sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Crítica: Boa Noite e Boa Sorte


Se como ator George Clooney é sempre regular, muitas vezes sendo uma faceta dele mesmo, como diretor ele ainda possui poucos trabalhos, mas já consegue resultados díspares. Estreou na direção com Confissões de Uma Mente Perigosa (que ainda não assisti), fez o excelente Boa Noite e Boa Sorte e em O Amor Não Tem Regras saiu-se muito mal. Esse seu último trabalho, entretanto, não deve ser responsável por prejudicar definitivamente sua pequena carreira como diretor, que, após Boa Noite e Boa Sorte, se tornou bastante promissora.

Se Clooney já havia demonstrado certa competência como ator, reforçada novamente nesse filme, como diretor ele surpreendeu, seja pela sua imensa segurança e competência demonstrada aqui, mas também pela coragem em tratar de um tema difícil, em especial para o grande público, e também por optar por uma fotografia em preto-e-branco e por diálogos rápidos e fortes e abandonando o excesso de emoção.
Isso, entretanto, prejudicou apenas o sucesso comercial do filme, mas em nenhum momento vemos sua qualidade cair. O roteiro, escrito pelo próprio Clooney e por Grant Heslov, é um primor sustentado principalmente pela força dos diálogos. Não estamos diante apenas de um filme sobre discussões políticas, mas sobre liberdades individuais, de expressão, liberdades essas obrigatórias em qualquer país independente do regime que lá vigore.
Clooney também soube fazer uma excelente recriação da época (começo dos anos 1950), aproveitando elementos como musicais que eram exibidos na TV, discursos de alguns políticos, entre eles Joseph McCarthy, que não foi interpretado por nenhum ator, com todos os seus discursos exibidos vindo de arquivos da época.
Tanto como roteirista e diretor, Clooney contribuiu muito também para o elenco, que foi sem dúvida um dos melhores do ano, apoiados em diálogos excelentes e cada vez mais raros no cinema atual e em planos longos, sem muitas ações. Boa Noite e Boa Sorte conta basicamente com atores acostumados a pequenos papéis, mas que, assim como em outros filmes, entregam excelentes atuações, com destaque para David Strathaim, no papel do repórter Edward R. Murrow.
Murrow, junto com alguns companheiros da CBS, decide travar uma verdadeira batalha contra o senador Joseph McCarthy, gerando discussões históricas em torno do caça às bruxas empreendido pelo senador a todos os suspeitos de desenvolverem atividades “anti-americanas”, leia-se comunistas, ou simplesmente inimigos do senador, que também eram alvo de investigações no comitê instalado por ele no Senado americano para realizar as investigações.
Seja construindo um excelente roteiro, seja desempenhando um grande trabalho por trás das câmeras, seja atuando sempre de forma correta ou mesmo realizando um notável trabalho técnico, George Clooney é um grande profissional, acertando quase sempre tanto em trabalhos mais comerciais como em filmes mais sérios, como é o caso de Boa Noite e Boa Sorte.
O filme, como era certamente esperado pelo próprio Clooney, não se saiu bem nas bilheterias, mas infelizmente também não obteve muito êxito nas premiações, que mesmo elas mais acostumadas a premiar filmes com temáticas não muito populares, não deram ao filme o seu devido reconhecimento. Boa Noite e Boa Sorte conseguiu seis indicações ao Oscar (Melhor Filme, Diretor, Ator, Roteiro Original, Fotografia e Direção de Arte), perdendo injustamente a estatueta de Melhor Roteiro Original para Crash – No Limite.

Um comentário:

pseudo-autor disse...

A reconstrução de época dos estúdios da CBS é fantástica! Estou querendo rever... Filmes assim marcam a minha formação pra sempre.

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http://culturaexmachina.blogspot.com