segunda-feira, 27 de junho de 2016

Kwaidan - As Quatro Faces do Medo (1964) Crítica

Histórias de fantasmas atormentam os vivos e incitam a nossa imaginação. Aqui o cineasta Kobayashi adapta 4 histórias recolhidas e trabalhadas pelo escritor e jornalista grego/irlandês Lafcadio Hearn. Enviado ao Japão no final do século XIX, ele se apaixonou pelo país a ponto de se nacionalizar e se casar com uma filha de um samurai, que vem a se tornar sua principal colaboradora nessa pesquisa. Sobre o nome de Koizumi Yakumo, ele lança em 1903 o livro Kwaidan ou Estudos de Coisas Estranhas, composto de 16 narrativas. Dessas, o cineasta Kobayashi se debruçará sobre quatro e nos legará uma obra única, dotada de um exotismo e de uma estética que estonteia até hoje.
Os Cabelos Negros: Um samurai para fugir da pobreza abandona sua esposa e se coloca sobre os serviços de um rico senhor do qual esposa a filha. Contudo ele não consegue esquecer a antiga mulher e mortificado pelo arrependimento retorna a casa  antiga em uma noite deixando para trás as novas obrigações.
Esse primeiro segmento só nos mergulha em uma atmosfera sombria, quase ao seu término. No entanto, a narrativa cheia de hiatos, desde o início, já causa-nos uma certa estranheza, ao contar a ascensão social de um jovem samurai. A força narrativa nasce do confronto entre o encaminhamento intimo que o conduz (remorso, vaidade, etc.) e a ascensão marcada por suas vitórias, novo matrimônio, sublinhados jungidos planos alternados que priorizam ora o horizonte infindo, ora grossas tomadas sobre os rostos. Quando do reencontro com seu passado, os passeios se estagnam. Acentua-se a formação de um ambiente pavoroso, mórbido, que culmina na degradação do local e na depauperação e envelhecimento do protagonista. Contribuirá para a formação desse ambente macabro uma musica que explora os sons atmosférico, quase concreta, explorando sons de madeira explorando novas possibilidades. 

A Mulher das Neves: Um velho lenhador e seu aprendiz são surpreendidos por uma tempestade de neve e se refugiam na velha cabana de um pescador. Despertado de seu sono, o aprendiz observa assustado que um ser femininos sobrenatural tirou todo o sangue de seu mestre. A vampira o poupa sobre a condição de que nunca contará a ninguém o que se passou naquela noite.
Aqui o cineasta faz uso de cenários pintados a mão, para fazer explodir diante de nosso ser boquiaberto, a impossibilidade do conúbio entre um mortal e um espírito. As passagens das estações são acentuadas através das mudanças de cores, passando de um azul invernal a um laranja que remete ao predomínio do verão. A artificialidade do entorno, reforça o impacto emocional e estético em nós e nos quedamos ante a força da narrativa. Somos enredados pela narrativa simples e linear, como crianças fascinadas ante a singeleza dos arcanos das matrioskas.
Hoichi – O Sem Orelhas: Dan-no-Ura é um estranho lugar de aparições. Foi lá que 700 anos antes ocorreu a famosa batalha naval que viu a queda do clã Heiké face ao clã Genji. Hoichi, um jovem cego que vive no templo, excelente tocador de biwa e talentoso contador da epopeia Heiké, vai despertar por esses motivos, os guerreiros fantasmas do clã derrotado, seduzidos por seu talento.
Se no primeiro conto o sobrenatural irrompe na tela de maneira abrupta e no segundo ele é confrontado no convívio diário, no terceiro a coexistência se dá de forma acentuada. As cenas de batalha estilizadas num quase balé que bebe nas fontes do teatro kabuki, no Nô e sobretudo no bunraku nos colocam de encontro a uma tradição que desconhecemos, mas que causa-nos admiração, pela beleza plástica que ganha as telas. Sequência espetacular, uma decupagem experimental, associação de transições oníricas e imagens impressas, fumaças, sobre um fundo roxo, desaguando em seu final num suicídio coletivo de toda a família real e sua comitiva num mar de sangue. Travellings bem resolvidos e a exploração de uma profundeza de campo magistralmente conduzida. Raras vezes o colorido foi tão bem aproveitado pelo Cinema. Ouso até dizer que Kurosawa com seu Kagemusha e Sonhos não se igualou ao que Kobayashi fez aqui em termos estéticos.
Numa Taça de Chá: O que leva um escritor a não concluir uma história? A resposta talvez esteja no fundo de uma taça.
Ainda que seja o segmento mais curto, não deixa de ser o mais audacioso. O epílogo sugere uma interpenetração do universo do autor com a da sua criação. Mais nada fica de forma explicita. Somos convidados a concluir a história por nós próprios. O ar de nada desta última narrativa permanece talvez sendo o mais inquiridor e assustador, não devido a presença dos espectros de aparências tão próximas a nossa, mas sim pela permanência de uma não conclusão que nos desestabiliza.
Ainda que continuemos distanciados do que seria a verdadeira cultura do cinema fantástico nipônico, Kwaidan restará em minha memória como uma obra esteticamente perfeita, onde a trilha sonora tem um papel extremamente importante, legando-nos uma obra de uma riqueza indescritível.  

