quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Onde os Fracos Não Têm Vez (2007)

O binóculo dos Coen espia a violência de perto



Os irmãos Coen, apesar de abusarem do humor negro e dos diálogos curiosos em suas obras, aqui se aprofundam em um tema recorrente na atualidade, a violência. Violência essa que se agrava a cada dia, escancarando a impunidade e o descaso do Estado para com a causa da segurança de sua população. Para aprimorar sua crítica, a dupla conta a história de Llewelyn Moss, um habitante do deserto na região da fronteira entre EUA e México, que encontra uma picape cujo porta-malas contém dinheiro em quantia significativa. 

Homem simples, do campo, Llewelyn pratica a caça e vive do pouco para se sustentar. Por encontrar uma verdadeira mina de ouro, ainda que não soubesse a procedência daquela quantia, seus olhos brilham e a ambição chega até sua mente. Ainda sem saber o que fazer, o homem volta ao local onde achara uma mala cheia de notas, assim que sente a necessidade de ajudar o senhor que lá encontrara ferido e necessitado, vítima de uma chacina motivado por drogas no local. 

Paralelamente a isso, conhecemos a trajetória do vilão da história, um homem de feições macabras e olhar hipnótico. Esse é Anton Chigurh, muitíssimo bem interpretado pelo premiado Javier Bardem, o qual tem uma participação decisiva na história, uma vez que, sabe-se lá o porquê, este tem uma relação com a suposta mala e, esta, por sua vez, encontra-se nas mãos do ingênuo Llewelyn. 

A partir disso, inicia-se uma perseguição de tirar o fôlego. Um homem que esteve no lugar errado e na hora errada. Outro, sedento por vingança e disposto a passar por cima de tudo e de todos. O equilíbrio entre essas forças é oculto na história, porém não deve passar imperceptível, esse é Tom Bell (Tommy Lee Jones), xerife do condado que serve de pano de fundo para a história. Sua participação é decisiva e, apesar do mesmo estar sempre ao redor da situação, nunca próximo a solucioná-la, deixa claro que os homens da lei de antigamente tinham poder muito maior de coibir o crime.

Com esse raciocínio, constrói-se na história, além dos momentos de suspense, com o inimigo sempre à espreita, uma reflexão acerca dos paradoxos de proteção. O Texas dos Coen é sim um local de truculência, observada muito na história, mas também é palco de mudanças, como o surgimento do porte de armas. Antes, o homem que carregava a estrela dourada no peito era por si só uma figura de autoridade e na qual depositava-se esperança para manter a ordem e a paz. 

Em Onde os Fracos não tem Vêz, além das excelentes atuações e da pluralidade nos movimentos de câmera, os Coen constroem a história para os fortes, para aqueles que não sentem um fundo de medo na alma. Tom em seus diálogos no filme deixa sempre bem claro a sua indignação diante da falta de perplexidade. Os novos não questionam mais os valores e as crenças como antigamente, muito menos se preocupam com a ruptura do status quo. 

A única figura amedrontadora que estremece a tela é a de Anton. Sua figura é como a de uma lenda, como a daqueles procurados do faroeste, cuja cabeça é colocada a prêmio. Seu jeito peculiar de encarar as vítimas e sua frieza fazem deste uma figura icônica, tamanha a sua protuberância. É quase impossível esquecer a sua figura ao fim da película. A fotografia contribui muito também, no sentido de focar na exuberância dos planos arenosos, cujo verde é apenas do dinheiro e das moitas. Dinheiro esse que serve mais para derrubar sangue do que para satisfazer o prazer momentâneo dos pobres e trabalhadores. 

Llewelyn passa o filme quase inteiro fugindo de seu predador. Ele sabe porque fica com medo, ela sabe que no fundo não deveria ter a imprudência de checar aquela caminhonete. O dinheiro não era dele e o dono provavelmente não estava preocupado com ele.
Além disso, Llewelyn é preocupado com sua mulher, que se muda para outra cidade. Mas a brutalidade permanece, personificada na pele de Anton, ele é o mal, o mal das fronteiras, o mal do tráfico. Todos no filme tem medo dele. Até Tom, o xerife, não tem aquela pinta de durão, ele sente a fragilidade do sistema, e isso é evidenciado na sua troca de olhares e risos de desabafo. 

O foco é a presa e o predador, a todo o momento. Isso ajuda muito no filme, já que os Coen conseguiram fazer um filme misto de suspense e crítica social. Essa cadeia ideológica não é para os fracos, o ambiente dos Coen é feito para briga de cachorro grande. É covardia, é massificação e dominação, a violência é arraigada no filme e o mal parece só crescer. Enquanto o protagonista tenta limpar a besteira que fez, o seu algoz monossilábico age como se fosse um animal, ou seja, é a própria violência, que só cresce, cresce e não para de aumentar em dimensão. Onde os Fracos Não Têm Vez é um estudo da marginalização do homem, diante da desesperança, sendo o único caminho o pecado. 

