terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

A Forma da Água (2017) - Crítica


“Simples empregada da limpeza de um laboratório governamental ultrassecreto do Governo Americano, Elisa leva uma vida modesta e solitária. Seu isolamento é aguçado pelas condições em que veio ao mundo: Muda. Mora em modesta moradia, tendo como vizinho um veterano desenhista que perdeu o bonde da história e tem sua vida dificultada pela idade que avança e a dificuldade de colocação dentro de uma sociedade extremamente conservadora (é gay). A vida de todos que a rodeiam sofre uma mudança brusca quando ela e sua colega Zelda se deparam com uma experiência extremamente secreta que tem lugar onde trabalham...


O presente escrito, em sua grande parte irá se arvorar entre duas visões distintas e se atira a pensar a questão da monstruosidade e da violência no presente filme. O filme todo é construído no embate entre a monstruosidade física dos que se encontram a margem do que é aceito como digno (A Negra, o Monstro, O Gay, A muda, O Espião russo - todos em posição subalterna) e a monstruosidade moral dos que se encontram acima (Richard Strickland e o General; - visto como representantes de um sistema despótico e cruel).
A violência perpassa por todo o filme, nas relações existentes entre todos os personagens, mas nos fixemos em seu emprego pessoal, entre os personagens do Homem Anfíbio e de Strickland, e como ela se relaciona com a época retratada.
Deslocado do meio ambiente onde vivia, o ser anfíbio surge na tela como um monstro. O que é um monstro?  No filme já o vemos transportado para um habitat que não é o seu e os indícios que nos chegam, através das primeiras imagens, não são nada positivos: Uma vítima de um ataque feroz sangrando e dois dedos arrancados. Alguém que se propõe a isso fazer, só pode ser um monstro. É assim, vendo de um ponto de vista único que nos é apresentado o “monstro”.
Educados que somos dentro de uma educação heterônoma, tudo que foge do padrão previamente estabelecido nos chega como ameaçador e subversivo. Somos policiados o tempo todo. Aquele laboratório ultrassecreto é em escala menor a própria sociedade em que estamos inseridos.
Com o desenrolar da trama nossa opinião mudará drasticamente. O homem bem-sucedido, dono de uma família plasticamente perfeita, que andará com os adornos de um veículo desejado por todos, fazia, despido de todas as aparências a verdadeira monstruosidade eclodir.
Saberemos então que a presente agressão nada mais era que um ato de defesa. Que o dito “homem” é o monstro. E quase ao final do filme, teremos a resposta que cala fundo: _ Você é mesmo um Deus! A violência retratada por Strickland e o grupo que ele representa não possui limites físicos ou morais. Eles retiraram a criatura de seu habitat e roubaram não só ele, mas também as riquezas daquele lugar, bem como destruíram toda a sociedade e o modo com que se relacionavam entre si. Nada disso nos é mostrado, mas as palavras que remontam a isso calam fundo no espectador atento, mais sensível e perscrutador. Não se trata de um filme fofinho, nem de um conto a maneira do que Disney produzia. Del toro não se entregou a indústria americana, a não ser naquilo que ela possui de benéfico para a sua obra.
O dispositivo usado por Del Toro é similar aquele do Labirinto do Fauno: Ele trará a tela um elemento fantástico que irá fazer eclodir o melhor e o pior da humanidade. Se no Labirinto o que desabrocha são os sentimentos amorosos de Ofelia, aqui, além dos sentimentos adormecidos de Elisa, o “monstro” servirá de catalisador para fazer surgir o verdadeiro eu de cada ser e suas potencialidades.
Del Toro inverte os postulados do filme de Arnold (O Monstro da Lagoa Negra) que lhe serviu de inspiração. Ao tirar a criatura de seu habitat e o transferir para os USA, Del Toro despinta, desfaz toda a visão idílica que tínhamos de uma América, que serviu para construir o que esse país é hoje.  O vírus do consumismo enraizado dentro de nosso mundo, já se apresentava. Um monstro é cultuado por desfilar num bólido azul petróleo.
A mensagem subversiva do filme nasce da improvável voz dos que se uniram para fazer o que é correto: Um espião russo, uma negra, um gay e uma muda. Todos os personagens na base de uma pirâmide, invisíveis aos olhos dos que estão acima. O que sustenta a América são as minorias. Todas elas sem consciência de si e sendo dadas a acreditar que um dia estarão no comando. Strickland também não deixa de ser o representante dessa minoria. Só que alguém que se prostituiu e busca destruir tudo que possa refletir o que já foi um dia: ao torturar a criatura, nada mais fazia que buscar eliminar o que cultuava antes. Essa tentativa de perder a consciência de si é um dos maiores motes do filme. Que sistema é esse em que estamos imersos? Que nos solicita que deixemos de ser o que somos na essência: Humanos.

Del Toro no auge de sua forma. Transpira em cada tomada um amor pelo Cinema de forma desmedida. Sorve na fonte dos grandes clássicos, fazendo uma releitura moderna com toda a técnica que se encontra a sua disposição. Como é gratificante quando um diretor homenageia o lúdico, as virtudes olvidadas, o que fez o Cinema realmente vingar enquanto arte: Mescla de ecos da infância, contos de fadas, materializações de sonhos, superação de desafios para que você se torne algo melhor.    Torço para sua premiação no Oscar. Se Iñárritu com seu esteticismo e talento já foi agraciado com a estatueta, por qual motivo um diretor extremamente mais talentoso e sensível não o deverá ser? 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

PS: Filme visto em 12/02/2018, portanto o escrito ainda se faz diante do impacto causado pela obra.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Sétimo Céu (1927) - Crítica


“Amai para entende-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”
O. Bilac

O século XIX transformara as especulações filosóficas de Rousseau e Kant em Ciência através de uma Psicologia primeiramente elaborada por Maine de Biran, que suplantara a proposta sensualista erigida por Condillac, Helvétius, Locke,Destutt de Tracy, Cabanis, etc (apoiada pelos Revolucionários ligados a Robespierre e pelos Idealistas da primeira administração Bonapartista). A partir de 1830, a Psicologia que interpretava o homem como uma alma encarnada, ganhara a cátedra e ali permanecera até o fim do século XIX inserida dentro das Ciências Psicológicas. Sua influência, enfraquecida após o golpe de Luis Bonaparte em 1852, permaneceria ecoando pelo mundo, já que como sempre ocorreu, os efeitos de uma descoberta sempre alcançam certas localidades tardiamente. Hoje essa verdade (a de sua existência) foi apagada dos anais da História e está sendo redescoberta por pesquisadores que não se satisfazem com as explicações dogmáticas Marxistas e Positivistas.
Parte dessa influência se pode sentir em algumas obras. Baseada numa peça de sucesso na Broadway, escrita em 1922 por Austin Strong (neto adotivo de Robert Louis Stevenson – “A Ilha do Tesouro”, “O Médico e o Monstro”) ”Sétimo Céu” traz em seu bojo os elementos dessa dualidade do ser humano. Não pude ler a peça, mas o filme explora a exaustão o ideal eclético que foi varrido da Universidade, não pelo seu esgotamento, mas sim pelo Dogmatismo Religioso e Científico que apoiou o golpe Bonapartista de 1852.
“Em Montmartre, o limpador de esgotos Chico Robas, deseja alçar a claridade do dia, tornando-se um limpador de ruas. Próximo de lá, num quarto puído, a jovem Diane é espancada pela irmã, cuja miséria e o álcool tornara-a louca. Fugindo de um acesso de descontrole mais brutal da irmã, Diane é salva pelo socorro oportuno de Chico que salva sua vida física. Humilhada e vingativa, a irmã reclama a força policial o mesmo destino para sua Diane: a cadeia. Chico intervêm e se apresenta como seu marido e a conduz a contragosto até sua casa: um imóvel simples no último andar de um velho edifício (O Sétimo andar), onde se avista o céu estrelado, ainda não roubado pelas atividades industriais da época atual. ”
Borzage já era um cineasta com robusta experiência dentro dos meandros cinematográficos de seu tempo. Quando os estúdios Fox lhe dão a oportunidade de dirigir a presente obra, a sorte lhe bafeja. Na mesma época era disponibilizado a outro cineasta toda uma meca de recursos e facilidades. Conjuntamente a sua obra, era filmado, “Sunrise” pelo gênio alemão Murnau. A ideia do estúdio era clara: explorar ao extremo a presença do alemão, e extrair dessa oportunidade todo o conhecimento possível. Aurora é a obra definitiva de Murnau e ele pode conceber em imagens tudo o que desejara. Foi secundado pelo que tinha de melhor artisticamente falando, para concebê-la. Por sorte, essa influência, extrapolou aquele projeto e agraciou outros: Sétimo Céu espelha o espírito estético que animou o estúdio naquela época. Se “Aurora” é perfeito esteticamente falando, eu sem o desprezar, me dobro de joelhos diante da aura que emana da obra de Borzage. Já vi bons filmes, assisti filmes ótimos, outros perfeitos, mas Sétimo Céu eu alço ao panteão das Obras-Primas. O que se dá na tela meu Deus!!!??? 
Raras vezes um artista conseguiu representar o amor de um casal como Borzage fez. A alquimia é perfeita entre os dois atores, abrilhantada pela mise en scène do diretor, que culmina numa simbiose perfeita entre atores, direção e filme, um se alimentando do outro, contribuindo para o crescimento do todo, sem que se exaura nada diante de nossos olhos atônitos. Farrel possui o físico ideal e encarna com perfeição a pureza, a candura, a juventude de alma, enquanto sua parceira é como uma fada ferida, uma mulher criança que permanece límpida, apesar da penúria mundana que a cerca. Interpretações sutis, onde cada olhar nos desvenda um algo maior.  

