quarta-feira, 21 de julho de 2010

Laranja Mecânica (1971)



Laranja Mecânica: uma obra complexa, ou não.


Olá (:

Proponho aqui um convite desafiador. Percorrer um caminho arrostado por raros, a saber: entrar num labirinto cujas proporções são imensuráveis utilizando como mapa somente ‘migalhas de pão’. É preciso deixar as ‘migalhas’ pois, somente elas serão capazes nos nortear nesse caminho equivocadamente já mapeado pelos preguiçosos desprovidos de senso crítico e criatividade, que ostentam a obra como um simplório signo de mera erudição, simbolizando-a. A obra, a saber, é a pouca comentada porém muito ostentada Laranja Mecânica ou, para os gringos de plantão, A Clockwork Orange.

Nela, Stanley Kubrick, baseado na narrativa do britânico Anthony Burgess, rege com grandiosidade e maestria a vida do jovem Alexander DeLarge e seus `droogs`. O filme nos convida a analisar de inúmeros pontos de vistas problemáticas tais como: Liberdade Individual ou, para os espíritos agostinianos, o Livre Arbítrio bem como a problemática nietzscheana, Bem e Mal. Kubrick, conservando sua postura enigmática, sua estética incomum, e uma mente perfeccionista, detalhista e, porque não, doentia, traja o ator McDowell de vestes futuristas, exóticas de tom branco cadavérico, pormenorizações circenses nos olhos, e uma espécie de `olho` nos pulsos. É assim que o protagonista se veste para cometer seus atos considerados criminosos, em sua sociedade, bem como seus demais feitos hedonistas. Não economiza no grau de violência, em práticas sexuais inimagináveis e uma espécie de tensão psicológica possibilitada, especialmente, pela trilha sonora escolhida. Uma gênero aterrorizante. Uma marcha fúnebre hipnotizante.

Divagações à parte, o filme insiste num oscilar de emocões incomum, criado, provavelmente para perturbar a mente e fazer pensar. Até que ponto o estado pode e/ou deve interferir no comportamento das pessoas? Quando a tênue divisão que existe entre minha liberdade e sua é rompida? Quando acaba a minha e começa a sua? São problemas complexos que, talvez, apenas mentes inquietas detectam. Claro que é preciso, antes de tudo, possuir a devida sensibilidade para decifrar a mensagem. Ser louco ajuda, também. Quem aceita passar pelo `Tratamento Ludovico`? Alex, não é mesmo? Ele não foi forçado a escolher, em nenhum momento. Portanto, será que o sistema, naquela situacão, foi maléfico enquanto poder supremo? Ou será que DeLarge foi vítima do sistema vigente, no caso? Vem a calhar, nessa situacão, elucidar a velha problemática já citada: O que é o bem? O que é o mal? Qual os parâmetros para isso? Se existe, quem os estruturou? O ser humano? Cheio de defeitos e crenças? Não? Quem, então? Deus? Que Deus? É importante abrirmos a mente para analisarmos tal situação para, consequentemente, tentar entender a mensagem existente na obra. Será que a interferência no direito de ir e vir de DeLarge, em algum momento foi satisfatória? Se sim, satisfatória para quem? Porque? Para o estado? Para ele mesmo? Quem dita as regras no filme, na verdade? Será que o incontrolável adolescente Alex, que parece ter controle do todas as situações? Ou o estado, que assume de certa forma, o controle por um tempo?

Essas perguntas não precisam ser necessariamente respondidas uma vez que, quem as formulou foi essa `simples pessoa que voz escreve`, como diria nosso amigo Alex. Ou Alguma coisa assim. Proponho aqui um pequeno e complexo exercício. Arrume as almofadas de sua cadeira, puxe a escrivaninha mais para perto, ajeite seus óculos e ponha sua mente insatisfeita, incompreendida e inquieta para funcionar. Pegue aquela cópia pirata do seu filme preferido e ponha-se a tentar compreender todas a indiretas que só uma mente paranóica pode identificar. Do contrário, vá a locadora mais próxima e pergunte qual o filme que mais está saindo.

Um comentário:

Anônimo disse...

Faço questão de postar.

O tom aforista que discorre desta explicação é tocante, verdadeiro e o mais importante, completamente útil e salvador de "almas perdidas"; me dou o luxo do termo.

É um convite ao nobre pensamento, ao absorver livre da arte e das representações como significado maior da existência.

É pelo respeito e mérito à arte postados aqui, que agradeço as palavras, por aqueles que talvez nem venham a ler, e se, não compreendam.

Incrível resenha.