segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Sétimo Céu (1927) - Crítica


“Amai para entende-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”
O. Bilac

O século XIX transformara as especulações filosóficas de Rousseau e Kant em Ciência através de uma Psicologia primeiramente elaborada por Maine de Biran, que suplantara a proposta sensualista erigida por Condillac, Helvétius, Locke,Destutt de Tracy, Cabanis, etc (apoiada pelos Revolucionários ligados a Robespierre e pelos Idealistas da primeira administração Bonapartista). A partir de 1830, a Psicologia que interpretava o homem como uma alma encarnada, ganhara a cátedra e ali permanecera até o fim do século XIX inserida dentro das Ciências Psicológicas. Sua influência, enfraquecida após o golpe de Luis Bonaparte em 1852, permaneceria ecoando pelo mundo, já que como sempre ocorreu, os efeitos de uma descoberta sempre alcançam certas localidades tardiamente. Hoje essa verdade (a de sua existência) foi apagada dos anais da História e está sendo redescoberta por pesquisadores que não se satisfazem com as explicações dogmáticas Marxistas e Positivistas.
Parte dessa influência se pode sentir em algumas obras. Baseada numa peça de sucesso na Broadway, escrita em 1922 por Austin Strong (neto adotivo de Robert Louis Stevenson – “A Ilha do Tesouro”, “O Médico e o Monstro”) ”Sétimo Céu” traz em seu bojo os elementos dessa dualidade do ser humano. Não pude ler a peça, mas o filme explora a exaustão o ideal eclético que foi varrido da Universidade, não pelo seu esgotamento, mas sim pelo Dogmatismo Religioso e Científico que apoiou o golpe Bonapartista de 1852.
“Em Montmartre, o limpador de esgotos Chico Robas, deseja alçar a claridade do dia, tornando-se um limpador de ruas. Próximo de lá, num quarto puído, a jovem Diane é espancada pela irmã, cuja miséria e o álcool tornara-a louca. Fugindo de um acesso de descontrole mais brutal da irmã, Diane é salva pelo socorro oportuno de Chico que salva sua vida física. Humilhada e vingativa, a irmã reclama a força policial o mesmo destino para sua Diane: a cadeia. Chico intervêm e se apresenta como seu marido e a conduz a contragosto até sua casa: um imóvel simples no último andar de um velho edifício (O Sétimo andar), onde se avista o céu estrelado, ainda não roubado pelas atividades industriais da época atual. ”
Borzage já era um cineasta com robusta experiência dentro dos meandros cinematográficos de seu tempo. Quando os estúdios Fox lhe dão a oportunidade de dirigir a presente obra, a sorte lhe bafeja. Na mesma época era disponibilizado a outro cineasta toda uma meca de recursos e facilidades. Conjuntamente a sua obra, era filmado, “Sunrise” pelo gênio alemão Murnau. A ideia do estúdio era clara: explorar ao extremo a presença do alemão, e extrair dessa oportunidade todo o conhecimento possível. Aurora é a obra definitiva de Murnau e ele pode conceber em imagens tudo o que desejara. Foi secundado pelo que tinha de melhor artisticamente falando, para concebê-la. Por sorte, essa influência, extrapolou aquele projeto e agraciou outros: Sétimo Céu espelha o espírito estético que animou o estúdio naquela época. Se “Aurora” é perfeito esteticamente falando, eu sem o desprezar, me dobro de joelhos diante da aura que emana da obra de Borzage. Já vi bons filmes, assisti filmes ótimos, outros perfeitos, mas Sétimo Céu eu alço ao panteão das Obras-Primas. O que se dá na tela meu Deus!!!??? 
Raras vezes um artista conseguiu representar o amor de um casal como Borzage fez. A alquimia é perfeita entre os dois atores, abrilhantada pela mise en scène do diretor, que culmina numa simbiose perfeita entre atores, direção e filme, um se alimentando do outro, contribuindo para o crescimento do todo, sem que se exaura nada diante de nossos olhos atônitos. Farrel possui o físico ideal e encarna com perfeição a pureza, a candura, a juventude de alma, enquanto sua parceira é como uma fada ferida, uma mulher criança que permanece límpida, apesar da penúria mundana que a cerca. Interpretações sutis, onde cada olhar nos desvenda um algo maior.  

