sábado, 31 de julho de 2010

A Escolha de Sofia (1982)


Filmes como A Escolha de Sofia não ficam velhos. Podem discordar, mas pretendo explicar por que penso isso. Não estamos diante de um filme sobre o nazismo, visto que filmes que falam apenas de um tema datado (marcante, mas datado) tendem a seguirem o caminho do tema, ou seja, "perderem a validade". É um filme sobre culpa, sobre os seus reflexos ao longo de toda uma vida, mesmo que já tenham se passado anos ou a distância de onde ocorreram os fatos seja grande.
Tanto o roteiro, como a direção e, principalmente, o elenco ajudam a construir um estudo de personagens do mais profundos, algo essencial para personagens cheios de segredos, culpas, desilusões, enfim, personagens devassados. E são eles: um jovem escritor chamado Stingo, vindo do Sul (região essa que se torna alvo de piadas ao longo do filme) que se hospeda no mesmo estabelecimento onde moram Sophia e Nathan, um casal bastante inconstante, inconstância essa causada pelo problemático Nathan, já que Sophia é, aparentemente, o porto seguro de Nathan, e, portanto, do casal.
Bloco de texto
O que iremos descobrir aos poucos são os segredos por trás da frieza e submissão de Sophia. Enquanto Nathan é um vulcão de emoções (com um grande segredo, mas que em nenhum momento esconde quem é), Sophia se revela uma mulher cheia de segredos e destroçada por dentro. Sophia acaba encontrando em Stingo mais que um amigo, um amante e um confidente.
Em A Escolha de Sofia, a fotografia, trilha sonora e o roteiro (todos indicados ao Oscar), bem como a direção de Alan J. Pakula contribuem para esse estudo aprofundado de personagens, mas é no elenco que um filme como este mais se apóia, e aqui, foi sem dúvida o grande destaque, em especial pelas presenças de Kevin Kline e Meryl Streep.
Kevin Kline, que já foi um ótimo ator, foi merecidamente indicado ao Globo de Ouro de Melhor Revelação. Sua atuação está excelente, conseguindo-se sair muito bem nos momentos mais contidos como nos momentos mais histriônicos, ambos exigidos por um personagem tão inconstante e, até por isso, tão interessante.
Mas é Meryl Streep quem mais se destaca. Ela, que já havia ganho o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Kramer vs. Kramer, ganhou praticamente todos os prêmios de 1983 e, naturalmente, o Oscar de Melhor Atriz. Prêmios mais que merecidos, mas que não são suficientes para reconhecer o feito de Streep: se por um lado sua atuação é historicamente lembrada por "muletas" como o sotaque polonês, o fato de ter emagrecido bastante e ficado careca para o filme, é o excelente desempenho contido que conseguiu ser ainda mais inesquecível para mim. Todas as suas cenas e sua narração em off são memoráveis (em especial a cena onde a escolha que o título se refere é feita e a que Sophia desmaia na biblioteca, entre tantas outras) e elevam A Escolha de Sofia ao patamar de obra-prima.
A atuação de Meryl Streep foi considerada pela revista Empire a terceira melhor interpretação da história (para mim, a melhor interpretação feminina, sem dúvidas) e A Escolha de Sofia foi considerado o 91° Melhor Filme da História pelo AFI e, mesmo o filme sendo criticado por ter envelhecido mal com o tempo, discordo dizendo que um filme tão sensível e que consegue construir personagens tão verossímeis e poderosos torna-se um filme digno e inesquecível, bem mais do que a maioria dos filmes lacrimejantes da década de 1980.

Um comentário:

Elton Telles disse...

Não apenas a atuação fabulosa de Streep, mas o filme por completo me deixou muito satisfeito. Delicado e singelo, um dos melhores trabalhos de Pakula depois de sua obra-prima sobre o caso Watergate.

Alguns consideram um filme "parado", mas também acho uma fita comovente e inesquecível.


abs!