terça-feira, 21 de setembro de 2010

A Prisioneira


O amor obcessivo é o tema fundamental dessa obra moderna de Chantal Akerman. Amor esse que Simon nutre por Ariane. Uma paixão tão extremada e arrebatadora que consome todas as suas forças e toda a liberdade dela. Simon precisa saber seus passos, seus atos, seus pensamentos, suas vontades, suas idéias. Ariane precisa de uma vida, de algo para buscar prazer fora de seu relacionamento, tanto que seus momentos de maior alegria se dão exatamente na ausência de Simon.

Baseado na obra de Marcel Proust, A Prisioneira não é nada mais do que isso, um filme meramente baseado na obra. Tanto que há muitas divergêncians entre A Prisioneira de Proust e A Prisioneira de Akerman. A mudança mais importante está no nome da protagonista. Albertine na obra de Proust, Ariane na obra de Akerman. Realmente é inimaginável um nome mais adequado à personagem do que Ariane. Ariane. simbolizando a pureza absoluta, a perfeição feminina. Na visão de Simon, Ariane não é uma mulher, é uma idéia, é a concepção de uma mulher perfeita.

Enquanto no roteiro Akerman se destaca ao fazer uma releitura de Proust, na direção ela se renova, mostrando um estilo bem mais seguro de se fazer cinema do que aquele perceptível no início de sua carreira. As longas tomadas estáticas estão bem reduzidas, os ambientes claustrofóbicos continuam presentes, porém de uma forma mais discreta, os personagens continuam sendo totais estranhos para o público, não nos sendo apresentado seu passado (muito menos seu futuro), o ritmo da obra continua lento e calmo, muito embora esteja bem mais dinâmico que em algumas de suas obras, a sexualidade se faz sempre presente, todos elementos já radicados na carreira de Chantal.

Porém, nesse A Prisioneira temos uma Chantal mais acessível, mais comercial. O ritmo da obra está mais agradável, exigindo uma paciência menor em relação à exigida em outras obras suas. O aspecto experimental que pontuava sua carreira foi substituído por uma firmeza estética, ressaltada pela fotografia de cores frias, que deixa o filme com um ar de filme europeu contemporâneo (algo que ele é). Porém, mesmo sendo o mais comercial dos filmes de Chantal, ainda é uma obra essencialmente alternativa.

Sylvie Testud, excelente como sempre, se reafirma no título de uma das melhores atrizes do cinema francês moderno, se lançando inteiramente a uma personagem tão complexa e cheia de nuances como a Ariane. Porém, ainda melhor está o menos conhecido Stanilas Merhar como Simon, com este primeiro dando uma confiança excepcional ao segundo.

A Prisioneira mostra uma Chantal mais adulta e decidida na direção, mas não menos genial ao abordar uma história tão universal e atemporal quanto essa. Uma história com a qual muitos espectadores se identificarão, afinal, aquele que não amara, tampouco vivera.

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