segunda-feira, 6 de abril de 2015

As Esposas de Stepfod (1975) e Mulheres Perfeitas (2004)



Na pequena cidade de Stepford as mulheres são inteiramente submissas a seus preguiçosos maridos: elas que cuidam de todas as tarefas domésticas e fazem prova de uma falta flagrante de atividade cerebral, enquanto os homens tomam todas as decisões. Joana e sua amiga Bobbie estranham esse estado de coisas e começam uma investigação para entender o que motiva esse estranho comportamento. O que elas não sabem é que não estão a salvo da loucura que ali reina.

Em 2007 Ira Levin faleceu. Antes legou com seus romances bons argumentos para o cinema. Para quem não sabe três de suas obras geraram filmes na década de 70: O Bebê de Rosemary(1970), As Esposas de Stepford (1975) e Os Meninos do Brasil (1978).
O filme de 1975 é um suspense sobrenatural que se arvora numa sátira social que critica a célula patriarcal americana e faz uma reflexão incisiva sobre os movimentos feministas no início dos anos 70. E também reflete na tela um questionamento endereçado aos homens: Querem eles ao seu lado apenas mulheres que saibam cuidar do lar, polidas como as propagandas veiculavam e ao mesmo tempo submissas e sedutoras, ou desejam algo mais que imagens e produtos? Na versão de 2004 é justamente o questionamento que Joana (Nicole Kidman) fará a seu marido: Você deseja um robô?
William Goldman (“Butch Cassidy”, “Maratona da Morte”, “Todos os Homens do Presidente”) optou por adaptar a obra de Levin  dando-lhe um aspecto sombrio que se tornou mais gélido ainda devido a direção distanciada e comedida do britânico Bryan Forbes (com quem escreveu o roteiro de “Chaplin”).
 
A versão de 2004 se vale da mesma premissa, só que seu roteirista Paul Rudnick vai se valer da sátira e leva a idéia de Levin para um tom fabulesco. O resultado, no entanto, não vai se diferir muito do outro, mas a direção de Frank Oz não é das mais inspiradas. A ideia que desfecha o filme pode parecer algo original, mas em realidade a obra de Levin já produzira outras: Em 1980 foi realizado um telefilme chamado “A Vingança das Esposas de Stepford” onde ao invés de autômatas, elas tinham sofrido uma lavagem cerebral; em 1987 outro telefilme de nome “As Crianças de Stepford” onde as crianças e homens são substituídos por robôs; e ainda em 1996 é produzido “Os Maridos de Stepford” outro telefilme onde os homens viram maridos perfeitos. Não creditem isso a falta de originalidade, já que todas essas produções (inclusive o filme de 1975) tiveram um mesmo produtor: Edgard  J. Scherick.
O que vejo em ambos os filmes é justamente um antagonismo entre os diretores e os roteiristas. Na versão de 1975 Goldman desejava que as mulheres estivessem trajadas de maneira mais sensual e deu espaços para que a violência se fizesse presente de maneira mais presente em seu desfecho. Forbes, no entanto, optou por abrandar isso e insinuou o que podia ter ocorrido, não afastando totalmente o tom sombrio do argumento.  Já na versão mais recentes Oz cria um desfecho pós-término de filmagem, sem se preocupar com a verossimilhança. Ainda que tal (a ideia em si) me agrade é notório que pisou no tomate. O filmado anteriormente desmente o que vai na tela. Nem tanto por uma das  personagens não sentir a queimadura (já que um cérebro amortecido explicaria isso), tampouco pelo dinheiro que sai da boca da mulher no clube (já que lá Mike poderia possuir um brinquedinho para ironizar a situação das esposas robotizadas cerebralmente – uma cópia automatizada de uma das mulheres), mas não tem explicação as faíscas da mulher em pane durante a festa.
Na versão de 1975 Goldman escrevera o roteiro pensando que o mesmo seria levado as telas por Brian de Palma. Palma é bem mais arrojado e possui certos arroubos barrocos e dota suas obras de um clima mórbido ao contrário de Forbes que se mantêm impecável, mas distante e frio. Ele tem um estilo (sóbrio demais, privilegiando uma montagem progressiva da tensão dramática), mas talvez a história se adequasse melhor com sua intriga fantástica e seu conceito polêmico nas mãos de um cineasta mais audacioso. Para compensar isso a fotografia é belíssima e funcional (De Owen Roizman) e a trilha sonora de Michael Small casa de forma perfeita ao que vai à tela.
A versão de 2004 navega em outras águas. O tom predominante é de uma fábula satírica (que a meu ver a ideia motriz se casa bem) a começar pelos créditos que mostram e denunciam a mulher enquanto um produto que pode ser comercializado junto com as engenhocas que são criadas para colorir seu mundo. Após os créditos o filme mostra Joana como uma bem sucedida produtora de tv. Os programas que cria mostram a mercantilização da espécie humana de uma maneira crua e cínica. A mulher não está emancipada do homem, ela apenas vira um objeto nas mãos de vários. E na mesma moeda o homem também nada mais é do que isso. Quando é demitida e entra em depressão, rimos não só da situação, mas também da incoerência que buscam esconder. Joana também nada possui de especial e tem do que se orgulhar. Afinal ela simplesmente tornou a mulher com seus programas aquilo que criticava na postura dos homens: inconsequentes. Daí o roteiro segue sempre no tom de fábula mas contará com personagens secundários de peso: Roger e Bobbie (a ideia do casal homossexual é genial). Alguns creditam a Walter (Matthew Broderick) um papel insosso. Não vejo assim. A sua aparente insipidez é crível. Uma espécie de camaleão. Molda-se ao ambiente de acordo com as necessidades. E no final vemos que é alguém mais lúcido: Por pior que seja, trocar a mulher por um simulacro é algo inconcebível.
Duas falas (uma em cada versão) estão entre as melhores que uma obra pode produzir: Na versão de 1975, quase ao término Joana indaga:
- Por que fazem isso??
A resposta é lacônica e cruel:
- Nós podemos.
No filme de 2004 Mike fala que enquanto as mulheres buscavam ser homens, eles já estavam passos a frente tentando ser Deuses.
O resultado ao se ver ambos os filmes é dúbio. Agrada-me mais o tom farsesco da refilmagem, mas é a versão primeira (apesar dos pesares) que é indubitavelmente melhor realizada. A história ainda está a procura de um cineasta que explore as sua ricas possibilidades. Alguém se habilita?