Escrito por Conde Fouá Anderaos


segunda-feira, 20 de junho de 2016

Bom Dia (1959) - Crítica




"A vida é simples, o ser humano que a complica, fazendo tormenta em um copo de água"

Yasujiro Ozu

"São algumas coisas inúteis que tornam a vida prazerosa."

Professor de Inglês.

 Existem alguns arrependimentos que nos acompanham durante muito tempo. Lembro-me claramente que esse filme estava em cartaz no Cine Joia na Praça Carlos Gomes na Liberdade. Jovem, dinheiro escasso, locomoção difícil, acabei por indolência não vendo. Acabei cometendo o sacrilégio de o conhecer somente ontem, através do recurso do DVD. A obra merecia a tela grande. Ozu é um gigante da cinematografia mundial. E esse filme flerta a perfeição. 

Periferia de Tóquio. Isamu e Minoru vivem com seus pais. Ao saírem da escola, eles deixam-se ficar na casa de um vizinho, cuja família possui um televisor. Ali eles assistem as lutas de sumô. Os pais descontentes, não afeiçoados a modernidade, e temerosos que a televisão os imbecilizem, os proíbem de retornar a casa do vizinho para assistir a tv. Os meninos pedem então que uma tv seja comprada. Devido a recusa, eles encetam uma greve de silêncio, que provoca indiretamente uma série de interpretações errôneas e incompreensões sobre o que ocorre entre a vizinhança.” 
Trata-se realmente do ápice, tanto em termo de depuração, quanto de estilo, num tema aparentemente singelo, confinado dentro de um ascetismo particularmente alicerçado e centrado na espécie humana mergulhada num cotidiano que diz pouco e muito ao mesmo tempo. Em termos de ocidente o filme que mais lhe assemelha é "Meu Tio”. Tati no entanto mantém a câmera mais afastada. Ele não se aproxima tanto, acredita que a distância criará uma visão mais crítica e apurada. E o seu objetivo é outro... delatar a maquinização do homem. Tati é mais rebuscado em seus cenários e gags. Ozu tem um estilo mais distinto, sua mise em scène recusa qualquer ornato estético e mergulha numa descrição quase sensitiva dos pequenos nadas que compõem a vida nossa.
Ozu opta por não se fixar em contar a história de uma só família. Em realidade ele descreve o cotidiano de um pequeno quarteirão onde existem pequenas casas, idênticas umas as outras, abrigando famílias modestas, confrontadas pelas novas mudanças de um país em desenvolvimento. O lugar de destaque dessa obra é reservado as mulheres, as verdadeiras dominadoras desse espaço. As ligações entre a vizinhança, onde o rancor, a inveja, a maledicência, pincelam de forma graciosa e inofensiva a vida de todos, quebrando dessa forma a monotonia triste de todos. Esse movimento que se desloca de lar em lar, para nos contar a história nos permite ver o que se esconde atrás de expressões como “bom dia!” que os adultos trocam entre si quando se encontram.
A chegada de novos objetos de consumo, que alteram o cotidiano, mergulham os dois moleques de um casal, em uma greve de silêncio. Essa atitude de protesto, dá ao filme um ritmo dispare, daquele existente até então. O filme ganha um ar de humor burlesco e bebe na fonte dos filmes silenciosos. Os dois jovens ficam frente a câmera fixa e nos fazem lembrar um quê de Keaton, Lloyd e Chaplin. O que os difere dos filmes silenciosos é a presença do som, que permanece. O que some é a fala de dois personagens. Uma música serena (já presente anteriormente) se faz sentir com mais pujança. Ela impregna a atmosfera do filme. Ele torna-se feérico. Os flatos e as diarreias nas calças poderiam transformar a obra em algo de mau gosto. Mas Ozu é um maestro que não cai na grosseria. Tudo permanece discreto.
Uma comédia ligeira sobre a mudança de hábitos e a introdução de novos objetos no cotidiano de todos. A família americanizada serve de mote a pilhérias, mas sabemos hoje que toda a sociedade foi contaminada por essas mudanças. O fecho do filme com o pai arrumando um pretexto para ceder (ajudar o vizinho) é saída simplória e mostra a acuidade do roteiro,  talvez a TV fosse apenas um pretexto para materializar o que realmente estava em jogo: Os bons dias, as opiniões sobre o tempo, não seriam mais que azeite a lubrificar as relações daquilo que chamamos sociedade. E algumas vezes seria bom deixar de lado nossas posições determinadas, para que as coisas andem. O pai toma uma atitude autoritária ao ceder, mas é desmascarado pelo caçula que diz que ele sorri. O cenho rígido, não é mais que uma máscara social. Máscara que precisa deixar de lado o professor de inglês e a irmã dos meninos, para que as coisas aconteçam. Antes que o tempo se esgote e a vida não tenha tido sentido. O olhar de Ozu dota de significado o vazio. Poucos foram os cineastas que conseguiram isso. Nós os chamamos de gênios. Eles não morrem e suas obras restam atuais.