O filme conta o nascimento desse amor de uma forma escalonada, que parece não possuir esgotamento em seu crescer: um encontro fortuito, um casamento simbólico que precede o eclodir do amor, culminando nos amantes que se descobrem mais e mais, a ponto de criar um universo a parte, que os protege das intempéries do exterior, um casulo protetor no seio do qual o sentimento se engrandece rumo a plenitude.
Quando Diane foi conduzida até esse local, eles mais se estranhavam que se atraiam. Robas claramente não se entrega aos prazeres fáceis da carne, ele busca um significado maior e seu objetivo naquele momento era apenas de ajudar alguém, reerguer aquela criatura que julgava tombada; a ajudar a se livrar da Polícia. O que ocorre depois creditemos ao inefável, a capacidade que o ser humano possui de ser divino, de saber-se matéria/espírito. Uns creditarão ao místico, ao religioso. Se tomarem “religioso” como ligação com o divino adormecido, eu me curvo a essa opinião. Místico jamais! Olhando o infinito através da janela de sua moradia ele declara: “Eu vivo dos esgotos, mas moro próximo das estrelas”. Ela estupefata com tudo isso declara: “Isso é o paraíso! ”. Essa união de sentimentos que transforma momentaneamente o ser humano é para seu diretor a força que pode transcender o homem e mudar o mundo. Uns mais céticos (Machado de Assis a frente) a classificavam como consolo metafísico. O amor é para Borzage a única verdadeira transcendência permitida ao homem.
O amor eleva o homem. Chico e Diane saem de forma simbólica dos esgotos para as estrelas. Chico inicia o filme nos esgotos sonhando em limpar as ruas.Ele tudo enxergava através dos furos das tampas de esgotos ou do gradil (calçados, saias, etc). Borzage não endeusa ou idealiza a família moralmente instituída pela Igreja ou Estado. Família para ele parece significar sofrer (Diane era espancada pela irmã e foi desprezada pelos tios). O Matrimônio instituído pelo casal foge das convenções puídas da época. Borzage não se envergonha de dar voz aos chamados excluídos, talvez por desprezar os que se enquadram dentro de um sistema que não lhe agrada. Nesse tocante o cenário que o cerca, é próximo daquele que Chaplin imortalizou em “O Garoto”. A Pátria é outra ilusão que só solicita vítimas inocentes. Ilusão instituída e dirigida pelos primeiros que a desrespeitam. Veja o Oficial que longe das trincheiras, se aproveita para seduzir a mulher do soldado que lá luta pelo país. Borzage faz-nos crer que somente os deserdados tem a capacidade de valorizar essas instituições, já que não as possuem, não as dirigem. Borzage se simpatiza com os deserdados dotando-o de certas qualidades, já que não se vinculariam aos dogmatismo burguês ou marxista. Os deserdados (os párias), para ele,  possuem certos valores, ao contrário do pregado pelos que dizem possuir consciência. O diretor desconfia da Igreja, dos militares, da polícia, da família e de todos aqueles que cerceiam a liberdade dos outros. A visão punitiva que caracteriza essas instituições, ainda que amenizada pela presença do padre, continua crítica. Eles recompensam e castigam por critérios não muito bem estabelecidos. Os tios puniram as irmãs, a polícia iria punir a ambas, o padre recompensa, mas com o intuito de arregimenta-los, a Pátria o chama e o tira do seu cotidiano por razões inexplicáveis.
A consciência do outro que vive nas mesmas condições existe. Chico chama seu colega de ofício de companheiro e o respeito mútuo ultrapassa as funções do trabalho. Não podemos considerar Chico um ateu, mas sim um alguém que não aceita a explicação dogmática, pois vemos que ele naturalmente crê e possui uma fé maior que todos os que o cercam. A cena onde ele e Gobin vêem a necessidade de se limpar o local onde instantes após o padre pisou é sutil e notória dessa descrença em relação aos sacerdotes.
