domingo, 26 de julho de 2015

Tiros na Broadway (1994)

New York, anos 30, um professor de literatura que sonha em ser dramaturgo, faz um acordo com um gangster. Esse financiará a encenação de sua peça (vinha de dois fracassos anteriores)  e em troca ele acolherá no elenco a amante deste, uma dançarina sem talento. Esta é protegida por um guarda costa à primeira vista antipático, que, no entanto, traz em si adormecido um talento inaudito. Acabará sendo ele, autor, diretor e a própria alma da peça encenada.
 
Em que consiste a fonte de inspiração de Woody Allen? Em primeiro lugar, a paixão que sente pela arte, seja lá por qual meio ela se manifesta. Aqui o retratado, não será o Cinema, nem o Rádio, tampouco a música, que lhe foram companheiros fiéis na sua infância. Aqui seus olhos e imaginação se deitam frente ao mundo teatral da década de 20. Mundo esse que só pudera conhecer realmente através de relatos de outros. Mundo esse que um roteiro perfeito nos mergulha prazerosamente em uma história simples e ao mesmo tempo narrada de tal forma que ficamos fascinados ao sairmos da projeção.

Pensemos bem, aqui existem dois mundos que se opõem. Um representado pelo teatro, outro pela barbárie – a máfia. Se a máfia se vale do verniz da arte, ela não consegue fazer que a mesma se mescle a ela. A arte, no entanto, pode elevar o espírito, despertar o que jaz adormecido no homem.  Cheech (Chazz Palminteri) um capanga que provavelmente nunca tenha entrado no teatro antes, um cara fechado, ameaçador, acompanha os ensaios. Sentado lá, impassível, não parece demonstrar entender o que se passa. Para nossa surpresa, ele compreende bem o que se passa e vive um dilema interno. Compreende que não existe naturalidade nos diálogos, que quem deve proteger está estragando a peça, que falta idéias e genialidade ao roteiro, que a mise em scêne está errada, etc. Quieto lá no seu canto com seus pareceres ele vai polindo a pedra bruta e transforma a peça numa jóia rara. Simboliza o poder transformador da arte, capaz de elevar o espírito, tirar o ser do lugar comum. É disparado o grande achado do filme. David o autor é o seu oposto. Um indivíduo que não comove e não fere ninguém, a não ser a si próprio. Quando aceita o trato que permitirá que sua peça ganhe o palco se sente enojado de si. Ao gritar da janela do quarto, embriagado pela bebida proibida, artesanal e de péssima qualidade que existia na época, “eu sou uma puta”, “um vendido”, não falava de si, mas de quem acreditava ser. O talento inexistia, ou melhor vivia apenas em sua imaginação. É Cheech que incorporará nele (sem ganhar os créditos) os talentos de que carecia. David paulatinamente se queda a realidade. Não tem capacidade para lidar com isso. O talento, a inspiração verdadeira, o verdadeiro artista é o desconhecido gangster. Tão arraigado a arte, que entrega a própria vida a sua obra. Ainda que ninguém saiba que é o verdadeiro criador.
E outros personagens tão ricos também por lá pairam: Warner Purcell (Jim Broadbent) é um veterano ator que luta para superar sua compulsão em comer quando se vê pressionado; ou Helen Sinclair (Dianne Wiest) como a diva escanteada que pode voltar a ribalta se a peça vingar. Ela que aponta os erros, mas não sabe que quem os consertará é Cheech.

Um filme do qual saímos com um sorriso no canto da boca. O final no qual Davi decide se dedicar apenas a lecionar e fugir para um lugar remoto é um sonho não permitido ao seu diretor. Allen ao contrário de David, nasceu para brilhar e ofuscar muitos com o seu talento luminoso.

