quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões (1936) - Crítica


O nome de John Ford quando citado parece que é imediatamente vinculado ao faroeste. Todas as vezes que foi agraciado com o Oscar de direção, nenhuma das obras pertencia ao gênero: O Delator (1935) – a ação se passa na Irlanda, As Vinhas da Ira (1940) – EUA – durante a época da depressão, “Como era verde meu vale” – País de Gales e finalmente “Depois do Vendaval” (1952) – Irlanda novamente. Triste realmente não é o fato da não premiação por outras obras. Preocupante é o fato de suas obras das décadas de 30 antes de 1939 permanecerem desconhecidas pelo público em geral. Apesar do Oscar de 1935, geralmente se fala com entusiasmo de Ford somente após “No tempo das diligências” (1939). Sem querer negar as qualidades das obras posteriores a 1939, vejo em outras obras suas anteriores já o cineasta pleno de si, nos presenteando com obras que são verdadeiros tesouros: “Juiz Priest” (1934), Nas águas do rio (1935) e O Furacão (1937). Vi também “O Delator” (1935), mas essa é conhecida e reconhecida; além de “O Homem que nunca pecou” (1935) com Edward G. Robinson e Jean Arthur – uma comédia policial que se não é de todo esquecível, é um filme menor.

Ford apesar de nascido na Irlanda, nunca negou seu amor pela pátria de adoção. Tal se pode ver nos filmes em que descreve o quotidiano americano, ternas crônicas em que desenvolve a sua veia crítica e passa a tentar compreender o país que o recebeu: “Juiz Priest” (1934) e “Nas águas do Rio” (1935). O primeiro mostrando um juiz que convive em sua pequena cidade defendendo as minorias e os sulistas (o tema da “Grandeza dos derrotados”); o segundo uma comédia de costumes mostrando a disputa entre dois Capitães de barco no rio Mississipi – em ambos a a presença de dois dos maiores comediantes populares norte-americanos: Irving S. Cobb e Will Rogers. A presença dos dois mostra a preocupação que Ford tinha de se fazer compreender pelo público e também de compreender o fascínio que ambos exerciam nas massas.

Em seguida, em continuação ao tema de descobrimento da pátria, esse estupendo filme que é “O Prisioneiro da ilha dos Tubarões”. O roteiro é de Nunnally Johnson (Retrato de uma mulher – 1944 e “Os Doze condenados” – 1967). Baseado na verdadeira história do Dr. Samuel A. Mudd que foi acusado de ter participado da trama que assassinou Lincoln. Ele clamou em vão sua inocência e conseguiu apenas ser condenado a prisão perpétua, conseguindo a graça de ser libertado por ter livrado prisioneiros e militares de uma epidemia de febre amarela. O fato de ter sido libertado, contudo teria o poder de limpar o seu nome? Quando do lançamento do filme seus descendentes ainda lutavam para reabilitá-lo. Para nós que assistimos a película não nos resta dúvida, apesar de Ford não ter deixado de mostrar a ambigüidade do retratado e da própria história americana.

A Guerra de Secessão é o momento onde a Pátria americana escancara sua ambiguidade. Um Sul ancorado no braço escravo, visando o mercado externo. Um norte mais empírico, onde todos trabalham visando o mercado interno (logicamente que existem nuances, nem tudo é tão enquadrado assim). A Guerra de Secessão é o momento da fratura e da reiteração do sentimento de Pátria. Ford sempre se posicionou como um liberal conservador, ou seja, ele se queda antes os valores do ideal da democracia e liberdade veiculado pelos nortistas, mas em contra partida se fascina pelo pequeno povo do sul, arraigado a terra e as tradições, e que apesar de rudes e truculentos as vezes, guardam atrás dessa aparência uma evidente generosidade e fidelidade aos seus. De um lado Ford vê os abolicionistas, os que irão libertar os negros, mas que não escondem o discurso de uma modernidade industrial que traz agressão e injustiças. De outro um Sul cheio de picardia e generosidade (Em “...E o vento levou” notamos o sonho de uma vitória impossível que domina os ingênuos jovens do sul, sonhos que revelam uma fuga da realidade), mas lugar de escravidão e privilégios quase que feudais. Esta contradição em minha opinião sempre esteve no cerne do cinema Fordiano (A Grandeza dos derrotados).
 

Abraham Lincoln é a encarnação dos ideais de Ford, e uma espécie de Pai Espiritual que protege a nação americana de suas incertezas e desregramentos ((que Capra explorou a exaustão em seu genial “A mulher faz o homem”). Ford retomará a falar de Lincoln em “A mocidade de Lincoln". E o próprio cinema americano retomará várias vezes a sua figura em outros filmes de menor ou maior interesse para essa arte chamada cinema. Lincoln representa a lei, a integridade, apesar de ter sido político. Ele sempre desejou manter o país unificado. Logo no início o vemos sobre um balcão onde ele se dirige a multidão, quase como um pai, um líder, um semideus cujas palavras bastam para apaziguar os ânimos. É o dia da rendição do General Lee. Lincoln pede que a fanfarra execute um popular hino sulista: Reconciliação é sinônimo de Lincoln.