Com o passar do filme, fica clara a necessidade de vitória, a necessidade de existir um herói, porém não é isso que ocorre na prática. O roteiro não é maniqueísta, não exista polaridade bem e mal, mas sim a subjetividade que distingue estes dois princípios. É nas entrelinhas que os diretores conseguiram cativar o público com personagens interessantes e de psicológico bem definido. O xerife, cheio de histórias pra contar, o sertanejo, acostumado com a ordem vigente, os traficantes, que só pensam em aumentar sua barganha, enfim, cada um com seu interesse. 

Por fim, pode-se dizer que Onde os Fracos Não Têm Vez não tem pressa para terminar sua história de forma redonda, mas sim de modo gradual, sem ofender o espectador e sem entregar o final logo de cara. Os Coen mais uma vez deixam sua marca, com uma pitada de sangue, mas aqui encaixada num contexto realista, debatedor e reflexivo. Belíssimo estudo de personagem e belíssima história de perseguição. Cinema do mais alto calibre, equilibrado entre momentos pipoca, geniais e realmente filosóficos, de despertar o espectador num insight que vai além do que ele viu. Muito além de uma cidadezinha em conflito e um homem fugindo de um maníaco. Um traçar preciso da personalidade de cada um no mundo moderno. Sim, cada um pensa de um jeito, mas todos concordam que o mal está muito próximo de bater na nossa porta.



domingo, 24 de janeiro de 2016

Mônica e o Desejo (1953)


Mônica e o Desejo é um belo filme existencialista, sobre conflitos internos e entre pessoas. Sua abordagem cotidiana, atual mesmo nos dias de hoje, reflete a capacidade de Ingmar Bergman em criar, ainda que com alguns estereótipos, personagens muito próximos da nossa realidade. Revelando a rotina de muitas pessoas, Bergman foca em dois personagens do sexo oposto para criar um laço amoroso verdadeiro. Além de sintetizar com delicadeza a relação entre Harry Lund e Mônica, o cineasta construiu um dos mais belos filmes de amor, não ficando restrito apenas às belas canções românticas de cunho melodramático. Não há nenhuma afetação ao retratar esse sentimento no filme, que conseguiu expor os dilemas sociais e os tipos de família vigentes na sociedade.


Ocupantes da mesma condição social, Harry e Mônica diferem quanto ao seio familiar. O primeiro vive apenas com o pai. A segunda vive com pai e mãe, porém este vive bêbado e esta com crises de ansiedade. Ambos os jovens trabalham, possuem um emprego, talvez não o melhor, mas possuem. Porém, a difícil relação no trabalho, entre patrão e empregado, é o principal entrave na vida de Harry. Enquanto que na vida de Mônica, o principal empecilho é a insatisfação com a figura paterna.


Ambos então decidem fugir de suas amargas rotinas. Por possuírem um ideário em comum, acabam convergindo no mesmo plano, o de fugir com barco pelas ilhas de Estocolmo. Essa fuga da vida, quase que num tom poético, é a chave de Bergman para esse poderoso filme que revela, de acordo com sua época, a inocência libertária de uma juventude precoce e imatura. Seu singelo trato com as imagens, faz Bergman confirmar o domínio que tem sobre sua obra. Suas passagens por becos e vielas de uma cidade litorânea revelam a doçura com que trata das múltiplas relações, reacionárias ou não, entre patrões, empregados, mendigos, assediadores e malfeitores. Um retrato singelo e realista de grupos sociais cíclicos que retornam sempre no mesmo ponto, a partir do qual novas gerações se estabelecem.


Usufruindo de metáforas do casamento, Bergman mostra a fragilidade das relações e a sua efemeridade. A urgência em romper os limites impostos pela burocracia política é uma questão abordada no filme, cujo objetivo é revelar aos olhos que nem todo sentimento é genuíno. A felicidade não se compra, é conquistada, porém, ainda assim, podem haver turbulências. Quando Harry e Mônica passam alguns dias na ilha, ambos percebem o quão difícil é viver sem um amparo e sem o respaldo de quem quer que seja. A falta de comida e de recursos prejudica e estreita a relação dos dois para falsos conflitos conjugais. Afinal, eles ainda não são casados. Mônica tem apenas 17 anos, apesar de sua fisionomia madura.


Esse contraste entre expectativas e realidade é balanceado por Bergman num filme sobre decepções e tombos. A busca incessante por uma vida vagabunda, longe das responsabilidades, é a crítica mais árdua do enredo. Apesar da noção que Harry e Mônica tinham do perigo que estariam correndo, ambos se jogaram num jogo de faz de conta, como se estivessem numa fábula contemporânea perfeita e idílica. Oprimidos e rebeldes, todos que passam pela vida adolescente são. Alguns menos, outros mais, porém todos sentem raiva em algum momento devido a certas restrições impostas por ordens maiores.


Um dos filmes mais diretos e acessíveis de Bergman, Mônica e o Desejo narra um conto de fadas atemporal, sofrido, cheio de cicatrizes deixadas pelo rancor. Enquanto aquela lancha cruza os rios de Estocolmo, Mônica fuma seu cigarro tranquilamente como se não houvesse amanhã e o seu olhar, por vezes cheio de malícia, representa a vontade de muitos jovens que se sentem acuados por si mesmos, cuja mente grita por um vingança sem motivo plausível. Essa bandeira, que seria estendida depois em diversas manifestações culturais, ganha um charme aqui, tornando-se uma escultura de cristal nas mãos do cineasta sueco.


Essa repartição na mente dos jovens, tão abordada no filme, evidencia também o árduo dia a dia das pessoas, que acordam cedo para irem ao trabalho e acabam, muitas vezes, buscando um amor, o ter um ao outro. Isso Bergman traz a tona com muita pompa, narrando de forma clássica uma história de amor que acabou se tornando banal no fim do filme. Mônica tem um filho e o abandona, ficando para Harry a responsabilidade de cuidar do bebê. Nesse ponto, Bergman inverte o papel vigente do século XXI. Muitas vezes o homem é quem, por prazer instantâneo, faz o filho e dá no pé. Porém aqui, homem é colocado como injustiçado e mulher como a dissimulada, a fora da linha. Esse jogo é interessante e desconstrói um pouco a linha de pensamento machista, ainda que ela seja muito abundante e foi ao longo da história.


Bergman em nenhum momento se arrisca e, num filme com pouca trilha sonora, entrega em doses homeopáticas a sinestesia do amor, o delírio aparente provocado pela sua eclosão. Porém, existem falsas impressões e elas corrompem quem se joga de corpo e alma em tudo o que for de importante na vida. Portanto, tem de se ter cuidado e agir se forma ponderada, sem exagerar aqui ou ali. Essa talvez seja a emissão símbolo que o longa quer nos trazer com magnitude.

Bergman se espelha na ideia da fugacidade do tempo e da vida. Revela, através de seus signos visuais, a constante necessidade de controle do estéril movimento das pessoas pelas ruas, suas falas intermináveis e seu agir mecânico, muitos vezes carente de pausa e reflexão.

Um belíssimo filme, sobre aborrecimentos, ambição, responsabilidade na vida jovem e amor, o mais sublime deles. Não o de Harry e Mônica, desgastado pelo tempo, mas o amor integral, que banha a sociedade da forma que nós imaginamos.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Pegando Fogo (2015)

                                              





É ótimo quando um filme supera as suas baixas expectativas. É doce (com o perdão do trocadilho), quando aquele filme que a gente não da nada, até que agrada. Claro, não é perfeito como o protagonista de seu filme, Adam Jones (Bradley Cooper sem Jennifer Lawrence, aqui) o gostaria que fosse. Longe disso. Tem algumas manias básicas e tolas que a televisão herdou para cá: há toda aquela suposta tensão chata, personagens que estão ali para serem humilhados mesmo (ainda não entendi o que Omar Sy está fazendo aqui). Mas enfim, lembra minimamente Whiplash, é verdade. Mas o que da forma à “Pegando Fogo” é a TV, e não o cinema, diferentemente do que buscava o filme de Chazelle. As referências são outras, mas válidas. Da para ganhar nisso ainda: belos pratos, glamourização da comida quase como uma forma de arte a parte.

Aqui temos a prova de que Masterchef, Hell’s Kitchen e outros programas culinários dessa estirpe possuem um próprio roteiro quase cinematográfico – com direito a drama e comédia. Há momentos interessantes, como quando se discute, no Burguer King (vale ressaltar o local onde é discutido), o que diferencia o fast-food da alta gastronomia que eles produzem. São pequenos momentos, mas interessantes, dignos de nota.  Pode ser decepcionante, por outro lado, porque vemos um filme preso a esse comportamento de caráter televisivo: Adam Jones, o chef do filme, é tão competitivo e egocêntrico que, como a maioria dos participantes desses reality shows culinários, está sempre seguro do que fazer e quando agir. Nesse momento, a TV copia o cinema e não o contrário. A figura do gênio (viciado e faz tudo) veio antes para a telona, para depois ir para a telinha. É triste que ao final tentem humanizar tanto o ogro/gênio que é o protagonista, afinal, o que há mais divertido nos “gênios” se não a exaltação dessa inteligência por meio da irreverencia? Como alguém tão narcisista e convicto de si pode se tornar agradável (em menos de 2 horas)? Pegando Fogo é o filme dos egos e orgulhos, um maior que o outro, mas no saldo final, nega ser quem é.

Talvez, essas jornadas pela perfeição sejam no fundo isso mesmo: orgulho e ego. Só que em Pegando Fogo todos sabem que Adam é um gênio, mas assim como o Mozart de Milos Forman, é também, e principalmente, corruptível. Por isso a admiração e respeito de Salieri por Mozart é coberta de falso desdém. Adam também tem um inimigo e que de certa forma é um Salieri da gastronomia, guardada as devidas proporções. Quando o foco é a comida e não somente o ato de faze-la, o filme cresce. Acontece com Whiplash também, quando o foco é a música, a bateria e Buddy Rich. Idem para o caso de Amadeus quando o som é o alvo, o filme engrandece (e como faz isso sempre é, também, uma obra-prima). Talvez o filme de Forman tenha uma vantagem, só a música interessa porque vemos o filme todo pela visão de Salieri e aos olhos desse narrador não há nada mais para invejar se não o talento e a genialidade (vale lembrar que Salieri tinha uma posição política e financeira muito melhor). Adam não, só tem ele mesmo para invejar, por isso sua atitude obsessiva é apenas mimada mesmo. Resta aos outros, portanto, interlocutores e espectadores de sua genialidade, apenas humanizarem o ogro/gênio. Em outras palavras: esse filme é aquela comida que a gente vai com receio, come e acaba gostando, mas depois de um tempo nem lembra que comeu.
 

domingo, 17 de janeiro de 2016

Sétimo (2013) - Crítica


“Sebastian é um advogado que aposta alto. É encarregado de um processo que pode definitivamente alavancar sua carreira. Um caso com pessoas de colarinho branco, interesses grandiosos que despertam o interesse do mundo financeiro e da mídia. Desnecessário citar que está pressionado. Pressionado, mas tem confiança em seu cacife. Não só ele, como aqueles que nele confiam. Falta pouco para a audiência. Ele tem um tempo curto, mas precisa ainda passar na casa da ex-mulher e conduzir seus dois filhos à escola. Como sempre, as crianças querem repetir a brincadeira de sempre. Descerão pelas escadas os sete andares, acreditando que chegarão antes, do pai que segue de elevador, no térreo. Chegando na portaria o pai não encontra nenhum vestígio dos menores... O que parece ser uma brincadeira, dá início a um pesadelo.” 


Não acho a ideia inicial que originou o filme desprovida de interesse. Pelo contrário a premissa é ótima. E o elenco ajuda. E o filme até que no início agrada. Uma Buenos Aires desprovida daqueles folhetos turísticos que buscam nos levar para lá aparece. Uma metrópole idêntica as outras. Trânsito, edifícios, poluição, corrupção dos agentes públicos, etc.
O Cinema argentino atrai a atenção do mundo. Aqui trata-se de uma produção entre a Argentina e a Espanha. Daí a presença de Belen Rueda. Apesar de todos os atrativos o filme desanda. O diretor não sabia como lidar com a ideia motriz. As situações, finda a trama, ficam mais inverossímeis, do que durante o andamento. O final é de doer. Patxi Amezcua, ao que tudo indica, não promete. Todo filme tem de prezar pelo mínimo de verossimilhança (ele é coautor do roteiro). Supor que apenas uma assinatura (sem reconhecimento de autenticidade, sem outros procedimentos legais) libere um casal de crianças para ir para outro país é taxar quem assiste a obra de imbecil. E também as facilidades de contato de Miguel soam rasas. Não há muito o que falar de tal obra. A impressão que se tem é que o diretor teve pressa de entregar o trabalho. E frustra aqueles que esperavam mais. Ricardo Darin e o elenco são desperdiçados. Todos podem entrar numa barca furada. O elenco ao menos naufragou com dignidade. Já a direção, os roteiristas ... 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

Homem-Formiga (2015) - Crítica

Primeiramente é preciso saber que não estamos diante de uma obra autoral. É um filme destinado a ser feito de tal forma que possa ser inserido dentro de um projeto comercial. A serialização do mundo Marvel é um fato e esperar algo mais que isso é utopia. Então a obra tem de ser realizada dentro dessas limitações e a aquele que ousar seguir na testa de uma dessas produções terá de trabalhar com isso. O produtor, a cabeça por trás de toda adaptação do mundo Marvel a telona chama-se Kevin Feige. E ele busca dotar cada filme de certas características que não percebemos à primeira vista: Thor tem ares de uma tragédia shakespeariana, nos Vingadores o que prevalece é o sentido de cooperação, Doutor Estranho despenca sua trama para o horror, os Guardiões da Galáxia uma espécie de Ópera Espacial. Não é de hoje que alguns produtores americanos coordenam mais uma obra que os próprios diretores. Temos de nos lembrar que a ideia de filmes de autor não surgiu nos Estados Unidos, ainda que ali vários diretores conseguiram driblar os estúdios, conseguindo imprimir características próprias em várias obras.
Homem Formiga é um filme de redenção, onde um pai divorciado busca encontrar trabalho, além de reconquistar o amor e a atenção da filha quando sai da prisão. 

O resultado, ainda que desgoste alguns, não é de todo desprezível, ainda mais se levando em conta as turbulentas filmagens, onde se deu a troca da direção (Edgard Wright deixa o projeto devido divergências de cunho artístico) quando o projeto já estava bem adiantado. O tema do encolhimento de um homem, no caso aqui até assumir um porte de uma formiga, já foi várias vezes levado a telona. Inclusive a sua primeira inserção no tema, já trazia em seu bojo um cientista que encolhia suas vítimas (Delírio de um Sábio – 1940 – dirigido por um dos artífices de King Kong (1933) - Ernest B Schoedsack). Em 1957 Jack Arnold levava as telas um filme com uma preocupação existencial que marcou época – O Incrível Homem Que Encolheu. Na década de 1960 tivemos Viagem Fantástica dirigido por Richard Fleischer com a então estonteante Raquel Welch. No final da década de 80 o público se divertiu com a franquia – Querida, Encolhi as Crianças! Com tudo isso quero dizer que o tema é caro ao público,  desde a muito. Logicamente que falamos de redução, pois o tema do infinitamente pequeno surgiu no meu entender com “As Viagens de Gulliver” de Jonathan Swift levado as telas várias vezes em vários momentos (até a pífia adaptação encabeçada por Jack Black).
Eu não achava impossível a adaptação do Homem Formiga ao cinema. Primeiramente pelo exposto acima. O tema desperta a atenção, e não é de hoje. Também considero o personagem simpático e importante. E manter ele coerente com o Universo Marvel era importante. O que me cativou mais foi a ideia de criar uma história original, sem que ela fosse a história original. O herói aqui não é Hank Pym (o primeiro Homem Formiga). Ele será apenas o mentor de Scott Lang (Paul Rudd), um ex presidiário que tenta recomeçar sua existência. Ele deverá então aprender a dominar seu poder. Só que a descoberta de tal não ocorrerá de forma tão agradável. Scott é um Tony Stark destituído de riqueza e saber.
O filme dito de herói passeia sobre outros gêneros. Mescla-se aquele trazido por filmes como Onze Homem e Um Segredo (1960), Um Golpe Muito Louco (1978) ou Golpe de Mestre (1973) onde um grupo de ladrões de segunda linha tem de participar de um plano perfeito. E graças a essa mistura surgiu o destaque do filme: Luís (Michael Peña). As suas inserções na história nos legam uma mise em scène extremamente bem pensada e funcional, mas ainda que a mistura tenha dado liga, o que prepondera é o filme de herói clássico. Clássico, mas divertido e eficaz. E que se permite de certas ousadias a meu ver (aqui por conta dos Quadrinhos mesmo) como aquele de se comunicar e dominar as formigas. As premissas de alteração de escala foram bem aproveitadas pela produção na maioria das vezes, nos proporcionando uma diversão leve, um bom filme pipoca.
 
Alguns problemas, no entanto, enfraqueceram o produto final. Se Michael Douglas se sai bem com Pym, Rudd não decepciona. Contudo Evangeline Lilly tem um personagem mal elaborado. A relação com o pai não convence, soa não crível, e o filme ressente disso. Também destituído de interesses o vilão. Stoll tem a profundidade de uma tampa de refrigerante (levando-se em conta a nossa escala, não a do personagem principal). Por outro lado, Luís (Michael Peña – já citado) e Troll (Bobby Cannavale) se saem bem também em papéis secundários.

Agora voltemos aquilo que muitos outros críticos questionam. Edgard Wright queria criar um filme solo, capaz de respirar por si próprio, pouco se importando para o resto da escuderia Marvel. O resultado nas telas não decepciona e conseguiu dentro dos limites satisfazer ambas as exigências. Não cortou o cordão umbilical que o liga a franquia e teve os seus momentos de obra solo. Um bom divertimento sem sombra de dúvida.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Perdido em Marte (2015) - Crítica



                                                                                 

O título brasileiro do novo filme do Ridley Scott é a primeira coisa que chama a atenção “Perdido em Marte”, afinal a tradução literal para The Martian seria O Marciano. Sem entrar no mérito do que é mais ou menos comercial, isso me levantou uma dúvida: afinal, o personagem de Matt Damon está mesmo perdido? Em uma resposta imediata sim, pois ele não conhece as fronteiras do planeta arenoso e é um terráqueo logo seu ponto de origem, digamos assim, é a Terra. Um contra-argumento poderia ser: Não, veja só, ele é um astronauta e cientista e conhece a área, há uma estação, ele tem comida e até produz batata, ele sabe como sobreviver até que alguém consiga, talvez, resgata-lo. Contudo, Mark Watney ainda está em outro planeta que não é a Terra, o que configura que o fato dele estar em Marte, significa estar perdido?



O filme de Ridley Scott trata principalmente dessa física, além daquilo que se pode questionar como em todo filme de ficção científica, gravidade, existência de outras formas de vida e etc. Aqui falamos da física teórica e conceitual, uma questão de cinemática que aprendemos na escola, entre referenciais, a relação entre o náufrago e a ilha, entre Mark e Marte, em um olhar ainda mais abrangente, entre a Terra e seus parceiros astronautas que o “deixaram” também. Porque Perdido em Marte não parece um filme de confinamento, porque não estamos na mesma situação que o protagonista, sem informação do que acontece na Terra, estamos cientes de tudo o que ocorre a volta. Seja pela pressão (e não me refiro ao sentido dessa palavra na física) ou maneira de sobrevivência, Mark mantêm o bom humor quase incansavelmente. Ridley Scott está ali, a todo tempo. É fato que Perdido em Marte é um “feel good movie”, mas há uma facilidade de Scott em manejar três cenários completamente distantes e distintos (Terra, contada pelos agentes da NASA, a nave contada pelos astronautas e Marte com o náufrago Mark). Esse bom humor, esse ritmo motivacional, serve para o crescimento do elemento Blockbuster que The Martian opera por excelência.



Essa consciência coletiva de todos os personagens de que há um problema, mesmo antes dele aparecer como um problema em si, a partir do momento que se descobre que há um astronauta vivo e perdido nas areias de Marte, serve muito para Perdido em Marte mostrar a que veio: um épico sobre a busca, resgate de um homem perdido em terreno não conhecido. Scott utiliza desse aspecto cômico de toda a situação, para esquematizar seu próprio espetáculo. Matt Damon não é a Sandra Bullock de Gravidade (Gravity, 2013), pelo contrário, ele mantém relações quase íntimas com o espectador, não esta distante, consegue estar tão ou mais próximo do que qualquer personagem na Terra. Esse aparente “confinamento” na estação e nos equipamentos que lhe restam servem para Scott abusar das funções que o filme pode desempenhar: Mark é aventureiro, desbravador, corajoso e ao mesmo tempo guia motivacional e palestrante auto ajuda. Daí o caráter que cada objeto, personagem e principalmente cenário (Terra, Nave e Marte) opera em dois modelos distintos, enquanto “filosóficos” são também importantes chaves na aventura que Perdido em Marte embala seu pseudo drama.



Mark Watney é Matt Damon não apenas para quem o assiste, mas para quem está na Terra, com o perdão do trocadilho, ele é uma estrela. O que nessa medida aumenta o caráter de risco que Mark apresenta para NASA: o que dizer para o povo? Isso leva a um ponto que Ridley Scott trabalha com sutileza, arriscar a vida de mais pessoas para salvar uma ou admitir a perda de um astronauta. Esse dilema, que mais grosseiramente foi visto em Avatar (idem, 2009) entre a ótica dos cientistas e militares é visto aqui dentro da própria instituição, logo não há caricaturas, mas pensamentos que relacionam a situação dentro de um contexto maior do que salvar ou não: o que a mídia ira pensar, qual a imagem do fracasso da missão passará ao mundo? Nesse momento, Scott troca o foco da missão de caráter puramente científico para uma missão de resgate de caráter puramente humanista, o que desse modo contribui para a quebra da robotização de sentimentos (sim, Jessica Chastain soa humana aqui). Já que nenhum personagem tem uma relação forte e praticamente espiritual com Marte, como acontecia na Pandora de Cameron, é preciso de outro entrelaçamento para que haja sentimentos reais em tela e isso se da por essa simplicidade do resgate.



O modo brega como Mark encara a missão é o que da o contorno de filme de piratas à Perdido em Marte. Ridley Scott ora alimenta o otimismo de seu personagem ora destrói. Em certo momento Mark olha para o crucifixo que um dos amigos deixou e em outros escuta as músicas disco que a comandante “esqueceu”. Mas a identidade épica não acaba e se assume quando Mark diz ser um pirata e manda Marte se foder. O protagonista a partir deste momento admite a relação dele com o planeta que vem sendo desempenhada desde o começo: entre guerreiro e dragão, entre pirata e mar. Por isso, Perdido em Marte esta mais para um Indiana Jones que um filme de “náufragos” como se faz vender. O filme de Scott é o “I Will Survive” como pode ser interpretado: libertador, de soltar a franga e ao mesmo tempo brega e ultrapassado.



O Pirata de Ridley Scott.

Como em Avatar de James Cameron, Ridley Scott assume em seu filme o vigor blockbuster para operar entre gêneros distintos e deslumbrar com as imagens de um planeta sem graça, deserto, mas tão autoral que pulsa justamente pela inexistência de algo atrativo: o que confere mais uma habilidade a Ridley Scott a condução narrativa, não há artifício nenhum e graças a deus, com isso, os “físicos” de plantão não poderão importunar. O cinema de Perdido em Marte é tanto Cuarón, só que mais brega e bem humorado, quanto Cameron, só que mais contemplativo do que estrondoso. Em linhas gerais, o filme de Ridley Scott é o linear no que confere ao cinema, o seu contato mais honesto e consciente dum bom pipocão.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Indomável Sonhadora (2012)

Desde já peço desculpas, e também explico, ao pequeno número de generosos seguidores que vez ou outra deitam os olhos nos meus escritos. Escrevi com a pena da emoção dois textos (ou tentativas de escritos) sobre essa obra. Tentei unir ambos num texto só. Acabei por desistir. Talvez pelo motivo de que ao iniciar, fiquei com dó de amputar um ou outro. Um deles nem mesmo tinha findado, quando resolvi escrever o outro. São curtos, mas mostram tentativas de se entender a obra. Não tive coragem de me desfazer de um ou outro. Filhos queridos que não consegui que amadurecessem. 



I
Por muito tempo fiquei com várias imagens desse filme me visitando de maneira insistente. Revendo-o em DVD, ao fim de projeção, decidi finalmente deixar de lado as dúvidas e incertezas e deixar que as impressões tinjam a tela branca (ou preta) do Microsoft Office Word do qual me utilizo para a escrita. É sim uma obra marcante, talvez o melhor filme de seu ano. Uma produção independente que rompeu barreiras e entrou na festa de vários festivais inesperadamente. Logicamente que o fato de não arrebatar nenhuma estatueta no Oscar e de ter sido esnobado a incrível interpretação de Dwignt Henry (pelo simples fato de não ser um ator profissional) não o diminui, ao contrário, o agiganta. Foi um grande feito. Aliás quem é esse Benh Zeitlin? Terá ele noção exata da obra que concebeu? Realizar no berço do tio Sam uma obra de tal envergadura, criticando o American way of life  que hoje se estende de forma mais nítida por todo o planeta. Não uma crítica pautada num discurso marxista, com seus diagnósticos até que precisos e soluções ritualísticas (Acreditar que uma Revolução que culminará numa Ditadura do Proletariado resolverá nossos problemas é tão absurdo como crer na inocência de Stalin ou Hitler). O filme se vale de um texto poético, que se arvora numa constante construção de imagens e sons direcionados ao nosso coração. Sim é verdade, o filme exige que nos deixemos levar, nos conduz a catarse, ao pathos. Finda a projeção é hora de racionalizar o que vimos. Que haja a necessidade de se mergulhar novamente na película? Perfeitamente aceitável. Ai que o filme ganha diante de meus olhos o status de revolucionário. A banheira onde eles vivem não é um paraíso. Só que nossas metrópoles também não o são. Sim, o pai age de forma rude, inflexível, mas sabemos que ele ama sua filha e deseja que ela sobreviva e seja feliz. Ele jamais chegaria ao ponto de espancar a criança com uma cinta sem lhe dar qualquer chance de revide. O amor é expressado de maneira um pouco atrapalhada, mas existe. A Civilização, o Estado que os esqueceu aparece no local. Na forma da bebida sempre presente. Que mundo é esse que nega tudo, menos o direito do homem se alienar mais??? Estado ausente? Balela. O Estado está presente em sua ausência. Ele assiste a todos, desde que não incomodem seu mecanismo. Típico exemplo do filme que tem um discurso bem mais profundo do que aparenta. E se vale da forma poética para que repensemos o mundo que estamos construindo. E que traz em seu bojo muito mais do que imaginamos em uma primeira visita. Sim um filme que crescerá a cada revisão. Merece ser conhecido.



II
“Num curso de água pantanoso no estado da Louisiana existe uma comunidade isolada alcunhada de “A Banheira”. Nela vivem vários moradores, entre eles, uma menina de 6 anos e um homem  (o pai dela) rude e de saúde frágil chamado Wink. Na escola a criança aprende como sobreviver num mundo hostil. Conhecimentos que serão colocados em prática quando uma tempestade surge, a água sobe e o vento devastador tudo piora. Passada a procela pai e filha partem em busca dos sobreviventes. Nesse momento imagens de uma manada de Auroque que jaziam presos no gelo no Ártico se mesclam aquelas da realidade através do olhar e da imaginação da garota.” 

No meu entender o filme não deixa de ser uma versão moderna de A Jangada da Medusa, de Théodore Gericault; os temas aqui tratados se assemelham aqueles da obra do século XIX: Um Estado que deixa ao abandono aqueles que o serviram e lhes pede fidelidade. Logicamente que tal tema serviu de base a várias outras obras e o que conduz a empreitada ao sucesso ou não são as decisões tomadas pela equipe de produção e seu capitão (no caso aqui Benh Zeitlin).
A decisão de se valer da poesia desde os primeiros minutos traga o espectador para dentro de seu vórtice. Filme estranho, carregado de símbolos, um verdadeiro corpo estranho dentro da filmografia americana, tratando de temas indigestos e o escancarando nas telas de uma forma sutil e inteligente. Caso a obra não seja compreendida em todo o seu alcance, credite-se isso primeiramente ao intelecto restrito de alguns ou a falta de sensibilidade de outros. Zeitlin supre a falta de coordenação intelectual, buscando costurar os pedaços de seu discurso com muita sensibilidade e emoção. Escolha sensata, já que é difícil romper as amarras de uma educação heterônoma que solidifica o ser humano a não pensar. Os detratores do filme dirão que optou-se por algo demagógico, piegas, conduzindo quem assiste a emoções baratas e não articulando bem as críticas contra um estado injusto das coisas. E também desdenharão dos prêmios que o filme arrebatou ao redor do mundo vendo nisso a prova de que a obra se rende ao sistema estabelecido. Será uma mescla de ambos o que irá compor o discurso dos insatisfeitos. Mas eles não conseguirão impedir que a obra permaneça instigando e incomodando.
O filme seduz devido a linguagem poética desprendida a cada instante. Os jogos de sombra e luz nos aquietam, a musicalidade não cessa de nos trazer emoções a flor da pele e seus atores facilmente nos colocam com um nó na garganta. Isso parece insignificante? Quem não viu o filme está bem longe ainda de toda a verdade ao ler isso. Debaixo de seus ares de conto da carochinha para crianças, surge um poderoso discurso de um tema delicado, indigesto e profundo. Crescendo numa realidade onde lhe é apontado desde o início que isso tem de ser superado, mesmo quando a margem, a jovem Hushpuppy nos convida a partilhar de seu olhar, visitar seu mundo... Começando por seu pai, que deseja que ela seja forte, uma guerreira, ainda que para isso ela tenha de o odiar. – Odeie-me filha, isso é para seu bem! Esse relacionamento onde a menina não deseja mais que um abraço e um afago do pai emociona. Ainda mais pois isso preocupa o pai. Isso demonstra fraqueza e em breve ele não estará mais presente para a ajudar. Trata-se de uma das mais belas histórias de amor retratadas pelo cinema nesse milênio. Culminará com o duelo de lágrimas ao final. Jamais descambará pela intransigência de uma agressão animalesca contra seres indefesos (refiro-me ao pai que agrediu a filha de 3 anos com uma cinta sem piedade nenhuma).

E os Auroques nisso tudo??? Que as coisas fiquem clara, servem para rechearem o aspecto fantástico e semear em nossos espíritos o mistério. São o símbolo de um rito de passagem, do amadurecimento (aqui forçado) da protagonista. O enterro viking ao seu términol remete a fala final (de uma forma mística) de Ma Joad em “As Vinhas da Ira” (1940): Os ricos surgem e morrem, e os filhos deles não prestam e desaparecem. Mas nós continuamos sempre. Somos os que sobrevivemos. Não conseguem acabar conosco. Não nos podem esmagar. Vamos continuar sempre, pai, porque somos o povo.
O povo jamais deixará de existir, visto que é ele que mantém a humanidade em pé. Não é verdade? Mensagem otimista que não visa a acomodação. É importante que resistamos para melhorar as coisas. A morte não deixa de ser vista também como um rito de passagem.
Escrito por Conde Fouá Anderaos