domingo, 12 de março de 2017

Os Meninos Da Rua Paulo (1969)

As artes cênicas (bem como as demais) materializam aquilo que jaz escondido dentro de nós. Essa capacidade criativa que nos permite um questionamento sobre o nosso mundo e nosso ser. O presente filme tem a seu favor uma direção que soube extrair do romance em que se baseou a essência que inspirou seu autor. Ambientado numa Budapeste do início do século XX, vemos dois grupos de crianças que entram em conflito pela posse de um terreno baldio onde possam brincar. Sempre após as aulas os garotos da Rua Paulo se dirigem ao local para brincar no enorme espaço vago de uma cidade em crescimento. Crítica a construção uma sociedade onde o espaço do lúdico está em permanente ameaça. O espaço é cobiçado por um grupo rival, constituído por crianças mais fortes, maiores e decididas (os Camisas Vermelhas) a se apropriarem do local.
A virtude da história está em mostrar as crianças, se relacionando como numa sociedade secreta, com seus ritos e hierarquias. O vocabulário de que se valem é um dos maiores charmes da obra, e nos remete tanto as questões bélicas como a política, servindo-nos para que espelhemos nos personagens a infantilidade e a pequenez em que estamos imersos. Ao reconstruir a obra literária para as telas, o diretor faz uso do Cinemascope para ampliar as peripécias juvenis e a nos dar a sensação de uma batalha épica na luta pelo modesto terreno, pomo de discórdia entre os grupos. Feito após as duas Guerras mundiais, o diretor espelha aquilo que o livro adiantara: A Guerra, uma simulação ampliada, é nefasta até numa versão reduzida e lúdica. A ideia de hierarquização com indivíduos não fazendo uso da razão e obedecendo a ordens nem sempre sensatas se fazem presente no filme todo. Os castigos e julgamentos permeiam a história. O indivíduo se anula para se sentir aceito pelo grupo. Só nos damos conta da estreiteza que nos é imposta, quando contrapomos a posição individual de um membro, que mesmo fraco (fisicamente) mostra-se maior que todos aqueles que ocupam posição privilegiada dentro da ordem vigente. O final do filme descerra o vazio que buscamos como válido. O elenco juvenil não destoa e funciona muito bem. A plateia de adultos que assiste o confronto espelha o estado em que ainda estagiamos: somos ainda os mesmos matando o tempo como faziam os antigos no coliseu romano. Um filme a se conhecer e o fato do romance ter sido levado apenas duas vezes a grande tela, demonstra a dificuldade que temos para lidar com o que ele nos traz. Perturbador.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

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