quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Lion - Uma Jornada para Casa (2016) - Crítica

Geralmente os filmes que se baseiam em fatos reais, destinam-se a contar histórias que marcaram um momento (uma conquista, desastre ou feito espetacular), personagens de destaque mundial ou a história de alguém desconhecido, que por um motivo ou outro possui interesse suficiente para nos cativar. É o caso do presente filme, baseado numa aventura incrível que é compartilhada conosco, tendo por alicerce um elenco internacional: Nicole Kidman, Rooney Mara e Dev Patel (Quem Quer Ser Um Milionário). Ainda que a história nos remeta ao filme de Danny Boyle, o diretor Garth Davis, sem ser excepcional, ao menos tem competência suficiente para não se espelhar naquele artificialismo com que o britânico retratou um país que mostrou não conhecer. Garth Davis em vários momentos consegue mergulhar na realidade indiana. De uma maneira distanciada, mas crível.
“Saroo aos cinco anos se encontrou sozinho preso num trem em movimento que atravessou a India o conduzindo a milhares de quilômetros de sua família e cidade. Ele desembarca em Calcutá, no mesmo país, numa cidade onde o dialeto dominante é diferente do seu. Após semanas como errante pelas ruas é recolhido num orfanato e adotado por um casal de australianos, após tentativas infrutíferas de encontrar sua mãe. Décadas depois ele se torna um verdadeiro australiano, mais as lembranças de sua infância ainda o perturbam e ele fica pensando sempre em sua família indiana. Armado de raras lembranças e de uma inquebrantável determinação ele começa a fazer uso do Google Terra, fazendo uso de fotos de satélites, para encontrar sua cidade. Tal se assemelha a encontra uma agulha num gigantesco palheiro. Ele conseguirá?
Para uma primeira realização de um diretor o resultado é satisfatório. Davis dirige uma epopeia pungente, fazendo uso de um cenário natural muito belo e filmando a pobreza que o rodeia de uma forma que não minimiza o povo indiano. Eles sobrevivem apesar das adversidades e tem sonhos como os nossos. Sarro vive num simples casebre com sua mãe, irmão maior e sua pequena irmã. Os dois irmãos são inseparáveis e vivem livres pelas redondezas buscando conseguir alimentos, fazendo uso de pequenos estratagemas e serviços. Uma noite o irmão menor o leva para ir trabalhar a noite com ele, só que ao chegar numa estação Sarro cai no sono e ambos se separam. É nessa primeira parte que o filme mais nos convence. O pequeno Sunny Pawar e o elenco indiano que o cerca funciona perfeitamente.
Infelizmente o filme não alcança a nota perfeita e cai em sua segunda parte, apesar de um elenco incrível, música bem resolvida. O filme parece ter pressa de acabar e as duas décadas que separam a infância da juventude passam rapidamente. Poder-se-ia facilmente estender a história ao menos mais uns 40 minutos. Havia atores e atrizes competentes e história a ser contada. A impressão que se tem é que houve uma mutilação. Em realidade o roteiro peca por querer condensar uma história grandiosa em parcos 120 minutos. A história voa e nos dá a impressão que não chegou a nenhum lugar. Desperdício de um elenco que quando chamado a comparecer deu conta do recado com brilho. Dev Patel e Kidman dão conta do recado, mas bem que podiam terem sido melhor amparados por mais momentos na tela. Dessa forma também não nos sentimos atraídos pelo seu irmão adotivo, já que se esqueceu de se desenvolver aquela história no Orfanato e também na criação deles fora da Índia. E existem outros pequenos detalhes que poderiam ter sido melhor desenvolvidos. Tivesse isso se dado, e provavelmente o filme angariaria mais nomeações aos oscar. Havia potencial para isso. Faltou ousadia, ao não desenvolver um produto que desagradaria as salas de exibições. Os filmes devem ser voltados para o público, não para quem os exibe. Uma pena.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

La La Land - Cantando Estações (2016) - Crítica

Existe sim um quê de nostalgia que perpassa o filme e nos remete as comédias musicais da época de ouro do cinema americano. Um dos primeiros acertos de seu diretor é não é justamente não buscar reeditar o que outrora foi feito, mas apenas remeter a esses feitos. Assim assistimos um filme que nos remete a outros, sem que, no entanto, percebamos isso de imediato. Assim o autor faz uso em sua criação do alicerce de outros (Duas Garotas Românticas (1969), Juventude Transviada (1955), A Roda da Fortuna (1953), etc.) o que a primeira vista pode desagradar os puristas, com o andar da projeção mostra-se uma decisão acertada. O filme vai num crescendo.
Los Angeles é vista como uma cidade que transforma cada momento pueril em uma cena de sonho, de cinema. O diretor não se envergonha da memória que existe em cada canto da cidade e faz uso dela de forma inteligente. Uma cidade vista misticamente como a terra dos sonhos (apesar dos engarrafamentos e de todos os problemas trazidos pela modernização). Ainda que notemos que o par central deve ter se preparado para conquista um mínimo razoável de qualidade cantante e dançante, não podemos exigir que atingissem o êxito de um Astaire, uma Ginger Rogers ou um Gene Kelly. E nem era esse o objetivo, como vou deixar bem claro.
Emma Stone e Ryan Gosling formam um par interessante e contribuem para que o filme funcione. A própria história de amor entre eles vai mudando de tom como as próprias estações do ano aos quais o filme se refere. Ainda que elas se tornem a repetir, tanto os personagens como a própria estação não retornam idênticas ao que foram. Notamos desde o início que o desejo da personagem para com ele não possui a mesma intensidade do dele para com ela. Ele aceita negar o seu sonho para manter o relacionamento. A cena do voo e suas variações é um transbordar dessa entrega total de um ser para com outro. E daí o autor nos mergulha num soçobro, num Tratado de uma desilusão amorosa em meio as aspirações de uma carreira frustrada. Um naufrágio lento e digno; é esse um dos pontos forte da obra, negar o esperado “final feliz” nos deixando na boca e na alma, uma sensação de melancolia nostálgica. Não se pode mais reproduzir o que foi realizado, mas é possível sim não o esquecer.
Quase ao seu término (a sequência final é o ápice da obra) um solo de piano. O espetáculo foi digno, a integridade artística foi salva, o público (daquele pequeno clube, bem como o presente na sala de projeção) está com os olhos vidrados e embaçados, mas o olhar do par central se cruza entre eles, parecendo querer nos dizer algo como: Vale sempre a pena insistir no sonho, não é?

