segunda-feira, 6 de junho de 2016

Homem Mau Dorme Bem (1960) - Crítica

“De que crime não são capazes alguns altos funcionários que se escondem atrás da fachada cômoda das grandes sociedades. Eu queria desmascarar esta raça, e fazer um filme sobre a corrupção nas altas finanças. ” Akira Kurosawa


  “Durante uma cerimônia de casamento, jornalistas aguardam a prisão iminente de alguns funcionários de uma empresa de construção apontados como suspeitos numa investigação de corrupção. O Casamento prossegue num ambiente solene, sobre a qual uma ameaça se amplifica de maneira crescente. Essa cena dá o tom do filme, que passeia de forma magistral entre a tragédia e o humor negro. Claras menções a Hamlet podem ser percebidas nesse intróito, que dará forma ao filme onde um justiceiro misterioso justiceiro semeia a desolação no seio de uma próspera empresa dirigida por financistas venais. ” 

Quando Kurosawa ficou à frente de sua própria produtora (Kurosawa Films Production) ele ficou meio desorientado (por pouco tempo). Ele queria realizar um filme contemporâneo e por esse motivo recusou várias ideias de filmes de aventura. Queria produzir um filme engajado socialmente que refletisse a situação atual do Japão. Um país em plena expansão econômica; um acordo nipo-americano de cooperação faria a taxa de produção passar de 1% a 12%. Isso trouxe consigo a possibilidade de enriquecimento ilícito. Para retratar sua tese o diretor cria um filme noir, sem polícia e com gangsters engravatados escondidos atrás de livros contábeis. Um filme com pretensões ambiciosas onde o diretor adaptará de maneira discreta Hamlet inserindo-o dentro do contexto japonês na bela sequência inicial. Nela Nishi observa as reações dos convivas face ao bolo que irrompe de repente no ambiente. Bolo esse no formato do edifício de onde seu pai se defenestra de um determinado ponto, local esse marcado por um cravo. Somos contemplados nesse instante com o desvendar de todas as informações necessárias para a compreensão do que se passa. Os jornalistas presentes comentam em voz alta todo gestos e as reações de todos os gangsters de colarinho branco no local, desde a prisão de Wada até a chegada do bolo inesperado. E Kurosawa brinca com a origem teatral de tal sequência. Um deles fala: “É a peça mais interessante que eu jamais pude assistir”. Um outro responde: “E estamos ainda em seu prólogo. ” Teatralidade essa que perpassa toda a obra: Cenários e enquadramento sofisticados conferindo a obra certa artificialidade conceitual que mergulha seus atores na posse de condições de exacerbar nas performances sem cair no caricato. Sempre esse exacerbar é contrabalançado pela presença de outra atuação mais centrada, mais comedida, próxima do natural. Mifune por exemplo está sempre frio, interiorizado mesmo nas sequências onde explode sua ira. Wada e o funcionário que enlouquece servem de contraponto. Um permanece como morto, uma sombra espectral assustando seus antigos colegas, como aquela do fantasma de “Hamlet”. O outro a maior vítima dessa armadilha, assustando pela sua reação imprevisível o restante da quadrilha. Nishi que havia trocado seu estado civil e sua identidade, perdida a possibilidade de vingança desaparece. Ele só podia viver enquanto se alimentava da possibilidade de vingança, finda essa, o amigo com o qual havia feito a troca, terá de permanecer sua existência como sombra dele. Não poderá retomar sua antiga identidade. Wada fizera o mesmo, quando assistira os próprios funerais, vendo seus patrões a se inclinar diante de seu caixão para o reverenciar, enquanto ouvia uma gravação dos mesmos que desmentia o que se via. E também o  o desejo que Kurosawa teve de colocar o público em constante reflexão. Austero e recusando todo o espetacular. Do que ocorre com Nishi em seu término, somos contemplados somente com a carcaça do veículo, já acidentado.
O filme se ancora na denúncia e confissão de impotência da própria delação que faz. A morte de Nishi permanecerá anônima, salvo de quem assiste, de seu amigo que viverá nas sombras o resto de sua existência, de sua viúva virgem e do irmão dela. E também não se poderá se depositar sobre alguém a materialidade dos crimes. O próprio Iwabuchi não era mais do que um títere nas mãos de outro. E ao permanecer oculto, essa figura anônima e invisível serve para marcar um certo diagnóstico ligeiramente gélido do que foi o Japão da década de 60. O próprio diretor deve ter se lamentado de não ter nomeado ao menos sua função. Não por falta de coragem, mas sim por poder sentir sua presença, sem conseguir identificar sua materialidade de uma forma que a pudesse explicitar. Kurosawa se sentia obrigado a observar seu país sobre todos os ângulos, durante vários anos, quer esse espetáculo o agradasse ou não. Ele não compactua com essa sociedade desprezível, onde o amor, as tradições de respeito se tornavam poeira. Ato refletido e passional que o incitava a mostrar os rostos gélidos e pouco sociáveis (da classe que dominava) face ao povo isolado (personificado na figura de Nishi), vazio de sua humanidade, preferindo negar a possibilidade de uma vida sentimental num mundo onde o se anular, passou a ser regra. Pura genialidade de um roteiro e filme que beira a perfeição. Imperdível. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

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