Escrito por Conde Fouá Anderaos

sábado, 4 de abril de 2015

A Viúva Alegre (1934)



 “William Wyler e eu andamos silenciosamente até o nosso carro. Finalmente, eu disse apenas para dizer apenas para dizer alguma coisa a fim de quebrar o silêncio:
- Não teremos mais Lubitsch.
Ao que Wyler replicou:
- Pior do que isto, não teremos mais filmes de Lubitsch.
Como estávamos certos. Durante vinte anos, desde então, tentamos descobrir o segredo do Lubitsch touch. Nada feito. Quando tínhamos sorte, conseguíamos rodar alguns metros de filme em nossa obra, que momentaneamente, cintilavam como Lubitsch. Como Lubitsch, não o verdadeiro Lubitsch. Sua arte se perdeu. O mais elegante dos mágicos das telas levou o seu segredo com ele.”
Billy Wilder em entrevista de 1967. Lubitsch morreu em 30/11/1947.


 “O Príncipe Danilo é pego no quarto da rainha pelo rei. É constrangido a aceitar uma missão difícil, seduzir e se casar com uma viúva do reino que emigrou a Paris. Toda a imensa fortuna dela é necessária para o restabelecimento das finanças do reino”

Em que consiste o tão venerado e celebrado Lubitsch touch. Tentar definir aquilo que muitos cineastas buscaram recuperar seria ousadia demais. Contudo podemos dizer sem medo de errar que ele era oriundo de uma mescla de sua origem européia- judaico-berlinense, aliada a uma observação minuciosa dos costumes norte-americanos que acabou por gerar um humor brejeiro e atrevido, que era destilado através de deliciosas ironias, subentendidos elegantes e insinuações rápidas. Foi o primeiro cineasta de comédias que compreendeu que a ironia, a sátira não precisa resvalar na crueldade, nem na vulgaridade, mas deve se utilizar as mesmas armas daquilo que se pretende ironizar: a moral, os bons costumes, o bom tom e a elegância. Fórmula essa que jaz quase completamente esquecida pelos diretores atuais.

Aqui em “A Viúva Alegre” nos depararemos com esse mundo maravilhoso que somente o diretor conseguia colocar nas telas. Baseado numa opereta de sucesso do início do século XX composta por Franz Lehar. O diretor encontrou em tal história o campo necessário para desfilar toda a sua capacidade cinematográfica. Uma história repleta de quiproquós explorados a exaustão pelo cineasta, que em segundo plano ousa mostrar a frivolidade da sociedade (é creditado a esse filme a justificativa para que o Departamento responsável pelo controle moral dos filmes caísse nas mãos de Joseph Breen – um ativista religioso) com jovens parisienses permitindo-se pertencerem a pessoas da nata sem envolvimento sentimental - Um rei que ao invés de lavar sua honra, deposita no homem que a maculou todo o destino de sua nação. Contudo a leveza e a inteligência da direção fazem com que nós nem nos apercebamos disso. E também nem nos damos conta da impossibilidade do sedutor e frívolo Príncipe Danilo vir a se emendar e conquistar o coração da viúva. Ficamos como que fascinados pelo que nos é mostrado e só depois percebemos muitas vezes o que existe por trás. E são tantas as cenas memoráveis, habilmente costuradas entre si. Veja toda a seqüência quando o rei deixa o palácio e volta para buscar o cinturão e os eventos que se sucedem a isto. O encontro do embaixador com Danilo, as imagens que enchem a tela quando da decisão da viúva tirar o luto. Quando Bing lê a missiva que Popoff recebe e se empolga com as palavras que espinafram seu superior hierárquico, tornando-se ele o próprio rei.

A história é simples. Talvez até tosca. Mas quem poderá dizer em sã consciência que Ernst Lubitsch não a consegue dotar de um interesse inaudito. O que importa não é a história, mas como a contam. Um clássico da genialidade de um mestre.

Escrito em 05/09/2011