O filme conta o nascimento desse amor de uma forma escalonada, que parece não possuir esgotamento em seu crescer: um encontro fortuito, um casamento simbólico que precede o eclodir do amor, culminando nos amantes que se descobrem mais e mais, a ponto de criar um universo a parte, que os protege das intempéries do exterior, um casulo protetor no seio do qual o sentimento se engrandece rumo a plenitude.
Quando Diane foi conduzida até esse local, eles mais se estranhavam que se atraiam. Robas claramente não se entrega aos prazeres fáceis da carne, ele busca um significado maior e seu objetivo naquele momento era apenas de ajudar alguém, reerguer aquela criatura que julgava tombada; a ajudar a se livrar da Polícia. O que ocorre depois creditemos ao inefável, a capacidade que o ser humano possui de ser divino, de saber-se matéria/espírito. Uns creditarão ao místico, ao religioso. Se tomarem “religioso” como ligação com o divino adormecido, eu me curvo a essa opinião. Místico jamais! Olhando o infinito através da janela de sua moradia ele declara: “Eu vivo dos esgotos, mas moro próximo das estrelas”. Ela estupefata com tudo isso declara: “Isso é o paraíso! ”. Essa união de sentimentos que transforma momentaneamente o ser humano é para seu diretor a força que pode transcender o homem e mudar o mundo. Uns mais céticos (Machado de Assis a frente) a classificavam como consolo metafísico. O amor é para Borzage a única verdadeira transcendência permitida ao homem.
O amor eleva o homem. Chico e Diane saem de forma simbólica dos esgotos para as estrelas. Chico inicia o filme nos esgotos sonhando em limpar as ruas.Ele tudo enxergava através dos furos das tampas de esgotos ou do gradil (calçados, saias, etc). Borzage não endeusa ou idealiza a família moralmente instituída pela Igreja ou Estado. Família para ele parece significar sofrer (Diane era espancada pela irmã e foi desprezada pelos tios). O Matrimônio instituído pelo casal foge das convenções puídas da época. Borzage não se envergonha de dar voz aos chamados excluídos, talvez por desprezar os que se enquadram dentro de um sistema que não lhe agrada. Nesse tocante o cenário que o cerca, é próximo daquele que Chaplin imortalizou em “O Garoto”. A Pátria é outra ilusão que só solicita vítimas inocentes. Ilusão instituída e dirigida pelos primeiros que a desrespeitam. Veja o Oficial que longe das trincheiras, se aproveita para seduzir a mulher do soldado que lá luta pelo país. Borzage faz-nos crer que somente os deserdados tem a capacidade de valorizar essas instituições, já que não as possuem, não as dirigem. Borzage se simpatiza com os deserdados dotando-o de certas qualidades, já que não se vinculariam aos dogmatismo burguês ou marxista. Os deserdados (os párias), para ele,  possuem certos valores, ao contrário do pregado pelos que dizem possuir consciência. O diretor desconfia da Igreja, dos militares, da polícia, da família e de todos aqueles que cerceiam a liberdade dos outros. A visão punitiva que caracteriza essas instituições, ainda que amenizada pela presença do padre, continua crítica. Eles recompensam e castigam por critérios não muito bem estabelecidos. Os tios puniram as irmãs, a polícia iria punir a ambas, o padre recompensa, mas com o intuito de arregimenta-los, a Pátria o chama e o tira do seu cotidiano por razões inexplicáveis.
A consciência do outro que vive nas mesmas condições existe. Chico chama seu colega de ofício de companheiro e o respeito mútuo ultrapassa as funções do trabalho. Não podemos considerar Chico um ateu, mas sim um alguém que não aceita a explicação dogmática, pois vemos que ele naturalmente crê e possui uma fé maior que todos os que o cercam. A cena onde ele e Gobin vêem a necessidade de se limpar o local onde instantes após o padre pisou é sutil e notória dessa descrença em relação aos sacerdotes.