Escrito por Conde Fouá Anderaos


A vida dos Outros (2006)

Ao assistir o filme tive a impressão que o seu tema central já havia sido tratado em outras obras. Ao rememorá-lo, encontrei ecos do que na tela vi em duas obras de meu conhecimento. Uma é em Star Wars, afinal o Capitão Wiesler não deixa de ser um Darth Vader , apesar de não trazer em seu corpo marcas visíveis de sua robotização - Um indivíduo que se desumanizou. Outro, esse retratado tanto na literatura quanto no cinema: Winston de “1984” de Orwell . Só que um Winston com uma nova oportunidade: O ser que ressurgiria da lavagem cerebral que lhe foi imposta. Que deixaria o estado de coma para viver novamente. A Alemanha que sairia das mãos da Stasi para a incerteza capitalista, deve ter tido muitos Wiesler que com atitudes camufladas ajudaram a minar a podridão de um sistema em que imperava o não deixar que a liberdade de pensar e viver diferentemente ali surgisse...
O filme tem início com vários alunos assistindo a um filme onde se vê que a manipulação das informações e a violência de cunho psicológico são as armas utilizadas pela STASI(O grande irmão da Alemanha Oriental). Um indivíduo é interrogado até a exaustão por Wiesler. Ele o mantém preso e em interrogatório. O ensinamento a ser passado: Em situações de extrema fadiga a verdade vem a tona. Um inocente grita e se revolta, ao passo que um suspeito continua a repetir a mesma ladainha. E percebemos também que a verdade transmitida por um homem da STASI não deve ser questionada, nem seus métodos: Um aluno que faz um questionamento inconveniente tem seu nome grifado por Wiesler em uma lista. Tomamos assim conhecimento logo de início tanto do homem, quanto do sistema que ele representa. Wiesler é um espião competente, que domina plenamente as funções que desempenha.

Devido a seu talento é convocado pelo Capitão Anton Grubitz a espionar dois artistas (ele um escritor, ela uma atriz) ligados ao teatro. O que motiva essa espionagem, não é uma ameaça ao Estado. Apenas o desejo de posse que o ministro Bruno Hempf (ciente de seu poder) tem em relação à companheira de Georg Dreyman. Ele precisa possuir todos que estão ao seu redor.

Quando Wiesler mergulha na vida dos outros, ele lentamente começa a enxergar uma outra realidade. A realidade trazida pela arte e pela não troca de interesses sociais (quando o casal se entrega um ao outro, emana um sentimento de preocupação de uma para com o outro). Wiesler passa a conviver com uma realidade que não é a sua. Começa paulatinamente a conhecer um homem que através da arte não enxerga e não sente os liames que fazem parte do cotidiano do mundo que o cerca. E ele passa a querer viver a vida dele. E passa por isso a se transformar. Se esse homem conseguiu não se deixar contaminar pela sociedade que o cerca, não poderia ele também seguir o mesmo caminho?

E Wiesler passa a se policiar para deixar para trás o homem velho. E ele paga o preço pela insubordinação. Ele contudo não se queixa, pois pagar tal preço, significa não mais usar os potenciais que o tornaram o monstro que era.
A primeira vez que vi o filme achei que o final era seu calcanhar de Aquiles. Percebo porém que me enganei. Quando Dreyman procura compreender o que se deu, como não fora pego pela armadilha armada por ordem de Hempf e passa a compreender que foi auxiliado por alguém que não conhecia e que devia ter sido o seu carrasco, quer mostrar seu reconhecimento. E ele é feito da mesma maneira com que este o ajudou. De forma fechada, afinal Wiesler fora para ele uma benção, mas e antes de seu despertar?

Um dos filmes mais marcantes da década. Por sua coragem em tocar de forma aguda um passado que ainda está presente. E o fato da história ter se dado em 1984 não me soa como uma mera coincidência. É uma releitura digna e realista de George Orwell.

Escrito em 12/11/2008


sábado, 25 de julho de 2015

As Três Noites de Eva (1941)


"Charles Pike, um rico e ingênuo americano, retorna a New York depois de passar vários meses na Amazônia. Durante a viagem de retorno ele encontra uma sedutora moça, Jean Harrington, que está a busca de um homem afortunado que a proteja e o qual ela possa esvaziar monetariamente. Acompanhada de seu pai que faz parte de uma troupe de vigarista eles cativam Pike.  O problema é que ela cai amorosa e impede que o trouxa seja depenado. No entanto um mal-entendido faz com que Pike se afaste. Disposta a recuperá-lo ela fará tudo para se aproximar novamente..."
 
