domingo, 29 de janeiro de 2017

Começo de Primavera (1956) - Crítica


“Shoji é um empregado numa grande empresa de Tóquio, depressivo com sua modesta situação, um trabalho pouco gratificante e um casamento em crise com Masako, sua esposa. A crise teve início com a perda de seu único filho. O único prazer dele é  sair com seus colegas. Através dessas saídas ele estreita sua relação com Keiko e tem um caso extraconjugal. Conhecendo a verdade, Masako retorna a casa de sua mãe o abandonando. A reconciliação do casal terá início com a transferência de Shoji para trabalhar em outra unidade da empresa em uma pequena cidade.”
Em que consiste o cinema de Ozu? Quais seus alicerces? O motivo pelo qual nos laça e permanece presente em nossa memória? Será talvez a música curta, única, imediatamente reconhecível, ao mesmo tempo alegre e triste, melancólica e pacificadora, despojada de qualquer grandiosidade que embala suas películas.  Certamente ele prima por uma sensibilidade de uma forma inaudita. Quem adentra em seu universo particular, dele não mais sai, por puro deleite. Um deleite aprazível, suave, de quem encontra um sentido dentro do caos que representa a vida humana.
O filme relata a monotonia que se instala no seio da vida de um casal, sem espaço aqui para momentos de um humor mais acentuado (como em Bom dia). O tema do adultério inexistente no restante de sua obra será pinçado de forma distanciada, enquanto ele discorre de forma crítica sobre a situação dos chamados colarinhos brancos no seu país. Enquanto o país começava a emergir da crise pós segunda Guerra, com a recuperação econômica. O diretor nos mostra o reverso da moeda (vide Crítica minha para “Homem Mau, Dorme Bem”) nos indicando que estar empregado naquela época poderia significar estar vivendo um inferno astral. Uma vida destituída de sentido, acentuada pela perda do filho. Ozu nos poupa de qualquer dramaticidade com o intuito primeiro de recolher os momentos da vida tais quais como eram: Repetitivos, enfadonhos, sem perspectivas, sem paixão (no sentido de pathos). Quando os companheiros assalariados o indicam para ir para um outro escritório, notamos bem que não existe uma saída para a situação. Ele se mudará para lá, em troca do mesmo pagamento, sem nenhuma perspectiva de reconhecimento, nas mesmas condições que vivia aqui. É preciso suportar a rotina cotidiana em troca de um pagamento injusto, aguardar as promoções que possivelmente nunca vingarão e se aposentar sem um tostão no bolso e enfrentar em caso de perda do emprego, dificuldades para se reposicionar devido a falta de qualificações e conhecimento dentro de um sistema de produção onde você é apenas uma pequena engrenagem facilmente substituível (vide crítica minha para “Coral de Tóquio”). Essa preocupação do cineasta que vinha desde suas obras no cinema silencioso, nos indica sua crescente preocupação com o caminhar da ideologia nipônica. O trabalho não deveria ser um fim em si, o ser humano precisa de momentos de lazer e tem necessidade de se consagrar a sua família.
 Aqui o protagonista está num beco sem saída. Ao encontrar como único lugar aprazível as suas saídas junto com os colegas de serviço, Ozu nos mergulha na crise instalada dentro de um casamento. A esposa vive irritada e o trata com desdém, não lhe fornecendo nada além do que o que a conveniência exige. Ela não faz mais do que o criticar a cada vez que retorna a casa de sua mãe. Quando descobre a existência da outra, isso lhe fornece a oportunidade para o rompimento que já desejava. Ai Ozu nos mostra sua inteligência e percepção da sociedade. Todos encontram motivos justificáveis para o adultério, reforçando assim o caráter machista de uma sociedade onde a vontade feminina inexistia. A filha fica sabendo da mãe que seu pai lhe fizera pior: Fora a um bordel na noite de núpcias.
A mãe (sogra) exercerá um papel conciliador na questão. Ao encontrar o genro num bar ela lhe dirá que sua esposa está nesse momento preparando um jantar, ficando bela, aguardando seu retorno e conclui: É verdadeiramente estúpido ser mulher. Enquanto o homem bebe despreocupadamente sentado num bar, ela o aguarda.
A amante é uma personagem incomum dentro da filmografia de Ozu. A maioria dos personagens de Ozu escondem suas emoções, ela ao contrário é extrovertida, atira-se de cabeça no relacionamento, abraça sem pudor, grita, fica raivosa, o esbofeteia e não mede suas palavras, não se importando com a reação do outro. Extremamente moderna e liberal, dentro de um mundo onde os papeis estão bem definidos. Ela será sempre motivo de reprimenda por parte dos demais. Muito disso por despeito, já que os outros não tiveram a coragem de ultrapassar os limites, o que Shoji fez. Ciente do que ocorre a mulher simplesmente corta relações com todos e se mantém integra, de amante a símbolo da liberação feminina.
A troca de localidade não visa a uma facilidade para que as coisas terminem bem. Existe profundidade e uma certa logicidade nessa solução que soa simplista. A ida para a montanha ou uma ilha perdida, serve para que o personagem reflita sobre a falta de sentido de sua existência e a necessidade de lhe dotar de sentido. O casal ali começara do zero, e recomeçara a sua vida sem que o olhar de zombaria ou reprovação da sociedade caia sobre eles. Ozu parece nos dizer que é preciso não nos transformarmos em mercadorias e é preciso manter o núcleo familiar como um bastião onde pode se obter um pouco de felicidade diante de um mundo cada vez mais sem sentido. As alegrias devem ser encontradas nas coisas simples da vida e o homem não pode ser simplesmente ligado apenas a rotina do serviço. Ozu novamente pontua com seu olhar um registro do que ocorria em seu país. Um olhar compreensível, mas que longe está de mostrar uma concordância com o que ocorria. A lamentar somente que nessa obra a leveza deste olhar esteja mais amarga. Trata-se, no entanto de um Ozu, e só isso justificaria a necessidade de o conhecer. Seu cinema é único..

Escrito por Conde Fouá Anderaos