Os personagens vivem o dia a dia, satisfeitos em possuírem recursos suficientes para se vestirem, nutrirem e se aquecerem. O resto são adornos inúteis, menos encontrar alguém com quem dividir a experiência de viver. Somente esse sentimento pode dotar a existência de um sentido. E é necessário confrontar a sociedade, para que ela não os asfixie. Os que se amam podem erigir as suas torres de marfim e lá permanecer, mas é preciso que o sentimento seja lapidado pelas intempéries exteriores: a guerra, a pobreza, a doença, etc. Essa necessidade em Borzage tem uma visão revolucionária simbólica. Para ele somente o amor pode revolucionar o mundo.
Aqui outro ponto onde a obra de Borzage parece flertar com o Ecletismo do século XIX. O filme se inicia mergulhado na escuridão e ao fundo ouvimos a Marselhesa e os sons do tambor. Em seguida somos apresentados ao elenco que romperá a escuridão e trará a tela um esteticismo eclético/romântico. E esse esteticismo mergulha nas pobres ruas de Paris dotando-as de uma beleza ímpar. A arte tem o poder de elevar o homem ao cume. Borzage trabalha de forma incessante sobre os paradoxos da existência: O Sétimo Céu onde vivem e o horror das trincheiras para onde foi levado, os arredores miseráveis da casa de ambos, sempre vista de forma lírica e poética, o romance a a Guerra, os risos e as lágrimas, um futuro coberto pela chegada da Guerra... O homem desperto do lamaçal onde se encontra pelo chamado de um sentimento maior, a dualidade entre corpo e alma, propostas defendidas por Victor Hugo (e o Romantismo). O Romantismo de Gautier e de Hugo era permeado pela proposta eclética que vicejava na França. O que Borzage e o texto que inspira a obra traz a tela, são resquícios de uma verdade desaparecida. O Amor, a beleza, a arte, a dualidade de nossa existência, são verdades que sobreviverão (ainda que dormentes) as maiores catástrofes que possa sobrepujar nossa existência.
Para Borzage (e aqui ele se afiniza com Paulo de Tarso -  https://www.bibliaonline.com.br/acf/1co/13) o amor seria a maior conquista que o homem poderia atingir. Aquele que ama é por si só um vencedor. Ele vence distâncias e une ainda que na separação (os amantes mesmo distantes um do outro se encontravam todas as manhãs pontualmente em determinado horário). A Guerra é para Borzage tão asquerosa, que as cenas das trincheiras e aquela dos taxistas de Paris convocados a frente da batalha, foram realizadas por outro cineasta – John Ford (https://www.wsws.org/en/articles/2013/10/12/borz-o12.html).
O sentir a presença do outro, quando todos já o consideram eliminado fisicamente, é um dos atributos dados a quem ama (Note como Diane sabe que Chico vive, ainda que todos lhe afirmem até oficialmente sua morte. Para Borzage não se tratava de uma concessão aos estúdios, pois para ele era imperioso demonstrar que o amor era mais forte que as Instituições (por isso era imperioso desmentir a Igreja, O Estado) e ao mesmo tempo ser crível, mostrar sequelas: Chico reaparece cego, mas o amor se materializa aos nossos olhos estupefatos com a força das imagens e da mensagem da obra de Borzage.
Sem negar o meio social, os fatos históricos, Borzage conduz sua obra, de forma a dotar de um significado revolucionário um sentimento hoje descartado pelas gerações educadas dentro de um Dogmatismo religioso/científico. A força trancedental de obras como essa, mostram que poder-se-ia ter trilhado um outro caminho. Essa possiblidade materializada por circunstância felizes (Murnau e o desejo de se aperfeiçoar a arte Cinema; a maestria da mise em scène de Borzage, uma fotografia soberba, um texto brilhante e inusitado) fazem com que sua mensagem ainda ecoe até nossos dias, com o mesmo ímpeto de quando foi realizado. Sétimo Céu (assim como Casablanca) possuem uma aura própria que manterá junto a si uma legião de admiradores. Obras como essas, dão sentido a existência humana.


