domingo, 7 de fevereiro de 2016

A Família Bélier - Crítica

Na família Bélier tradicionalmente todos são surdos. Entretanto Paula, a filha menor, tem 16 anos, e não o é. Ele acaba se tornando uma intérprete indispensável aos seus parentes no dia a dia. Todos eles se dedicam a uma pequena fazenda, de onde extraem e produzem vários alimentos, entre eles, queijos. Eis que um dia M. Thomasson, o professor de música do Liceu, a faz integrar o coral e acaba descobrindo que ela possui um timbre de voz belo e a incentiva a participar de uma audição no concurso da Radio Francesa. E agora ela deve seguir seu caminho e abandonar seus pais a própria sorte? 

Uma produção não surda aos bons sentimentos, mas que sabe se distinguir, graças a um elenco correto e antenado com a proposta de diversão sem compromisso. Desses filmes saídos antes do Natal ou para as férias de verão; que no entanto encanta. Personagens caricatos, sem cair no exagero e um pouco daquela rabugice dos franceses, que já se tornaram cartão de visitas de seu cinema em outras regiões e mesmo dentro do território francês.
O filme suscitou reclamações de Associações de Deficientes Auditivos, que viram uma negação do direito de se expressar de seus membros intérpretes, visto que para desempenhar o papel dos surdos, a produção optou por artistas que não possuem a deficiência. Se o filme não tivesse tido a repercussão que teve, provavelmente nem teriam ocorrido as manifestações. A opção da produção era justamente explorar o humor e ter a frente do projeto modesto, rostos conhecidos, para atrair a atenção do público. E também assim explorar o inusitado da situação, o humor involuntário. É gracioso, divertido, instiga nossa atenção, vermos atores de renomes, buscar inserir na sua arte expressiva, novos conhecimentos (aqui linguagens de sinais) e buscar amalgamar a construção de personagens as limitações de origens físicas e psicológicas.  Além do mais o filme não agride, não é sua proposta fazer de limitações motivos de risos; ao contrário, a proposta é angariar simpatia, sem causar comiseração. É tênue a linha que separa o aceitável, do politicamente incorreto. Sobretudo nos dias de hoje, onde o patrulhamento despenca sempre para os extremos. E é estimulante ver que a obra foi um pouco ousada. Os roteiristas fizeram de M Thomasson (Eric Elmosnino) não só um excelente pedagogo, fã incondicional da obra de Michel Sardou, mas também alguém com um quê de truculência, rabugice e insatisfação com a sua própria condição (Professor numa escola distanciada dos grandes eventos). Outro momento de transgressão (dosado é verdade) colocado com bom humor por Eric Lartigau é a consulta médica onde a filha serve de intérprete. A mamãe sofre de uma micose indesejável e a cura nunca é atingida, já que o pai não consegue se furtar as ligações íntimas. Cena essa que causaria um constrangimento e levaria o filme a cair na vulgaridade. Daí novamente o acerto de possuir atores como Karin Viard e François Damiens. Fossem deficientes auditivos, a atenção do público estaria atrelada a ver tudo sob a ótica da boa intenção, da comiseração, esquecendo-se que se trata de personagens, de interpretação. François Damiens cria um pai de aspecto rude, mas de sentimentos dóceis, quase um bom selvagem. A sua pretensão de se tornar prefeito é uma tirada crítica inteligente demais. Até surdos são capazes de ouvir o povo, já os políticos... Karin Viard cria uma mãe que deseja manter a filha mais tempo sobre sua proteção. Egoísta e pouco propensa a abrir mão de seus desejos. A filha Paula vivida por Louane Emera. Uma boa estreia nas telas. Recém-saída do The voice francês, mais cantora que atriz, o papel que lhe foi designado não era fácil. Uma jovem numa idade de descobertas. Sai-se bem, já que sua performance se arvora na sensível voz que possui. E isso cobre certas deficiências que não comprometem o resultado.

Em se comparando com os filmes americanos e a forma como tratariam tais temas a diferença é nítida. O humor americano geralmente resvala num sentimentalismo exagerado ou num humor muito debochado (no sentido de vulgar). Um filme que nos deixa com um sorriso nos lábios. Leve e descompromissado. Vale a pena conhecer. Não sofre de uma pretensão exagerada. Quer apenas divertir. Para variar muitos irão se decepcionar com o final não apoteótico. Outra cultura, outra forma de abordar a existência. É isso.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

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