domingo, 17 de janeiro de 2016

Homem-Formiga (2015) - Crítica

Primeiramente é preciso saber que não estamos diante de uma obra autoral. É um filme destinado a ser feito de tal forma que possa ser inserido dentro de um projeto comercial. A serialização do mundo Marvel é um fato e esperar algo mais que isso é utopia. Então a obra tem de ser realizada dentro dessas limitações e a aquele que ousar seguir na testa de uma dessas produções terá de trabalhar com isso. O produtor, a cabeça por trás de toda adaptação do mundo Marvel a telona chama-se Kevin Feige. E ele busca dotar cada filme de certas características que não percebemos à primeira vista: Thor tem ares de uma tragédia shakespeariana, nos Vingadores o que prevalece é o sentido de cooperação, Doutor Estranho despenca sua trama para o horror, os Guardiões da Galáxia uma espécie de Ópera Espacial. Não é de hoje que alguns produtores americanos coordenam mais uma obra que os próprios diretores. Temos de nos lembrar que a ideia de filmes de autor não surgiu nos Estados Unidos, ainda que ali vários diretores conseguiram driblar os estúdios, conseguindo imprimir características próprias em várias obras.
Homem Formiga é um filme de redenção, onde um pai divorciado busca encontrar trabalho, além de reconquistar o amor e a atenção da filha quando sai da prisão. 

O resultado, ainda que desgoste alguns, não é de todo desprezível, ainda mais se levando em conta as turbulentas filmagens, onde se deu a troca da direção (Edgard Wright deixa o projeto devido divergências de cunho artístico) quando o projeto já estava bem adiantado. O tema do encolhimento de um homem, no caso aqui até assumir um porte de uma formiga, já foi várias vezes levado a telona. Inclusive a sua primeira inserção no tema, já trazia em seu bojo um cientista que encolhia suas vítimas (Delírio de um Sábio – 1940 – dirigido por um dos artífices de King Kong (1933) - Ernest B Schoedsack). Em 1957 Jack Arnold levava as telas um filme com uma preocupação existencial que marcou época – O Incrível Homem Que Encolheu. Na década de 1960 tivemos Viagem Fantástica dirigido por Richard Fleischer com a então estonteante Raquel Welch. No final da década de 80 o público se divertiu com a franquia – Querida, Encolhi as Crianças! Com tudo isso quero dizer que o tema é caro ao público,  desde a muito. Logicamente que falamos de redução, pois o tema do infinitamente pequeno surgiu no meu entender com “As Viagens de Gulliver” de Jonathan Swift levado as telas várias vezes em vários momentos (até a pífia adaptação encabeçada por Jack Black).
Eu não achava impossível a adaptação do Homem Formiga ao cinema. Primeiramente pelo exposto acima. O tema desperta a atenção, e não é de hoje. Também considero o personagem simpático e importante. E manter ele coerente com o Universo Marvel era importante. O que me cativou mais foi a ideia de criar uma história original, sem que ela fosse a história original. O herói aqui não é Hank Pym (o primeiro Homem Formiga). Ele será apenas o mentor de Scott Lang (Paul Rudd), um ex presidiário que tenta recomeçar sua existência. Ele deverá então aprender a dominar seu poder. Só que a descoberta de tal não ocorrerá de forma tão agradável. Scott é um Tony Stark destituído de riqueza e saber.
O filme dito de herói passeia sobre outros gêneros. Mescla-se aquele trazido por filmes como Onze Homem e Um Segredo (1960), Um Golpe Muito Louco (1978) ou Golpe de Mestre (1973) onde um grupo de ladrões de segunda linha tem de participar de um plano perfeito. E graças a essa mistura surgiu o destaque do filme: Luís (Michael Peña). As suas inserções na história nos legam uma mise em scène extremamente bem pensada e funcional, mas ainda que a mistura tenha dado liga, o que prepondera é o filme de herói clássico. Clássico, mas divertido e eficaz. E que se permite de certas ousadias a meu ver (aqui por conta dos Quadrinhos mesmo) como aquele de se comunicar e dominar as formigas. As premissas de alteração de escala foram bem aproveitadas pela produção na maioria das vezes, nos proporcionando uma diversão leve, um bom filme pipoca.
 
Alguns problemas, no entanto, enfraqueceram o produto final. Se Michael Douglas se sai bem com Pym, Rudd não decepciona. Contudo Evangeline Lilly tem um personagem mal elaborado. A relação com o pai não convence, soa não crível, e o filme ressente disso. Também destituído de interesses o vilão. Stoll tem a profundidade de uma tampa de refrigerante (levando-se em conta a nossa escala, não a do personagem principal). Por outro lado, Luís (Michael Peña – já citado) e Troll (Bobby Cannavale) se saem bem também em papéis secundários.

Agora voltemos aquilo que muitos outros críticos questionam. Edgard Wright queria criar um filme solo, capaz de respirar por si próprio, pouco se importando para o resto da escuderia Marvel. O resultado nas telas não decepciona e conseguiu dentro dos limites satisfazer ambas as exigências. Não cortou o cordão umbilical que o liga a franquia e teve os seus momentos de obra solo. Um bom divertimento sem sombra de dúvida.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

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