domingo, 17 de julho de 2016

As Irmãs de Gion (1936) - Crítica

O que faz com que certos homens possuam um raciocinar questionador e leguem as gerações futuras e aquela aonde vive, uma nova apreensão sobre a realidade, obrigando pelo raciocinar a construção de uma realidade que supere a precariedade do momento atual?

Rousseau ao fazer um trajeto de Paris até Vincennes para visitar seu amigo Diderot, foi estimulado a responder uma questão: “O Progresso das Artes e das Ciências contribuiu para o aperfeiçoamento Moral?” Tomado por uma súbita inspiração quedou-se a beira da estrada diante de uma árvore e ficou a meditar. Um turbilhão de idéias o invadiu e ele esboçou ali as diretrizes de sua obra:
“Oh, senhor, se pudesse apenas um dia descrever apenas uma fração do que vi e senti debaixo daquela árvore, com que clareza teria podido demonstrar todas as contradições do sistema social! Com que simplicidade teria demonstrado que o homem é bom por natureza, e que é somente por meio dessas instituições que o homem se torna mau.”
Mizoguchi como todos sabemos, ainda jovem viu sua irmã mais velha ser vendida em trocas de dividas e ter de seguir a vida como uma gueixa. Ademais sempre achou absurdo o tratamento que o seu pai deu a sua mãe e a suas irmãs durante toda sua vida. Mizoguchi desde cedo teve então seu interesse voltado para compreender o mecanismo social que impunha as mulheres uma vida de martírio. E em sua obra ele sempre se valeu de recursos que permitia que as mulheres mostrassem seu olhar contestador (ou não) sobre o mundo. E ao obrigar a sociedade a enxergar do ponto de vista delas, ele contribuiu para que se criasse um questionamento sobre o porquê das coisas tem de ser dessa forma.
Aqui nessa obra, baseada em um romance russo de Aleksandr Kuprin, o diretor já demonstra o enorme talento que desaguaria nas obras-primas seguintes. As Irmãs de Gion é um filme áspero e direto, onde com maestria nos é contada a história de duas irmãs que vivem no bairro das gueixas. Uma delas, é mais passiva e aceita seguir o código milenar que lhe foi ensinado. A mais jovem no entanto, não vê honra nenhuma em ser objeto dos homens e pensa em dar o troco, tornando-os também objetos de suas necessidades.
A força dessa obra nasce de uma narração estritamente sutil e eficaz que graças a uma grande economia de meios, se transforma num modelo a ser seguido. A duração do filme é curta, pouco mais de uma hora, mas o roteiro não se ressente disso, pois é rico e bem estruturado. Tanto que nem nos damos conta que quase 30 minutos do filme se encontram perdidos (uma pena no entanto). Observador, o diretor mostra o conflito entre o novo e o velho e a nova ordem dentro da sociedade japonesa. O balbuciar feminino (tanto o da submissão, quanto o da revolta) se impõe com mais força que o discurso dos que dominam. O embate entre o amor e o dinheiro ali permanece. Só que ele nasce sempre sobre a égide de que sempre a mulher é que perderá. Não possuirá nem um, tampouco o outro. Para Mizoguchi é nítido que a mulher não pode se transformar naquilo que a subjuga, já que isso não resolveria o problema. Para Mizoguchi o único ser que realmente é forte nesse embate, ainda que aos olhos do mundo, seja fraco, é a mulher. Não se trata de um drama barato ou tendencioso. O diretor filma de uma maneira realista, quase naturalista, mas engaja seu raciocínio de tal forma, que desnuda a pobreza masculina. O homem é sempre mesquinho, sujo, mentiroso, vazio, fraco, etc.

Longe de qualquer maniqueísmo, sem mesmo tomar partido, ele se debruça sobre os símbolos e os lugares. A casa delas está sempre fechada e é pouco iluminada, no entanto o espaço exterior é sempre iluminado, reivindicando a liberdade. Os planos sequências são distanciados do centro da ação, criando uma tensão quase imperceptível, obrigando ao raciocinar. Ele sonda a alma dos personagens com respeito e nos aproxima do que ocorre através de diálogos fortes por si só. Nada é dito diretamente, mas tudo surge diante de nós claramente. No primeiro plano sequência, um travelling lateral junge a sala onde ocorre o leilão com aquela onde está a família do comerciante. Não existe barreiras entre os sentimentos e o dinheiro. O dinheiro faz com que as ligações familiares se rompam. O Comerciante deixa o lar, após ter arruinado o dote da esposa e se refugia na casa da gueixa. 

Mizoguchi mostra que desde a década de trinta já possuía um estilo próprio. Aquele de mostrar de forma clara, objetiva, sem rodeios a realidade que gostaria de ver mudada. E apesar de toda essa aspereza, era capaz de criar uma espécie de aura entre o que mostrava, de forma a não comover simplesmente, mas sim de instigar seu público a raciocinar sobre o que via. Um estilo inimitável. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos.

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