Escrito por Conde Fouá Anderaos

sábado, 6 de janeiro de 2018

A Onda (2015) - Crítica

Existe um quê de imemorial nos filmes catástrofes. Não nos conseguimos lembrar, apesar da sensação de desastre inevitável, visto que isso se alude a algo antiquíssimo na memória coletiva (Escatologia). Em suma, as estruturas dos roteiros tendem a se assemelhar, para o bem ou para o mal, inevitavelmente. Existe uma quebra na estrutura familiar, que exigirá um esforço de ordem física para a união daqueles que estão emocionalmente separados. A reconstrução após a destruição de tudo que os cerca.

Ulthaug nos dá a prova também que os gêneros cinematográficos, mesmo os mais acentuadamente americanos (blockbusters), conseguem ser transpostos para qualquer lugar por diretores talentosos e atentos as regras do gênero. E o resultado desse tipo de filme sempre estará vinculado a uma grande mise em scène.


A Onda é um filme que propõe um puro divertimento visual sem grande profundidade e faz uso de todos os clichês do gênero. Entretanto possui uma identidade própria, quer seja pelo cenário pouco visto, quer seja pelo olhar de seu diretor. Ele possui um olhar realista ao abordar o tema em questão, pois antes do “show” temos uma exposição longa da tragédia anunciada, com referências históricas reais. Na década de 30, um grande número de vilarejos noruegueses foram varridos um enorme tsunami, quando parte de uma montanha desmoronou dentro de um fiorde.

Destaque-se também a fotografia – John Roselund, o responsável aglutina paisagens naturais e selvagens de rara beleza imagética, costurando assim particularidades trágicas ao conjunto da diegese.

A restrição de recursos é driblada de forma sutil e eficaz. As cenas referentes a tragédia se restringirão a visão restrita dos protagonistas daquele núcleo familiar; essa visão intíma, visão solo de Kristian testemunhando os destroços deixados pela Onda no caminho que percorre rumo ao hotel. Mesmo cercado pela destruição ele continua sua demanda, ganhando características próprias de um herói indo de encontro ao seu destino, do homem tal qual uma fênix querendo ressurgir das cinzas que o cercam.
Para aqueles que não estiverem interessados em originalidade, A Onda proporcionará bons momentos de diversão e competência. A chegada ao clímax é construída de modo paciente e o filme nunca nos fornece aquela sensação de afobação ou atropelamento. A estranhar somente (em se comparando com os Americanos, claro) a não inclusão de personagens caricatos que mereçam ser punidos pelo desastre iminente. Essa ausência de demagogia pode não agradar alguns habituados e dependentes desse tipo de tempero. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

Bem-Vindo a Marly-Gomont (2016) - Crítica


Numa Europa inserida dentro de uma crise Global, que cria uma massa enorme de refugiados a produção de uma comédia leve e descompromissada como essa, torna-se oportuna e bem-vinda, por tocar no tema da inserção, ainda que o resultado advindo na tela, não entusiasme.

“Graduado na faculdade de Medicina de Lille em 1975, o doutor Zantoko (Marc Zinga) convence o prefeito de Marly-Gomont (Aisne) a deixar-se instalar em sua pequena aldeia. Uma aposta arriscada do prefeito, já que seus conterrâneos jamais conviveram com alguém da raça negra. O médico traz de Kinshasa (Zaire) sua esposa Anne (Aissa Maïga) e seus dois filhos e se instala na localidade. A esposa cria (por uma mal-entendido) estar indo para próximo dos Campos Elíseos em Paris e desperta furiosa na zona rural francesa. Marc Zinga dá vida a um Zantoko que quer a todo custo se inserir dentro da nova comunidade, esquecendo-se de suas raízes africanas. ”
O filme se arvora nos velhos ingredientes das comédias americanas que se espalham por aí. Algumas situações previsíveis, toscas e artificiais surgem na tela para tocar o filme para frente. Não se chega a cair no pior do besteirol norte-americano, mas sua influência é nítida, veja-se as cenas recorrentes que assistiremos:
1- Negros descobrem a neve;
2- Negro é mais talhado para o futebol que o branco;
3- Negros incrementam uma missa com cantos gospell,
4- Negro corre em disparada para não levar um tiro nos fundilhos;
5- Personagem cheira a esterco; etc