Escrito por Conde Fouá Anderaos


quinta-feira, 9 de junho de 2016

Escândalo (1950) - Crítica

Lançado em 1950 o filme ficou a sombra, já que em tal ano o diretor Kurosawa rompeu as barreiras geográficas de seu país para ganhar o mundo com Rashomon. No entanto Escândalo é uma agradável surpresa. Sabe aqueles filmes com uma temática hoje bem comum, tratado com desvelo, mas que nos traz certas particularidades, que nos permite ver como um artista sensível deixa o sentir sobrepujar o racional? O filme é bem isso. De certa forma flerta com o cinema de Capra, sem que tal descaracterize a sua filmografia.

“1950. Estamos em Tóquio.  Fotógrafos de um jornal de fuxicos (Amour) que pairavam por lá, como abutres atrás de carniça, surpreendem a grande vedete da canção japonesa discutindo futilidades com o pintor Ichiro Aoye, no balcão de seu quarto em um discreto hotel nas montanhas. A foto dá a ideia de que haveria um affaire entre os dois jovens artistas. Ao se ver no centro de uma manchete, o furioso Aoye esbofeteia o diretor do jornal, antes de procurar o caminho dos tribunais...”
Que a época moderna roubou das velhas fuxiqueiras o ofício de espalhar mentiras e calúnias é algo já sabido. O privado cada dia mais desaparece. Tudo se torna público em uma velocidade alarmante. Kurosawa aqui nos mostra o fenômeno dos papparazi em terras orientais. Os amores escondidos de uma cantora de reputação virginal e um jovem pintor motociclista. A reputação fica em segundo plano, quando surge os interesses monetários. Não se importa que tal seja calúnia ou não. O importante é manter o interesse de pessoas simples que buscam escapar de um cotidiano sem sabor, colocando-os como observadores importantes dentro de um cotidiano que não lhes pertence. O ambiente em que andam os protagonistas não sugere glamour. É um país ainda devastado pelo conflito mundial. As casas são simples, existem poucos veículos nas ruas, e Kurosawa insere a história dentro de seu país, sem o querer mostrar diferente da realidade. Não se trata de um filme de fuga.
Quão prazeroso me é adentrar nesse mundo particular de seu diretor. Os diálogos são construídos daquela forma de seus filmes mais conhecidos. Alguns sentirão falta de um algo inexplicável, talvez uma maior profundeza ao tratar dos temas. Parece-me que seu diretor ficou cativado pelo desenrolar da história e preferiu observar o ato de criação, numa posição de voyeur. O filme muda de rumo de repente. O que era para ser a história sobre dois artistas caluniados se transforma subitamente no resgate de uma alma.
Necessitado de um advogado que o representasse nos tribunais, o pintor se depara com um homem de aparência fraca, presa fácil da corrupção e de comportamento desagradável. Apesar disso o pintor não o rechaça. Busca conhecer o homem e vai visitar sua família e escritório. Quando adentra em seu lar... meu Deus, que foi aquilo? Uma jovem moça acamada e sorridente o atende. Ele a descobre tuberculosa faz anos. E ela lhe mostra a arte, ou melhor um olhar sobre o ser humano, que esse pintor nunca conseguiu captar. E ele claudica numa possível ojeriza. E mesmo que tudo aponte o contrário (a visita ao escritório de advocacia e sua capitulação é um achado de gênio) ele o constitui seu representante.
Daí transponho as palavras de seu próprio diretor para descrever o rumo que tomará o filme:
“Eu me deixei seduzir pelo personagem do advogado. Eu tinha consciência de que não devia seguir esse caminho, mas não consegui refrear meu desejo. Alguns personagens parecem adquirir uma vida autônoma, como se nós não fossemos seu criador. O filme se encaminhou numa direção bem diferente da prevista inicialmente. Mais tarde eu me lembrei que outrora eu efetivamente já havia encontrado um personagem similar. Eu até hoje não sei o motivo que ele retornou ao meu espírito quando da preparação do filme. A memória as vezes nos prega de situações bem estranhas”.
Takashi Shimura não parece bem a vontade nesse papel. Não que esteja mal, mas parece que não se agradou de seu desempenho. Eu cá por mim esqueço-me facilmente desse porém e de outros probleminhas da narrativa. Opto por olhar tudo através dos olhos da jovem acamada e do pintor que busca captar aquela forma de olhar para seu engrandecimento enquanto artista e ser humano. Essa obra de Kurosawa é um testemunho vivo de que todos podemos ser laçados pela poesia. Aqui a razão deu lugar a ela. E o resultado é gratificante.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Homem Mau Dorme Bem (1960) - Crítica