Trata-se de uma dessas obras que me laçou desde a primeira vez que a vi. E sempre que a ela retorno descubro uma nova faceta. No entanto o que me colocou a escrever sobre ela, foi um escrito muito bem urdido com o qual concordo, salvo a comparação (desmerecida a meu ver) com “Arizona nunca mais” - http://citizenkadu.blogspot.com.br/2012/09/as-tres-noites-de-eva1941-preston.html.  Não tanto pelo tema, mas sobretudo pelo resultado que surge na tela.

Sturges foi (como bem diz aquele texto) um dos mais geniais roteiristas da antiga Hollywood. E como Wilder foi para trás das câmeras com o objetivo de melhorar os resultados daquilo que criava. Não teve o sucesso que alcançou Wilder, criticavam a suas mise em scène, mais vendo hoje suas obras, não percebemos tal fraquejar. O que salta a olhos visto é o roteiro sempre redondo, sem soluções fáceis e sempre mais profundo do que à primeira vista pareça. E os atores sempre estão ali para servir a história, o que não impede, que dêem o seu recado. A cena do frustrado café da manhã de Horace bebe na fonte do pastelão, e é uma gag tão bem construída (com uma crítica mordaz ao mundo dos ricos) que sempre que a recordo um sorriso saí-me dos lábios fechados. Pobre Horace. Tão frágil e esquecido, escanteado no Palácio que construiu. Que imagem patética e hilária.
O título original, bem como nome que ganhou em nossa terra já traz em seu bojo muito do que veremos: Eva. E será presa dessa Eva um herpetólogo. Que inteligência é essa do qual era dotado Sturges. Beber do livro sagrado, fazer uma releitura divertida de parte do Gênesis. E o elenco escolhido por Sturges para dar vida a esses geniais personagens, é de safra superior: Henry Fonda, Barbara Stanwyck, Charles Coburn (com sua elegância impar na pele de um trapaceiro), Eugene Pallette (Pobre Horace!) e tantos outros rostos conhecidos no auge de sua forma.

Na abertura do filme um letreiro traz o desenho animado de uma cobra que se entrelaça em um tronco de árvores tendo no canto da tela duas deliciosas e suculentas maçãs. Como não pensar no Jardim do Éden? A sátira ao texto sagrado é nítida. Adão (Pike) saindo do Éden se depara com Eva (Jean) que o faz balançar em suas convicções. Será a serpente um dos fios condutores da história. É essa serpente que vive na cabine de Pike que despertará em Jean a sexualidade adormecida em prol dos tesouros alheios. É um símbolo fálico que causa uma angústia que a liga ao nascimento de uma intimidade maior e o despertar da sexualidade.

A primeira refeição de Charles é vista sob a ótica de Jean que de longe vê as tentativas frustradas das pretendentes em atrair a atenção do jovem. Quando dá o bote, Charles (Adão) tem sua primeira queda. Mas até ali Jean é a serpente, não a Eva. A sua transformação em mulher se dará paulatinamente no momento em que se depara com a Cobra solta na cabine (cena que não vislumbramos, somente a carreira assustada de Jean). A partir desse instante dá-se a mudança: - Você é mulher queridinha, a cobra aqui sou eu; parece dizer o réptil.
Outro detalhe que não passa despercebido de Sturges é a possibilidade de se explorar o pastelão a exaustão, sem que isso incorra no erro da incoerência. Adão (Charles) sofrerá no decorrer do filme várias outras quedas, todas elas remetendo a queda original. É a dessacralização do mito diante do mundo moderno. Charles é um personagem estranho, fechado em si, tolo por assim dizer. As quedas que sofrerá reforçam essa idéia. E por assim dizer o tornam simpático. Gostamos de ver crianças, de lembrarmos de nossa infância. E o idílio que surgem entre Jean e Charles é puro, inocente. No entanto a humanidade é adulta. Não existe permissão para esse tipo de sentimento. Quando o agregado mostra a Charles quem é verdadeiramente Jean e o Coronel Harrington o romance fenece. É o fim.