E o tema chave acaba ficando em segundo plano: Como se integrar num meio hostil, sem perder a sua identidade?
No entanto a plateia sabe que se trata de um filme baseado em fatos verídicos. A maldade e o cinismo com que provavelmente Zantoko se deparou, da lugar ao troco: os habitantes do lugar também são retratados de forma caricatural e os interesses locais, como coisas mesquinhas e frívolas. Num segundo plano, nem sempre mencionado, supõe-se a grandiosidade desse homem, que não deseja corromper-se dentro do esquemático de seu país natal. E também da lida diária para superar a desconfiança, ganhar a confiança e o respeito do povo local. A atividade do médico carece do respeito, da confiança, para acessar a intimidade, para a compreensão físicam, de seus pacientes. Quão verdadeira foi a cena em que uma mulher temerosa de perder seu bebê, não consegue mesmo assim controlar seu medo e desgosto com a ideia de dar a luz secundada por um negro e o insulta reiteradamente, enquanto este a ajuda.
Um dos roteiristas do filme é Kamini, filho de Zantoko. Nota-se que ele tem certa ressalva contra ao caminho trilhado pelo pai, que desejava uma integração a qualquer custo, obrigando os familiares a calarem-se, tornarem-se discretos, negarem sua identidade para ali permanecerem. Que sua mãe esquecesse o sonho de Paris e Bruxelas e se enterrasse naquela localidade.  Que os filhos não falassem a língua nativa, não jogassem futebol, etc.

Talvez isso explique o resultado obtido nas telas. O filme careceu de um rumo nítido. Ao menos o tema, e a verdade que dele emana, resultou numa obra que prende o interesse, apesar do escrito acima.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Thor - Ragnarök (2017) - Crítica


“O destino de Asgard novamente se encontra nas mãos de Thor. Para a salvar ele lutará contra o tempo, a fim de impedir que a impiedosa Hela (sua irmã) conclua o Ragnarök – a destruição de seu mundo e o término da Civilização Asgardiana. Só que ele se encontra sem o seu martelo e retido prisioneiro num longínquo planeta nos confins do Universo. E deverá ainda enfrentar num combate grandioso, um antigo aliado: O Incrível Hulk...”

As críticas no Brasil não foram entusiasmadas. Talvez parte da esquerda, amante da foice e do martelo não gostou de ver Thor privado desse último... – trata-se de uma pilhéria, mas temos de partir para o inusitado para compreender o que tanto desgostou parte da crítica por aqui. O filme é divertidíssimo e o elenco está em ótima forma – destaque para um Jeff Goldbum em estado de graça – um dos vilões mais divertidos dos últimos tempos.

Certamente parte do êxito se deve ao improvável Taika Waititi que teve a arriscada ousadia de empregar a saga um toque kitsch e hilário sem que a deixasse cair na ridicularidade.

Ao se tomar o caminho da brincadeira, de não ter vergonha de se rir de si próprio, o diretor apostou as fichas na diversão: Thor e Loki surgem na tela como dois perdedores caídos sabe-se lá de onde. O primeiro ainda ousa manter-se ereto e com aquela aura principesca, mas a imagem que nos chega é de um ser enfraquecido. Loki se adapta melhor as circunstâncias e se faz de um lambedor de botas do novo rei do pedaço – um tirano pop e efeminado, degenerado e impulsivo; mas que devido ao carisma de seu intérprete, não o levamos a sério, e nos soa agradabilíssimo. 

Os puristas certamente não compreenderão o tom farsesco e a redução de Thor a pele de um bufão sem conhecimento de si (colocado em situações que fogem de sua compreensão) que atravessa o filme de forma desenvolta, sendo sistematicamente humilhado por aqueles com que divide o palco: Hulk, Loki, Walquiria, Hela, GrandMaster, Topaz, etc. Esse retrato de uma crise familiar titanesca, onde os Deuses Nórdicos se chocam em um mundo onde não  possui mais o seu domínio satisfaz a plateia e certamente Waititi permanecerá a frente da empreitada.

Para continuar dando certo, ele deverá se atentar para o grande risco tomado pelo caminho escolhido: Esvaziar-se o universo Marvel de seu significado; apesar das qualidades e da graça que permeia todo o filme, corre-se o risco da exaustão: os personagens podem acabar tombando-se entre si, numa espécie de pout-pourri com tantos olores, que pode acabar desagradando pelo resultado. Esse risco assumido de poder cair no vazio, de se exaurir em si próprio, pode cansar o expectador, por quebrar todo a força dramática que compunha os personagens. Por hora não temamos o possível apocalipse e nos divirtamos com essa obra, a melhor até agora levada as telas sobre o Universo Marvel.

Escrito por Conde Fouá Anderaos