“De que crime não são capazes alguns altos funcionários que se escondem atrás da fachada cômoda das grandes sociedades. Eu queria desmascarar esta raça, e fazer um filme sobre a corrupção nas altas finanças. ” Akira Kurosawa


  “Durante uma cerimônia de casamento, jornalistas aguardam a prisão iminente de alguns funcionários de uma empresa de construção apontados como suspeitos numa investigação de corrupção. O Casamento prossegue num ambiente solene, sobre a qual uma ameaça se amplifica de maneira crescente. Essa cena dá o tom do filme, que passeia de forma magistral entre a tragédia e o humor negro. Claras menções a Hamlet podem ser percebidas nesse intróito, que dará forma ao filme onde um justiceiro misterioso justiceiro semeia a desolação no seio de uma próspera empresa dirigida por financistas venais. ” 

Quando Kurosawa ficou à frente de sua própria produtora (Kurosawa Films Production) ele ficou meio desorientado (por pouco tempo). Ele queria realizar um filme contemporâneo e por esse motivo recusou várias ideias de filmes de aventura. Queria produzir um filme engajado socialmente que refletisse a situação atual do Japão. Um país em plena expansão econômica; um acordo nipo-americano de cooperação faria a taxa de produção passar de 1% a 12%. Isso trouxe consigo a possibilidade de enriquecimento ilícito. Para retratar sua tese o diretor cria um filme noir, sem polícia e com gangsters engravatados escondidos atrás de livros contábeis. Um filme com pretensões ambiciosas onde o diretor adaptará de maneira discreta Hamlet inserindo-o dentro do contexto japonês na bela sequência inicial. Nela Nishi observa as reações dos convivas face ao bolo que irrompe de repente no ambiente. Bolo esse no formato do edifício de onde seu pai se defenestra de um determinado ponto, local esse marcado por um cravo. Somos contemplados nesse instante com o desvendar de todas as informações necessárias para a compreensão do que se passa. Os jornalistas presentes comentam em voz alta todo gestos e as reações de todos os gangsters de colarinho branco no local, desde a prisão de Wada até a chegada do bolo inesperado. E Kurosawa brinca com a origem teatral de tal sequência. Um deles fala: “É a peça mais interessante que eu jamais pude assistir”. Um outro responde: “E estamos ainda em seu prólogo. ” Teatralidade essa que perpassa toda a obra: Cenários e enquadramento sofisticados conferindo a obra certa artificialidade conceitual que mergulha seus atores na posse de condições de exacerbar nas performances sem cair no caricato. Sempre esse exacerbar é contrabalançado pela presença de outra atuação mais centrada, mais comedida, próxima do natural. Mifune por exemplo está sempre frio, interiorizado mesmo nas sequências onde explode sua ira. Wada e o funcionário que enlouquece servem de contraponto. Um permanece como morto, uma sombra espectral assustando seus antigos colegas, como aquela do fantasma de “Hamlet”. O outro a maior vítima dessa armadilha, assustando pela sua reação imprevisível o restante da quadrilha. Nishi que havia trocado seu estado civil e sua identidade, perdida a possibilidade de vingança desaparece. Ele só podia viver enquanto se alimentava da possibilidade de vingança, finda essa, o amigo com o qual havia feito a troca, terá de permanecer sua existência como sombra dele. Não poderá retomar sua antiga identidade. Wada fizera o mesmo, quando assistira os próprios funerais, vendo seus patrões a se inclinar diante de seu caixão para o reverenciar, enquanto ouvia uma gravação dos mesmos que desmentia o que se via. E também o  o desejo que Kurosawa teve de colocar o público em constante reflexão. Austero e recusando todo o espetacular. Do que ocorre com Nishi em seu término, somos contemplados somente com a carcaça do veículo, já acidentado.
O filme se ancora na denúncia e confissão de impotência da própria delação que faz. A morte de Nishi permanecerá anônima, salvo de quem assiste, de seu amigo que viverá nas sombras o resto de sua existência, de sua viúva virgem e do irmão dela. E também não se poderá se depositar sobre alguém a materialidade dos crimes. O próprio Iwabuchi não era mais do que um títere nas mãos de outro. E ao permanecer oculto, essa figura anônima e invisível serve para marcar um certo diagnóstico ligeiramente gélido do que foi o Japão da década de 60. O próprio diretor deve ter se lamentado de não ter nomeado ao menos sua função. Não por falta de coragem, mas sim por poder sentir sua presença, sem conseguir identificar sua materialidade de uma forma que a pudesse explicitar. Kurosawa se sentia obrigado a observar seu país sobre todos os ângulos, durante vários anos, quer esse espetáculo o agradasse ou não. Ele não compactua com essa sociedade desprezível, onde o amor, as tradições de respeito se tornavam poeira. Ato refletido e passional que o incitava a mostrar os rostos gélidos e pouco sociáveis (da classe que dominava) face ao povo isolado (personificado na figura de Nishi), vazio de sua humanidade, preferindo negar a possibilidade de uma vida sentimental num mundo onde o se anular, passou a ser regra. Pura genialidade de um roteiro e filme que beira a perfeição. Imperdível. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