Uma obra honesta que merece ser vista, pelas escolhas sensatas de seu timoneiro. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Começar de Novo (1982) - Crítica

Vi-o na década de 80. Se não me falha a memória no Cine Arouche. Graças ao prêmio Oscar, pois duvido que se o não tivesse recebido, teria o contemplado. O filme tinha passado despercebido em toda a Europa (Espanha inclusive) e ainda parece estar estigmatizado após esses longos anos. Ao meu ver injustamente. É um belo e competente filme. Trata do tema político de uma forma ímpar. O passado é reconstituído sem utilizar muito o recurso de flashbacks, é sentido no presente (no caso a década de 80) quando da subida ao poder do Partido socialista. Um passado percebido como uma quebra, uma fratura, que marca a vida dos personagens. O tema do exílio e a repressão ainda é sentida em toda a película. Está erigido no presente como uma ferida a se curar, a ser tratada. O exílio não é contado do ponto de vista do abandono da terra, da fuga pela sobrevivência, mas sim do retorno (A Odisseia?). E do declínio da vida de um personagem que encontra um país novo, capaz, talvez, daquele momento em diante de unir todo o povo em torno de um ideal pelo qual toda uma geração foi sacrificada. Antonio Albajara retorna a Gijón após ser agraciado com o prêmio Nobel de Literatura. Não é uma volta apoteótica a suas origens, pois como vamos ficar sabendo, ele tem uma doença incurável e pouco tempo de vida pela frente. A sua volta tem mais o caráter de uma despedida. De um reencontro com o passado que permanecia nele. Outrora jogara no Sport de Gijón e fora um símbolo para o time. Também retorna para reencontrar a mulher (Elena) que lhe fizera conhecer o amor na década de 30 e que a Guerra Civil afastara para sempre. Ele rememora o momento do adeus, sua ida forçada de país em país até o conseguir o exílio nos EUA. A partir daí vamos percebendo o acumular de sua existência: Universidades, Casamento, Filhos e sempre a perspectiva do retorno que a presença de Franco (vivo e depois de morto) tornava impossível a materialização.
O que cativa no filme é a aparente boa saúde do personagem e o mal que o acomete e tornará sua vida finda em breve. Um recurso que comove e dá sentido à vida, a busca do ideal inatingível. Se ele retorna como um vencedor sobre o túmulo de Franco, dá-nos uma sensação de algo efêmero, mas não de derrota, perda. O que se buscava era os fragmentos de um passado pleno de sentido que valeu por uma existência. Reencontrar esses fragmentos como uma realidade ainda plena era seu objetivo. O disco de Cole Porter que ele a havia presenteado na década de 30 retorna com uma dedicatória escrita após a antiga: “De Ginger para Fred.”  Duas datas que reúnem em si um valor maior para o personagem. Dão um sentido a toda a sua vida. Não por serem fechadas em si, mas por abrangerem um significado maior.
O filme fala do passado, mas dá uma grandeza maior a ele, a tudo que houve, ao fixar sua história no ponto de vista de um homem que em breve não mais estará aqui. Um homem no crepúsculo de sua existência, que busca um retorno às origens, sem lapsos, sem falhas. A presença do fim, exerce sobre o ser questionamentos (não se trata de uma pessoa simples, mas de um intelectual).  Foi uma vida sem normas, sem grandeza política, sem sentido? O filme não descamba para um sentimentalismo fácil, e não se chora a perda da existência, pois se tem a sensação de que se estivera sempre do lado correto do front. O que ele fez, foi confirmar tudo isso. O fim de uma existência é algo certo, mas uma existência sem sentido é uma escolha errada. Como é gratificante ser um perdedor nessas circunstâncias. 
O diretor mostra o momento político atual como a oportunidade de colocar fim aos conflitos históricos. A coroa espanhola, na época, representava a esperança de dias melhores e sal figura o símbolo de uma possível união em torno de um ideal. Quando o rei lhe telefona para lhe parabenizar ele afirma que são fortes os indícios que Estocolmo lhe dará o Nobel da Paz no ano próximo. O que se buscava era uma saída viável. Se os anos vindouros não confirmaram isso, pouco importa. O que se tem aqui é o sonhar de um artista.

Temos de ter o olhar desse personagem sobre nossas próprias vidas. Não sentirmos nem raiva, nem nos lamentarmos. Procurar aprender a fazer as escolhas certas, não importa seu custo, nem que elas se mostrem equivocadas depois. Fazer sempre o certo e nos mantermos abertos a novos conhecimentos. Albajara não credita a perda a ninguém, não guarda rancor de nada. O exílio foi uma infelicidade, símbolo talvez de todas as perdas que a existência nos exige: saúde, juventude, amor, ela própria. Podemos lamentar tudo isso, mas é inútil, já que é impossível termos domínio de tudo, e mesmo a compreender em sua totalidade. Estamos de passagem e a única coisa que podemos fazer é deixarmos boas marcas.

Escrito por Conde Fouá Anderaos