tom mais requintado. Ela surge a partir dos diálogos e das situações, não das atitudes. Ela vem de uma forma tão sutil, mas ao mesmo tempo tão incisiva, que coloca o espectador em dúvida se deveria achar graça daquela cena ou não. Essa veia cômica ajuda o filme a manter um ritmo bem ágil, levando em conta que uma das maiores críticas infligidas ao cinema de Chantal vem por conta de seu ritmo usualmente lento.

Amanhã Nós Mudamos não é o melhor filme de Chantal. Embora os personagens sejam perfeitos, falta um pouco da objetividade de Jeanne Dielman, por exemplo. Porém, o filme é certamente um dos mais divertidos e deliciosos da carreira de Chantal Akerman.

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