Duelo Silencioso (1949) - Crítica

“1944. Guerra do Pacífico. Um jovem cirurgião, Fujisaki Kyoji (Toshiro Mifune) opera em situação precária um soldado ferido (Nadaka), que contraíra a sífilis, e fere seu dedo e se deixa contaminar. Sabendo-se necessário na frente de batalha, ele ali permanece, sem ter a possibilidade de se cuidar. Reformado e de retorno a vida civil, ele se cala perante os seus, escondendo sua doença, preferindo sofrer e lutar contra o vírus em silêncio. Decide terminar o noivado, que já perdurava 6 anos, e se dedica a cuidar dos miseráveis na clínica familiar ao lado de seu pai. Nem a noiva, nem seu pai, ninguém compreende sua escolha. É o início de uma batalha silenciosa dentro de seu ser…”



Obra menor de Kurosawa. Menor? Kurosawa e menor parece ser dois vocábulos antagônicos entre si. Eis aqui a prova de tal afirmação. Lançado em 1949, o filme toca no conflito perdido, mas traz a tona um outro maior. A batalha individual de cada ser, para não deixar que a Guerra predomine sobre a criatura. Uma batalha silenciosa guardada dentro do imo de cada um. Se temos aqui um doutor que no cumprimento de sua missão, contrai uma doença quase incurável, temos outras doenças maiores a contaminar todo o resto. Uma ex-dançarina grávida e solteira que desejava somente se livrar do feto que carregava e que vê seu pedido negado pelo médico. Médico esse que desde as trincheiras, sempre lutara pela vida, mesmo que tal custasse a sua própria. Essa mulher então passa então a odiar e a alcunhar o doutor de hipócrita. Ela tem motivos para isso, pois o doutor guarda para si o terrível segredo. Não conta nem para seu pai, tampouco para a noiva que o aguarda. Noiva essa que o ama, mas que ele não quer que faça o sacrifício de aguardar o fim do tratamento (que pode chegar a 10 anos, sem a certeza da cura). Um filme de renúncia e sacrifício, magistralmente conduzido por Kurosawa.  Total domínio da mise en scène. Uso da elipse, de travellings, de enquadramentos soberbos, etc. Interpretações comedidas atingindo o sublime: Mifune arrasa como o médico açoitado pelo destino que permanece “Humano” e exemplar, num duelo permanente entre sua consciência e o desejo que o avassala.  E seu exemplo transcende seu ser e toca uma até então empedernida e desleixada mulher, fazendo despertar suas potencialidades. O personagem de Minegischi (magistralmente vivido por Noriko Senguko) é tão cheio de nuances e profundo que nos cala fundo. É a mudança de postura dela frente a existência, aliado a luta incessante do personagem principal que faz com que ao final da projeção a esperança subsista. Filme que antecipa em pelo menos um ano a confecção de sua primeira obra-prima. Cria ser Rashomon. Será que ao garimpar suas obras anteriores, terei de me retratar novamente? Espero que sim.

Escrito por Conde Fouá Anderaos