Os personagens vivem o dia a dia, satisfeitos em possuírem recursos suficientes para se vestirem, nutrirem e se aquecerem. O resto são adornos inúteis, menos encontrar alguém com quem dividir a experiência de viver. Somente esse sentimento pode dotar a existência de um sentido. E é necessário confrontar a sociedade, para que ela não os asfixie. Os que se amam podem erigir as suas torres de marfim e lá permanecer, mas é preciso que o sentimento seja lapidado pelas intempéries exteriores: a guerra, a pobreza, a doença, etc. Essa necessidade em Borzage tem uma visão revolucionária simbólica. Para ele somente o amor pode revolucionar o mundo.
Aqui outro ponto onde a obra de Borzage parece flertar com o Ecletismo do século XIX. O filme se inicia mergulhado na escuridão e ao fundo ouvimos a Marselhesa e os sons do tambor. Em seguida somos apresentados ao elenco que romperá a escuridão e trará a tela um esteticismo eclético/romântico. E esse esteticismo mergulha nas pobres ruas de Paris dotando-as de uma beleza ímpar. A arte tem o poder de elevar o homem ao cume. Borzage trabalha de forma incessante sobre os paradoxos da existência: O Sétimo Céu onde vivem e o horror das trincheiras para onde foi levado, os arredores miseráveis da casa de ambos, sempre vista de forma lírica e poética, o romance a a Guerra, os risos e as lágrimas, um futuro coberto pela chegada da Guerra... O homem desperto do lamaçal onde se encontra pelo chamado de um sentimento maior, a dualidade entre corpo e alma, propostas defendidas por Victor Hugo (e o Romantismo). O Romantismo de Gautier e de Hugo era permeado pela proposta eclética que vicejava na França. O que Borzage e o texto que inspira a obra traz a tela, são resquícios de uma verdade desaparecida. O Amor, a beleza, a arte, a dualidade de nossa existência, são verdades que sobreviverão (ainda que dormentes) as maiores catástrofes que possa sobrepujar nossa existência.
Para Borzage (e aqui ele se afiniza com Paulo de Tarso -  https://www.bibliaonline.com.br/acf/1co/13) o amor seria a maior conquista que o homem poderia atingir. Aquele que ama é por si só um vencedor. Ele vence distâncias e une ainda que na separação (os amantes mesmo distantes um do outro se encontravam todas as manhãs pontualmente em determinado horário). A Guerra é para Borzage tão asquerosa, que as cenas das trincheiras e aquela dos taxistas de Paris convocados a frente da batalha, foram realizadas por outro cineasta – John Ford (https://www.wsws.org/en/articles/2013/10/12/borz-o12.html).
O sentir a presença do outro, quando todos já o consideram eliminado fisicamente, é um dos atributos dados a quem ama (Note como Diane sabe que Chico vive, ainda que todos lhe afirmem até oficialmente sua morte. Para Borzage não se tratava de uma concessão aos estúdios, pois para ele era imperioso demonstrar que o amor era mais forte que as Instituições (por isso era imperioso desmentir a Igreja, O Estado) e ao mesmo tempo ser crível, mostrar sequelas: Chico reaparece cego, mas o amor se materializa aos nossos olhos estupefatos com a força das imagens e da mensagem da obra de Borzage.
Sem negar o meio social, os fatos históricos, Borzage conduz sua obra, de forma a dotar de um significado revolucionário um sentimento hoje descartado pelas gerações educadas dentro de um Dogmatismo religioso/científico. A força trancedental de obras como essa, mostram que poder-se-ia ter trilhado um outro caminho. Essa possiblidade materializada por circunstância felizes (Murnau e o desejo de se aperfeiçoar a arte Cinema; a maestria da mise em scène de Borzage, uma fotografia soberba, um texto brilhante e inusitado) fazem com que sua mensagem ainda ecoe até nossos dias, com o mesmo ímpeto de quando foi realizado. Sétimo Céu (assim como Casablanca) possuem uma aura própria que manterá junto a si uma legião de admiradores. Obras como essas, dão sentido a existência humana.


Escrito por Conde Fouá Anderaos

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