sexta-feira, 8 de julho de 2016

Coração Caprichoso (1933) - Crítica

“Em Shitamachi um bairro popular de Tóquio, Kimura, um viúvo educa seu filho único. Ele trabalha no Porto junto com seu amigo Jiro, bem mais jovem que ele. Uma noite ao término de um espetáculo de recitação teatral, eles cruzam com Harue, uma moça desempregada sem domicílio. Kimura alcoolizado, mas sensibilizado a conduz até o bar de sua vizinha Harue que a abriga. Lá ela revela uma excelente trabalhadora e o viúvo cai de amores por ela, apesar da diferença de idade. Só que ela se sente atraída por Jiro, que se mostra frio e distanciado o tempo todo. As situações se multiplicam, culminando com a doença de Tomio (filho de Kimura), permitindo que Ozu nos revele a profunda solidariedade existente entre todos os personagens. ”
Assistir Coração Capricho foi uma experiência salutar. Gratificante por vários motivos, mas marcante por dois especialmente:
1 - Takeshi Sakamoto é um dos melhores atores que eu já vi em cena. Perfeito em cada gesto, consegue transmitir uma gama de emoções com uma facilidade incrível.
2 – Nunca pensei (e aqui me arrisco realmente) que um dia eu fosse encontrar alguém que me fizesse lembrar tanto o cinema Chapliniano. Ozu faz um filme social, do mesmo nível de O Garoto ou Rua da Paz. E seu olhar é muito próximo daquele do inglês em relação ao que retrata. Coração Caprichoso não se iguala as duas obras citadas, mas ousa e chega em vários momentos ao mesmo nível de excelência.
Logo na cena inicial a câmera com um travelling percorre o público que assiste sentado uma recitação teatral. Ela passeia por lá de forma discreta, e somos brindados por uma discreta sucessão de gags que tem por base uma carteira vazia que passa de mão em mão, várias vezes desprezada, até ser permutada por uma outra, simplesmente por ela ser mais bela e maior, até retornar aos pés do verdadeiro dono, da mesma forma que viera: Vazia. Se o dinheiro inexiste entre eles, as pulgas abundam, fazendo com que todo o auditório se coce de forma incisiva. A situação difícil não impede o homem de sonhar e apesar de todos os porém, Ozu jamais se prescindiu de uma dose de humor que salva, que nos possibilita que uma réstia de alegria serene a existência. Essa sequência nos dá o tom que permanecerá na obra até o seu fecho. Um filme vivo e alegre, sem afetação, ancorado numa realidade social precisa, onde assistiremos o dia a dia de uma comunidade, onde o menor gasto especial, demanda de pesados sacrifícios ou de soluções engenhosas. Um universo rude, mais solidário, onde as vezes se fazem críticas jocosas, mas onde também não se deixa ninguém desamparado.
O filme entrelaça habilmente dois temas que o sustentam, a rivalidade amorosa entre dois amigos e as ligações entre pai e filho. Várias são as sequências de um humor gracioso, que fazem com que o filme não desague em um melodrama barato (O despertar a golpe de madeira, a planta desfolhada por um filho em cólera, para ficarmos em dois).
Exemplo preciso do cinema de Ozu, aqui já presenciamos o paradoxo que faz a singularidade do estilo do diretor. Um estilo que consegue criar uma impressão de fluidez, de uma simplicidade absoluta, que fica evidente apesar de tudo em essência ser rebuscado. A decupagem? Ela é dividida em uma infinidade de planos curtos montados de forma seca, sem receio  de que as ligações possam confundir a narrativa e faz-se uso da utilização de vários planos vazios (sem personagens, dando ênfase aos objetos) que servem como reforço da pontuação e dá a quem vê o filme momentos para localizar-se (respirar).
Contudo isso não bastaria para definir o estilo Ozu. Ele possui o dom da maestria ao dirigir seus atores e extrai deles com uma eficácia que parece perdida atuações que dotam seu filme de um charme irresistível, que parece mais grandioso a cada visita. Interpretes esses que ficam unidos sempre ao mundo Ozu. Um universo próprio. O estilo Ozu é inimitável. Tentar reproduzi-lo é fazer uma paródia, imaginando-se estar produzindo o original. Pena que poucos se aventurem a conhecer suas obras. Azar deles. E do Cinema, infelizmente. Afinal a arte tem de ser valorizada.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

Nenhum comentário: