terça-feira, 20 de outubro de 2015

Um Homem de Família (2000)

Lembro-me de ter lido que o filme americano que mais influência exerce sobre quem faz cinema atualmente é “A felicidade não se compra” de Capra. 

Assisti a obra “Um homem de família” foi eliminar definitivamente duas velhas cismas que eu ainda carregava comigo. A primeira: Nunca fui um grande admirador de Nicolas Cage. Após assistir esse filme, dei uma nova espiada em “Feitiço da lua” e outros filmes em que ele atuou e tenho de reconhecer que menosprezara demais sua capacidade e percebi que se trata realmente de um ator com potencial.

A segunda estava mais enraizada. Desde jovem sempre acreditei que originalidade era tudo. Então sempre desejei conhecer a obra cinematográfica que inspirara determinado filme mais recente. Assim cria que as obras de Brian de Palma eram meras cópias das obras de Alfred Hitchcock; bem como muito de Douglas Sirk nada mais era que cópias pioradas de obras de John M. Stahl. E sempre queria assistir as obras originais. Ao saber que “Sem saída” com kevin Costner fora inspirado em “O relógio verde” já cria que o original seria muito superior a nova obra (nesse caso específico o é, ainda que não seja um clássico). 

Aprendi com o tempo que em qualquer ramo de atividade criadora artística em que se crie, nada mais somos do que herdeiros de alguém. O tão louvado processo criativo é fruto da associação de idéias. Essas associações de idéias são captadas de acordo com a capacidade que desenvolvemos com a nossa criação e o nosso aprimoramento na existência. Filtramos através de nossa sensibilidade e de nossa capacidade de expressão. As idéias nascem da nossa capacidade de elaborar as nossas experiências, o nosso meio cultural ou de outrem. Tudo que lemos, ouvimos, escutamos, pensamos, sentimos e experimentamos nos influencia. A originalidade propriamente dita é um mito. A originalidade não está no que se conta, mas sim no como se conta.
Um homem de família carrega em seu bojo toda a influência que a obra de Capra exerceu em quem escreveu o roteiro. Só que aqui ganha cores novas. Não se trata de uma refilmagem, é antes de tudo uma releitura, adaptada à nossa sensibilidade e àquela do mundo em que hoje vivemos. Jack Campbell (Nicolas Cage) é um homem que está moldado na realidade de nosso século e que vive em um mundo onde a competitividade é lei. Para ser bem-sucedido é necessário não estar preso a nada. 
Tudo, qualquer coisa mesmo, pode impedir tua vitória. Se no filme de Capra, Bayle não era um homem que ia ao Credo (note que não existem padres, pastores ou Templos em Bedford Falls). No entanto ele respeitava cada cidadão presente na sua cidade e fazia de sua existência um sacerdócio, a fim de que a vida da comunidade fosse melhor. No filme de Brett Ratner, o início em que um casal jura eterno amor, enquanto o homem parte para Londres, já nos antecipa o que virá, através do receio da namorada que fica. Ela sabe que se trata de um adeus. Vemos esse homem 13 anos depois. 
Tornou-se o “cabeça” de uma empresa, um homem rico, socialmente vitorioso e vive solitário em Nova york. É tão dedicado ao trabalho que não respeita nem o natal: Não está preso a nada, nenhuma convenção. Ele não se prende a ninguém, tem uns casos fortuitos, com mulheres que pensam iguais a ele. Tudo, no entanto muda, quando ele tenta cooperar com alguém que praticava um ato violento. Informa que seu interesse no caso é puramente comercial. Lucrará o ajudando. Aí terá início, logo de cara, a guinada de cenário com a seguinte premissa sendo colocada: “O que ocorreria se eu tivesse feito uma outra escolha? ”; “Se eu tivesse deixado de voar, onde estaria agora? ” 

O personagem que ele ajudara representava o destino. Ao contrário do anjo de segunda classe Clarence, esse diz que mostrará o que Jack poderia ter ganho (não perdido). Assim Jack amanhece no dia seguinte em Nova Jersey, em um subúrbio, casado com a antiga namorada, numa casa semi-acabada, com dois filhos. Tem os fins de semana regados à cerveja e churrasco. Traja-se simplesmente. É estimado não pelo que possui, mas pelo que é.
O charme do filme é que nele, o personagem possui a consciência do que era. Assusta-se e se revolta com a nova situação, mas aos poucos vai percebendo as vantagens da vida simples e de um novo modo de agir (pai dedicado, marido fiel). 

No final, quando retorna a antiga situação, percebe que existe ainda tempo de mudar as coisas. A vida é curta e é necessário dar um real sentido a ela.

Em suma, achei um filme precioso. Adorei a beleza de sua atriz principal (Téa Leoni). Os encantos dela transparecem naturalmente. Os atores em si estão muito bem. Não é um filme com aquele olhar de Capra. Mas não deixa de ser um filme sobre alguém que gostaria de olhar como ele. Ratner não fez feio. Mostrou o mundo em que vive, procurando mostrar que existe espaço para a família, os amigos, o desinteresse, etc.

Vale conhecer. 


Escrito em 13/10/2008

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