segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A Pedra de Paciência (2012)

Uma jovem mãe afegã está a cabeceira de seu marido que se encontra em coma devido a uma altercação com um companheiro de milícias que o baleou. Ela lhe fala e ao mesmo tempo se fala. Meditação, psicanálise, confissão, descoberta de si própria, revelação...? A partir dessa premissa o ocidental mergulha no modo de ser de uma sociedade extremamente machista e retrograda, onde a mulher nada mais é que um objeto destinado a procriação e a satisfação do homem. Ao relatar uma história onde o opressor não pode reprimir a voz do oprimido, esse se volta sobre si mesmo e permite que o desejo de se liberar se manifeste e ainda que o ouvinte (opressor) não se manifeste, temos a certeza de que ele não aprecia o que está sendo dito.
O filme se ancora sobre o ideal de uma possível emancipação feminina, e mostra que se na superfície a opressão funciona numa sociedade que deseja permanecer estamental, na prática o oprimido pode encontrar artifícios para escapulir a sina a que está fadado o sexo frágil.
O relatado causa horror para nós ocidentais. A forma como o escritor afegão nos apresenta a história nos parece uma ausência total de amor e empatia, não pelos seres retratados aí, mas sim pela cultura do qual é oriundo. É difícil, devido a diferença cultural, desqualificar o julgamento moral (como desejaria um Montaigne), mas fica difícil salvar da condenação o macho afegão (que também é vítima de tal sistema, já que em vários momentos vemos que eles não tem domínio sobre a própria sexualidade, também são castrados pelo meio que os cercam).
O filme vai satisfazer o espectador ocidental, na medida em que condenará de maneira incisiva os opressores. O problema é colocado, o percurso da protagonista, ainda que não totalmente desejável não pode ser condenado. Para escapar de uma condição de vida mais desfavorável foi obrigada a engravidar, servindo de repasto a sentimentos menos nobres de seres rebaixados a pura animalidade. “Quem não sabe amar, guerreia”.
E o caminho a que é conduzida a narrativa não pode ser outro que não o da Liberação da repressão, libertação da fala, descoberta do prazer da sexualidade, redução da religião a mera superstição e finalmente a tomada de consciência. A personagem feminina não é algo real, mas sim algo que representa um conceito do que pode vir a ser tornar um ser humano que pratica a autonomia.
Ao se revelar que o domínio e a sujeição podem levar a atitudes mais hipócritas o diretor mostra uma coragem inaudita. Certamente está sujeito a danação eterna no país em que nasceu.
Ao inverter o conceito de coragem, depositando-os nos ombros femininos, o filme choca e transforma a mulher em personagem principal, relegando ao gênero masculino um simples papel de coadjuvante. É a mulher que apesar de tudo dizer o contrário, que se digna no meio do caos a resgatar o marido que sempre a desprezou do destino fatídico a que está relegado. É dela que nasce a coragem para o proteger, e ainda socorrer as filhas, enquanto os demais parentes, nada mais fizeram do que dar no pé. 
Uma mulher ferida, que deve também educar e proteger as filhas no meio de uma guerra. Alguém cheio de desejos inconfessáveis e de segredos. Antes de ser mulher, ela é mãe e esposa. E jamais pôde descobrir-se desejada e mulher. O filme mostra de forma ambígua o sentimento entre o dever e a necessidade de se descobrir e ao seu corpo.

Não é um filme fácil e agradável. Não existe um caminho seguro na proposta apresentada. O autor/diretor tateia nas trevas, buscando respostas e um caminho a seguir. É difícil escapar do labirinto em que o fanatismo aprisiona o ser humano. Destaque para a genial atriz iraniana que encara de maneira magistral o difícil papel da mulher. Um filme indigesto e tortuoso que não fornece soluções fáceis. Um questionamento profundo de um afegão sobre o estado das coisas de seu povo e de sua terra. Merece ser descoberto e avaliado.

Escrito por Conde Fouá Anderaos.

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