Logo após ele é assassinado, e Ford filma a seqüência de modo a mostrar a forma passível como ele ficou no sofá até que um véu cobre a imagem como uma mortalha. A tomada é congelada, como se inscrevesse sua figura na perenidade, que visualizaremos na imagem que conhecemos do capitólio. 

Depois o filme mergulha em uma seqüência que contradiz tudo aquilo que Lincoln representava. Seqüência essa que nada teve de fantasia, fincada na verdade dos fatos: Os nortistas que tinham um discurso que defendia a lei e o ideal democrático, se maculam ao criarem tribunal de exceção para satisfazer a sanha da turba enfurecida que saíra as rua clamando vingança, fato esse que poderia reacender a Guerra Civil. É solicitado que os militares esqueçam todo o Legalismo e realizem uma Justiça de resultados rápidos. Para Ford tratou-se tudo de encenação: desde o assassínio do presidente por um ator em um teatro, até a condenação de vários a forca, sem que pudessem levantar a voz para se defenderem.



Poderíamos até pensar que o interesse de Ford repousava em diferenciar a mentira da verdade. Afinal até aquele momento houve de outras encenações. Um exemplo. O homem que se candidatava a um cargo e lisonjeava os negros da fazenda de Mudd e que ao se ver ameaçado mostra-se um racista. Seria justo concluir isso, mas o que interessa a Ford é discutir a reconciliação em torno de um sentimento comum.
 


Se Ford realmente tomou o partido de Mudd, é de se notar que o personagem foi construído de forma a mostrar toda a sua ambiguidade. Ele é um homem paternal com seus negros, mas estes não deixam de lhe servir. Muitas vezes se mostra áspero e rude. Homem de princípios mas que fica com um dinheiro que acredita não merecer. Bom pai e marido fiel. Não fosse essas contradições não seria crível a posição que tomou quando do combate a epidemia de febre amarela, fazendo com que os militares negros, abrissem fogo contra o navio que se recusava a atracar com os medicamentos e víveres necessários a sobrevivência de todos. Somente a adversidade poderia unir os contrários e entrever a salvação.

Outros ao invés de aqui verem um filme político, preferem imaginar um filme sobre prisão. Afinal quando Mudd mergulha na prisão, as tomadas equilibradas e harmoniosas do início dão lugar a planos mais angulosos, agressivos, meticulosamente compostos a semelhança do expressionismo alemão. Cria-se um ambiente claustrofóbico, mórbido, onde a ameaça e o perigo sempre espreitam o condenado e os que como ele estão presos. Apenas uma ressalva, li em muitos lugares que o Sargento Rankin seria um sádico. Não consegui enxergar isso, vejo-o apenas como um revanchista raivoso.

Até o momento de sua ressurreição com a graça recebida, Mudd assemelhou-me a muitos dos Cristos criados por Capra. O calvário de Mudd e sua redenção não deixam de ser uma apologia a união espiritual, familiar e nacional. O final do filme com Mudd e Buck(o fiel companheiro e empregado) retornando para casa e unindo-se com suas famílias é marcante. A família branca e negra reunida para materializar o sonho de Abraham Lincoln. 

Os atores escolhidos para os papéis, excetuando John Carradine, não encontram muito eco em nossas lembranças. Warner Baxter era a época do filme, junto com Clark Gable o ator americano mais bem pago de Hollywood. Ganhara um Oscar com “Cisco Kid”. Trabalhou em filmes como “Rua 42” e para diretores como Capra e Howard Hawks. Construíra seu nome no cinema mudo e teve a carreira em declínio após 1940. Hoje talvez seja lembrado apenas como o mais famoso ator sujeitado a lobotomia (para se curar de uma artrite – Frances Framer, apesar do retratado no filme "Frances" com Jessica Lange filme, talvez não tenha sofrido tal intervenção...). Glória Stuart fez de importante somente o “Homem invisível” (1933) de James Whale e Titanic (1997) de James Cameron. Ambos não comprometem e em muitos momentos comovem devido aos acertados diálogos que nunca resvalam no vazio. De todos os filmes de Ford guardava uma predileção por esse. Assisti-o na década de 80. Revi-o pelo TCM por esses dias. Daí o escrito. Tal revisão só comprovou o que eu já vira: Uma obra brilhante que merece ser mais conhecida.

Escrito em 25/06/2010

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