segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Ele está de Volta (2015) - Crítica


O povo alemão tem um caráter introspectivo muito maior que muitos de nossos irmãos de outras raças. Então o humor daquele país não possui a leveza existente em outras plagas e resvala sempre no sarcasmo. Aqui não é diferente.

Um dos recursos utilizados pelo cineasta é o uso constante de câmeras escondidas, que pegam o personagem principal em situações do cotidiano, de modo imprevisto, como se tudo não passasse de uma reportagem de telejornal. Nesse corpo a corpo com o povo alemão, levado em tom de pilhéria, o que se extrai é preocupante: a conclusão é aquela de O Ovo da Serpente de Bergman, ainda que agora a situação alemã, não resvale na penúria de antanho.

Hitler quereria hoje uma aliança com o Partido Verde (talvez pela firmeza de opiniões deste último, que se enclausuram dentro de suas próprias ideias, como se não existisse uma Sociedade a ser reformada e educada - Imposição não conduz a mudanças). Ainda que meio incoerente, o grande mote do filme é que com o passar do tempo, participamos da brincadeira e somos pegos desprevenidos: o discurso nazista ainda encontra eco na sociedade.

O desejo dos produtores era claro. Extrair de quem assistisse grossas risadas, ainda que com o fórceps (repito, o humor é pesado). Infelizmente (e a culpa não é totalmente deles; - é da formação materialista positivista com que somos educados) o filme mais propaga o que deseja efetivamente denunciar. Mesmo quando Hitler visita a sede do antigo NPD que o sustentou outrora, ou quando é espancado por Neo Nazistas que o acusam de ser cópia falsa e ridicularizar o führer.
A grande virtude do filme é desmascarar a construção de um monstro que teria seduzido e conduzido todos a um precipício. Hitler não aparece como um louco tresvariado; ao contrário, surge patético, ridículo, mas cheio de carisma. Seus pontos de vista nunca são criticados e ele cai em desgraça, não pelas opiniões que defende, mas sim por uma atitude isolada (mata um cachorrinho que o atacava).
O diretor (repito, a culpa não pode ser creditada somente a ele) acaba por espalhar um sentimento de mal-estar com a obra, atualizando um discurso extremo quando a Europa se vê a frente com o problema dos refugiados de várias localidades do mundo. Quando os créditos finais surgem, aparecem as imagens dessa realidade e a presença da xenofobia surge clara. Seis décadas após seu aniquilamento físico, Hitler retorna numa época em que a Alemanha não se encontra feliz. E a proposta de salvação nazista surge em vários pontos com roupa nova e recheio antigo. Quem irá dar cumprimento a ela? Quem tirará do posto a mulher que ousa comandar o país? E esses turcos e outras raças que perambulam pelas ruas? Quem vai colocar a Europa novamente nos trilhos?
Um filme, apesar de tudo bom, mas não curial. A educação heterônoma com que se formam as novas gerações não permite o necessário distanciamento ao se assistir uma obra como essa. Um filme que seduz, pelo que deveria ojerizar. Ao menos aqui a produção é vítima do próprio tema. Ao contrário de Tarantino que com seu Bastardos Inglórios, sabia muito bem o que pregava (e as plateias atônitas com o deslumbre artístico, nem se deram conta).  O veneno nazista está a espreita e seu odor nauseabundo requer novas vítimas.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

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