No entanto aqueles dias não foram em vão. Sentindo-se traída, Jean decide o reconquistar. Surgira como uma mulher diferente: Eva. E o homem será novamente seduzido. Logicamente que agora Jean ganhará a tela como uma mulher de verdade, mas com um verniz falso. Verniz esse que lhe servirá de proteção. Tida como uma mulher perfeitamente adequada a sociedade, Charles a desposará. E Eva lhe mostrará uma faceta das menos dignas. Não teria sido melhor acreditar no sentimento da vigarista, do que na aparência da mulher da sociedade? Fim de novo. Só que do casamento.


Para superar a decepção, Charles resolve se esconder novamente na Amazônia. Mas é o mesmo Charles. O Paraíso ainda existirá?  Quando reencontra Jean no navio percebe que sempre a amou. Danem-se as convenções sociais. Nesse momento ambos irão se conhecer biblicamente. É o fim.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Celebridades (1998)


“Através da história de dois personagens, o tema da celebridade é abordado em suas várias nuances, desde um círculo restrito, até a admiração global. Crônica de nosso tempo imersa na sociedade pretensamente glamourosa de Nova York, onde uma dezena de personagens desfilam suas aspirações profissionais e sentimentais. “
O que faz com que assistamos um filme de Allen? Quer ele seja um grande filme ou um filme menor? A resposta é óbvia. Ainda que nos deparemos com uma obra que nos frustre um pouco, sabemos que estamos diante de um Allen. Allen em pane é ainda Allen. Faz bem reencontrar Allen todo ano, sentarmos e vermos na tela (ainda que ele não surja diante de nós a sua obra basta por si só) esse velho amigo, com suas obsessões (que já conhecemos) e muito dos seus velhos hábitos. O filme inicia e é como se atravessássemos o limiar de uma residência conhecida, onde ressoar o som de um jazz precioso e as demais referências que não nos coloca em dúvida que se trata de algo autêntico, não uma cópia barata ou um simulacro do mundo do autor. E se o filme não nos entusiasmar como um outro que já vimos, inclinados ficamos a perdoá-lo. Conhecemos já a Caixa de Pandora de seu criador. O que nos leva a ver é a abordagem que ele dará aos temas que o perturbam desde o início de suas criações: Como conciliar as mais altas aspirações artísticas e amorosas com o cotidiano massificador e ilógico que nos circunda?
As situações e os personagens já nos sãos conhecidos. Kenneth Branagh dá vida ao personagem principal tentando imitar Allen ao invés de interiorizar Allen. Uma pena. É frustrante. Quem vai querer ver uma cópia, quando se conhece o original. Tivesse esquecido que Allen se inspirou nele (Woody) para escrever o personagem Branagh teria se saído melhor.

Querendo supostamente denunciar o sistema de mídia ultrajante de estrelas de cinema, televisão e moda, Woody Allen retrata sua tela de costume, a de um casal se separa. E seguimos os passos que ambos seguirão. Caminhos supostamente diferentes, mas que orbitam dentro de um mundo de futilidades e vazios sem um significado maior que valha a pena ser imortalizado. A não ser pelo viés crítico e de denúncia. O problema é que a obviedade não ganha a tela com um olhar novo e inusitado. Muito nos soa repetitivo e nos dá uma sensação de um déjà vu que incomoda. Um prato conhecido, sem um tempero novo. E que parece que degustamos várias vezes na mesma semana. Ainda assim antes um Allen menor, com um brilho conhecido, que a escuridão trazida por outros autores. Não é isso que faz com que essas estrelas façam questão de gravitarem em torno do sol Allen?

Escrito por Conde Fouá Anderaos