sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Ilha Nua (1960) - Crítica

 “A Música é uma revelação bem mais profunda que toda sabedoria e toda filosofia. ”
Beethoven 
Em 1931 com o mundo vivendo a febre de um cinema falado ainda insipiente, poucos foram o que perceberam, que o som, ainda não sabiamente utilizado, fizera o cinema regredir. Afinal o cinema conseguira atingir o ápice dos recursos de linguagem silenciosa e a chegada de uma nova tecnologia, imprimia aos filmes o uso contínuo de um recurso ainda não incorporado dentro da tecnologia existente. Chaplin percebera isso. Ele nunca fora contra o cinema falado ou sonoro. Só que dois motivos o impediam a aderir a nova tecnologia. O primeiro era o fato de que percebera que a sonorização impusera a arte um retrocesso momentâneo. O novo recurso era mal utilizado e limitava muito o resultado nas telas. O segundo era mais pessoal. Carlitos o seu personagem que ele aperfeiçoara durante mais de uma década não casava com a novidade. Ele fazia uso da pantomima para se expressar e ganhar as telas. Só que o diretor inglês percebera que o som permitiria o aperfeiçoamento da própria arte de Carlitos e fazendo uso de alguns recursos sonoros (ruídos, trilha sonora) lança um filme imperecível: Luzes da Cidade.
Quase trinta anos mais tarde Shindô produz o filme que talvez seja a sua obra-prima: Ilha Nua. Um filme poema onde não se emite nenhuma palavra. Onde a simplicidade rima com a beleza e a pureza. Ele nos conta a história de um casal de camponeses e seus dois filhos que levam uma vida fatigante, ao habitarem uma ilha deserta e sem água doce, e de lá extraírem sua sobrevivência através da agricultura, as custas de buscaram água numa ilha próxima, em exaustivos vai e vens.
A força do filme nasce da forma como Shindô conta sua história a começar pelas magnificas imagens (o plano de abertura é de uma felicidade e poder hipnótico genial: uma câmera faz um sobrevoo de helicóptero em torno do pedaço de terra cercado de águas) que se casam com uma música belíssima. A música fecunda a imagem, como a água fecunda a terra. Serão esses dois elementos (e alguns ruídos) que irão de forma harmoniosa dispensar o recurso de qualquer fala, nos enfeitiçando do começo ao fim da narrativa.
Como em Onibaba, Shindô também faz uso de cenas repetitivas da vida cotidiana. Os carregadores de água se transformam em gladiadores modernos em batalha contra uma terra árida e ingrata. As contínuas escaladas na ilha, tornam-se constantes provas épicas. Se a mulher tomba em determinado momento, isso se deve ao fato dela não se poupar fisicamente em nenhum instante, sendo mais esforçada que ele, mas ela acaba se reerguendo devido a obstinação desse último e se resigna com o destino. O filme é um hino a coragem, a abnegação e a vida. O filme mostra pessoas trabalhando de corpo e alma e ganha um caráter universal, e sobretudo trágico, por que ao seu final eles se dão conta que seus esforços não serão devidamente recompensados e que terão de continuar essa faina apesar de tudo, até o encontro com a morte, com o esgotamento final.
A audácia do filme vem de sua simplicidade elaborada e complexa. As experimentações de seu diretor. Ele retira dos gestos cotidianos as emoções ordinárias e reais: Alegria, fadiga, preguiça, raiva diante da morte. O roteiro é rudimentar (repetição de gestos, registros quase documentais do trabalho diário) e ao mesmo tempo genial e mitológico (Mito de Sísifo). Todo som que nos chega é natural e rudimentar (Ondas, barulho de ramos, de água derramada penetrando a terra, sons de passos, de vento balouçando as ervas, etc) mas compõem um quadro de uma grande riqueza emocional. O diretor usa o recurso do plano fixo e de travellings seguindo o deslocamento dos personagens e de câmeras balançando ao ritmo dos barcos. Ainda que tudo seja muito elaborado e feito com reflexão, mesmo com a câmera distante, ele consegue captar as emoções dos personagens de forma pungente, presa a detalhes como tais quais os pés filmados em close-up, o derramar da água sobre as plantas e a transitoriedade dos personagens e seus sentimentos.
As vistas amplas sobre a ilha e os numerosos planos panorâmicos retomam sempre o tema do duro labor dos personagens na sua luta vã contra uma natureza que no final sempre dará a última palavra. Shindô tem a felicidade de captar o simples para alcançar o universal cativando o espectador, em cenas como o vai e vem das ondas sobre a praia, enquanto um ouriço boia, um travelling seguindo uma criança através da praia, planos mostrando o esforço para conduzir a água até as alturas. A música retoma quase sempre o mesmo tema, reforçando a repetição, mas as emoções são distintas em função do instrumento que o toca (flautas, violoncelos, violino, voz humana, etc). A música serve ao filme, o ritmando com planos musicais vestidos de máscaras tradicionais, jungindo a obra da natureza com o rufar dos tambores. De certa forma o diretor se apropria do burlesco do Cinema mudo (sobretudo na cena dos funerais, onde caímos num sentimentalismo chapliniano). Todo diálogo é inútil: os rostos dos personagens são mais que suficientes para passar as alegrias, as decepções, sem que o filme desague numa dramatização. O tapa, o grito de exaustão de uma mulher face a uma natureza impiedosa, torna-se muito mais presente em nosso ser, apesar de isolados pela trilha sonora.
Um filme que parece romper as normas estabelecidas, mas que em realidade mergulha nas forças primevas do cinema: Um cinema onde a música, o som e as expressões suplantam qualquer diálogo. Um filme impar dentro da filmografia nipônica e mundial. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

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